Um torpedo amigo e um navio sem rumo

Carlos Chagas

Pode estar em gestação uma crise dos diabos,  capaz de atingir o governo  Lula abaixo da linha d’água e, por tabela,  Dilma Rousseff. Nada que leve a candidata a pique, muito menos que desestabilize o presidente, mas em condições de deixar o barco sem rumo.

De repente, pelo torpedo  amigo  lançado por  sindicalistas do PT, ficamos sabendo que a ex-modelo e atual administradora de empresas, Marina Mantega,  representa  um  bilionário grupo dos Emirados Árabes de investimentos, o Al Ahli Group.  Deixando de lado a denúncia não comprovada  de que a referida senhorita tentou fazer  tráfico de influência junto ao Banco do Brasil, surge a pergunta mais simples: ela foi escolhida pelos sheiks por conta das poses, dos desfiles e das fotografias decorrentes de  sua antiga profissão, por apresentar excepcional capacidade financeira   ou por ser filha do ministro da Fazenda?

Guido Mantega teria sido envolvido pelo cartel árabe, presumindo-se que não tenha tomado qualquer iniciativa para viabilizar o convite à filha?

É claro que todo mundo tem o direito de trabalhar, da família de ministros à família de presidentes. Apenas no período em que éramos colônia de Portugal as benesses e as penas ultrapassaram a pessoa dos beneficiados e dos condenados.

O episódio que ameaça desdobrar-se em guerra sem quartel na campanha presidencial acaba de ser aproveitado por José Serra, cuja malícia é conhecida de todos. Indagado a respeito, o candidato tucano  saiu-se com redobrados elogios à honestidade do ministro. Estava sendo sincero ou aproveitando-se da confusão?

Em outros tempos a acusação já teria produzido efeitos. Tempos de Itamar Franco, por exemplo, que afastava os auxiliares mais próximos para se defenderem e, comprovada a inocência, retornassem pisando tapetes vermelhos. O estilo do presidente Lula é outro. Ele demora para tomar iniciativas que prejudiquem a sua turma. Custou a livrar-se de José Dirceu, Antônio Palocci e Luiz Gushiken, que por sinal não retornaram. Nesse mar de almirante que tem sido o governo, o navegador responsável pela rota segura é   Guido Mantega. Qualquer torpedo, mesmo amigo, deixará o navio sem rumo,  se o piloto for lançado ao mar.

Os sindicalistas e os tenentes

Pouco depois da Revolução de 30 perguntaram a Getúlio Vargas como havia se livrado  da impertinência dos tenentes, em grande parte responsáveis por sua ascensão à presidência da República.   Entre duas baforadas do charuto, ele explicou: “promovi-os a capitão…”  Foi mais ou menos assim, pois  o caudilho reincorporou os tenentes ao Exército, tendo também nomeado muitos deles para interventores nos estados.

Pois não é que mesmo sem dar qualquer  resposta, o que fez o presidente Lula com os principais lideres  sindicais que respaldaram sua liderança e o levaram ao palácio do Planalto?

Como os  tenentes do passado, esses líderes também se julgaram condôminos do poder e imaginavam governar junto com o chefe. Para evitar que criassem problemas, o Lula incorporou muitos ao  governo, na direção de empresas estatais e congêneres,  estimulando outros a disputar eleições e seguir carreira política. Livrou-se deles, seguindo as lições de Getúlio.

O  segundo turno e a natureza das coisas

Alguns cientistas políticos e muito diletantes da vida partidária costumam dizer que o segundo turno é uma outra eleição, uma espécie de apagador passado no quadro negro, podendo seus resultados desmentirem os primeiros.

Com todo o respeito, não é bem assim.  Nas eleições presidenciais  de 1989, 2002 e 2006, quem venceu no primeiro turno também venceu no segundo. Fernando Collor contra Lula, depois Lula contra José Serra e contra Geraldo Alckmin.  Em 1994 e 1998, Fernando Henrique venceu nas votações iniciais, tornando desnecessária a segunda volta.  Apenas  na escolha dos governadores, como exceção, o segundo mais votado virou primeiro,  lembrando-se que em Minas  Helio Costa chegou na frente, mas sem a metade  mais um dos votos, perdendo no segundo turno para Eduardo Azevedo.

Neste ano, se nenhum dos candidatos alcançar de imediato o percentual necessário, os dois melhor colocados se defrontarão sozinhos. Muito provavelmente, Dilma Rousseff e José Serra. Quem chegar em primeiro manterá a escrita?

This entry was posted in Sem categoria. Bookmark the permalink.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *