Uma crônica de Cony, escrita em 2017 e que mais parecia a despedida do escritor

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Nesta crônica, Cony esgrime a arte da ironia

Carlos Newton

Sempre atuante e precisa, Carmen Lins selecionou esta crônica de Carlos Heitor Cony, publicada pela Folha de S. Paulo no dia 5 de março de 2017. O grande escritor e jornalista carioca, que já vinha muito doente há vários anos, praticamente estava se despedindo, naquele seu estilo irônico e rascante.

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SE EU MORRER AMANHÃ
Carlos Heitor Cony

Se eu morrer amanhã, não levarei saudade de Donald Trump. Também não levarei saudade da operação Lava Jato nem do mensalão. Não levarei saudade dos programas do Ratinho, do Chaves, do Big Brother em geral. Não levarei nenhuma saudade do governador Pezão e do porteiro do meu prédio.

Se eu morresse amanhã, não levaria saudade do rock, dos sambas-enredo do Carnaval, daquela águia da Portela nem dos discursos do Senado e da Câmara, incluindo principalmente as assembleias estaduais e a Câmara dos Vereadores.

Se eu morrer amanhã, não levarei saudades dos buracos da rua Voluntários da Pátria, das enchentes do Catumbi, dos técnicos do Fluminense, dos juízes de futebol, da Xuxa e das piadas póstumas do Chico Anysio. Não levarei saudade do Imposto de Renda e demais impostos, e muito menos levarei saudade das multas do Detran.

Não levarei saudade da vizinha que canta durante o dia uma ária de Puccini (“oh mio bambino caro”) que ela ouviu num filme do Woody Allen. Aliás, também não levarei saudade do rapaz que mora ao meu lado e está aprendendo a tocar bateria.

Não levarei saudade das cotações da Bolsa, das taxas de inflação e das dívidas externas do Brasil. Não levarei saudade dos pasteis das feiras livres nem das próprias feiras livres, também não levarei saudade dos blocos de índio que geralmente fedem mais do que os verdadeiros índios.

Não levarei saudade dos lugares em que não posso fumar, das lanchas de Paquetá e dos remédios feitos com óleo de fígado de bacalhau. Não terei saudades das mulheres que usam silicone e blusas compradas no Saara.

Enfim, não levarei saudade de mim mesmo, dos meus fracassos e dívidas. Finalmente, não terei saudades dos milagres dos pastores evangélicos nem de um mundo que cada vez fica mais imundo.

22 thoughts on “Uma crônica de Cony, escrita em 2017 e que mais parecia a despedida do escritor

  1. “A Bolsa Ditadura tinha o objetivo de reparar danos impostos a cidadãos brasileiros durante o regime militar estabelecido em 1964. De lá para cá, o Bolsa Ditadura já custou R$ 2,5 bilhões aos cofres do país em pensões e compensações.
    No grupo dos beneficiados estão Ziraldo Alves Pinto, escritor e chargista, e o cartunista Sérgio de Magalhães Gomes Jaguaribe – o Jaguar – que ganharam o direito a pensões mensais de R$ 4.365,88 e ainda exatos R$ 1.000.253,24 de indenização para cada um. A ex-guerrilheira Estela – hoje ministra da Casa Civil, Dilma Vana Roussef Linhares – recebeu indenizações por três diferentes estados – São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro – que somaram R$ 72 mil. O jornalista Carlos Heitor Cony e a viúva do seringueiro Chico Mendes, Ilzamar Gadelha Mendes, também conquistaram suas cotas. Cony ganhou indenização retroativa de R$ 1.417.072,75 e reparação mensal de R$ 19.115,19. Nada mal!
    O deputado federal Fernando Gabeira, que participou de movimentos armados contra a ditadura, do sequestro do embaixador norte-americano Charles Elbrick e acabou exilado por dez anos, nunca pediu a indenização a que teria direito: “Não solicitei porque minha atividade naquele período foi consciente.”

    • Não, deveria ser paga com o salário dos salafrários que fizeram e apoiam a famigerada Lei. Acha que a Lei é boa, tira do bolso. E, quanto aos assassinos, deveríamos por todos na cadeia, mas dos dois lados. Poderíamos começar pela Dilma.

  2. “…. viver deliberadamente, para enfrentar apenas os fatos essenciais da vida, e ver se consigo aprender o que tenho que ensinar, e não, quando for morrer, descobrir que não vivi ….”


    • “A história é feita por minorias ativas e determinadas, não pela maioria, que raramente tem uma idéia clara e consistente do que realmente quer”.

  3. “…vale a pena lutar e morrer contra a perda da liberdade e da dignidade?
    Para muitos de nós, liberdade e dignidade são mais importantes que uma vida longa ou fugir do sofrimento físico.
    De qualquer forma, todos temos que morrer algum dia e pode ser melhor morrer lutando por uma vida plena, ou por uma causa, do que viver uma vida longa mas vazia e carente de sentido.”
    – T.J.K.

    • “De qualquer forma, todos temos que morrer algum dia e pode ser melhor morrer lutando por uma vida plena, ou por uma causa, do que viver uma vida longa mas vazia e carente de sentido.” De qualquer forma, todos temos que morrer algum dia e pode ser melhor morrer lutando por uma vida plena, ou por uma causa, do que viver uma vida longa mas vazia e carente de sentido.”

  4. 6-1-2018 CRIADORA E CRIATURA

    “Por que teus semelhantes, apesar de tu olhá-los como diferentes, continuam sendo teus semelhantes?
    Porque assim como tu, cada um dos integrantes do reino humano tem capacidade de formular ideações e através dessas inventar um mundo, produto de seus convencimentos.
    O somatório de todos os mundos individuais, que não são em si mesmos tão únicos e originais quanto cada pessoa gostaria que fossem, compõe o processo mundial que, pelo efeito da força criativa de nossa humanidade, acaba adquirindo vida própria e, como os bons escritores e escritoras profetizaram, a criatura se volta contra o criador.
    Tu és a alma criadora e criatura simultaneamente e, apesar de teu mundo ser arquitetado com teus gostos e desgostos, nada te livra de tratar como semelhantes os que consideras diferentes.”

    O. Quiroga

  5. Bem lembrado Leibniz brèsiliene. Não teve o menor pudor em receber indenização não merecida, paga com dinheiro público. Era velho mas não bobo (sequer honesto).

  6. Hoje foi um dia de perdas para o jornalismo brasileiro.Morreu,também,no Rio o jornalista e vereador Pedro Porfírio,brizolista histórico,que, por muito tempo,escreveu na “Tribuna da Imprensa”.

  7. A indenização foi uma mancha, como para Jaguar ou Ziraldo, que no auge da ditadura fazia cartazes para o IBC,. Louve-se a coerência do grande Gabeira, consta que o Millor também rejeitou o beneplácito. O que não tira o brilhantismo do texto do velho mestre.

  8. Carlos Heitor Cony não pode ser julgado pela bolsa ditadura que recebeu, juntamente com Jaguar e Ziraldo. Durante muito tempo foi o Cony sem medo da ditadura – tanto que escrevia contra o regime militar,Não se pode negar o grande jornalista, cronista, romancista que ele foi. Quero ler “Quase Memória” um dos seus livros muito comentado e considerado uma prima pelos seus leitores. Meus sentimentos à família e aos amigos

  9. Luiz Felipe,deixe de ser uma pessoa vazia,pegando carona em comentários de outras pessoas.
    Pelo que vejo,você não consegue raciocinar de acordo com a sua própria mente,fica plagiando postagens de outras pessoas e,isso é muito feio.
    Se faz parecer uma pessoa inteligente mas,é teleguiada,um pinguim de geladeira ou um papagaio de pirata.
    Você é um revolucionário de merda.
    O PT,nunca saiu de você,que parece ter trauma de infância.

  10. Pedro Porfírio,Brizolista histórico.
    Se era Brizoiista histórico,não valia nada e ao contrário,quem ganhou foi o Brasil.
    Menos um comunista que agora está sentado no colo do Sr LUCIFÉR que aguarda Lula,Dilma,Dirceu,Cabral,Pezão e Paz ansiosamente.

  11. É Werneck, os bons estão indo. De Cony tenho o livro: Quem Matou Vargas, que como eu que vivi essa época e acompanhei de perto toda tragédia acvho o vivro um dos melhores sobre este momento de nossa história, pois Cony era insuperável na maneira singular de escrever. Parecia um pintor.

  12. Werneck, também falas em Pedro Porfírio. Sempre me dei muito bem com o Porfírio, que além de ser jornalista também era escritor. Porfírio sofreu torturas barbaras na “Ilhas das Flores nas mãos do CENIMAR. Quem o tirou depois de algum tempo dessa aflição foi Sandra Cavalcanti que fez pedido aos militares. Porfírio teve um momento que se aborreceu muito com Lupi e disse que ia sair do PDT. Escrevi imediatamente para o governador Brizola poderando que Porfírio não devia sair do partido. Brizola, como era fim de ano, convidou o Porfírio para passar o Reveion em sem ap em Copacabana. Só estava a família do Brizola. Brizola disse: Porfírio guardei um vinho para abrir em um momento especial. Mandou trazer a garrafa e contou a história do vinho. Espanhol da vinícula tal, da região tal do ano tal. Abriu o vinho, o vinho estava azêdo. Depois o Porfírio me disse: Olha o Brizola está escrevendo um livro. O título do livro é: “Brasil, o Tempo Que Vivi”. Pouco tempo depois Brizola morreu. (Ainda vou desentocar as primeiras páginas escritas desse livro. Já tentei,mas é um mistério).

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