Xuxa retorna e responde ao passado: matéria de memória

Pedro do Coutto

O título, claro, está inspirado em Carlos Heitor Cony e na necessidade de resposta consciente de todos nós. Não existe neste mundo quem não sinta o impulso de responder a alguém ou a algum fato, ou ainda de responder a si mesmo. As dúvidas interiores são acentuadas e motivadoras. Quantas vezes, ao longo da vida, não tivemos o ímpeto de rebater alguma pressão, alguma estupidez, alguma grosseria, sobretudo alguma injustiça? Não existe aquele.

Porém nem sempre podemos agir nesse caminho, premidos por circunstâncias. Na maioria dos casos profissionais, emprego em jogo. Em segundo lugar por razões afetivas. Mas tudo fica guardado.

O doutor Freud – lembra o psiquiatra Pedro Campello – quando se refere aos recalques e à imagem do ballet dos recalcados, a vida está cheia deles, recorre à figura do sótão na mente humana. O recalque então se evidencia quando o cérebro tenta fazer emergir o problema que incomoda, mas a pessoa geralmente pressiona o movimento contrário, transferindo-o para um andar abaixo no pensamento. Este local será o subconsciente? Ou inconsciente freudiano? Não importa. Muitas pessoas, no impulso de rebater, fazem emergir a verdade do passado. Xuxa entre essas.

Sua entrevista no Fantástico, domingo passado na Rede Globo, foi um momento alto tanto de sua carreira quanto de sua vida. Partiu em busca do passado, resgatou para si mesma e para milhões de espectadores que a admiram e vivem na sua aventura no plano da arte e sua própria aventura na vida comum. Não temeu o que se passou há 37 anos, como ela disse, no momento em que completa meio século de existência e três décadas de arte. Resgatou a dívida que lhe pesava na mente e acusou diretamente os autores dos abusos sexuais que lhe foram covarde e sordidamente impostos. E, simultaneamente, apontou a omissão do pai, Luís Meneguel. Ele fica devendo uma explicação.

O “amigo” do pai, também seu padrinho, o marido da avó, um professor que se valeu de sua posição para molestá-la, não creio que, se ainda vivos, terão coragem para mostrar a face. Vão viver nas sombras sufocadas pelos próprios atos que praticaram. Referi-me ao Fantástico, mas li atentamente a reportagem de Natália Boerer, O Globo de segunda-feira.

O texto escrito não deixa dúvidas quanto as palavras da apresentadora. A foto que complementa a matéria é da TV Globo. Um momento forte destacando a realidade interior da artista na face e no olhar.

Molestar sexualmente alguém é crime hediondo e covarde. Sórdido. Como é possível alguém aproveitar-se de alguém, seja de que idade for, e sobretudo procurar o prazer através de uma ação individual e rejeitada pela outra? Tal realidade incrível sempre me causa espanto. Não tem explicação à luz da lógica e da normalidade.

Pessoas que assim agem revivem a Besta Humana, clássico da literatura, de Emile Zola. Um ser vil (não se deve considerar nem humano) capaz de atingir o orgasmo pelo medo que impõe à parceira apavorada e forçada ao ato por diversos disfarces gravemente doentios. Difícil pensar que pessoas desse tipo possam ter cura para seus fantasmas.

Xuxa libertou-se revidando. Demorou tempo, mas partiu para o revide. Amedrontada pelo assédio imoral, hoje passou a amedrontar seus autores. Nenhum dos monstros poderá se olhar no espelho. Isso em relação ao seu universo psicológico.

Porém, minha mulher, Elena, lembra que o impulso de Xuxa foi um ato de liberdade. Não só em relação a ela mesma. Sobretudo relativamente a centenas de milhares, de crianças e adolescentes vítimas de tais monstruosidades. E não é só. Temos que considerar também que, com sua entrevista, Xuxa impediu, através de sua imagem, que muitos atentados viessem a acontecer. Pois de todos os problemas da vida, o sexo, sem dúvida, é o mais complicado e o menos resolvido.

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