Um poema em homenagem a Artigas, um arquiteto genial

Gastão de Holanda

O designer gráfico, editor, professor, advogado, jornalista, contista e poeta pernambucano Gastão de Holanda (1919-1997) escreveu este poema após visitar o Edifício da FAU USP “Faculdade de Arquitetura de São Paulo”, em 1977, prestando uma homenagem póstuma ao arquiteto Bernardo Artigas, que projetou o prédio da instituição e foi um de seus criadores.

FACULDADE DE ARQUITETURA DE SÃO PAULO

Gastão de Holanda

O arquiteto abrange o espaço com seus braços
e que se esculpe nesse espaço?
ubiquidade, instrumentos
de música,
o auto-retrato do arquiteto: olhos, língua,
testa,
a serena contemplação de um claro
organizado
lugar de encontros. A laje pulsa.
A mão risca a proporção do homem,
decalca o pensamento, o andar, o ir-e-vir
cotidiano e diz:
– Podeis trabalhar tranquilos: aqui é o Teto do povo.

O voo existe antes do espaço desenhado.
A alma do arquiteto recortada pelo espectro da
coluna
vigia nossos passos
e o gesto em flor
é uma opção bifurcada em artérias.

O sangue do arquiteto está coagulado ali,
sepulto e vivo nas veias do ferro,
na carne do cimento
semente diluída no voo
de estudantes/abelhas, no mel e na medida do tempo.

Tempo? ou luz que tudo enlaça?
Que diferença há entre o edifício e a árvore?
Entre a árvore e esse homem debruçado?
Entre esse homem e seu edifício vivo?
O seu fazer alcança teto e galho
Viaja o quintal das plataformas e colhe
na Primavera, o fruto de um desígnio,
o capricho do vivo silêncio
que amadurece as formas

antigas
artigas.

               (Colaboração enviada por Paulo Peres – site Poemas & Canções)

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