Vaca molhada, faca amolada e boi gordo

Sebastião Nery

No restaurante grã-fino de Manhatan, em Nova York, em 1979, o conjunto brasileiro tocava e cantava. Um piano elétrico, uma bateria elétrica, uma cantora elétrica. O rapaz do piano, de olhos fechados. O rapaz da bateria, de cabelos assanhados. A menina do microfone, de quadris trêmulos.

Tocaram e cantaram duas horas. Absolutamente uma só e mesma música. De quando em quando, a letra mudava. Mas o ritmo, o acompanhamento, o som, o tom, o clima, eram um só. Um samba-rock andrógino, estridente, monocórdico, chato. Transnacional.

Até que, de repente, como nos filmes de mistério, deu-se o espanto. A moça do microfone, toda branca, de longo vestido branco, começa a tremelicar o maravilhoso “Faca Amolada” de Milton Nascimento:

– “Agora, vai ser, vai ser, vai ser faca amolada, vai ser faca amolada”.

Mas ela cantava assim: – “Agora, vai ser, vai ser, vai ser vaca molhada, vai ser vaca molhada”.

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ACM MANDOU

Algum tempo atrás, houve em São Paulo uma reunião do antigo “Clube dos 13”, para discutir uma distribuição de dinheiro que ia favorecer o Santos, o Botafogo, o Bahia, prejudicando Flamengo, Corinthians, outros.

O impasse teve que ser resolvido no voto. Claro que todos imaginavam o voto do Vitória contra seu grande adversário, o Bahia. Na hora de votar, o presidente do Vitória, deputado Paulo Carneiro, gemeu lá no canto:

– “Eu sou contra o Bahia. Mas como sou do grupo do senador Antonio Carlos e ele mandou que votasse com o Bahia, meu voto é a favor do Bahia”.

ACM era como uma faca amolada.

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PERUCA DO ADEMAR

No dia 5 de junho de 1966, o general Castelo Branco cassou o mandato de Ademar de Barros, governador de São Paulo, que havia tido uma participação decisiva no financiamento da conspiração e no golpe de 1964.

Ademar recebeu a notícia pelo general Amaury Kruel, comandante do II Exército. No palácio do Morumbi, a confusão foi total. Ninguém sabia o que o derrubado governador ia fazer ou se ia querer resistir.

Convocou uma reunião do secretariado, chamou os amigos mais próximos e todos se encaminharam para o salão de despachos. Corria um frio suor coletivo. Na cabeceira da mesa, gordo e vermelho, esparramado na poltrona, calado, olhar duro, Ademar esperou que todos se sentassem. Olhou para um lado, para o outro, conferiu um por um e disse, com a voz anasalada:

– “Meus amigos, agradeço comovido a solidariedade de vocês. Sabem que o Castelo me cassou. Vocês são meus amigos e eu conto com vocês. Quero que me respondam com toda a franqueza. Da resposta de vocês, talvez dependa meu destino. De que é que eu devo ir embora? De navio ou de avião?”

Foi de avião e de peruca marrom. Parecia um boi gordo.

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