Voos e aeroportos, soluções são sempre em cima da hora

Pedro do Coutto

O Brasil já foi considerado o país do futuro, título de livro de Stefan Zweig, 70 anos atrás, atravessou o tempo crescendo e progredindo, mas os problemas que surgem dependem sempre de soluções de última hora, das decisões em cima do laço, no sufoco. Vejam agora o caso do transporte aéreo: mais uma confusão que se repete, por falta de planejamento e previsão, por falta de uma política trabalhista.

Grave lacuna em nossa legislação. Nas bastassem os precedentes de todos os anos, agora, véspera de Natal os obstáculos reaparecem. Aeroviários ameaçam entrar em greve. Empresas, em consequência desta perspectiva, forçam aumento das tarifas, para atender as reivindicações, o Ministério da Defesa se envolve tardiamente, passa a bola para a ANAC, e os jornais publicam nas primeiras páginas fotos de filas e reportagens das justas reclamações dos que desejam e precisam viajar.

Por que não são tomadas providências preventivas? Não se sabe. Sabe-se apenas que é da nossa cultura adiar as decisões, transferir-se as responsabilidades. O ministro Nelson Jobim, por exemplo, só agora acionou a Procuradoria do Trabalho para que entre imediatamente em contato com o Sindicato dos Aeroviários e encontre uma solução que impeça a paralisação ou uma operação tartaruga nos aeroportos e, em consequência, no transporte aéreo.

O Globo de terça-feira, reportagem de Geraldo Docca e Wagner Gomes, revelou que de 7 mil partidas programadas para o Tom Jobim, houve atrasos em média de 25,7% e 3% de cancelamentos. Isso quanto à TAM. Relativamente à WEBJET, os cancelamentos representaram 6%, os atrasos passaram de 51%. Nas demais empresas a situação não pode ter sido muito diferente. Uma espera enervante para os passageiros que ficam em dúvida se conseguem ou não embarcar e principalmente decolar.

Horas e horas de espera. Incrível. Pois todo mundo sabe que as classes assalariadas, a certa altura de cada ano, vão se movimentar para conseguir que seus vencimentos sejam reajustados. A partir do governo Fernando Collor até o governo Lula, os valores do trabalho humano foram comprimidos, perdendo para os índices inflacionários registrados pelo IBGE e pela Fundação Getúlio Vargas.

No governo Lula, cujas cortinas estão se fechando, passaram pelo menos a empatar, exceto o salário mínimo que incorporou mais do que evaporou em matéria de poder aquisitivo. Foi um avanço, já que tudo é relativo. Entre os aeroviários, à primeira vista parece que nenhum dos integrantes da categoria situa-se no primeiro andar da pirâmide, porém o custo de vida sobra para todos.

O Ministério da Defesa, a quem está afeta a questão, não teve, mais uma vez, a capacidade de prever e agir antes da crise começar. Tem sido sempre assim, como frisei há poucas linhas. Esperemos que da madrugada de hoje para a de amanhã, os problemas sejam superados sem o sacrifício dos passageiros. Esperemos. Mas deste episódio confuso resultante da omissão do poder executivo, fica mais uma lição entre tantas outras.

É indispensável que o país possua uma política trabalhista definida. Uma política que, anualmente, em data acordada, estabeleça a reposição inflacionária, movimento que não se confunde com aumento. Reajuste é para repor a inflação. Apenas isso. Aumento é o percentual acima do que define o IBGE como elevação do custo de vida. Reposição não deve ser tema de debate. Aumento real, sim. Este dependerá de acordo tendo como base os níveis de produtividade. Tal mecânica eliminaria as tensões sociais que se espalham e acumulam. No caso aéreo, a omissão amplia até o peso dos aviões sobre a lei da gravidade.

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