Uma rotina brasileira, perpetuada através dos tempos

Paula Cesarino Costa
Folha

Um homem negro, forte, aparentando 30 anos, chega à Central de Certidões do Rio, máquina motriz da burocracia brasileira. Busca um atestado de “nada consta” em seus antecedentes criminais para poder se candidatar a uma vaga de trabalho na construção civil. Em tempos difíceis, com desemprego em alta, qualquer possibilidade vale o esforço da espera na fila que se espraia na sobreloja escura, barulhenta e caótica.

A primeira barreira é o preço. A central cobra quase R$ 300 para a pesquisa nos vários ofícios. O valor tem de ser pago à vista, em espécie. Teria de trabalhar mais de dez dias para pagar a taxa, caso venha a receber um salário mínimo. Sem dinheiro, é necessário preencher uma declaração postulando a gratuidade por fragilidade econômica, explica o balcão de informações. Atribulado, a vítima pede ajuda ao colega que o acompanha: “Você escreve para mim e eu assino?”

Findo o périplo, a central de certidões informa que a busca só estará concluída em cinco dias úteis. Ou seja, a vaga pretendida pode ser preenchida por outro desempregado.

COMO NAS SESMARIAS

A perpetuação de situações absurdas como essa é desalentadora. Serviços obrigatórios, ineficientes e caros, como o dos cartórios, enriquecem famílias e políticos, que dividem espaço público em sesmarias.

Como já ensinou Hélio Schwartsman, na Folha, os cartórios não são criação dos portugueses nem exclusividade brasileira. Criados pelos sumérios no 4º milênio a.C., existem em vários países europeus e em muitas de suas ex-colônias, mas sem tantos poderes e abusos.

Exigências absurdas de certificados que comprovam a veracidade de documentos oficiais por taxas exorbitantes são uma pequena amostra do que passa o cidadão brasileiro. O “burocrossauro” cresceu aqui por não ter predadores. Conheceu o paraíso e tem certeza da vida eterna.

(artigo enviado por Sandro Couto)

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