Vitória da Ferrari, derrota moral do esporte

Pedro do Coutto

A nova decisão da Ferrari mandando Felipe Massa afrouxar o pé do acelerador para que seu companheiro de escuderia, Fernando Alonso, vencesse o grande prêmio da Alemanha foi uma nebulosa vitória nas pistas de alta velocidade, mas uma derrota moral do esporte nas raias da ética e do compromisso com a luta pela vitória. Princípio essencial e insubstituível do esporte. De todos os esportes.

A matéria de Lívio Orichio, enviado de O Estado de São Paulo para cobrir a prova, focalizou perfeitamente o episódio vergonhoso. E injustificável. Tanto assim que a Federação Internacional de Automobilismo aplicou a multa de 100 mil dólares a Ferrari. A Ferrari, inclusive, é reincidente. Em 2002, determinou a Rubens Barrichelo que deixasse Schumacher passá-lo. Foi uma tempestade. A Fórmula 1 custou a desmanchar a imagem negativa que o fato lhe causou. Agora acontece de novo com a mesma empresa.

Riquíssima, tradicional fabricante de automóveis até de superluxo, não tinha necessidade de aplicar mais um golpe baixo, não só no universo do automobilismo, mas sobretudo na consciência esportiva mundial. Beneficiado em 2002 por uma farsa acintosa, Schumacher disse a Orichio apoiar a decisão repetida agora. Não importa. O que importa é a violação da regra pétrea das competições: a luta pela vitória.

Por exemplo, no futebol, se uma equipe estiver precisando da vitória de outra para se classificar melhor num campeonato, seja ele qual for, poderá oferecer um “bicho” adicional a esta. É normal. Está pagando para que ela se empenhe pela vitória. Nada a dizer. Entretanto se oferecer recompensa pela derrota, estará infringindo irremediavelmente a estrutura ética e moral da competição. Como o Peru, na Copa do Mundo de 78, em Buenos Aires, fez contra nós, entregando vergonhosa e acintosamente o jogo para a Argentina. Eram as quartas de final. Tínhamos vencido a Polônia por 3 a 1. A Argentina enfrentava o Peru. Precisava vencer pela diferença de três gols. O Peru sujou o futebol permitindo sua própria derrota por 6 a 1.

A revolta se generalizou. Mas João Havelange, presidente da FIFA, então, nada pôde fazer. Como brasileiro, estava impedido de agir. Uma página negra incorporou-se à história do futebol.

À noite, para estarrecimento geral, a Rede Globo levou ao ar uma mesa redonda comandada por Armando Nogueira e integrada por Pelé, Rubens Mineli e o jornalista Rui Osterman, que focalizou a partida com uma naturalidade olímpica, quase aristocrática, como se nada de anormal houvesse acontecido. No dia seguinte, Bonifácio Sobrinho, que era diretor geral da Globo, mandou Cid Moreira ler no Jornal Nacional um comentário de repúdio à atitude peruana. Pelo menos houve uma reação de parte da própria emissora. Um episódio profundamente vergonhoso e imoral, quase passando em branco na imagem e na voz de quatro comentaristas. Sendo um deles, o que foi pior, o maior jogador de futebol do mundo de todos os tempos. Como, aliás, é até hoje.

Episódios como os da Copa de 78 e do Grande Prêmio do Automobilismo da Alemanha em nada acrescentam à beleza e à emoção do universo esportivo. Ao contrário. O deprimem e agridem todos aqueles que, com entusiasmo, torcem pelos seus times, por suas seleções, pelos seus ídolos. No caso da Fórmula Um, vê-se mais uma vez, ídolos de barro.

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