Um último presente de Natal

Daniel Aarão Reis (O Globo)

O senhor K teve um estalo: Ana não o procurava há dias. Mau presságio. Corria o início dos anos 1970. Para uns, tempos reluzentes, para outros, sombrios. Telefonou e o sinal de chamada tocou, tocou, até que desistisse. Esperou. Os dias passaram-se e nenhum indício. No radar afetivo a filhinha querida entrara em eclipse.

O Senhor K correu atrás. Moveu e removeu céus, terras e montanhas. Foi à Escola de Química onde ela trabalhava. Nada. Ninguém sabia de nada. Desviavam os olhos dele. Desviavam-se dele.

Por intermédio de amigos e conhecidos procurou ouvidos e encontrou paredes. Às vezes, um silêncio distraído, constrangido. Quase sempre, arrogante. Não sabiam onde ela se encontrava, não queriam saber, nem o ajudariam a saber. Experimentando uma imensa fragilidade, uma sensação de impertinência e de inadequação, descobriu-se então o Senhor K numa comunidade. Como ele, havia outros tantos que andavam em busca de afetos perdidos. Sentiu-se agora mais forte, porque os humanos, quando juntos, cultivam uma ilusão de calor e força, mas nem por isso os resultados foram efetivos.

A filha desaparecera.

Mais tarde, quando já quase desistira de procurar, não de esperar, o Senhor K passou a receber pistas falsas. Os algozes divertiam-se, observando-o em buscas desesperadas e desesperançadas. Apesar de inúteis, não dava para ignorar as indicações, mesmo que intuísse que não levariam a lugar algum.

Mas as provações não tinham chegado ao fim. Houve ainda a reunião da Congregação da Escola de Química da Universidade de São Paulo. Em pauta, a demissão da filha por “abandono do trabalho”. Aquelas excelentes pessoas sabiam que a jovem doutora Ana Rosa Kucinski Silva não tinha “abandonado o trabalho”; fora sequestrada e assassinada pela policia política do Estado. Fingiram ignorar os fatos e aprovaram a demissão. Por justa causa. Para agradar o poder, garantir verbas e, disse um deles, salvar a instituição. Ninguém falou nem votou a favor de Ana.

Coisa semelhante aconteceu com Carlos Alberto Soares de Freitas, o Beto. Em algum momento de fevereiro de 1971, sumiu do mapa.

Prevenidos, os familiares saíram à busca. Andaram Seca e Meca, de déu em déu. Delegacias, quartéis, amigos, conhecidos, a varredura dos espaços, inútil. O radar, mudo, não encontrava sinais.

A mãe e o pai escreveram às autoridades cartas comoventes. Tiveram como resposta o silêncio. Um dia, já não suportando a dor, a mãe dirigiu-se a um alto general. O homem maneou a cabeça, não sabia de nada. Os braços da mãe o sacudiram: “Como o senhor não sabe de nada, se nós sabemos de tudo?” O sujeito endireitou-se, abriu a gaveta da mesa e mostrou uma metralhadora.

Foi o sinal mais concreto que a família de Beto teve de seu destino.

Muitos anos depois, soube-se que Ana e Beto haviam passado pela chamada Casa da Morte. Um aprazível lugar em Petrópolis onde os revolucionários presos eram torturados, assassinados e esquartejados. Segundo o testemunho de um policial, os pedaços dos corpos, enfiados em sacos plásticos, eram levados a um outro lugar para serem incinerados.

Assim desapareceram do mundo Ana e Beto.

Para que seja possível recordá-las, e não esquecê-las, as histórias foram contadas, em linguagem contida, por Bernardo Kucinski e Cristina Chacel. Exercícios de memória, como na bela fórmula de Kundera: “A luta da liberdade contra o Estado é a luta da memória contra o esquecimento.” Assim, neste Natal, nos momentos de recolhimento, quando pensarmos no ano que se foi e no que virá, talvez fosse de bom alvitre ler as palavras que eles escreveram.

Mas o que valem as palavras? Foi a pergunta que se fez o velho Leão-Leão, personagem de Isaac Babel num dos contos de Odessa. Ele remoía, melancólico, a morte do bandido Benia Kric:

— O que valem as palavras? Benia estava aqui. Agora, não está mais.

Como Ana e Beto. Ele e ela estavam aqui, não estão mais.

Foram pegos e trucidados por homens que agiam à sombra, e cumprindo ordens, do Estado brasileiro. Os dois eram revolucionários num tempo em que a palavra revolução tinha um certo significado. Viveram por ela e por ela ofereceram o que tinham de melhor, as vidas.

Agora, ela e ele não estão mais.

Restaram, porém, a memória e as palavras.

Um dia, disseram a Eli Wiesel: “Os homens não mudam e detestam se lembrar.” O velho respondeu: “É um problema deles. Eu não esquecerei.” Ele tinha razão: em qualquer circunstância, resta-nos a memória, que pode ser gravada em palavras, que então adquirem valor.

Como os antigos povos, que plantavam marcos para assinalar territórios, as palavras de Bernardo e Cristina são marcos valiosos bem fincados no território da memória, sinalizando roteiros para atuais e futuras recordações.

Que esta crônica tenha igual sentido. Que ela seja um pequeno marco a mais, e também uma oferta para Ana e para Beto, como se fora um último presente de Natal.

Daniel Aarão Reis é professor de História
Contemporânea da Universidade Federal Fluminense

 

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