UPPs custam 321 milhões: derrubar o Elevado, 3 bilhões de reais

Pedro do Coutto

Excelente reportagem de Fábio Vasconcelos, manchete principal de O Globo de ontem, revela que o custo para que o governo Sérgio Cabral instale Unidades de Polícia Pacificadora em todas as favelas do Rio está estimado em 321 milhões. Pequena percentagem sobre o orçamento do estado que, para este ano, atinge o montante de 45,6 bilhões. Está publicado no Diário Oficial de 30 de novembro. Como tudo é relativo, segundo Einstein ao comprovar a teoria em 1905, consolidando-a 28 anos depois, vale comparar este custo, altamente produtivo, com o custo, absolutamente improdutivo de 3 bilhões de reais, anunciado pelo prefeito Eduardo Paes para demolir o Elevado da Perimetral.

Pelo cotejo dos projetos, verifica-se o rematado absurdo dessa medida, uma derrubada difícil de executar que, se ocorrer mesmo, vai sufocar a cidade. Será que o prefeito deseja isso na tentativa de valorizar áreas no corredor da Avenida Rodrigues Alves? Sem Perimetral, por exemplo, como ficará o acesso à ponte Rio-Niteroi? Não ficará como se diz.

A relatividade entra em cena. Enquanto a ocupação, palavra mais ajustada que pacificação, interessa diretamente a toda população, a demolição, que não interessa a ninguém, custará dez vezes mais. Além disso, 3 bilhões de reais correspondem exatamente a 25% do orçamento da Prefeitura para 2010. Outra visão relativa fazendo a obra arrasadora projeta-se como algo totalmente sem sentido. O elevado seria substituído por um mergulhão no asfalto. Em vez do andar de cima, o andar de baixo. Mas quanto vai custar o mergulho sob o asfalto selvagem, para lembrar título de peça de Nelson Rodrigues?

Mas disse há pouco que o termo ocupação é mais adequado que pacificação para fazer a síntese das UPPs. Claro. Pacificação significa entendimento entre pelo menos dois contrários. Quem são os contrários? O tráfico, de um lado, os moradores das favelas de outro, todos os demais habitantes da capital no terceiro vértice. Como não faz sentido admitir-se acordo com o tráfico, por razões que todos conhecem, usar a figura da ocupação é muito mais real, muito mais verdadeiro na situação em que se encontra a cidade. São quase mil favelas com um a população superior a 2 milhões de moradores, um terço dos habitantes do Rio. A meta – reportagem de Ítalo Nogueira, Folha de São Paulo de domingo, é minar os quartéis generais do crime num espaço de tempo de dois anos.

O projeto – destaca Ítalo Nogueira – é do Secretário de Segurança, José Beltrame, num esforço para assegurar a Copa do Mundo de 2014 e as Olimpíadas de 2016. Depois da Vila Cruzeiro e o Complexo do Alemão, as próximas etapas são a Rocinha e o Morro de São Carlos. O degrau seguinte a Favela da Maré. Aliás, as favelas, depois da ordem do governador Brizola em 83, para que a PM não combatesse a bandidagem no alto dos morros, transformaram-se em fortes redutos da criminalidade. Exagero? Nada disso.

Basta lembrar o exemplo extremamente  recente: o governo fluminense ao conseguiu desarticular os traficantes no Complexo do Alemão depois que blindados da Marinha de Guerra avançaram nas trilhas dos entorpecentes e conseguiram demolir as barreiras abrindo caminho para a PM e também para a Polícia Federal e Civil do estado. As barreiras do crime vinham se  mostrando inexpugnáveis. Não são mais. O que representa um êxito , uma perspectiva. Que não se deve perder por falta de recursos. Basta esquecer a demolição do elevado e investir na construção – isso sim – de nova realidade legal e social no RJ.

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