Versões e verdades sobre a importância de 1963, o ano que projetou a política brasileira para outro vergonhoso e sangrento período ditatorial

Assíduos participantes do blog, voltam a 1963, trazem contribuição, apresentam versões, muitas bem razoáveis, outras sem sentido. Responderei sem contestar. Às vezes, retificando.

Assim, enquanto a campanha eleitoral mergulha na mediocridade, numa profundidade inimaginável, por exigência dos seguidores, voltemos a 1963. Não por causa da minha primeira prisão e o meu primeiro julgamento, mas pelo que 1963 representaria para 1964.

Como eu disse que todos poderiam concordar, discordar, analisar e responder, para satisfação geral, como eu citava fatos, fatos, fatos, e não trazia a impressão de auto-elogio, se limitaram a sugerir novos episódios.  47 anos decorridos, permitem interpretação do que aconteceu.

José Antonio traz a versão do “maquiavelismo”. Os generais teriam me dado “um furo”, eu acreditei, “caí nele”, era o que pretendiam, me deixar satisfeito com o “furo”. Desculpe, ninguém ali era “maquiavélico”, e sim ambiciosos, sedentos de Poder.

De qualquer maneira, José Antonio, tendo o repórter na mão um documento OFICIAL, com os carimbos SIGILOSO e CONFIDENCIAL, não deixaria de publicar de maneira alguma. Não era o meu direito, e sim a minha obrigação. Pelo documento e pela autenticidade da fonte.

O cultíssimo, estudioso e altamente competente e participante Schossland, (que vem em linha reta da Tribuna de papel) considera que a fonte não era confiável, Cordeiro de Farias “seria conservador”, perdera a eleição de 1950 no Clube Militar para o general Newton Estilac Leal, de esquerda e bem radical.

A eleição de 1950 é verdadeira, a vitória também. Só que Estilac foi apoiado por Vargas, (pela primeira vez na vida eleito presidente) e pelos generais que perderam em 1945 com o fim da ditadura e do ditador.

Tanto isso é verdade, que quando Golbery e Lacerda (então amicíssimos) começaram campanha para a NÃO POSSE de Vargas, em 1951 Estilac deixou a presidência do Clube Militar, assumiu o Ministério da Guerra, a “oposição” desapareceu. Naquela época só generais da ativa podiam presidir o Clube histórico. (O Marechal Hermes da Fonseca deixou a Presidência da República em 15 de novembro de 1914 e foi presidir o Clube). Hoje só militares da reserva podem presidi-lo.

Além do mais, informação não tem IDEOLOGIA. Se o informante era altamente respeitado, por que procurar depreciá-lo? Cordeiro tinha biografia mais consistente, Estilac apenas um apelido e mais nada, ficou pouquíssimo tempo ministro. Garantiu a posse, não podia garantir O GOVERNO, que NÃO EXISTIRIA, foi DEMITIDO.

Também é impossível desconhecer o destaque de Cordeiro de Farias, nos mais diversos tempos, incluindo a ligação com Vargas. Em plena ditadura, quando morreu o Interventor do Rio Grande do Sul, general Daltro Filho, quem foi nomeado para substituí-lo? Cordeiro de Farias.

Deixou o cargo para ir para a Itália com a FEB. Foi destacado (general), e Castelo Branco era ainda tenente-coronel, e como o marechal Floriano de Lima Brayner conta em dois livros importantes, foi total VEXAME,  quase criminoso, ao planejar o ASSALTO AO MONTE CASTELO, a grande perda da FEB,

Mais tarde, Cordeiro foi GOVERNADOR ELEITO DE PERNAMBUCO, o Estado mais ESQUERDIZADO DO BRASIL. Como considerá-lo de DIREITA?

No histórico 29 de outubro, quando Vargas se agarrava de todas as maneiras ao Poder, e tresloucadamente nomeava o irmão Beijo (estróina, que vivia em cassinos, bêbado e dando tiros para o alto) para o importantíssimo cargo de Chefe de Polícia, o próprio ditador dizia publicamente: “Só morto saio do Catete”. Foi Cordeiro que o procurou e explicou: “Presidente, o senhor não tem mais nenhum apoio, o Exército dará a garantia de que nada lhe acontecerá”.

Vargas aceitou, saiu bem vivo com o Cardeal protegendo-o. (O mesmo que acontecera com Washington Luiz, derrubado por Vargas em 1930, faltando 42 dias para o fim do mandato. Só que fora eleito).

Martim Berto Fuchs, aparece com outra versão, de jeito algum despropositada. Segundo ele, Jango agradava aos dois lados. “Prendia o jornalista, que combatia os grupos multinacionais, e agradava Roberto Marinho e Lincoln Gordon”. É possível, é possível, em matéria de contradição, nada era impossível para João Goulart.

Edson Carvalho, revelando (ou parecendo) sua formação, dá como fundamental para tudo o que aconteceu a partir dali, fatos militares de importância, extraordinários e que não podem ser contestados. “A PASSAGEM PARA A RESERVA DE OFICIAIS NACIONALISTAS”, que procuravam impedir o domínio da tropa por comandos ULTRA-DIREITISTAS.

E foi o que aconteceu. Edson traz a sua palavra de historiador militar, como Nelson Werneck Sodré, e indo bem mais longe, Sergio Buarque de Holanda. Embora os dois não tivessem a menor ligação no tempo e nas convicções, as citações reforçam a seriedade do depoimento.

Obrigado ao Marcilio pelas considerações, pelos comentários, e a todos pelo interesse (histórico, coletivo e não pessoal) em debater e tentar desvendar o que aconteceu em 1963.

Consequencia das VITÓRIAS e DERROTAS de ALTOS GENERAIS, em 1945, 1950, 1955, 1961, nesse 1963 e 1964, que APANHOU TODOS OS CONSPIRADORES DESPREPARADOS. Menos os militares.

***

PS – É fascinante para todos nós, o debate a partir de episódios vividos ou participados, longe das enciclopédias que podem ser consultadas apressada, fugaz, voluptuosa ou satisfatoriamente.

PS2 – Alguns dos que se intitulam HISTORIADORES, confessam que vão ou foram BUSCAR as “suas verdades” nos jornais de época. É a “memória”, retirada do freezer do tempo, servida de maneira inteiramente CONGELADA.

PS3 – Muitos podem acreditar que, como cito de 1945 a 1964, 19 anos seria um tempo exagerado. Vários deles vieram de 1930 e chegaram a 1964, é a pródiga e prodigiosa geração de 22/24.

PS4 – Para alguns poucos, elogio. Para outros, apenas o exercício “repetido e exuberante do Poder”, sem qualquer respeito ou consideração pela coletividade.

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