Youssef, um vendedor de salgados que virou poderoso chefo

Youssef, na ltima internao num hospital de Curitiba

Pedro Cifuentes
El Pas

Em novembro a Polcia Federal desfechou a operao Juzo Final, que jamais ser esquecida pelo delegado Marcio Adriano Anselmo e sua equipe de dois agentes, que fizeram a gigantesca investigao que revelou o macroesquema de corrupo na Petrobras. Na sexta-feira, dia 14, houve a deteno de 21 diretores de nove grandes empresas, que juntas somavam contratos no valor de 59 bilhes de reais com a maior empresa da Amrica Latina.

O sbado, dia 15, como lembraram com orgulho na sede da PF em Curitiba, era o Dia da Repblica. E no domingo, dia 16, o aniversrio da Polcia Federal. Nesse mesmo dia, 16 meses depois de o delegado Anselmo iniciar as investigaes, ao voltar seu foco para a casa de cmbio que o doleiro Carlos Chater mantinha num posto de gasolina em Braslia, a presidente Dilma Rousseff declarou, na Austrlia, que a Operao Lava-Jato poderia mudar o Brasil para sempre.

Todo mundo conhece Alberto Youssef em Londrina. Pode ser que no saibam quem o prefeito, mas sabem quem ele . O policial que fez esse comentrio em Curitiba imediatamente respaldado pelo taxista que leva o correspondente no aeroporto de Londrina. Aqui sabemos tudo de Youssef, afirma o motorista Roberto. Sua irm era seu brao direito at morrer, diz. Sempre foi um contrabandista, um bandido. Agora ficamos sabendo sobre sua vida nos jornais.

VENDEDOR DE SALGADOS

Londrina, a bonita cidade paranaense de meio milho de habitantes que viu nascer o cambista mais famoso do Brasil, vive h um ano no corao da Operao Lava Jato. E o adolescente que vendia salgados nas ruas de Londrina hoje, com 47 anos, um homem destroado (segundo um de seus advogados de defesa). Cardaco com um histrico de ameaas de infarto, Alberto Youssef perdeu vinte quilos desde que entrou na priso de Curitiba, em maro, e teve de ser internado quatro vezes desde ento.

No se parece em nada com o homem algemado que sorri nas fotos de suas primeiras prises, por volta de 2003, quando mentia com total desembarao (Sou apenas um ex-cambista, nunca lavei dinheiro, assegurou meses antes de confessar seus crimes para o juiz). Youssef antes de tudo um reincidente. um delinquente profissional […] Teve sua grande oportunidade para abandonar o mundo do crime, mas a desperdiou, argumentou o juiz Srgio Moro h dois meses ao manter a condenao de quatro anos de meio de priso pelo caso Banestado (inicialmente suspensa por conta de sua colaborao).

Dois meses atrs Youssef voltou assim mesmo a se converter em delator da polcia, transformando o caso Petrobras em um barril de plvora que afeta em cheio o establishment empresarial, poltico e financeiro brasileiro.

MUITO DEPRIMIDO

Est muito deprimido. diz seu advogado. A polcia confirma o diagnstico. Sim, um delinquente crnico, uma pessoa calculista, mas tem sangue. E famlia. E filhos. Ningum gosta de estar todos os dias nos jornais.

Foi justamente a famlia de Youssef que o persuadiu para chegar a um acordo de colaborao com a Justia e colocar-se no olho do furaco do Petrolo. Com sua delao premiada anterior cancelada, preso, seus bens bloqueados, com alguns de seus principais scios detidos e seus familiares acossados por ordens de busca e apreenso, lhe restava essa opo ou passar os prximos 20 anos de sua vida na priso.

Youssef sempre foi um homem de famlia. Sua irm Maria foi sua primeira provedora de bens: trazia eletrodomsticos do Paraguai de nibus e os entregava para seu irmo para que os vendesse na rua. Mas foi sua outra irm, Olga Youssef, mais conhecida como Flora (tambm condenada no caso Banestado), quem o introduziu no turbulento mundo das casas de cmbio. Alberto confiava em poucas pessoas, ela era sua principal aliada, disse Henrique, um empregado de banco que conheceu o cambista em seus dias de glria.

CONTRABANDISTA

Sempre se dedicou ao contrabando, afirma taxativamente um agente da polcia: fundamentalmente bens eletrnicos, mas tambm drogas e joias ilegais. Mais tarde, dedicou-se a transportar dinheiro, que ainda mais lucrativo. Era brao direito do poderoso ex-deputado de Londrina Jos Janene (PP), acusado no caso Mensalo e cuja morte em 2010 o alou para o topo de uma gigantesca trama de desvio e lavagem de dinheiro ilegal.

Aps alguns anos de experincia em operaes menores frente de sua agncia de cmbio, a morte de Janene transformou Youssef em um lobista total. Era a engrenagem do sistema: fazia as ligaes, entregava as maletas de dinheiro, ordenava as transferncias, organizava a criao de empresas de fachada, negociava com as empresas contratantes, cuidava dos agentes pblicos, resolvia problemas entre as diferentes partes do negcio e, se era necessrio, entrava em um avio privado para transportar uma soma elevada para o outro lado do pas. Seus tentculos chegaram at em algumas obras da Copa do Mundo. Calcula-se que Alberto Youssef chegou a movimentar 2,08 bilhes de reais no caso Banestado. Agora, estima-se que a quantidade desviada na Laja Jato de 10,4 bilhes de reais.

Ele se movia como um peixe na gua entre as empresas, disse outro advogado. E no somente agora; j desde jovem, na dcada de 1990. Abriu outro escritrio em So Paulo e tinha acesso em Braslia a figuras polticas muito conhecidas.

RASTREAMENTO DIFCIL

Apesar de tudo, no foi fcil para a polcia rastre-lo; utilizava sete telefones mveis diferentes, com sistemas para detectar escutas. Seu reaparecimento causou uma comoo nos agentes da Polcia Federal que investigavam um caso aparentemente pequeno em Curitiba. Um ano depois se transformou em um arquivo vivo, uma fonte de dores de cabea monumentais para dezenas de empresrios e parlamentares.

Youssef explicou o funcionamento da trama de lavagem de dinheiro e revelou a existncia de um clube de diretores de grandes empresas que dividiam uma porcentagem de cada obra da Petrobras com destacados polticos. E intermediava o pagamento de subornos e doaes ilegais para partidos: a Polcia Federal guarda como se fosse ouro um documento descoberto em seu escritrio que registra os pormenores de 750 contratos realizados sob sua superviso.

Incomunicvel e isolado desde maro, os testemunhos de Alberto Youssef so a coluna vertebral do maior caso de corrupo da histria do Brasil. No parece exagerado, pois, que seus advogados se preocupem com a segurana de seu defendido: em outubro, quando foi internado por uma crise cardaca, a Polcia Federal teve de desmentir oficialmente que teria sido envenenado. Depois, foi novamente internado.

Alguns dias antes, em um ataque de raiva, quebrou um vidro de separao durante uma conversa com seu advogado na priso. Em seu conhecido escritrio da Rua Par, no centro de Londrina, fechado h dois anos, antigos vizinhos sorriem meno do seu nome. Quem tudo quer, nada tem, diz Srgio. O senhor no pode imaginar o poder que esse cara tinha aqui… E olhe agora… Para qu?.

(artigo enviado por Mrio Assis)

5 thoughts on “Youssef, um vendedor de salgados que virou poderoso chefo

  1. Notcia que ningum deu:

    Foi na condio de “intimado como testemunha” que Lula foi obrigado a depor, na ltima tera-feira (dia 9), na sede da Polcia Federal, em Braslia.

    O Presidentro finalmente falou PF sobre o Mensalo, depois que teve seu nome relacionado por Marcos Valrio, em denncia tardia ps-condenao na Ao Penal 470.

  2. O nome do jornalista do El Pais deve estar grafado errado.
    Deveria ser Pedro Sinfuentes, pois parece no ter fontes seguras.
    Acha que a dilma no est enterrada at o pescoo nas tramias dele.
    E em nenhum momento cita que o governo do PT e partidos da base so scios cativos da lavanderia do Youssef.
    Matria para agradar o Santander…

  3. Estou emocionado com o esprito caridoso da Sr Marisa Rocco Lula da Silva ! O Instituto Lula soltou uma nota dizendo que aquela cobertura triplex no do Lulla. A nota diz que a Dona Marisa dona de cotas da Bancoop. Quanta bondade! Ela mandou trocar o piso por porcelanato, colocar um elevador privativo interno e fazer um espao gourmet numa cota coletiva ! At quando vo nos chamar de palhaos hem japons ?

  4. um artigo retr do contrabandista-doleiro Alberto Youssef. que galgou de uma condio de vendedor de salgados nas ruas de Londrina, no Paran, conhecido empresrio do ramo criminoso da lavagem de dinheiro em grande escala, “empresrio”,para milhares de corruptos – que usaram os seus prstimo – a sua ” especializao”, em operaes escusas.

    De todo o contedo do artigo, um comentrio do seu advogado, de que ele estaria “deprimido”, em face dos percalos enfrentados no processo e a priso, d para se imaginar o que deve rolar na cabea ( agora, com cabelos) do operador do mensalo, Marcos Valrio, que tomou 40 anos de cadeia, por esnobar a delao premiada.

    Sei no…

    Com o trabalho reconhecidamente tcnico e legal do Ministrio Pblico Federal, no Paran, na pessoa do juiz Srgio Moro, e dos Procuradores frente da operao Lava a Jato, bem possvel que seja ressuscitado o mantra de que o “crime no compensa”, o que pode ser a boa notcia para os brasileiros, no ano que est chegando…

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