Um senador sem meias palavras

Carlos Chagas                                                                  

Quem jogou barro no ventilador, ontem, foi o senador Roberto Requião. Discursando na sessão matutina do Senado, ele bateu firme na decisão do governo de construir o trem-bala,  disse que capitalismo é esperteza, que a esquerda brasileira descumpre seus compromissos históricos, e a portuguesa também, ao aceitar as ditas medidas de austeridade impostas pelo FMI, que mais esfolarão o trabalhador. Confessou-se entusiasmado com o governo Dilma,  mas não consegue  esquecer as promessas de campanha e não entende a aliança entre o PMDB e o PT. Verberou a criação de licitações secretas, como no caso das obras nos estádios de futebol, e não poupou o empresariado, para  ele sempre preferindo que o governo assuma riscos e  arque com as despesas de obras públicas,   para  depois   receber as concessões para sua exploração. 

Requião costuma remar contra a maré. Talvez por isso  foi   três vezes eleito  governador do Paraná e duas vezes senador pelo seu estado,  ainda  que também por isso seu partido, o PMDB,  tenha torpedeado por duas vezes sua candidatura à presidência da República. 
                                                               
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QUER SAIR MAS VAI FICANDO
                                                                  
Antes de viajar para  Santa Catarina,  ontem,  Dilma Rousseff recebeu o ministro  Nelson Jobim, no palácio do Planalto.  De novo o titular da Defesa pediu para sair, conforme conversa anterior, mas,  outra vez, foi convencido a ir ficando.  A presidente não quer nem ouvir falar da hipótese de substituí-lo num setor que vem dando certo, sem problemas de espécie alguma. 

Não se sabe se durante o despacho Dilma referiu-se aos elogios feitos por Jobim, na véspera, a Fernando Henrique Cardoso, quando acentuou que o ex-presidente  jamais levantou a voz nem criou tensionamento para seus assessores. O sociólogo, conforme  o ministro,  nunca disse nada que levasse seus auxiliares a ficarem constrangidos. E mais,  que só os inseguros são autoritários.
                                                                  
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ONDE JÂNIO QUADROS QUEBROU A CARA
                                                                  
No próximo 25 de agosto completam-se cinquenta anos da renúncia de Jânio Quadros, episódio que quase levou o país  à guerra civil. Só depois de eleito com votação espetacular é que a opinião pública percebeu que o homem era doido, apesar de brilhante. Na chefia do governo, adotou iniciativas tão inexplicáveis quanto absurdas,  paralelas a ações louváveis e necessárias.
                                                                 
Entre as primeiras, estava a proibição de brigas de galo e de desfiles de biquíni em todo o território nacional, bem como a limitação das corridas de cavalo, só permitidas aos sábados e domingos. Substituiu o terno e gravata por um uniforme parecido com o que se usa na Índia, logo apelidado de “pijânio”. Quebrou a cara, também, ao acabar com o horário corrido de trabalho para o funcionalismo público federal, exigindo dois turnos. Atrapalhou a vida de meio mundo e foi obrigado a recuar, tornando a emenda pior do que o soneto. 

Dividiu o Rio de Janeiro num  muro imaginário onde, do lado de lá, por ser longe das repartições, vigorava o horário corrido, e do lado de cá, mais perto do centro da cidade, os servidores precisavam trabalhar de manhã, ir em casa almoçar e retornar à tarde.  Um pandemônio desfeito meses depois por Tancredo Neves, escolhido primeiro-ministro e chefe do governo, depois da crise. 

Por que se lembra essa última história? Porque o ministro Luiz Fux, do Supremo Tribunal Federal, acaba de suspender a decisão do Conselho Nacional de Justiça que estabelecer dois horários para os funcionários, juízes, desembargadores e ministros  do Poder Judiciário, em vez do horário corrido. Agiu com sensibilidade, porque a mudança iria perturbar muita gente, discutindo-se sua eficácia para tornar a Justiça mais ágil.

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 ADEUS AO IDEAL SOCIALISTA
                                                                  
Assistimos esta semana uma série de inserções do PPS   nas telinhas e auto-falantes, durante o horário de propaganda partidária gratuita. Com todo o respeito aos serviços prestados ao país  pelo presidente do partido, Roberto Freire,  não dá para ficar calado.  O PPS substituiu o antigo Partido Comunista Brasileiro e parece que relegou e renegou todos os antigos ideais socialistas.  Quem escutou as mensagens do deputado e ex-senador espantou-se por ele ter-se apresentado como o irmão mais novo de Fernando Henrique  Cardoso, elogiando privatizações, neoliberalismo e heresias parecidas,  para quem durante tantos anos seguiu a linha do “partidão”.   O mundo mudou, é evidente, mas nem tanto assim…

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