Vem aí o verão dos apagões?


Prof. Adilson de Oliveira
Instituto de Economia/UFRJ

O consumo de energia elétrica vem tendo comportamento atípico em 2014. No verão passado, o consumo de energia cresceu a taxas chinesas, impulsionado pelo verão escaldante que provocou o uso intensivo dos aparelhos de ar acondicionado. Passado o verão, o consumo de energia elétrica vem arrefecendo paulatinamente, infelizmente como resultado da redução da atividade industrial. Desde julho, pela segunda vez em nossa história (a primeira foi no racionamento de 2001!), o consumo de energia elétrica brasileiro tornou-se declinante.

Esse comportamento esdrúxulo tem sua origem na atual política de preços da energia que desestimula as atividades produtivas ao repassar os custos da estiagem para as tarifas dos consumidores industriais, porém estimula o consumo suntuário de energia postergando o repasse desse custo para os consumidores residenciais e comerciais para anos ulteriores. Preservada essa política tarifária, os brasileiros serão duplamente penalizados nos próximos anos: com aumentos tarifários e com a redução dos empregos industriais.

ESTIAGEM

A atual estiagem reduziu drasticamente a capacidade de geração hidrelétrica. As centrais térmicas passaram a ser intensamente despachadas para evitar o colapso do abastecimento elétrico do país. Infelizmente, esse despacho não tem sido suficiente para impedir que a trajetória de esgotamento dos reservatórios hidrelétricos. Se não forem tomadas medidas imediatas para a reversão dessa trajetória, chegaremos ao próximo verão com os reservatórios hidrelétricos em patamares muito preocupantes (abaixo de 15% no Sudeste e no Nordeste).

Nesses níveis, o ONS terá muita dificuldade para atender picos de consumo de energia similares aos que ocorreram no verão passado. Somente a conjunção favorável de um verão ameno com chuvas torrenciais nos livrará de sucessivas dificuldades localizadas para o suprimento de energia. Esse cenário indica que São Pedro terá que ser magnânimo com nossa imprevidência no próximo verão, para evitar uma crise de abastecimento que, é bom frisar, não se limitará ao setor energético. Como estamos aprendendo, a água dos reservatórios hidrelétricos tem usos mais nobres (necessidades humanas, agricultura, pecuária, pesca, transporte fluvial etc.) que a geração de energia. São imperiosas medidas imediatas para evitar o risco de uma grave crise no abastecimento de água e energia em 2015.

SEM CONDIÇÕES OPERACIONAIS

O ONS nos informa que mais de um quarto do parque gerador térmico convencional não reúne condições operacionais para ser despachado por razões diversas tais como necessidade de manutenção preventiva, dificuldades de acesso ao suprimento de combustível, etc. A medida mais óbvia para evitar os riscos apontados acima é a remoção desses obstáculos que inviabilizam o despacho pleno do parque gerador térmico existente. Esse despacho reduzirá o ritmo de esgotamento dos reservatórios, porém terá como corolário o aumento das tarifas elétricas para compensar a elevação do despacho térmico.

A oferta de incentivos tarifários, para que as residências e o comércio reduzam voluntariamente seus padrões de consumo, é alternativa economicamente mais eficiente. Neste caso, o esgotamento dos reservatórios também será estancado sem que os consumidores sejam penalizados com aumentos tarifários. Como aprendemos no racionamento de 2001, se convocados e estimulados, os consumidores são capazes de rapidamente alterar seus padrões de consumo perdulários com usos eficientes da energia.

Infelizmente, o governo reluta em adotar medidas que possam alterar a trajetória atual de esgotamento dos reservatórios hidrelétricos. A Aneel anunciou que pretende seguir caminho tortuoso para incentivar a redução do consumo de energia em 2015. Sua proposta é a penalização indiscriminada dos consumidores, sejam eles perdulários ou não, com aumentos no preço da energia. Esses aumentos de preços, calculados sem critérios objetivos, flutuarão ao sabor da conjuntura pluviométrica percebida pela burocracia elétrica.

Na sistemática de bandeiras tarifárias, passada a conjuntura de estiagem, os aumentos no preço da energia serão removidos. Dessa forma, mudanças estruturais nos padrões de consumo não são estimuladas. Mais ainda, os consumidores que racionalizarem seu consumo repartirão os benefícios econômicos de sua redução de consumo com aqueles que, egoisticamente, optarem por preservar padrões perdulários de consumo nos períodos de estiagem. Pouco efetivos e aplicados tardiamente, os aumentos tarifários impostos nas bandeiras tarifárias não removem o risco de virmos a conviver com sucessivos apagões localizados no verão de 2015. (texto enviado por Mário Assis)

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