Vittorio De Sica, artista inesquecível

Pedro do Coutto

Recentemente, uma matéria de Luis Carlos Marten, em O Estado de S. Paulo, destaca a qualidade e a importância histórica para o cinema do documentário sobre Vittorio De Sica, grande diretor e ator italiano, assinado pelos jovens cineastas Mario Canale e Anarosa Morri, que foi exibido em salas do Rio de da capital paulista. Imperdível. Obra também adequada para a televisão, como Marten lembra que ocorreu em Roma.

A TV Cultura, creio, seria o canal adequado no Brasil. O documentário, incluindo imagens, entrevistas e trechos de desempenhos de De Sica, tem nítido sentido de homenagem àquele grande artista.

Aliás, inesquecível, especialmente pelo “Ladrões de Bicicletas”, 1948, primeiro filme italiano distribuído pela Metro, maior empresa da época, e pelo clássico viscontiano “O Jardim dos Finzi Contini’, família judaica perseguida pelo nazifacismo. A obra de De Sica é bastante ampla, construída com muita arte e amor a ela durante seus 72 anos de vida. Ele nasceu em 1902 (1901) na cidade de Sora Latium, morreu em Roma, 1974.

Chegou à Cinecitá na mesma época de Frederico Fellini. Fellini começou em 1945 como roteirista de “Roma Cidade Aberta”, de Roberto Rossellini. Vitorio de Sica começava sua caminhada na mesma década, mas em 48 ganhava destaque universal com o neorealista “Ladrões de Bicicleta”, um filme emocionante sobre a vida dos operários italianos no pós-guerra.

Viria, onze anos depois, trabalhar com Rossellini, um filme magistral, “De Crápula a Herói”, em que vive o intenso papel do general de La Rovere, personagem ao mesmo tempo fascinante e tenebroso, um agente duplo no período também de ocupação dupla da Itália. Caso singular na história. As forças aliadas, americanas, brasileiras e inglesas, invadiram o país e depuseram Mussolini. Hitler também invadiu para impedir a queda de seu parceiro. De La Rovere oscilava entre um lado e outro. Vejam o filme, se passar por aí, ou aluguem. Vale a pena.

Mas Vittorio De Sica, personalidade exuberante, elegante, irradiando simpatia e fraternidade, este seu perfil, foi realizador de obras que variavam do drama à comédia. Um dos dramas – “Umberto ” – ele dedicou a seu pai. Retrata a vida difícil de um professor universitário de 72 anos. Drama também foi “Duas Mulheres”, com Sofia Loren, que apresenta uma das sequências moralmente mais fortes do cinema. Uma fantasia, unindo estilos e fazendo uma síntese de Chaplin e René Clair, “Milagre em Milão”.

De Sica foi também um sucesso de crítica. Havia praticamente uma unanimidade em torno dele, seja como diretor, como escritor, autor de roteiros, seja como ator expressionista que era. Marcava com delicada firmeza suas interpretações.

Deixou sua marca dirigindo comédias como “Pão, Amor e Fantasia”, e “Casamento à Italiana”. É muito boa sua direção no capítulo “A Mortadela”, dos contos de Bocaccio, com Sofia Loren.  Porém, sobretudo assinalou sua passagem luminosa na arte e na vida principalmente com “Ladrões de Bicicleta” e “O Jardim Dos Finzi Contini”. Obras belíssimas. A primeira pela emoção que leva às lágrimas. A segunda, também emocionante, acrescentada por sua concepção estética e uso peculiar das cores. As duas, cada qual no seu estilo, plenas de poesia dramática. Na homenagem a Vittorio De Sica, a certeza de que a obra que legou ao mundo é inesquecível.

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