Uma aula de cidadania, pelo poeta Thiago de Mello

Resultado de imagem para thiago de melloPaulo Peres
Site Poemas & Canções

Amadeu Thiago de Mello é um poeta e tradutor brasileiro. É um dos poetas mais influentes e respeitados no país, reconhecido como um ícone da literatura regional. Tem obras traduzidas para mais de trinta idiomas. Neste poema que selecionamos, o poeta amazonense Amadeu Thiago de Mello ensina que “Cidadania” é um dever do povo.

CIDADANIA
Thiago de Mello

Cidadania é um dever
do povo.
Só é cidadão
quem conquista o seu lugar
na perseverante luta
do sonho de uma nação.
É também obrigação:
a de ajudar a construir
a claridão na consciência
de quem merece o poder.
Força gloriosa que faz
um homem ser para outro homem,
caminho do mesmo chão,
luz solidária e canção.11

10 thoughts on “Uma aula de cidadania, pelo poeta Thiago de Mello

  1. 1) Parabéns Peres, bela postagem.

    2) Thiago de Mello grande poeta, um talento amazônico !

    3) Peço licença para citar o ‘Pensamento do dia’: “Todas as revoluções comprovam que é possível mudar muitas coisas, menos o ser humano” = Karl Marx (1818-1883).

    4) Fonte: “Os Pensamentos são mais Poderosos que os Exércitos”, editora Nossa Cultura, página 125, Prof. Samuel Lago.

    5) Neste pequeno trecho Marx nos dá uma lição de Humanismo. Esse povo que fica falando em guerra civil, luta armada precisa ler o poeta Thiago de Mello.

  2. Peres, você brilha aqui na TI. Tiago de Melo me faz lembrar uma professora de literatura que fez todos os alunos gostar do poeta.
    Este poema leva a gente a pensar em cidadania com outro olhar:

    “Só é cidadão
    quem conquista o seu lugar
    na perseverante luta
    do sonho de uma nação.”

  3. Em um grande momento de inspiração, compôs este poema dedicado ao amigo Carlos Cony

    OS ESTATUTOS DO HOMEM
    (Ato Institucional Permanente)

    A Carlos Heitor Cony

    Artigo I

    Fica decretado que agora vale a verdade.
    agora vale a vida,
    e de mãos dadas,
    marcharemos todos pela vida verdadeira.

    Artigo II

    Fica decretado que todos os dias da semana,
    inclusive as terças-feiras mais cinzentas,
    têm direito a converter-se em manhãs de domingo.

    Artigo III

    Fica decretado que, a partir deste instante,
    haverá girassóis em todas as janelas,
    que os girassóis terão direito
    a abrir-se dentro da sombra;
    e que as janelas devem permanecer, o dia inteiro,
    abertas para o verde onde cresce a esperança.

    Artigo IV

    Fica decretado que o homem
    não precisará nunca mais
    duvidar do homem.
    Que o homem confiará no homem
    como a palmeira confia no vento,
    como o vento confia no ar,
    como o ar confia no campo azul do céu.

    Parágrafo único:

    O homem, confiará no homem
    como um menino confia em outro menino.

    Artigo V

    Fica decretado que os homens
    estão livres do jugo da mentira.
    Nunca mais será preciso usar
    a couraça do silêncio
    nem a armadura de palavras.
    O homem se sentará à mesa
    com seu olhar limpo
    porque a verdade passará a ser servida
    antes da sobremesa.

    Artigo VI

    Fica estabelecida, durante dez séculos,
    a prática sonhada pelo profeta Isaías,
    e o lobo e o cordeiro pastarão juntos
    e a comida de ambos terá o mesmo gosto de aurora.

    Artigo VII

    Por decreto irrevogável fica estabelecido
    o reinado permanente da justiça e da claridade,
    e a alegria será uma bandeira generosa
    para sempre desfraldada na alma do povo.

    Artigo VIII

    Fica decretado que a maior dor
    sempre foi e será sempre
    não poder dar-se amor a quem se ama
    e saber que é a água
    que dá à planta o milagre da flor.

    Artigo IX

    Fica permitido que o pão de cada dia
    tenha no homem o sinal de seu suor.
    Mas que sobretudo tenha
    sempre o quente sabor da ternura.

    Artigo X

    Fica permitido a qualquer pessoa,
    qualquer hora da vida,
    uso do traje branco.

    Artigo XI

    Fica decretado, por definição,
    que o homem é um animal que ama
    e que por isso é belo,
    muito mais belo que a estrela da manhã.

    Artigo XII

    Decreta-se que nada será obrigado
    nem proibido,
    tudo será permitido,
    inclusive brincar com os rinocerontes
    e caminhar pelas tardes
    com uma imensa begônia na lapela.

    Parágrafo único:

    Só uma coisa fica proibida:
    amar sem amor.

    Artigo XIII

    Fica decretado que o dinheiro
    não poderá nunca mais comprar
    o sol das manhãs vindouras.
    Expulso do grande baú do medo,
    o dinheiro se transformará em uma espada fraternal
    para defender o direito de cantar
    e a festa do dia que chegou.

    Artigo Final

    Fica proibido o uso da palavra liberdade,
    a qual será suprimida dos dicionários
    e do pântano enganoso das bocas.
    A partir deste instante
    a liberdade será algo vivo e transparente
    como um fogo ou um rio,
    e a sua morada será sempre
    o coração do homem.

    © THIAGO DE MELLO
    Santiago do Chile, abril de 1964
    In Os Estatutos do Homem, 1977

  4. Não posso deixar de postar mais um sonho de Tiago de Mello

    FAZ ESCURO MAS EU CANTO
    Faz escuro mas eu canto,
    porque a manhã vai chegar.
    Vem ver comigo, companheiro,
    a cor do mundo mudar.
    Vale a pena não dormir para esperar
    a cor do mundo mudar.
    Já é madrugada,
    vem o sol, quero alegria,
    que é para esquecer o que eu sofria.
    Quem sofre fica acordado
    defendendo o coração.
    Vamos juntos, multidão,
    trabalhar pela alegria,
    amanhã é um novo dia.

  5. Para os que Virão – Tiago de Mello (primeiro verso da poesia)

    Como sei pouco, e sou pouco,
    faço o pouco que me cabe
    me dando inteiro.
    Sabendo que não vou ver
    o homem que quero ser.

  6. Cidadão, de acordo com o dicionário, é o Indivíduo no gozo dos direitos civis e políticos de um estado livre. Cidadania é a qualidade associada ao cidadão. Por ter cidadania brasileira gozo dos direitos civis de todos os brasileiros. A cidadania iguala, não diferencia.
    O meu ponto é que não se discute deveres de uma pessoa para ser cidadão. Afirmar que

    “Só é cidadão
    quem conquista o seu lugar
    na perseverante luta
    do sonho de uma nação.”

    é condicionar um direito fundamental a um dever e de certa forma discriminar pessoas. Veja, por exemplo, o que era o arianismo na Alemanha de Hitler:
    Doutrina ideológica caracterizada pela defesa da superioridade racial do povo ariano ou dos seus descendentes, preconizada pelo nazismo.
    Lá, a diferença era dada pela suposta genética especial dos arianos; aqui, na poesia em foco, a diferença entre os cidadãos está no modo de servir a pátria. Isso é perigoso, mesmo expresso de modo poético.

    • Concordo!
      Eu li este poema no livro escolar de 3° ano do meu filho e acredito que aquele que merece o poder – tendo sido eleito atraves do voto popular- já deveria ter essa CLARIDÃO NA CONSCIÊNCIA citada no poema?! Não é nossa obrigação ajudar a construí-la…no máximo, mantê-la

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *