Um poema telefônico de João Cabral para o amigo Carlos Drummond de Andrade

Poetas

João Cabral e Drummond, em charge do Baptistão

Paulo Peres
Site Poemas & Canções

O diplomata e poeta pernambucano João Cabral de Melo Neto (1920-1999) sentiu, naquela segunda-feira, como é “difícil ser funcionário” e decidiu telefonar para se aconselhar com o amigo Carlos, o Drummond de Andrade, que também era servidor federal.
DIFÍCIL SER FUNCIONÁRIO
João Cabral de Melo Neto
 
Difícil ser funcionário
Nesta segunda-feira.
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho.

Não é lá fora o dia
Que me deixa assim,
Cinemas, avenidas
E outros não-fazeres.

É a dor das coisas,
O luto desta mesa;
É o regimento proibindo
Assovios, versos, flores.

Eu nunca suspeitara
Tanta roupa preta;
Tampouco estas palavras –
Funcionárias, sem amor.

Carlos, há uma máquina
que nunca escreve cartas;
Há uma garrafa de tinta
Que nunca bebeu álcool.

E os arquivos, Carlos,
As caixas de papéis:
Túmulo para todos
Os tamanhos de meu corpo.

Não me sinto correto
De gravata de cor,
E na cabeça uma moça
Em forma de lembrança.

Não encontro a palavra
Que diga a esses móveis.
Se os pudesse encarar…
Fazer seu nojo meu…

Carlos, dessa maneira
Como colher a flor?
Eu te telefono, Carlos,
Pedindo conselho

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