Um Vargas distorcido

Carlos Chagas

O PT já foi a iniciativa mais importante no quadro dos partidos políticos nacionais, desde a fundação do PTB por Getúlio Vargas, em 1945. A nova legenda resgataria a oportunidade que um dia conduziu o trabalhador a um estuário firme e ordenado para concretizar suas reivindicações, além de empolgar a intelectualidade e a juventude a partir não só da resistência contra a ditadura, mas, em especial, da construção de um socialismo democrático no país.

Belos tempos, aqueles. Com a ascensão do partido ao poder, os intelectuais caíram fora, marginalizados pelos companheiros ávidos de usufruir benesses, nomeações e ONGs. Os jovens ficaram adultos e não houve mudança de guarda.

Constata-se todos os dias haver o Partido dos Trabalhadores se transformado num aglomerado nem sempre compacto de aproveitadores daquilo que os governos tem de pior a oferecer, ou seja, as facilidades para seus integrantes viverem às custas de estruturas públicas e privadas em benefício próprio. Até abandonando postulados e conquistas que antes exprimiam o aprimoramento das instituições. Com exceções, é claro, mas servindo apenas para justificar a regra.

Exemplo mais flagrante dessa realidade acaba de ser dado pelo secretário nacional de comunicação do PT, André Vargas, que pelo sobrenome não poderia ter-se perdido, mas perdeu-se ao escancarar o jogo mesquinho do partido na preservação de suas regalias. Não por coincidência, pois às vésperas do início do julgamento do mensalão, o singular companheiro propõe que as sessões do Supremo Tribunal Federal não sejam mais transmitidas ao vivo, como vem acontecendo há anos, naquilo que exprimiu mais uma conquista democrática nacional.

O que esse Vargas distorcido pretende é que a sociedade não assista a exposição das vigarices de alguns de seus companheiros de fé, obviamente prestes a aparecer nas telinhas. No particular, segue as lições do Lula, mesmo o mestre tendo sido mais explícito ao defender simplesmente que se adiasse o julgamento dos mensaleiros. Como aceitar que se proíba a transmissão das sessões da mais alta corte de justiça do país, numa hora em que as entranhas do PT serão vistas a cores? De que maneira acusar os ministros do Supremo de popstars?

É por ai que o PT comprova ser um partido igual aos demais.

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ERRO DE FATO

Alguns processos judiciais são anulados por erro de fato. Ou as provas produzidas foram ilegais ou os personagens eram outros.

Esta semana estaremos diante de situação parecida. O governador de Brasília, Agnelo Queiroz, irá depor na CPI do Cachoeira, menos porque seu nome apareceu em algumas gravações telefônicas feitas pela Polícia Federal entre o bicheiro e sua quadrilha, mais porque alguns de seus secretários não podem explicar o envolvimento em contratos de prestação de serviços.

Na realidade, se o governador deve prestar contas, não será à CPI do Cachoeira, mas à população do Distrito Federal. Porque raras vezes se tem visto um desgoverno igual,apesar da farta publicidade distribuída aos meios de comunicação.

Ruas esburacadas há mais de um ano, no centro da capital, deixam de merecer a simples presença de caminhões de asfalto para tapar as crateras. Um trânsito infernal paralisa avenidas onde se estaciona não mais nas filas duplas, mas nas triplas, que se tornaram rotina. Desde a posse de Agnelo que não se encontra um guarda sequer, para ordenar os cruzamentos caóticos.

Nos hospitais públicos e postos de saúde, sofre-se mais do que nas salas de cirurgia. Ainda existem escolas onde a chuva entra e as merendas, não, deixando-se de registrar a falta de professores, como de médicos.

Seqüestros relâmpagos não são mais notícia, para o noticiário local, tantos se sucedem à luz do dia. De noite é pior, o cidadão das cidades satélites e da periferia conforma-se em ficar prisioneiro em sua própria casa, quando ela não é invadida por bandidos.

Por essas e outras é que o governador deveria estar sendo cobrado.

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