Vamos deixar para 2014 as resoluções de Ano Novo

Carlos Chagas

Último dia do ano, tempo de resoluções para o Ano Novo. Parar de fumar. Comer e beber menos. Fazer exercícios, andar a pé, deixando o carro na garagem. Tratar com carinho a mulher e os filhos. Dedicar mais respeito aos subordinados e menos subserviência aos patrões. Ler ao menos um livro por semana. Voltar a frequentar a Faculdade ou curso de inglês. Meditar sobre a existência de Deus e lembrar serem irmãs todas as religiões que pregam o amor.

Mãos à obra, mas como abandonar o último cigarrinho na virada do ano e na madrugada do primeiro dia de janeiro? De que maneira recusar a cerveja, taças de vinho ou doses de uísque que os amigos oferecem durante as celebrações? O estômago avança sobre o paletó, mas mantê-lo à mingua não seria falta de caridade? Exercícios, mesmo, só o levantamento de copo.

Ao voltar para casa de manhã, vamos deixar o carro na calçada, à disposição dos pivetes? Mulher e filhos merecem a mesma consideração a nós devida, mas se continuam irascíveis, cobrando cada minuto de nossas vidas, como inverter a equação? Aquele contínuo chato que descumpre ordens por prazer, ou a doméstica que não lava os pratos nem limpa a poeira dos móveis, merecem consideração?

O chefe que por perseguição nos ameaça com demissão precisa ser tratado com cuidado, senão cumpre mesmo a promessa. Sendo assim, melhor exaltar sua extraordinária inteligência e não esquecer o dia do aniversário de seus filhos. Livros andam caros como o diabo, melhor desculpa não há para deixa-los nas vitrinas das livrarias, e quanto à Faculdade abandonada há tantos anos, é preferível não voltar a frequenta-la junto com essa juventude que nada sabe da vida. Estudar inglês para quê? A língua da moda é o chinês, sem professores à disposição.

Quanto à existência de Deus, o problema é muito mais Dele do que nosso. Afinal, se pode e não quer acabar com a miséria e o crime, não merece nossas devoções, e se quer e não pode, pior ainda: precisa fazer vestibular para todo-poderoso. Sobre a irmandade das religiões, basta ver como se combatem e se desprezam, cada uma imaginando deter a verdade absoluta negada a todas.

Em suma, o dia 31 já se esgota e nossas resoluções de ano novo tornam-se impraticáveis. Quem sabe possamos retomá-las quando chegar o final de 2013?

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