Banco Central tenta combater a inflação sem arrocho e sem discutir erros do governo

Charge do Nef (Jornal de Brasília)

Deu no Estadão

Equilibrar dois pratos, como um malabarista de rua, é o novo desafio do Banco Central (BC), empenhado em frear a inflação e ao mesmo tempo manter algum estímulo a uma economia em lenta retomada. Para conter os preços, aliviar os consumidores e impedir um desarranjo maior nos negócios, a taxa básica de juros foi aumentada para 3,50%, e uma nova alta – provavelmente para 4,25% – está agendada para dentro de um mês e meio.

O aperto é necessário, mas deve ser moderado, segundo a estratégia do Copom, o Comitê de Política Monetária do BC. As novas decisões foram anunciadas depois da última reunião, encerrada na quarta-feira passada.

INFLAÇÃO TEMPORÁRIA? – Malabarismo é também uma das marcas da comunicação do Copom. A inflação deste ano poderá bater no teto da meta (5,25%), segundo projeções correntes e reconhecidas pelo BC, mas o comitê mantém o diagnóstico formulado há meses. Continua qualificando os choques de preços como “temporários” e promete continuar “atento à sua evolução”. Temporários até quando?

A inflação brasileira, bem visível nas feiras, nos supermercados e em boa parte do varejo, está associada às condições do comércio global, segundo a nota do Copom. “Com exceção do petróleo”, assinala o comunicado, referindo-se ao período recente, “os preços internacionais de commodities continuaram em elevação, com impacto sobre as projeções de preços de alimentos e bens industriais.” Além disso, o aumento da bandeira tarifária de energia elétrica “deve manter a inflação pressionada no curto prazo”.

INFLUÊNCIA DO DÓLAR – Todos esses fatores são conhecidos, mas também conhecida é a influência do dólar nos preços internos. O dólar poderia estar cotado a R$ 4,50 ou R$ 4,60, segundo analistas do mercado, porque o Brasil é superavitário no comércio exterior, seu balanço de pagamentos é administrável e o País dispõe de reservas mais que suficientes para liquidar a dívida externa. Mas cotações iguais ou superiores a R$ 5,40, às vezes em torno de R$ 5,60, têm sido frequentes.

Nenhuma palavra sobre o câmbio e seus efeitos inflacionários aparece no comunicado emitido depois da reunião do Copom.

As causas mais visíveis da instabilidade cambial estão em Brasília e ninguém ignora esse fato. O País dispõe de reservas e as contas externas são administráveis, mas há muita incerteza sobre a evolução de fatores internos.

DESCONFIANÇA INTERNA – Há insegurança quanto à gestão das finanças federais, à evolução da dívida pública e às condições da vida política, sujeita a fortes tensões, ao destempero do presidente da República e a seus arroubos autoritários. Somam-se a essa ampla insegurança as barbaridades cometidas pelo governo em sua política ambiental.

Todos esses fatores prejudicam o ingresso de investimentos estrangeiros, a manutenção de recursos externos no Brasil e até, segundo se estima no mercado, a internação de dólares faturados por exportadores e mantidos no exterior.

Mas o pessoal do Copom, ao redigir a nota sobre sua reunião, conseguiu deixar de lado a instabilidade cambial. Terá ignorado essa questão também ao analisar a inflação e suas causas?

EVOLUÇÃO POSITIVA? – Igualmente estranha é a avaliação inicial da economia brasileira. A nota menciona uma “evolução mais positiva do que o esperado”, embora a segunda onda da pandemia, segundo se acrescenta, tenha superado a previsão. No primeiro trimestre, no entanto, a produção industrial foi 1% menor que nos três meses finais de 2020, segundo a última informação oficial. Os demais indicadores também apontam negócios fracos – um quadro explicável, em grande parte, pela suspensão das medidas de sustentação da economia.

Mas o Copom, formado por diretores do BC, pelo menos admite um detalhe menos brilhante: “prospectivamente, a incerteza sobre o ritmo de crescimento da economia ainda permanece acima da usual”. Em seguida aparece uma compensação: esse quadro “aos poucos deve ir retornando à normalidade”.

Mas a “normalidade”, é justo lembrar, tem sido caracterizada a partir de 2019 por uma política econômica sem rumo claro e por muita insegurança quanto às possibilidades da produção e do emprego.

3 thoughts on “Banco Central tenta combater a inflação sem arrocho e sem discutir erros do governo

  1. A política de juros anunciada pelo BC não está errada, ela tenta equilibrar a inflação com a retomada do crescimento econômico, duas coisas que não vem andando juntas. O problema está mesmo no Palácio do Planalto, onde um irresponsável não sabe administrar as contas da casa . A situação brasileira se repete na maioria dos países ocidentais onde a “casa da moeda” imprime dinheiro como nunca na História, mas as consequências todas sabem quais são

  2. Não há economia que resista a um estado perdulario, inchado de salários e benefícios extravagantes para encher os bolsos de um funcionalismo incompetente e preguiçoso.

    Podem fazer reformas que quiserem, mas se não reduzirem, pelo menos à metade, o custo do estado, o que veremos sempre será o aumento da miséria, por falta de recursos para investir em todo tipo de infra estrutura.

    É lamentável ter que assistir tanta hipocresia recheada de blábláblá nas análises infundadas que apenas pretendem enganar os incautos e dar segurança aos beneficiários desse quadro vergonhoso que se formou no estado brasileiro.

    Quem paga essa conta é o sofrido povo brasileiro e alguns empresários honestos que acabam sucumbindo às aterradoras formas de espoliação imposta pelos que se apoderaram do estado.

    Este quadro vergonhoso empurra o Brasil para uma situação caótica, mesmo o país dispondo de recursos naturais formidáveis, clima favorável, povo trabalhador, mas uma classe dirigente desqualificada, e tendo como péssimos exemplos as figuras de Luiz Inácio e Bolsonaro que junto ou separados são capazes de arruinar qualquer coisa que ponham as mãos.

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