Voto contra o Irã sinaliza a extradição de Battisti

Pedro do Coutto

Sem dúvida alguma, o voto do Brasil no Conselho de Direitos Humanos da ONU a favor da designação de um delegado especial para investigar a violação dos direitos essenciais ao ser humano no Irã, além de acentuar claramente um posicionamento internacional da presidente Dilma Rousseff completamente diverso do adotado pelo ex-presidente Lula, sinaliza fortemente um novo desfecho no caso da extradição do terrorista Cesare Battisti.

Da mesma forma que não existe no mundo duas pessoas iguais, não há também dois governos demasiadamente semelhantes. É o caso de Dilma e Luis Inácio. O apoio eleitoral, decisivo, foi convergente. Antes das urnas, divergências não são expostas. Depois de apurados os votos, o quadro muda. Não só em questões de política interna, mas sobretudo nas relativas à política externa.

Não vamos nos restringir ao exemplo atual em foco. Vejam os leitores o que se passou durante o desenrolar da segunda guerra mundial e o panorama que se fixou depois. Até 1941, quando a Alemanha nazista de Hitler invadiu a União Soviética de Stálin, as diferenças entre o capitalismo da Inglaterra e dos Estados Unidos e o comunismo russo eram enormes e intransponíveis. O capitalismo acusava o comunismo de ser antidemocrático. O antagonismo era total.

Mas em junho daquele ano, com a invasão, a maior até hoje registrada na história, o abismo se encurtou entre as potências e Londres, Washington e Moscou deram-se as mãos para enfrentar o inimigo comum, Hitler capitalista e totalmente antidemocrático, tirânico.
E assim ocorreu através de vários episódios heróicos, como a batalha de Stalingrado, por exemplo, até à rendição alemã em maio de 1945.

Estabelecida a vitória, ocupada Berlim, presos os chefes do nazismo, os antagonismos voltaram à cena. De nada adiantaram as conferências de Yalta, Potsdam e Berlim, para dividir a Alemanha, território conquistado. No lugar da frente comum contra o nazismo, a guerra fria envolveu os EUA e a URSS. Essa guerra fria passou pelos pontos críticos da guerra da Coreia, em 50, da tragédia do Vietnam que se estendeu até 1962, quando começou a escalada fatídica, até 75, no momento em que as forças americanas se retiraram do Sudeste da Ásia.

Estas questões servem de exemplos da complexidade dos relacionamentos internacionais.
O Brasil, no governo Lula, vinha apresentando tendências favoráveis a ditaduras, como as do Irã, Sudão, Líbia, e da meia ditadura venezuelana. Procurava assim assumir uma postura à esquerda de Washington, como se o comércio e as decisões internacionais pudessem ganhar força e se consolidar aumentando-se a distância da Casa Branca.

Os fatos mostraram claramente não ser isso possível e portanto as atitudes esboçadas projetavam-se como sombras quixotescas sem maior conteúdo. Afinal de contas, como poderia nosso país candidatar-se a uma vaga permanente no Conselho de Segurança da ONU, se não se engajava nitidamente a favor dos direitos humanos? Impossível.

Divergindo de Lula, Dilma Rousseff mudou de caminho e orientação. O caso Irã não é um lance isolado. É uma tomada de consciência democrática, no sentido de apagar o passado recente e atuar em uma nova realidade, em novo cenário. Mais real e menos ilusório.

O terrorista Cesare Battisti faz parte do espírito de mudança. No contexto da verdade, o que interessa ao Brasil negar sua extradição, por sinal já despachada pelo Supremo Tribunal Federal? Não faz sentido. Battisti chegou ilegalmente ao país em 2006, não pensou em pedir asilo, e só o fez após ser preso dois anos depois. Porque deve obter inviolabilidade? Porque o Irã não deve ser objeto de investigação? Um fato leva a outro.

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