Vitória nas urnas não representa cheque em branco para Dilma


Pedro do Coutto
Excepcionais o título e o texto da matéria da jornalista Flávia Barbosa, publicada na edição de terça-feira 28 em O Globo. Correspondente do Jornal em Washington, tomou como base as impressões de brasilianistas americanos a exemplo de Peter Hakim e Hanes Green e alcançou uma síntese perfeita que traduz a realidade política do Brasil às speras do fim do mandato atual e o início da renovação do ciclo da presidente Dilma Rousseff no Palácio do Planalto.
É exatamente isso. Pois a verdade revelada pelas urnas de domingo passado assinala uma forte divisão da sociedade brasileira separada por uma margem estreita no mar da sociedade e, assim, da opinião pública.

Dilma
Rousseff, no fundo da questão, vai enfrentar um noco desafio de agora para seu desempenho ao longo do mandato revigorado. Os brasilianistas inclusive lembram o slogan de sua campanha: governo novo, ideias novas. Mudanças terão de ocorrer para equilibrar os avanços sociais alcançados com o degelo nos níveis de corrupção que se instalou no país a partir da Petrobrás.
Será indispensável enfrentar tal situação, verdadeiro desafio administrativo, sem comprimir os índices atingidos pela distribuição de renda, apontada pelos dois professores e pesquisadores da realidade brasileira, como um passo importante num país da dimensão praticamente continental do Brasil. Peter Hakim, inclusive, possui ao longo de sua vida acadêmica 50 anos de pesquisas relativas a nosso país, conjugando simultaneamente seus vários ângulos.
JULGAMENTO COLETIVO
Mas eu disse que o título da reportagem de Flávia Barbosa constitui uma síntese absolutamente clara da fase pós urnas de 2014. Isso porque em política, para início de conversa, não existe cheque em branco. Pelo contrário. A conquista dos espaços da opinião pública é um processo quase diário de afirmação expostas ao julgamento coletivo através dos meios de informação. Acertos e erros se encontram colidindo em campos opostos de pensamento a cada 24 horas. As parcelas vão se acomodando nos universos da razão e da emoção e, creio, a cada espaço de trinta dias surge uma totalização que chega à população de modo geral. Exatamente por isso, e a partir daí,  cotejam-se os índices favoráveis e contrários à administração. Não falo só da administrações, em todas as épocas. Será eternamente assim.
Com base na acumulação e mistura das tendências favoráveis e contrárias é que se extrai a síntese sobre o desempenho de um governo. De todos. Agora, por exemplo, sobre a atuação do governo que se encerra a menos de três meses e o que começa para um período de quatro anos. Esse processo de julgamento coletivo é insubstituível. E fica, de uma forma ou de outra, gravado para sempre na história dos países, das nações, e do que aconteceram com elas, de bom e de ruim, durante os governos que tiveram.
Não é fácil conquistar o apoio da maioria da sociedade. Pelo contrário. Por isso mesmo é que fotografia das urnas será sempre retocada ao longo dos mandatos políticos gerados por elas. Daí porque vencer uma disputa eleitoral não é capaz de fornecer cheque em branco a pessoa alguma. Porque o princípio básico da política baseia-se num teorema  eterno: algo que tem de ser comprovado na prática. Não é um axioma. Não é uma fantasia. No fundo, ninguém engana a sociedade de um país.

4 thoughts on “Vitória nas urnas não representa cheque em branco para Dilma

  1. Só para lembrar a eleição de 2000 nos EUA:
    “George W. Bush venceu por A eleição de 2000 se constituiu numa das maiores fraudes da história deste país, tornando-se motivo de galhofa no mundo inteiro. Apesar de ter recebido 539.898 votos populares a menos do que seu adversário, o democrata Al Gore, Bush foi beneficiado por uma vergonhosa sentença da Suprema Corte, que decidiu, por cinco votos a quatro, validar a irregular apuração na Flórida. Esta apuração, que se arrastou por quase 40 dias, foi coordenada pela secretária de Estado Katherine Harris, que, por coincidência, também era a co-presidente do comitê da campanha do Partido Republicano no Estado, por acaso governado pelo irmão Jeb Bush. Até hoje, muitos estadunidenses encaram a primeira eleição de Bush como um golpe de estado”

    Agora fica a pergunta o povo americano ficou dividido depois da eleição de 2000 ? N A O TIL, NÃO !
    O americano é patriota , o país está acima de tudo. Todos americanos precisam do país unido, não dividido.

    Porque o brasileiro é assim tão desunido ?

  2. Depois da eleição , assim ficou a nova câmara dos deputados . Do total de cadeiras da Câmara Federal, 513, a base ficou com 296 deputados, a oposição com 160, e neutros, 57. A BASE é maior que a oposição. A presidente não ficou tão mal assim. Vamos aos números:

    BASE:
    PT = 70
    PMDB =66
    PP = 36
    PR = 34
    PTB = 25
    PRB = 21
    PDT = 19
    PROS = 11
    PCdoB = 10
    PRP = 3
    PTdoB = 1

    Oposição:
    PSDB = 54
    PSB = 34
    DEM = 22
    SD = 15
    PPS = 10
    PSOL = 5
    PHS = 5
    PTN = 4
    PMN = 3
    PTC = 2
    PSDC = 2
    PEN = 2
    PSL = 1
    PRTB = 1

  3. Gostei muito do abrangente artigo do jornalista Pedro do Coutto, focando as primordiais referências e estágios que se apresentam no presente momento ao governo reeleito.

    Não foi dito, mas que fique claro para os leitores. O país está mesmo dividido.
    A parcela maior de 62% do eleitorado ( não votou/anulou/se absteve) ou seja, ignorou o PT e Dilma, como candidata. Democraticamente, foi eleita com os votos válidos.
    Mas, não há, mesmo, cheque branco nessa história.

    Na minha modesta opinião, no fundo e no raso ,tudo indica que prevaleceram os projetos sociais, as bolsas, com o apoio do imprescindível título de eleitor, mais a turma da Corte e os das boquinhas, que não permitiram a mudança…por um triz… míseros 3 milhões de votos.

    A nova realidade que está sendo estudada é a Oposição, assim como a expectativa do que irá vomitar a Operação Lava a Jato, com seus variados personagens, ministros, deputados, senadores, operadores. assessores, enfim, os corruptos quadrilheiros que repartiram US$ 10 BILHÕES DE DÓLARES, do dinheiro público.
    Em suma: os políticos e os demais aquinhoados por Youssef, estão pisando em ovos…

    Haja Lexotan…

  4. Pingback: Vitória, mas com limites! | Debates Culturais – Liberdade de Idéias e Opiniões

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