Uma rígida professora

Carlos Chagas

Caso até domingo não  sobrevenha um inusitado de olímpicas proporções, Dilma Rousseff estará eleita presidente da República. Só um milagre, e dos grandes, impedirá a candidata de vencer, provavelmente no primeiro turno.

Sucedem-se as perguntas, a partir daí:  seu governo será um videotape do governo Lula, até pela manutenção de ministros atuais ou antigos? Conseguirá o PT maiores espaços na administração e nas decisões políticas?  Qual o papel do PMDB, presumindo-se que venha a eleger as maiores bancadas na Câmara e no Senado? Haverá um diálogo diferente com as oposições? A influência do presidente Lula será ostensiva ou velada? A política econômica sofrerá mudanças?

Mais um milhão de  indagações poderiam seguir-se a essas, registrando-se apenas a evidência de estar o país no limiar de um novo modelo de governar. Menos pelo fato de pela primeira vez uma mulher assumir o poder, mais  pelas características pessoais de Dilma. Dificilmente ela conservará a imagem a duras penas mostrada na campanha, eivada de amenidades, sorrisos e rapapés.  Por natureza, a nova presidente é rígida, áspera e até intolerante. Não mudará, em especial quando se vir a braços com desafios, incompreensões, críticas e a óbvia incompetência que marca a ação da máquina governamental.

Em suma, deve o país preparar-se para ser dirigido por uma  professora disposta a cobrar o dever de casa logo no primeiro dia de aula. Alguém de poucas palavras e muita cobrança, bem diferente do tolerante e  loquaz antecessor.

PLÍNIO E A CASA DE MARIMBONDOS

No  pálido debate entre os candidatos presidenciais,  na noite de domingo, destacou-se mesmo aquele que não tem nada a perder, porque já perdeu. Plínio de Arruda Sampaio voltou a enfiar a mão numa vasta casa de marimbondos. Levantou dúvidas que muita gente levanta mas poucos tem coragem de referir: para ele, os Estados Unidos são um país ditatorial porque  quer impedir que  o Irã e outras nações disponham da bomba atômica,  jamais tendo protestado porque Israel também dispõe.

Arriscou-se a outra ferroada quando defendeu o controle dos meios de comunicação, denunciando que seis famílias tentam dominar a opinião pública nacional  através de seus jornais, revistas e emissoras de rádio e televisão.

O singular nessas polêmicas observações foi o silêncio dos  adversários. Nem Dilma, nem Serra nem Marina abriram a boca para contestar ou apoiar Plínio, apesar das palmas do auditório. Em muitas outras  afirmações do candidato do PSOL, foi como se ele não existisse, mesmo quando agredia os outros.

Dilma,  acusada de conivente ou incompetente diante do caso Erenice Guerra,  preferiu repetir a disposição de fiscalizar,  apurar e punir qualquer mal-feito porventura ocorrido em seu governo. Não reagiu quando Plínio chamou o presidente Lula de megalômano. Ou de ter passado da esquerda para a direita. Também não respondeu se poderia viver com o salário-mínimo.

Marina disse apenas não  admitir que outros determinem seu pensamento, quando acusada de querer agradar a todos e não se manifestar sobre temas polêmicos como  as drogas, o aborto e a eutanásia. Também não reagiu ao ouvir que é ecocapitalista  demagoga, constituindo  um engodo sua proposta de realizar plebiscitos sobre essas questões. Nem quando rotulada de sem coragem para enfrentar os poderosos, engolindo os transgênicos, o  desvio das águas do São Francisco

Serra silenciou  quando Plínio acentuou que seus três adversários estavam mais ou menos ligados à corrupção. Preferiu denunciar o mensalão e o PT. Depois, informou que São Paulo tem o melhor padrão educacional do país,   em seguida à acusação de os tucanos estarem no poder há 14 anos, no estado, sendo que 30% das crianças em idade escolar não sabem ler nem escrever.

DISSE OU NÃO DISSE?

A imprensa reproduziu trechos da entrevista concedida por Fernando Henrique Cardoso ao “Financial Times”, onde com todas as letras  prevê a vitória de Dilma Rousseff, quer dizer, a derrota de José Serra, fazendo críticas à campanha dos tucanos.

Pois  Serra não acreditou.  Desmentiu que o ex-presidente tivesse dito o que disse. É aquela história do “me engana que eu gosto”.  Na verdade, FHC andava ressentido por haver sido desconsiderado na campanha, aproveitando agora para dar o troco.

OS ASNOS AO REDOR DO TRONO

Felipe de Orleáns era regente da França durante a infância de Luís XV e resolveu fazer economia. Mandou vender a metade do plantel que lotava as cavalariças reais.  Voltaire criticou a iniciativa, escrevendo que em vez de livrar-se dos cavalos, o regente deveria ter despachado metade dos asnos que evoluíam ao redor do trono.  Encontrando-se com o então jovem polemista no Bois de Boulogne, Felipe disse que lhe  proporcionaria  uma vista de Paris que com certeza não conhecia: mandou-o para a prisão da Bastilha. Depois, arrependeu-se, mandou soltá-lo e até concedeu-lhe uma pensão vitalícia, que Voltaire perdeu ao escrever: “Agradeço a Vossa Majestade prover minha alimentação, mas informo que a habitação ficará por minha conta…”

Por que se conta esse episódio? Porque o presidente Lula irritou-se com o noticiário da imprensa dando conta do monumental aumento do número de funcionários do palácio do Planalto. Pensa em dispor da metade deles. Parece que leu Voltaire.

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