Uma oposição forte é essencial para o êxito de qualquer governo, dizia JK

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Kubitschek sabia como conduzir um país como o Brasil

Pedro do Coutto

A afirmação que está no título pertence a Juscelino Kubitschek, num episódio passado em 1956, quando a Câmara Federal rejeitou o pedido de cassação do deputado Carlos Lacerda pelo fato de ter revelado o código secreto das comunicações veiculadas pelo Ministério das Relações Exteriores. Lacerda então era deputado federal e proprietário do Jornal “Tribuna da Imprensa”. Foi na “Tribuna da Imprensa” que ele revelou o código do Itamaraty, usado na correspondência com as Embaixadas que funcionavam nos diversos países.

A reação ao fato partiu do então Ministro da Guerra, general Teixeira Lott, apoiado pelos Comandos Militares existentes nos vários estados brasileiros. A pressão abriu amplo debate no Congresso.

AMPLO DEBATE – JK encaminhou ao Congresso a iniciativa militar de pedir a cassação. A matéria abriu debate também na opinião pública. O projeto teve parecer favorável na Comissão de Justiça, presidida então pelo deputado Martins Rodrigues. Porém, revelando sua visão de que os adversários são essenciais, JK recuou da cassação. No plenário a matéria foi rejeitada com maioria de seis votos num total de 285 deputados federais, número da época.

A maioria escassa atendeu à reclamação militar, de um lado, de outro atendendo a JK, e ao final o Parlamento firmou posição de apoio as Forças Armadas.

O duelo na sessão final foi emocionante, colocando em posições antagônicas o líder Vieira de Melo e Carlos Lacerda. O debate foi fantástico sobretudo por reunir dois grandes oradores.

NO CATETE – Passado o episódio, numa entrevista no Palácio do Catete, o presidente da República recebeu os jornalistas Carlos Castelo Branco, Jornal do Brasil, Vilasboas Correia, O Estado de São Paulo, e a mim, Correio da Manhã. Ouvido no dia seguinte ao desfecho, Juscelino disse que a oposição forte é essencial para o êxito de qualquer governo, cumprindo seu papel no contexto político.

A oposição na época era liderada por Carlos Lacerda, que além dos discursos na Câmara, dos artigos na Tribuna da Imprensa e no programa diário na Rádio Globo, tinha cesso também à televisão Tupi.

SEM SE ISOLAR – Incomodava muito ao governo, porém na visão de JK nenhum governo pode se isolar da realidade porque os fatos terminam sempre chamando atenção para o desempenho do Executivo. Se os presidentes da República e governadores não tiverem pela frente a voz dos contrários, terminarão sendo anestesiados pelos elogios de sempre, dos correligionários.

Em torno do poder forma-se sempre um anel imobilista de elogios. Os governantes, assim, perdem o senso crítico e deixam-se levar pelo mar de elogios. Isso é profundamente negativo. Os bajuladores de plantão, e sempre os há, terminam distorcendo a realidade e isolando os presidentes.

O episódio é um exemplo definitivo a respeito dos riscos que correm os detentores do poder. Elogiar é fácil, atacar também, mas dos dois polos surge a realidade política hoje e sempre.

11 thoughts on “Uma oposição forte é essencial para o êxito de qualquer governo, dizia JK

    • … e tinha uma visão de oposição muito clássica, talvez até meio mineira. Mal sabia que décadas mais tarde a corrupção, que sempre existiu, tornaria a alma mater da oposição hoje.

      Perfeito a sua observação, Pedro Rios, JK não conhecia o PT e muito menos o que o Antagonista começou a chamar ontem de CUT – Central Única das Togas.

  1. O grande e experiente Jornalista Sr. PEDRO DO COUTTO, nos mostra a importância da Oposição num Regime Democrático Representativo, para manter o Governo bem informado sobre a realidade Nacional, e para se evitar a distorção que causa o culto a Personalidade do Presidente.

    É verdade que o dinâmico e habilidoso Presidente JUSCELINO KUBITSCHEK (PSD) era um espírito Liberal e não cultivava ódio Politico, mas no exemplo citado da tentativa de cassação do Mandato do Líder da Oposição Dep Fed CARLOS LACERDA (UDN), do qual este escapou por apenas 6 Votos, não nos pareceu que o Liberal Presidente JK quisesse apenas assustar e dar trabalho a LACERDA, mas que era para valer mesmo.
    De qualquer forma se era apenas para dar um susto, o susto foi grande.

    A Inglaterra civilizadíssima nos dá o exemplo, onde a Oposição é chamada de: Leal Oposição ao Governo de Sua Magestade, e a Raínha ouve sempre os dois Lados com a mesma deferência.

    E tudo faz parte dos Pesos e Contra-Pesos da divisão de Poder entre os famosos 3 Poderes.

  2. Muito bem Pedro do Couto.
    Me lembro bem . Debates fantásticos, principalmente entre Carlos Lacerda e Vieira de Melo. JK e Lacerda, dois gigantes.E hoje ? A quantidade de PIGMEUS, é grande. Enorme.

  3. Existem várias formas de oposição. Força e fraqueza são apenas algumas das características.
    Como isso é apenas uma frase de efeito do sujeito que construiu aquela cidade autoritária (quem já visitou Brasília sabe que ela foi feita para botar o povo no seu devido lugar), para mim, é irrelevante.

  4. Nobre jornalista, concordo com a afirmação de JK.

    Claro é, que uma oposição forte, digna, patriota, é com certeza essencial para o país, mas o que vemos por aqui, são grupos travestidos de políticos, que na verdade não passam de gangues especializadas em assaltar a nação….

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