Um saco de gatos

Carlos Chagas 

Composto o ministério, vale menos ficar calculando  quantos  ministros o PT emplacou a mais do que o PMDB ou se os ministros paulistas estão em maioria.  Fica irrelevante até  saber se os homens superam as mulheres.     Importante, mesmo, será  conhecer que diretriz Suas Excelências deverão receber e  seguir. Porque acima e além das obrigações e projetos específicos  de cada pasta, sempre existiu, em todos os governos, uma espécie de marca  geral unindo o conjunto.

Já foi o desenvolvimento, nos tempos de Juscelino Kubitschek, como havia sido a  justiça social, para Getúlio Vargas. Chegou a ser a redemocratização, com Tancredo Neves e José Sarney, a modernidade, com Fernando Collor e a flexibilização, com Fernando Henrique.  Com o Lula, pode-se concluir pela incorporação de parte das massas carentes ao mercado, ainda que algum tempo  transcorra para a  cristalização dessa hipótese.

E com Dilma Rousseff,  será mesmo válida sua promessa  de erradicar a pobreza? Se cada ministro tiver essa meta a norteá-lo, a presidente da República terá como caracterizar a grande  proposta de seu mandato. Realizar é outra história, mas precisamente na dependência da equipe agora completada e por enquanto solta no espaço.
 
Existem ministros que não se conhecem. Ministros que foram apresentados a Dilma na hora de ser convidados. Outros, até, escolhidos pelo telefone, sem ter tido oportunidade de apertar-lhe a mão. Estes,  empenhados em cumprir as determinações de seu partido, aqueles ainda sem saber direito porque ocuparão o  ministério “X” e não o “Y”. Os que serviram o governo Lula e os que pela primeira vez pisam a Esplanada dos Ministérios. 
                                                       
Em suma, até agora um saco de gatos, à espera da palavra da presidente, que já tarda.
 
PAPAI  NOEL  DE SACO  CHEIO (DE PRESENTES)
 
Hoje à noite o trenó do Papai Noel sobrevoará Brasília, distribuindo presentes. 

Antônio Palocci, da Casa Civil, receberá uma fotografia emoldurada de José Dirceu, para botar na parede. Explica-se: George Smiley, obcecado chefe do Serviço Secreto inglês,  tinha em seu gabinete a imagem de Karla, seu principal adversário, chefe da KGB. 

Para Gilberto Carvalho, Secretário Geral, um exemplar do livro “Como Fazer Amigos e Influenciar Pessoas”. Para José Eduardo Cardoso, da Justiça, a relação dos atuais ministros do Supremo Tribunal Federal que se aposentarão nos  próximos anos. 

Para Fernando Haddad, da Educação, um CD com a música “Devagar não se chega ao longe”. Para Guido Mantega uma miniatura do deus Juno, da Grécia Antiga, aquele de duas faces. Para Wagner Rossi, da Agricultura, um jogo infantil  de pá e carrinho de mão. 

Para Idely Salvatti, da Pesca, um molinete com anzol e um peixe de plástico.  Para Alexandre Padilha, da Saúde, o estetoscópio que aposentou faz muito.  Para Aloizio Mercadante, da Ciência e Tecnologia, a biografia do Dr. Silvana.

Para Mario Negromonte, das Cidades, a maquete de Salvador dos tempos em que foi capital. Para  Afonso Florence, da Reforma Agrária, um boné do MST. Para Orlando Silva, do Esporte, reportagens  de “Porque perdemos a Copa de 50”. 

Para Nelson Jobim, da Defesa,  a miniatura do caça F-18. Para Moreira Franco, dos Assuntos Estratégicos,  a última tese de Mangabeira Unger sobre a influência das  barbas do camarão egípcio nas correntes do Mar Vermelho.

Nenhum dos novos ministros deixará de receber seu presente, ainda que muitos caiam  embrulhados num significativo papel azul,  próprio para escrever bilhetes,  contendo pirulitos. 

No Congresso, Papai Noel despejará pacotes em profusão: uma peruca para José Sarney, uma vassoura para Marta Suplicy,  com instruções de Harry Potter sobre como voar, um uniforme do Super-Homem para Eduardo Suplicy, uma estrela de xerife para Pedro Simon, um título de sócio-proprietário da Praia de Ipanema para Aécio Neves, histórias  de James Bond para Roberto Requião, detalhados mapas do Chile para Marco Maciel, a biografia do General Custer  para Índio da Costa, um exemplar de “Como Era Verde o Meu Vale” para Marco Maia,  o filme “Fugindo do Inferno” para Tasso Jereissatti.

Para todos os deputados e senadores, como brinde, mensagem escrita  em letras garrafais contendo  o número IV do artigo 7 da Constituição, onde se lê que o salário mínimo atenderá as necessidades vitais do trabalhador e sua família, como moradia, alimentação, educação, saúde, lazer, vestuário, higiene, transporte e previdência social.
                                                       
Ao passar sobre o Supremo Tribunal Federal, o Bom Velhinho distribuirá  cópias da    crônica de um dos Felipes, rei da França, que diante de  prolongadíssimo  conclave de cardeais para escolher o  novo Papa,  em Avignon, mandou prendê-los numa pequena igreja,  da qual  retirou o teto. Expostos ao sol,  à chuva e à neve, recebendo apenas um pão por  dia, para repartir, Suas Eminências logo elegeram um deles.  

Junto com  o texto sutil estará um calendário marcando a protelação, já por quatro anos, do julgamento dos quarenta réus do mensalão,  pela mais alta corte nacional de Justiça.
                                                       
Terá  Papai Noel esquecido das duas maiores figuras  da capital federal,  o presidente que sai e a presidente que entra? Nem pensar, ainda que o segredo pareça desconhecido até  dos anões fazedores de brinquedos.  Pelos boatos, no entanto, o Lula receberá a coroa que um dia foi de D. Pedro II. E Dilma, a biografia de Margareth Tatcher.

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