Volkswagen financia a 0,99 ao mês; Caixa Econômica a 1,84%

Pedro do Coutto

O Globo, Folha de São Paulo, O Estado de São Paulo e o Valor, os quatro grandes jornais do país, publicaram semana passada o anúncio feito pelo ministro Guido Mantega, ao lado da presidente Dilma Rousseff e do presidente da Câmara, Marcos Maia, das medidas de impacto adotadas para reduzir as altíssimas taxas de juros cobradas pela rede bancária. A estratégia foi a de diminuir acentuadamente os índices do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal para, por tabela, levar os bancos particulares a abatê-las também.

A medida deve ser aplaudida por todos aqueles que possuem uma consciência social voltada para o equilíbrio entre o capital e o trabalho. Aliás conflito que atravessa pelo menos três milênios e antecede em mil anos o nascimento de Jesus Cristo e, portanto, a era cristã. Até aí vôo de cruzeiro na busca da justiça humana. Entretanto, como digo sempre, em matéria de números é preciso ter muito cuidado em se analisar um fato. Da mesma forma, ainda com mais intensidade quando se trata de dinheiro ou de propriedade.

Leio na edição de sábado 7 da Folha de São Paulo reportagem de Toni Sciarreta que contém um quadro comparativo. Os cortes das taxas dos cartões de crédito e cheque especiais do Banco do Brasil e da Caixa Econômica Federal são fantásticos. Caem de 11 para 3,9% ao mês, na CEF e para 3 pontos percentuais no Banco do Brasil. Porém – existe sempre um porém – em matéria de financiamento de automóveis, enquanto a Caixa Econômica Federal anuncia juros a PARTIR DE 1,84% ao mês, em anúncio publicado nas páginas 10 e 11 da revista Veja que se encontra nas bancas, a Volkswagen oferece taxa mensal de 0,99%. Praticamente a metade. O Banco do Brasil informa a mesma percentagem da Volks.

A CEF deverá ter-se equivocado ou levado o titular da Fazenda a um equívoco. Pois não é possível que o crédito direto de uma empresa particular seja a metade de uma escala estatal. Por essas e outras é que se impõe sempre não apenas uma leitura analítica, mas sobretudo uma releitura bem atenta. As ciladas contidas nas matérias financeiras são sempre várias, todas sinuosas. Nem pode deixar de ser assim.

O crédito pessoal, nos Bancos particulares, da ordem de 4% ao mês, passa, no BB e na CEF, a 2,3 pontos. Mesmo assim muito altos. Produzem um montante anual em torno de 30%. Qual o salário que alcança esse nível de reajuste? Nos EUA, por exemplo, artigo de Paul Krugman publicado também na FSP de sábado, os juros situam-se num patamar de 2%. Ao ano. Em nosso país esta taxa é ao mês para uma inflação anual de 6,3%, como apontada pelo IBGE para o exercício de 2011.

Com isso, a remuneração das 80 milhões de cadernetas de poupança existentes no país, no ano passado, oscilou entre zero e 1%. O que foi creditado menos o índice inflacionário. Quanto aos bens de consumo domésticos, na versão de Toni Sciarreta, a CEF desceu para 1,35% mensais. O BB não forneceu o quanto pretende cobrar. Mas vale a pena recorrer à CEF, pois o comércio cobra entre 5 a 6% e os três principais Bancos, Bradesco, Itaú e Santander, cobravam ( não sei agora como vai ficar) 4% a cada trinta dias.

Mas o problema dos juros não é nada simples. É que as taxas brasileiras são compostas. Ou seja: incidem sobre o total dos financiamentos e não sobre os saldos devedores, os quais, evidentemente, são menores de um mês que foi pago em relação aos meses a pagar para concluir o resgate do financiamento. Por causa desse fator, na realidade, os juros, de fato, são muito maiores do que aparentam ser. Um bom tema este para a presidente Dilma
Rousseff.

Agora, com a redução aparente dos juros, muitos correntistas vão se deslocar para o BB e a CEF. Mas a CEF e o BB terão condições de atendê-los eficientemente? Eis aí uma dúvida essencial.

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