Vargas e a censura no Estado Novo

Antônio Santos Aquino:
“Helio, minha admiração e o apreço que tenho por você, não é de hoje. Mas em 1943, mesmo antes da entrevista de Jose Américo, dada a Carlos Lacerda, Getulio se preparava para acabar com a censura”.

Comentário de Helio Fernandes:
Apreço e admiração, mútuos. Acontece que os fatos, vividos, lembrados, contados sem o menor interesse, são diferentes. Depois da entrevista, Vargas implantou a mais terrível das censuras, aquela que não pode ser quebrada ou ultrapassada de jeito algum. Vargas mandou Lourival Fontes chamar os donos de jornais, para uma conversa com ele.

Foram todos, lógico. Vargas estava sentado, disse que podiam ficar em pé mesmo. “O que vou dizer aos senhores, é muito breve. Não existirão mais censores nas redações, os senhores serão responsáveis pelo que sair nos seus jornais e revistas. Boa tarde”.

Bestial, pá. Digamos, os censores cortavam 50 por cento, os donos cortavam 100 por cento, e ainda procuravam mais. É isso que se chama, “acabar com a censura?”

Antes disso, Vargas já andava irritadíssimo, que era o seu normal ou habitual, quando não conseguia “comprar o silêncio de alguém”, ou como diz a Constituição em caso de desapropriação, “pagando o justo valor”.

Vejam só esse episódio, rigorosamente verdadeiro. No tempo dos censores, todas as matérias precisavam da rubrica de um deles. O trabalho era muito, os jornais tinham horário para “fechar”, havia uma espécie de “acordo mútuo”.

Um dia, Rubem Braga (chamado sempre de “cronista maior”), escreveu um artigo, com o título, “O Fícus da Praça Paris”. O censor viu, rubricou, saiu.

Para quem não conheceu a belíssima Praça Paris, e seu “Fícus” arredondado, o censor fez muito bem em liberar o artigo. Acontece que Rubem Braga comparava o FICUS COM A BUNDA DE GETÚLIO, assim mesmo, sem nenhuma ressalva. E embora o “sabiá da crônica”, conhecesse o Fícus, logicamente não conhecia a bunda de Vargas, mas podia imaginá-la, pelo fato de ser baixinho e gordinho.

Aquino, um abraço, tudo fato, fato, fato, nenhuma invenção.

Amanhã, segunda-feira, termino o exame do que
Lacerda fez como governador. Não pretendia voltar,
mas como acharam que esqueci ou omiti muita coisa,
(o que é verdade), termino dando razão a todos.

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