Lula precisa entender que Messias não pode ser indicado novamente este ano

Lula não pode reenviar nome de Messias ao Senado 

Pedro do Coutto

A notícia de O Globo de que o presidente Lula da Silva pretende indicar novamente Jorge Messias ao Supremo Tribunal Federal após sua rejeição pelo Senado, reabre um debate delicado sobre os limites entre autoridade presidencial, independência institucional e equilíbrio entre os Poderes.

Segundo a reportagem, Lula considera que a derrota de Messias representou uma afronta política ao governo. A avaliação no entorno presidencial é de que o Senado extrapolou o campo técnico e promoveu uma derrota simbólica ao Palácio do Planalto.

ILUSÃO À TOA – A reação do presidente seria justamente dobrar a aposta: recolocar o mesmo nome na disputa e entrar pessoalmente na articulação para garantir votos suficientes à aprovação.

Mas isso é impossível, porque as norma do Senado proíbem a reapresentação do nome na mesma legislatura. Ou seja, Messias somente pode ser indicado novamente no ano que vem, quando ainda nem se sabe se o presidente ainda será Lula.

Politicamente, a movimentação tinha lógica. Presidentes raramente aceitam derrotas institucionais dessa magnitude sem tentar recuperar autoridade. Ainda mais em um contexto em que o governo já enfrenta desgaste no Congresso, dificuldades de articulação e sinais de erosão política.

UMA  FRAQUEZA – A rejeição de um indicado ao STF — algo que não acontecia havia mais de um século — foi interpretada dentro do Planalto como demonstração de fraqueza do Executivo diante de um Senado cada vez mais autônomo e assertivo. Mas há um ponto sensível nessa reação presidencial que merece atenção.

A Constituição brasileira não estabelece que o Senado exista apenas para homologar automaticamente a vontade do presidente da República. O mecanismo de sabatina e aprovação foi criado justamente como sistema de freios e contrapesos. A indicação é prerrogativa do chefe do Executivo; a aprovação, porém, depende de concordância política e institucional da Casa revisora.

Transformar a rejeição em algo “ilegítimo” por definição produz um raciocínio perigoso: o de que o Senado só estaria correto quando confirma o desejo presidencial. Isso esvazia o próprio sentido constitucional da sabatina.

CRITÉRIOS OBJETIVOS – O argumento mais consistente que o governo poderia sustentar seria outro. Não o de que o Senado era obrigado a aprovar Jorge Messias, mas o de que faltaram critérios objetivos e transparentes para justificar a rejeição. Essa, sim, é uma discussão relevante.

A política brasileira frequentemente opera por vetos silenciosos, ressentimentos internos, disputas de poder e acordos de bastidor pouco claros. Em um tema da dimensão de uma vaga no STF, seria desejável que os senadores explicitassem publicamente as razões substantivas de eventual reprovação: notório saber jurídico insuficiente? Excessiva proximidade política com o governo? Falta de independência? Questões técnicas? Divergências institucionais?

A ausência dessa objetividade fragiliza o processo e alimenta a percepção de arbitrariedade. Ainda assim, há distância enorme entre exigir critérios mais transparentes e defender uma espécie de obrigação tácita de aprovação presidencial. O Senado não é o cartório do Executivo. E justamente porque não é, pode aprovar ou rejeitar nomes.

CONFLITOS – O episódio também revela algo maior sobre o momento político brasileiro. O sistema institucional atravessa uma fase de hipertrofia de conflitos. O Congresso ganhou musculatura nos últimos anos, o STF ampliou influência política e os presidentes passaram a encontrar muito mais resistência para impor agendas unilateralmente. O resultado é um ambiente de tensão permanente entre Poderes.

Nesse contexto, a possível resistência em Jorge Messias pode produzir dois efeitos opostos. Se Lula conseguir aprová-lo numa segunda tentativa, transformará uma derrota histórica em demonstração de força política e capacidade de articulação. Mas, se fracassar novamente, o desgaste institucional será muito mais profundo — não apenas para o presidente, mas para a própria relação entre Executivo e Senado.

Há ainda uma dimensão simbólica importante. Desde a redemocratização, criou-se no Brasil uma cultura política em que indicações presidenciais ao STF quase sempre eram aprovadas, ainda que sob críticas. Isso gerou a percepção informal de que o Senado dificilmente exerceria de fato seu poder de veto. A rejeição de Messias rompeu esse paradigma.

EXTREMOS – O desafio agora é impedir que o país caminhe para dois extremos igualmente ruins: de um lado, um Senado que transforme indicações ao Supremo em instrumento de chantagem política; de outro, um Executivo que trate qualquer rejeição como insubordinação institucional.

Democracias maduras dependem justamente da existência de limites recíprocos. O presidente indica. O Senado avalia. E ambos precisam conviver com a possibilidade legítima da discordância.

6 thoughts on “Lula precisa entender que Messias não pode ser indicado novamente este ano

  1. É que não vivemos uma Democracia plena, mas um arremedo a que o sacro príncipe intitula “relativa”.

    Nenhuma democracia e república saem ilesos de quase vinte anos de hegemonia de um aparato como o petista.

    O que a IA, odiada pelo homem de neandertal nos diz sobre sua democracia relativizada,

    Democracia brasileira: classificação e ranking)
    A democracia do Brasil é considerada intermediária no cenário global, com funcionamento regular, mas marcada por fragilidades institucionais.
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    📊 Principais índices internacionais
    • The Economist Intelligence Unit (Democracy Index)
    Posição: ~50º–55º no mundo
    Nota: ~6,5 / 10
    Classificação: Democracia imperfeita
    • Freedom House
    Pontuação: ~72–75 / 100
    Status: País livre
    • V-Dem Institute
    Classificação: Democracia eleitoral
    Tendência: queda de qualidade institucional recente
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    ⚠️ Principais fragilidades (com impacto nos índices)
    • Baixa confiança nas instituições
    • Corrupção e percepção de impunidade
    • Alta polarização política
    • Problemas de governabilidade
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    📌 Síntese direta
    O Brasil é uma democracia funcional, com eleições livres e direitos básicos garantidos, porém ocupa apenas o nível intermediário global devido a falhas institucionais e instabilidade política.

    • É que não vivemos uma Democracia plena, mas um arremedo a que o sacro príncipe intitula “relativa”.

      nunca foi uma democracia…..quem sabe começar a ser quando dá passagem do Narcola para a Churrasqueira do Juizo Infernal….

  2. A persistência de nossos problemas estruturais, aprofundados por quase 20 anos de hegemonia do aparato Petista, que os vem aprofundando, mostra que não só só temos uma democracia foram, mas que nos situa na periferia da periferia do capitalismo.

    1. Educação
    📊 Posição: ~60–70/80 (PISA – OCDE)
    ➡️ Baixo desempenho global e alta desigualdade interna.
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    2. Infraestrutura
    📊 Posição: ~70–100/140 (World Economic Forum)
    ➡️ Gargalos logísticos e déficit em saneamento.
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    3. Estado democrático
    📊 Posição: ~40–60/167 (EIU Democracy Index)
    ➡️ Democracia “imperfeita”, com fragilidades institucionais.
    ________________________________________
    4. Tecnologia e inovação
    📊 Posição: ~50–70/130 (WIPO – Global Innovation Index)
    ➡️ Ciência razoável, inovação produtiva limitada.
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    5. Criminalidade (homicídios)
    📊 Posição: entre os ~20 mais violentos do mundo (UNODC)
    ➡️ Altas taxas de homicídio e violência urbana.
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    6. Desigualdade de renda
    📊 Posição: top 10–20 mais desiguais (Banco Mundial – Gini)
    ➡️ Forte concentração de renda estrutural.
    ________________________________________
    7. Desenvolvimento humano
    📊 Posição: ~70–90/190 (PNUD – IDH)
    ➡️ Desenvolvimento intermediário global.
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    8. Eficiência estatal (governança)
    📊 Posição: percentil ~50–60 (World Bank)
    ➡️ Capacidade estatal mediana-baixa.
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    9. Desigualdade de gênero
    📊 Posição: ~80–100 (PNUD)
    ➡️ Diferenças persistentes em renda, poder e violência.
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    10. Desigualdade racial
    📊 Sem ranking global direto
    ➡️ Um dos maiores contrastes raciais estruturais das Américas (IBGE).
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    11. Desigualdade regional
    📊 Sem ranking global direto
    ➡️ Um dos maiores desequilíbrios internos do mundo (IBGE).

    • A persistência de nossos problemas estruturais, aprofundados por quase 20 anos de hegemonia do Aparato Petista, que os vem aprofundando, mostra que não só só temos uma democracia formal, mas um sistema quase feudal, a Velha República Tardia, que nos situa na periferia da periferia do capitalismo.

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