Vem aí a operação Lava-Cunha

Luiz Tito
O Tempo

O deputado Eduardo Cunha, presidente da Câmara, anunciou na última sexta-feira sua decisão de deixar a base de apoio político à presidente Dilma, instalando-se na oposição ao governo. Ainda que quisesse deixar clara sua determinação de se tornar um opositor apenas como parlamentar, sem envolvimento da autoridade formal que tem como presidente da Câmara, no mesmo dia de seu rompimento cuidou de encaminhar ao plenário a informação de que serão instaladas duas novas CPIs: a que investigará supostas irregularidades nos empréstimos do BNDES e outra dedicada a passar a limpo as operações dos bilionários fundos de pensão. Prometeu ainda endurecer o debate de medidas que se fazem necessárias ao ajuste da economia. A Eduardo Cunha isso não importa. É problema do país, não dele.

Seja pela sua maneira agressiva de sempre se relacionar politicamente – usando uma autoridade moral que, definitivamente, sua trajetória de homem público revela que ele não tem –, seja por se dar de forma inoportuna a sua reação, ou a conjugação de ambas, o certo é que Eduardo Cunha não aliviou sua já frágil condição de pré-investigado como favorecido por propinas da operação Lava Jato como também ainda adiantou os serviços da Polícia Federal e do Ministério Público Federal nos dois trabalhos.

BNDES E FUNDOS DE PENSÃO

Há muito que se espera uma investigação nessas duas áreas, ambas suspeitas de abrigar tramoias em sucessivas denúncias, mas que nunca foi adiante. O BNDES e os fundos de pensão das estatais são entidades que administram grandes interesses econômicos, custodiam e empregam recursos públicos de considerável monta. As insistentes suspeitas de que operam bandalheiras são muito frequentes e estão no cotidiano da imprensa. Investigá-los, se nada devem, certamente os ajudará. Pelas responsabilidades que têm, pelos patrimônios que administram, sobre eles não deveriam pairar dúvidas. Como se obrigava Pompeia: “à mulher de César não basta ser honesta; tem que parecer honesta”.

Se nada for apurado, segue o jogo. Se forem encontradas falcatruas, que seja bem sucedida a nova operação Lava-Cunha, com a prestimosa colaboração do sistema penitenciário. De tudo, porém, o que é certo agravar nossas incertezas é a dependência que a nação tem hoje de figuras e instituições como as que se impõem no nosso cotidiano, de cujo humor ou simples vontade pessoal se ampliam ou se retraem deveres e direitos que afetam toda vida nacional.

NADA MUDA

Há décadas que o jogo é o mesmo. Nada muda, nem mesmo seus personagens. As armações, a forma de se construir apoios e bancadas, os mesmos favores, as mesmas moedas de troca. E, a cada quatro anos, o que vemos é que essa turma manda mais, ganha mais, fica mais poderosa, econômica e politicamente. Assistimos e ajudamos para que isso se consolide.

Quantos são os que elegemos e reelegemos sem limites para vomitar a mesma ladainha de sempre, a mesma lorota, a mesma enganação? Anos, décadas da mesma história. Se eles se vão, por especial favor da morte, deixam filhos, sobrinhos, netos para sucedê-los nas mesmas práticas. Que horror.

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