“Virada eleitoral” pregada por Alckmin é um fato raro na história do país

As esperanças de Alckmin não parecem ter base real

Silvia Amorim
O Globo

A reviravolta eleitoral pregada pelo pré-candidato à Presidência Geraldo Alckmin (PSDB) para chegar ao segundo turno é tão incomum em eleições presidenciais que, se concretizada pelo tucano, será um feito. Desde a redemocratização, apenas uma vez um presidenciável com a intenção de voto de Alckmin conseguiu uma vaga na reta final.

Foi em 1989, quando o ex-presidente Lula chegou ao segundo turno contra Fernando Collor. A quatro meses daquele pleito, o petista tinha 7% nas pesquisas, mesmo patamar de Alckmin hoje. Faltando um mês para a eleição, ele superou o segundo colocado, Leonel Brizola, e ficou com a vaga para enfrentar Collor.

CASO ÚNICO – Trata-se, entretanto, de um caso único. Nas demais corridas presidenciais, a previsibilidade dominou, e chegaram ao segundo turno aqueles candidatos que, entre abril e maio, já ocupavam o primeiro e segundo lugares nas pesquisas. Em todos esses casos, a disputa foi entre PT e PSDB.

Estagnado nas pesquisas com 6% a 8% das intenções de voto, Alckmin (PSDB) tem pregado que a melhora do seu desempenho virá com o início da campanha em agosto. Para dar lastro ao seu prognóstico, ele destaca viradas de tucanos em eleições estaduais e municipais, como a do ex-governador de São Paulo Mario Covas em 1998 e a do ex-prefeito João Doria, em 2016. Mas nunca menciona que, em nível nacional, esse é um fato isolado.

Dentro e fora do PSDB, políticos desconfiam das chances de Alckmin nesta eleição. Em 2006, ele chegou ao segundo turno contra Lula.

META DE VOTOS – Na tentativa de acalmar os ânimos, o tucano projetou pela primeira vez, na semana passada, uma meta de votos para estar no segundo turno. O tom foi tranquilizador.

— Se chegar a 17%, estamos lá — disse Alckmin, numa palestra em São Paulo.

Alckmin aposta num confronto direto com o pré-candidato do PSL à Presidência, Jair Bolsonaro, ainda na pré-campanha, para “chegar lá”. As primeiras investidas de polarização com o deputado foram registradas na semana passada. O tucano acusou Bolsonaro de ser igual ao PT. O pré-candidato do PSL reagiu, e um bate-boca entre os dois se arrastou por dois dias nas redes sociais.

PRESSUPONDO – Bolsonaro ocupa o segundo lugar nas pesquisas com Lula, enquanto Alckmin fica em quinto. Sem Lula, o deputado é líder. A confiança que Alckmin tenta transmitir de que estará no segundo turno apoia-se em fatores imprevisíveis. Um deles é que a candidatura de Jair Bolsonaro (PSL) murchará ao longo da campanha por tropeços decorrentes da inexperiência dele em eleições majoritárias.

Outro foco de esperança tucana é a falta de estrutura partidária por trás do adversário. Alckmin também não acredita que a influência das redes sociais será decisiva na eleição e continua apostando no horário eleitoral. Bolsonaro pensa exatamente o oposto.

Para reduzir a desconfiança em Alckmin, tucanos recorrem, às vezes, a argumentos equivocados. “Olhem nas últimas eleições quem as pesquisas indicavam como vencedor a cinco, seis meses da votação. Vocês vão ver que o acerto é mínimo” — disse o coordenador do plano econômico de Alckmin, Persio Arida, ao sair em socorro do pré-candidato durante uma entrevista.

Na maioria das eleições presidenciais, no entanto, o líder nessa fase da disputa foi eleito. Apenas em 1994 e 2010 isso não aconteceu.

PIOR DESEMPENHO – Aliados de Alckmin minimizam o histórico de reviravoltas, alegando que 2018 será um pleito diferente de todos os outros. O próprio pré-candidato tem rejeitado comparações.

— O pessoal compara com a eleição do Collor em 1989. Não tem nada a ver. Aquela era uma eleição só para presidente. Agora vamos votar para seis cargos. Teremos os melhores palanques do Brasil e chegaremos lá — disse Alckmin.

Articuladores tucanos destacam o que consideram vantagens do pré-candidato este ano. Com poucos recursos à disposição das campanhas, eles defendem que os grandes partidos terão condições de oferecer melhor estrutura a seus candidatos do que siglas pequenas. A eleição mais curta, de apenas 45 dias, exigirá, dizem eles, apoiadores e rede partidária organizados para buscar votos em pouco tempo. Já em relação à ameaça de rejeição nas urnas de velhos políticos, alckmistas apegam-se ao imponderável.

5 thoughts on ““Virada eleitoral” pregada por Alckmin é um fato raro na história do país

  1. Esses argumentos em prol da candidatura do Alckmin tem fundamento, mas podem ser aplicados a outros candidatos, menos a ele mesmo: candidatos envolvidos em denúncias de corrupção serão sumariamente rejeitados nas urnas. Exceção feita aos alienados do lulopetismo, é claro.

    De fato, essa eleição será atípica, e será decidida pelos 61% que hoje se colocam entre indecisos, nulos e brancos. Estes últimos acredito que acabarão tomando uma posição na última hora, o país está conflagrado, os eleitores estão mordidos e não vão se omitir. Meu palpite é que as abstenções se manterão, pelo menos, na média, e elas se dão por N motivos, não só por mera indiferença ou rejeição ao processo.

    Os exemplos dos estados são pertinentes mas mesmo nas presidenciais a previsibilidade não é tão frequente quanto tenta passar a matéria.

    A eleição de Collor foi uma surpresa, ele partiu de índices baixíssimos, era um outsider, não tinha partido, foi inflado junto com o Lula pela Globo para derrotar o Brizola, que depois detonou o Lula para elege-lo, e o resultado dessas manobras conhecemos bem. Aliás, é preciso ter presente que o establishment, Globo incluída, ainda não bateu o martelo na escolha do seu candidato.

    Em 2014 também as coisas não foram assim tão previsíveis. Eduardo Campos vinha numa trajetória de ascensão em índices maiores que os adversários até o acidente, quase dois meses antes das eleições, tempo suficiente para uma virada. Marina Silva pegou o bastão, esteve a frente de Dilma e superaria a petista no segundo turno, segundo as pesquisas. O pouco tempo de televisão, a artilharia pesada e suja dos contendores, num apelo a baixaria nunca visto em campanha, acabaram por derrota-la. Acho que ainda é possível sim outro candidato emergir com potencial de vitória, que até pode ser o Alckmin, mas é pouco pouco provável.

  2. Alckmin deixou um vice com personalidade que poderá(ia ?) ajudar muito sua campanha.

    O problema é que o seu partido(PSDB) lançou um candidato ao governo do estado(Dória) que tudo indica irá atrapalhar muito mais do que ajudar nos planos para chegar a Presidência. Afinal de contas o Alckmin está com quem? Com Marcio França ou com João Dória? Com os 2 ao mesmo tempo? Pior ainda vai ficar se os 2, Dória e Marcio França forem para o 2º turno. Se o Alckmin estiver disputando contra o Ciro Gomes por exemplo vai ficar difícil pois o PSB fatalmente vai estar apoiando o Ciro Gomes. O menos ruim para o Alckmin seria disputar contra o Bolsonaro no 2º turno.

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