Um recado aos poetas clssicos, na criatividade do Patativa de Assar

Resultado de imagem para patativa do assarePaulo Peres
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Patativa do Assar, nome artstico de Antnio Gonalves da Silva (1909-2002), por ser natural da cidade de Assar, no Cear, foi um dos mais importantes representantes da cultura popular nordestina. Com uma linguagem simples, porm potica, destacou-se como compositor, improvisador, cordelista e poeta, conforme se constatano seu recadoAos Poetas Clssicos.

AOS POETAS CLSSICOS
Patativa do Assar

Poetas niversitrio,
Poetas de Cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia;
Se a gente canta o que pensa,
Eu quero pedir licena,
Pois mesmo sem portugus
Neste livrinho apresento
O praz e o sofrimento
De um poeta campons.

Eu nasci aqui no mato,
Vivi sempre a trabai,
Neste meu pobre recato,
Eu no pude estud
No verd de minha idade,
S tive a felicidad
De d um pequeno insaio
In dois livro do iscrit,
O famoso profess
Filisberto de Carvaio.

No premro livro havia
Belas figuras na capa,
E no comeo se lia:
A p O dedo do Papa,
Papa, pia, dedo, dado,
Pua, o pote de melado,
D-me o dado, a fera m
E tantas coisa bonita,
Qui o meu corao parpita
Quando eu pego a rescord.

Foi os livro de val
Mais mai que vi no mundo,
Apenas daquele aut
Li o premro e o segundo;
Mas, porm, esta leitura,
Me tir da treva escura,
Mostrando o caminho certo,
Bastante me protegeu;
Eu juro que Jesus deu
Sarvao a Filisberto.

Depois que os dois livro eu li,
Fiquei me sintindo bem,
E tras coisinha aprendi
Sem t lio de ningum.
Na minha pobre linguage,
A minha lira servage
Canto o que minha arma sente
E o meu corao incerra,
As coisa de minha terra
E a vida de minha gente.

Poeta niversitaro,
Poeta de cademia,
De rico vocabularo
Cheio de mitologia,
Tarvez este meu livrinho
No v receb carinho,
Nem lugio e nem istima,
Mas garanto s fi
E no istru pap
Com poesia sem rima.

Cheio de rima e sintindo
Quero iscrev meu volume,
Pra no fic parecido
Com a ful sem perfume;
A poesia sem rima,
Bastante me disanima
E alegria no me d;
No tem sab a leitura,
Parece uma noite iscura
Sem istrela e sem lu.

Se um dot me pergunt
Se o verso sem rima presta,
Calado eu no vou fic,
A minha resposta esta:
– Sem a rima, a poesia
Perde arguma simpatia
E uma parte do prim;
No merece munta parma,
como o corpo sem arma
E o corao sem am.

Meu caro amigo poeta,
Qui faz poesia branca,
No me chame de pateta
Por esta opinio franca.
Nasci entre a natureza,
Sempre adorando as beleza
Das obra do Criad,
Uvindo o vento na serva
E vendo no campo a reva
Pintadinha de ful.

Sou um caboco rocro,
Sem letra e sem istruo;
O meu verso tem o chro
Da pora do serto;
Vivo nesta solidade
Bem destante da cidade
Onde a ciena guverna.
Tudo meu natur,
No sou capaz de gost
Da poesia moderna.

Deste jeito Deus me quis
E assim eu me sinto bem;
Me considero feliz
Sem nunca invej quem tem
Profundo conhecimento.
Ou ligro como o vento
Ou divag como a lesma,
Tudo sofre a mesma prova,
Vai bat na fria cova;
Esta vida sempre a mesma.

5 thoughts on “Um recado aos poetas clssicos, na criatividade do Patativa de Assar

  1. “no sou comunista, sou cabra da peste” apresentando o que mais di.

    O Que Mais Di, por Patativa do Assar

    O que mais di no sofrer saudade
    Do amor querido que se encontra ausente
    Nem a lembrana que o corao sente
    Dos belos sonhos da primeira idade.

    No tambm a dura crueldade
    Do falso amigo, quando engana a gente,
    Nem os martrios de uma dor latente,
    Quando a molstia o nosso corpo invade.

    O que mais di e o peito nos oprime,
    E nos revolta mais que o prprio crime,
    No perder da posio um grau.

    ver os votos de um pas inteiro,
    Desde o praciano ao campons roceiro,
    Pra eleger um presidente mau.

  2. Esse genial poeta do serto nordestino era filho de um casal de agricultores. Perdeu a viso do olho direito aos quatro anos de idade. Era o Cames nordestino:

    Perdi meu io direito

    Ficando mesmo imperfeito

    Sem v perto nem longe

    Mas logo me conformei

    Por saber que assim fiquei

    Parecido com Camonje (= Cames).

  3. Patativa comps a letra e msica da toada Triste Partida, comovente saga de uma famlia de retirantes a caminho de So Paulo. A cano circulou pelas feiras do serto na voz de muitos violeiros, at ser gravada em disco (1964), por Lus Gonzaga, obtendo verdadeiro xito nacional:

    Setembro passou, com oitubro e novembro
    J tamo em dezembro
    Meu Deus, que de ns?
    Assim fala o pobre do seco Nordeste
    Com medo da peste
    Da fome feroz;

    https://youtu.be/Yu0bvuK8s_k

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