Uma cidade para morrer

Sebastião Nery

RIO – Em 1977, Mino Carta, diretor da “Isto É”, me convidou para ir à Espanha acompanhar a Constituinte espanhola. O general Franco morrera em novembro de 75 e o franquismo estrebuchava seus 41 anos de ditadura.

O príncipe Juan Carlos (nasceu em Roma em 1938, neto de Afonso XIII) foi proclamado Rei da Espanha (37 anos) e iniciou a brilhante operação política da abertura, anunciando uma Monarquia democrática. Em 76, surpreendeu a Espanha e o mundo chamando o jovem Adolfo Suarez, 44 anos, para chefe do governo. Começava a grande lição da Espanha.

Fui à UPI (United Press International) mandar pelo telex as matérias semanais da “Isto É” e as diárias do “Correio Braziliense” e da “Tribuna”. Um anjo andaluz comandava o escritorio. Terminada tarefa, fui baiano :

– Quer almoçar comigo?

Ela levou um susto, ficou vermelha, demorou um pouco.

– Vou, mas só depois que minha substituta chegar, para não fechar.

– Então te espero naquele barzinho à direita daqui.

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SEVILHA

Pedi um vinho em dúvida se ela iria. Foi. Saímos para um restaurante. Madri também era uma festa. E mais ainda com minha doce andaluza. Almoçavamos rápido e jantávamos bem devagar. Filha de Sevilha, morava com a mãe em Madri. Tinha acabado de terminar a Universidade, onde estudou línguas, inglês, francês. Sábado e domingo ia para o hotel Mayorazgo, no fim da Gran Via, onde eu estava hospedado. Depois do amor e do café, saiamos para ela me mostrar sua Madri, museus e prados.

No primeiro fim de semana, Sevilha, uma das cidades mais mágicas do mundo. À noite, espetaculos de musica flamenca, o Concerto de Aranjuez na guitarra, jantar de madrugada. Aquelas procissões de Semana Santa com multidões escondidas atrás de mascaras da morte definem a Andaluzia.

Ela vem da eternidade. No século XIII antes de Cristo, cartagineses já estavam lá e a chamavam de “Hispal”. Depois, fenícios, gregos, romanos (206 antes de Cristo).  Capital de um reino visigodo, foi tomada pelos árabes no ano 712. Um século depois o rei São Fernando entrou, expulsou e ficou.

Sevilha, com os árabes, chegou a ser a “capital efetiva dos mundos, a nova Babilonia”, como a chamou Lope de Vega. Em torno dela, Cordoba (foi maior do que Roma), Cadiz, Malaga e as sagradas Granada e Alhambra.

Os poetas sabem da vida e do amor, do tempo e da morte. Foi ali, naquela mundo encantado, que meu amigo Ledo Ivo escolheu para morrer.

  Ledo Ivo, de passagem

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LEDO IVO

Faz 20 dias, com Antonio Torres, Ricardo Cravo Albin, outros, estávamos em Marechal Deodoro, na 3ª Flimar (Festa Literaria de Marechal Deodoro) de sua luminosa Alagoas, comandada pelo jornalista e escritor Carlito Lima, por coincidencia hospedados no mesmo hotel Melliá.

Na palestra, lembrei ao auditório de varios Estados e países da America Latina que ali estava o maior poeta vivo do pais, o Ledo Ivo. Todos sabiam e aplaudiram como devem ser aplaudidos os grandes poetas.

Domingo cedo, telefona-me de Alagoas o Mauricio Moreira, meu amigo sempre atento e amigo dele pela vida toda, dizendo-me que Ledo Ivo acabava de morrer em Sevilha, na Espanha. Jovem demais nos seus ágeis 88 anos. Pai de duas filhas e do consagrado pintor Gonçalo Ivo, foi passar o Natal com a familia na Andaluzia, onde a poesia tem ninho e pouso.

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O POETA

Ledo Ivo foi das minhas primeiras descobertas literárias. No Seminario, poesia rimava com pecado. Falava demais de amor e mulher. Em 1945, ele tinha 21 anos, eu 11. Li, meio escondido, “Ode e Elegia”, e depois, em 1948, “Ode ao Crepusculo”. Em 1949, “Acontecimento do Soneto” e “Cantico”. E o acompanhei a vida inteira, livro após livro. Suas traduções de Rimbaud e Dostoievisk são clássicas. Sonetista primoroso:

1. – “Estou farto do tempo e não consigo
 cantar solenemente os derradeiros 
versos de minha vida”... (“Acontecimento do Soneto”).

***

2 -“Que o tempo passe, vendo-me ficar
no lugar em que estou, sentindo a vida
nascer em mim, sempre desconhecida
de mim, que a procurei sem encontrar” (“Soneto dos 20 Anos”).

***

3– “Quando a aurora se for, não mais seremos
o que ora somos, entre a noite e o dia,
cegos contempladores da magia
que no aquário da noite surpreendemos.

Que somos nós, senão a eternidade?
O amor transfigurou-se como a aurora
e se extinguiu após enfeitiçar-me”. (“Soneto da Aurora)”.

***

Adeus, poeta.

sebastiaonery@ig.com.br

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