Violência financiada nos estádio

Carla Kreefft

A violência nos estádios de futebol provoca a indignação de todos, mas o fato que não é lembrado é a responsabilidade do poder público por essa barbárie.

Os clubes recebem verba do governo federal. O que se sabe é que o repasse não é um montante pequeno. Parte dos recursos arrecadados com as loterias e do chamado recolhimento social (impostos pagos pelas empresas empregadoras) é destinada ao esporte, contemplando, assim, os clubes de futebol. Mas como os clubes são entidades privadas, eles não explicam como usam as verbas públicas.

Do outro lado, é sabido que as torcidas organizadas recebem estímulos dos clubes. São ingressos, transporte (ônibus fretados), camisas, instrumentos musicais, lanches etc. Assim, não seria muito exagero afirmar que o dinheiro público também financia as torcidas organizadas. A pergunta que fica é o que os clubes e o poder público exigem de contrapartidas das torcidas.

O que se vê na mídia são sempre notícias das organizadas relacionadas à violência nos estádios, brigas com as rivais ou mesmo entre elas. Da parte dos clubes, que são os que recebem os recursos federais, não é possível identificar iniciativas positivas. Essas entidades poderiam desenvolver trabalhos com crianças carentes, ensinando futebol e, ao mesmo tempo, garantindo a elas uma boa formação escolar. Mas o caminho escolhido parece ser muito diferente. As crianças e adolescentes que são “adotados” pelos clubes são tão exigidos no esporte que, quase sempre, abandonam a escola formal. Meninos como Neymar, Pato e Ganso, que se tornaram grandes estrelas do futebol, tiveram condições de estudar? Quando abandonaram a escola? E onde estão os outros meninos que, ao contrário das estrelas, não mostraram excepcional talento? Eles estão levando uma vida digna após a passagem pelos clubes? São perguntas que não são respondidas, pelo menos, publicamente.

Governos federal e estaduais, clubes de futebol e torcidas organizadas não estão interessados em resolver a violência. Essa preocupação está restrita aos torcedores que vão ao estádio realmente para torcer. Esses são pacíficos, levam suas famílias para assistir aos jogos e esperam ter o direito de torcedor respeitado.

O futebol é o espetáculo preferido dos brasileiros, mas tem sido usado com objetivos muito pouco nobres. O esporte se mistura com a política no pior ponto de convergência: a corrupção. E aí o resultado não poderia ser nada diferente da violência e do desrespeito aos direitos do cidadão-torcedor.

O Estatuto do Torcedor é um avanço, mas não tem sido aplicado devidamente. A impressão que se tem é que a proteção existe apenas para as cúpulas que estão no comando. Quem enfrenta fila e paga ingresso está abandonado. (transcrito de O Tempo)

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