Vargas demitiu Simões Filho pelos jornais; Dilma copia o método

Pedro do Coutto

No seu governo constitucional que começou em 51, Vargas nomeou Simões Filho, diretor presidente de A Tarde, até hoje o maior jornal de Salvador, para o Ministério da Educação. Menos de um ano depois houve um desentendimento e Simões encontrava-se na Europa quando recebeu um telegrama do presidente da República agradecendo sua atuação e substituindo-o por Antonio Balbino, também da Bahia. Ocorre que os jornais receberam cópia do telegrama antes que tivesse ele chegado às mãos do destinatário, em Lisboa, se não me engano.

Foi demitido pela imprensa. Mas não passou  recibo. Em termos irônicos, porém cortezes, referiu-se à distinção que lhe coube participar da administração pública. Simões vestia-se com apuro, ternos de casimira inglesa, chapéu e bengala, o que começava a deixar de ser moda já naquele tempo. Ao escrever este artigo me vem à lembrança a imagem de Simões Filho no velório de Vargas em 54, tradicionalmente vestido, depois acompanhando a saída do corpo do Palácio do Catete até o Aeroporto Santos Dumont, de onde Vargas rumou para São Borja na derradeira viagem para a história. Apesar da demissão pela imprensa, Simões permaneceu amigo de Getúlio.

Quase sessenta anos depois, a presidente Dilma Rousseff praticamente demitiu, pelos jornais, o deputado Luiz Sérgio do Ministério de Relações Institucionais. Nas edições de sexta-feira, a Folha de São Paulo em matéria não assinada, O Estado de São Paulo através de reportagem de Cristiane Samarco r Denise Nadueno, e O Globo, por intermédio de Cristiane Jungblut, Adriana Vasconcelos e Isabel Braga, excelentes todos os textos, revelaram que, antes de exonerar Luiz Sérgio, a presidente da República expunha abertamente que havia sondado a ex-senadora Ideli Salvatti para substituí-lo. Com isso, claro, o demitiu indiretamente. 
Se  Luiz Sérgio demonstrou não ter perfil para ocupar o posto co convés
 institucional, no Senado Ideli Salvatti afirmou-se uma parlamentar combativa, não uma articuladora. Aliás não é fácil articular aproximando pessoas e vontades. E os impulsos naturais de pessoas, nesta fase política atual, mais exacerbada do que no passado? Que fazer?

Resposta: Estabelecer um projeto político econômico que seja a síntese, o denominador comum, das correntes de sustentação do executivo no Congresso. Ninguém pense que a consolidação dessa maioria se consegue através apenas da distribuição de  cargos a torto e a direito. Não é isso. A maioria se alcança com a representação partidária no governo, sim, mas em torno de objetivos políticos definidos.

Há mais de meio século, numa entrevista a mim para o Correio da Manhã, o presidente Juscelino afirmava que, sem maioria parlamentar, governo algum se sustentava. E recorria a exemplos nacionais e internacionais. Entre estes o da França que, de impasse em impasse, teve que buscar De Gaulle para reassumir o poder em 1958. Era a chamada Quinta República.
E no Brasil, Vargas perdeu a maioria e com isso o prumo e o rumo dos acontecimentos. Café Filho perdeu a maioria e sofreu impeachment. Jânio Quadros perdeu a maioria e renunciou em 61. João Goulart perdeu a maioria e foi deposto pelo golpe militar. Ele, JK, lembrava, nunca perdeu a maioria parlamentar. A entrevista a que me refiro saiu no início de 64. Jango perdia a maioria. Com isso, o sonho de JK de retornar triunfalmente nas urnas de 65 desfez-se nos quartéis da ditadura.

Dilma Rousseff não está ameaçada de perder o comando absoluto no Congresso. Mas precisa montar um projeto político. Cooptar não resolve a questão essencial.

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