Uma creche chamada Brasil?

Carlos Chagas

Intriga meio mundo a   reviravolta dada pelo presidente Lula, esta semana, a respeito de seu futuro político. É verdade que muitos mitos foram criados sem a participação dele, como  o de que disputaria a secretaria-geral das Nações Unidas ou da Organização dos Estados Americanos, senão algum outro  alto posto na comunidade internacional. Falaram, também, que poderia ser embaixador do Brasil na ONU, ou nosso plenipotenciário representante  na América do Sul, até  ministro sem pasta itinerante do governo Dilma Rousseff para questões sociais ou de desenvolvimento, se ela for eleita.

Falar, mesmo, o Lula não havia falado  nada, a não ser da intenção de liderar o PT e percorrer o país para sentir realidades. Bem como da vontade de ir para casa, em São Bernardo, sem viajar pelo estrangeiro, rejeitando a hipótese de ficar dando palpites na administração do sucessor, qualquer que seja, precisamente o contrário do que vinha  praticando Fernando Henrique Cardoso.

Pois agora mudou. Em Petrolina, Pernambuco, esta semana,  o presidente surpreendeu. Disse que vai  participar, telefonando  para a  sucessora (já contando com a  vitória dela) sempre que perceber erros de governo ou metas que deveria ter alcançado  e não alcançou. Acrescentou pretender-se o papel de mãe que vai cuidar do filho. No caso, o povo.

Não deixa de ser sintomática essa mudança de planos. Mesmo  sem perceber, o  Lula transmuda-se  em tutor não só  da próxima presidente da República, se ela for eleita, mas,  mais singular ainda, da população brasileira. Já comentamos ter o Brasil alcançado sua maioridade faz tempo,  parecendo  que a evidência não  chegou ao primeiro-companheiro. Viramos uma creche, onde a mãe pressurosa vai trocar as fraldas, dar papinha na boca,  ensinar os primeiros passos ou contar histórias de heróis e de dragões?

É claro que os beneficiados pelo bolsa-família vão adorar. Ainda mais se não  precisarem trabalhar. As elites, de seu turno, festejarão como nunca, certas de que a mãe continuará tolerando suas peraltices especulativas e cantando canções de ninar na hora de bota-las para dormir.

O que se questiona é como ficaremos, marmanjos já desmamados,  maiores de idade acostumados a enfrentar a vida apoiados em  nossas próprias forças. O homem vai cuidar de nós, ou melhor, a mãe,  determinando  o que devemos  e não  devemos fazer.

Tudo por conta de sua imensa popularidade,  assentada  nas massas e nas elites. Um perigo dos diabos, parecido com outros  revelados pela História. Os rótulos de “guia genial dos povos” ou de “um reich e um fuhrer” ainda soam em nossos ouvidos. Tanto faz.

A ser verdadeiro o  propósito do Lula, ironicamente restará uma saída: que  Dilma Rousseff, uma vez no poder,  tome cuidado e não se  deixe seduzir pela aura de seu criador. Afinal, por  mais que vá  dever a ele sua ascensão,  sempre poderá livrar-se da sina de habitar uma casa de bonecas…

Na prática, a Lei Falcão

Para quem, por obrigação  profissional, não deve perder um só desses programas de propaganda eleitoral gratuita, desaba uma tempestade dos diabos. Já reparou o eleitor que os candidatos a deputado federal e estadual dispõem de apenas alguns segundos para apresentar nome, número e uma frase geralmente cretina a respeito de  suas intenções?  São tantos que precisam revezar-se ao longo das semanas, logo concluindo que a apresentação de suas imagens fugazes não renderão um voto, sequer?

Nos tempos da ditadura empurraram goela a dentro do país a famigerada “Lei Falcão”, que à maneira dos cadastros policiais, só permitia aos candidatos apresentarem nome e número. Tantos anos depois, mudou alguma coisa? Tem gente até  achando bom, tamanha a cachoeira de bobagens que escoaria das telinhas, se aos indigitados fosse dado mais tempo.  Mesmo  assim, fica clara a fantasia da propaganda eleitoral gratuita confundida por muitos ingênuos como a  panacéia  democrática nacional. Aparecer para dizer que é  candidato assemelha-se a um comercial do jardim zoológico: este é leão, aquele o rinoceronte; um, o lobo, outro a cotia. E daí?…

Um sinal perigoso

De José Sarney  a Fernando Collor, de Itamar Franco a Fernando Henrique e  ao Lula, todos os últimos presidentes da República  sempre lamentaram não ter podido realizar a reforma  política. Começa que não  fizeram porque  não quiseram.Ou faltou-lhes coragem.

Germina nos porões do PT que agora será diferente. Que Dilma Rousseff, se for eleita, desencadeará o processo tantas vezes adiado,fundada na evidência de que essas reformas, ou acontecem nos primeiros meses de novos governos ou não   acontecerão nunca.

É claro estar certo o raciocínio, mas é preciso evitar precipitações. A reforma política parece um leque aberto em 360 graus. Vale tudo, inclusive uma proposta que começa  a germinar em determinados núcleos dos companheiros: para que Senado, se a casa só tem criado problemas e funcionado como uma  sucursal  do  céu, onde tudo é maravilhoso e funcionam as maiores benesses da realidade política?

Será sempre bom lembrar que o Senado representa a Federação, ou  seja,  nivela estados grandes e pequenos pelo mesmo denominador comum. O Piauí tem três senadores, São Paulo também, ao  contrário de os  paulistas enviarem setenta deputados para a Câmara, e  os piauienses apenas oito, calculados em função da população. Extinto o Senado, as leis se fariam conforme a decisão da maioria, privilegiando o  Sul e o Sudeste muito mais do que Norte e o Nordeste, sem falar no Centro-Oeste.

É preciso  tomar cuidado, porque a força do PT fundamenta-se nos estados  mais  populosos, que  sem o Senado ditariam as decisões nacionais em função de seus interesses. Pelo jeito, a  reforma política ficará para as calendas.

A mesma farsa de sempre

Promover debates entre Dilma Rousseff, José Serra e Marina Silva será sempre uma festa  para as elites.  Para os mais críticos, uma farsa. Porque apesar de divergências periféricas e até de farpas lançadas aqui e ali, os três pretendentes  à presidência da República falam a mesma língua. Exaltam  o capitalismo, celebram a globalização, sustentam o modelo econômico da especulação financeira e da livre competição entre quantidades distintas e enaltecem a prática  que vai tornando os ricos mais ricos e os pobres, mais pobres. Do máximo que falam é da assistência  social.

Mudar o mundo, mesmo, só Plínio de Arruda Sampaio, por isso excluído dos  debates mais recentes.     

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