Uma desesperada canção de Mário de Andrade, para descrever a solidão

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Site Poemas & Canções

O romancista, musicólogo, historiador, crítico de arte, fotógrafo e poeta paulista Mário Raul de Moraes Andrade (1893-1945),  no poema “Canção”, retrata sua vivência com a solidão.

CANÇÃO
Mário de Andrade

….de árvores indevassáveis
De alma escura sem pássaros
Sem fonte matutina
Chão tramado de saudades
À eterna espera da brisa,
Sem carinhos …como me alegrarei?

Na solidão solitude
Na solidão entrei.

Era uma esperança alada,
Não foi hoje mas será amanhã,
Há-de ter algum caminho
Raio de sol promessa olhar
As noites graves do amor
O luar a aurora o amor…que sei!

Não solidão, solitude,
Na solidão entrei
Na solidão perdi-me…

O agouro chegou. Estoura
No coração devastado
O riso da mãe-da-lua,
Não tive um dia! uma ilusão não tive!
Ternuras que não me viestes
Beijos que não me esperastes
Ombros de amigos fiéis
Nem uma flor apanhei.

Na solidão, solitude,
Na solidão entrei,
Na solidão perdi-me
Nunca me alegrarei.

3 thoughts on “Uma desesperada canção de Mário de Andrade, para descrever a solidão

  1. No coração devastado sente o riso da mãe lua, um dia sem uma ilusão sequer. Acho que Mário de Andrade estava num dia de grande decepção.”Macunaima que gostava de voar feito os pássaros, neste dia estava sofrendo de depressão,sempre na solidão, solitude, sem alegria.

  2. Da Biblioteca Central da UFMG

    Andrade, Mário. Poesias completas. S. Paulo, Livraria Martins Editôras. (Obras completas de Mário de Andrade)

    EU SOU TREZENTOS.
    (7-VI-1929)
    Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
    As sensações renascem de si mesmas sem repouso,
    Ôh espelhos, ôh! Pireneus! ôh caiçaras!
    Si um deus morrer, irei no Piauí buscar outro!
    Abraço no meu leito as milhores palavras,
    E os suspiros que dou são violinos alheios;
    Eu piso a terra como quem descobre a furto
    Nas esquinas, nos taxis, nas camarinhas seus próprios beiji
    Eu sou trezentos, sou trezentos-e-cincoenta,
    Mas um dia afinal eu toparei comigo. . .
    Tenhamos paciência, andorinhas curtas,
    Só o esquecimento é que condensa,
    E então minha alma servirá de abrigo.

  3. A magnitude de Macunaima – o herói sem caráter – ofuscou a obra poética de Mário de Andrade, tal como aconteceu com Machado de Assis que também é autor de lindas poesias.

    MANHÃ – Mário de Andrade
    (18-111-1928)
    O jardim estava em rosa ao pé do Sol
    E o ventinho de mato que viera do Jaraguá,
    Deixando por tudo uma presença de água,
    Banzava gosado na manhã praceana.
    Tudo limpo que nem toada de flauta.
    A gente si quisesse beijava o chão sem formiga,
    A boca roçava mesmo na paisagem de cristal.
    Um silêncio nortista, muito claro!
    As sombras se agarravam no folhedo das árvores

    Talqualmente preguiças pesadas.
    O Sol sentava nos bancos tomando banho-de-luz.
    Tinha um sossêgo tão antigo no jardim,
    Uma fresca tão de mão lavada com limão,
    Era tão marupiara e descansante
    Que desejei. . . Mulher não desejei não, desejei. . .
    Si eu tivesse a meu lado ali passeando
    Suponhamos Lenine, Carlos Prestes, Gandhi, um dêsses!
    Na doçura da manhã quasi acabada
    Eu lhes falava cordealmente: — Se abanquem um bocadinho.
    E havia de contar pra êles os nomes dos nossos peixes,
    Ou descrevia Ouro Preto, a entrada de Vitoria, Marajó,
    Coisa assim, que pusesse um disfarce de festa
    No pensamento dessas tempestades de homens.

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