Uma razão muito simples

Carlos Chagas

Em 1960, logo depois das eleições que levaram Jânio Quadros ao poder, a grande discussão  fazia-se em torno da escolha do vice-presidente, naqueles idos realizada em separado do candidato a presidente. Ganhara João Goulart contra Milton Campos, invertendo-se a lógica, pois o gaúcho era companheiro de chapa do derrotado marechal Henrique Lott e o mineiro  formava dobradinha com o vencedor.  Montes de artigos, ensaios e mesmo teses  improvisaram-se na imprensa, nos partidos e nas universidades.

“Milton perdeu por ser bom demais!”  “A causa da derrota foi a traição do Jânio!” “A classe operária quis infringir uma lição na classe média.” “Cuidado com o cheiro de golpe pairando no ar!”

Foi quando um repórter  lembrou-se de perguntar ao dr. Milton a que atribuía o resultado das urnas, imaginando longa, sofisticada e sociológica resposta.  Surpreendeu-se com a simplicidade do ex-governador de Minas:

“Por que o Jango foi eleito? Porque teve mais votos do que eu…”

O debate, hoje, é parecido: por que Dilma Rousseff  não venceu no primeiro turno?

Dizem uns ter sido porque o presidente Lula bateu firme demais na oposição. Outros contestam falando o contrário: o primeiro-companheiro deveria ficar na mensagem de paz e amor. Para estes, foi por Dilma  mostrar-se disposta a debater a descriminalização do aborto. Aqueles sustentam que a falta de mais uns pontinhos deveu-se às trapalhadas da Erenice Guerra na chefia da Casa Civil. Há os que põem a culpa na Receita Federal.

Melhor para todos seria simplificar, como Milton Campos. Por que Dilma não venceu no primeiro turno? Porque faltaram votos…

RETROCESSO

De 1989 até hoje, quando há segundo turno,  a regra tem sido de as principais redes de televisão e outros meios de comunicação organizarem-se num pool para a apresentação de dois debates. Agora será diferente: pelo menos cinco estão previstos entre Dilma e Serra,  começando domingo na Bandeirantes, uma semana depois na Rede-TV, mais quatro dias na Folha de S.Paulo, em seguida na TV-Record e, finalmente, na Rede Globo quando faltarem dois dias para a nova eleição.

A menos que tenham passado por invulgar processo de transformação,  os dois candidatos continuam os mesmos. Já sabemos de cor e salteado o que vão dizer, porque já disseram inúmeras vezes durante a campanha do primeiro turno. Tornaram-se monótonos. Será diferente, agora? A presunção e a arrogância de certas emissoras impediu um acordo maior entre elas, cada uma fazendo questão de bancar o “seu” debate. Perdem os candidatos, sem  ter muito o que dizer, perdem os telespectadores e ouvintes com a repetição, e perde a mídia, porque sem audiência não há faturamento.

ELITISMO

Não deixa de ser elitismo essa súbita investida contra o mandato conquistado nas urnas pelo Tiririca. Querem negar-lhe a diplomação por não ser alfabetizado.  Quem garante que não é? Ou querem impedi-lo por ser  palhaço de profissão? Talvez por inveja de seu milhão e trezentos mil votos.

Se o cidadão apresentou-se, teve seu registro deferido e disputou a eleição, porque obstá-lo só porque reuniu o voto de protesto, o voto  gaiato e tantos outros  votos não ortodoxos dos paulistas?  Daqui a pouco vão exigir diploma universitário,  mestrado, doutorado e PHD para alguém ser eleito?

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