Bolsonaro insulta Renan Calheiros mas não responde a questão essencial da pandemia

Bolsonaro repetiu a ofensa do filho e chamou Renan de “vagabundo”

Pedro do Coutto

João Pedro Pitombo, Cátia Seabra e Wagner Melo, Folha de São Paulo, edição de ontem, focalizam o resultado da viagem que o presidente Jair Bolsonaro fez até Alagoas para ofender e atacar o senador Renan Calheiros pelo fato dele ter assumido, como relator da CPI da Pandemia, uma cobrança hostil a respeito dos erros e omissões do governo federal no combate ao coronavírus.

Bolsonaro viajou acompanhado do senador Fernando Collor e do deputado Arthur Lira, presidente da Câmara Federal. Causa preocupação o fato de Bolsonaro escolher o caminho do combate frontal e moral com o relator, quando deveria destacar as medidas que tomou para conter, no limite do possível, os efeitos da Covid-19.

FATO DE CRISE – Não fez isso e não tocou no assunto que representa o maior fator de crise do governo, refletido pela pesquisa do Datafolha que comprova a queda de sua popularidade. O presidente da República voltou a chamar Renan Calheiros de “vagabundo”, repetindo a mesma ofensa que o senador Flávio Bolsonaro fez ao parlamentar alagoano.

No dia de ontem, na Folha de São Paulo, Hélio Schwartsman  e Ruy Castro escreveram artigos sobre ângulos diferentes, mas que convergiram para realçar a personalidade e o desempenho de Bolsonaro nas questões com as quais se defronta e que não se volta para resolver nem mobiliza o seu governo para ações construtivas.

Só apela para a violência verbal, por enquanto, e tenta escapar da responsabilidade. O comportamento leva a uma impressão de que  Bolsonaro coloca-se como centro do universo político-administrativo e quando não pode escapar dos seus próprios erros, passa a culpar os outros pelo o que acontece com ele e com a população brasileira.

REALIDADE PARALELA – Em 1944, depois da França ter se livrado do nazismo, André Malraux , que depois seria ministro da Cultura de Charles de Gaulle, numa entrevista, indagado a respeito de quando achava que Hitler iria se render aos aliados, disse que aquele homem nunca se renderia porque era alguém que tentava impor a sua realidade sobre a realidade dos fatos. Quando os fatos fechassem as portas às suas colocações, ele por quaisquer meios se voltaria contra o fim da estrada.

Não desejo comparar Bolsonaro a Hitler, claro, mas considero o escapismo como uma das últimas resistências pelas quais o presidente da República vai tentar a curva sinuosa do esquecimento. Vejam só o exemplo: o gerente-geral da Pfizer na América Latina, Carlos Murillo,  em depoimento à CPI na quinta-feira, revelou, para surpresa geral, que a empresa fez cinco ofertas de doses de vacinas ao Brasil e só obteve resposta na sexta etapa.

Passaram-se dois meses entre o quinto lance e a assinatura do contrato. Nesse espaço de tempo, milhares de pessoas perderam suas vidas. São verdades assim que o presidente Bolsonaro tenta colocar na sombra do esquecimento. Um desastre.

MEIO AMBIENTE –  Bruno Góes, no O Globo, destaca o projeto aprovado pela Câmara que suspende a necessidade de prévia licença ambiental para instalação de empresas do agronegócio e também de atividades industriais e comerciais na região Amazônica. A reação era esperada, sobretudo porque a imprensa já vinha alertando para o absurdo do projeto, principalmente no momento em que o meio ambiente , a ecologia e o aquecimento global fazem parte de uma preocupação de todo o planeta.

Numa entrevista ao Globo, a ex-senadora Marina Silva sustenta que o Brasil encontra-se na contramão do mundo, facilitando exatamente atividades que invadem as florestas tropicais brasileiras. Marina Silva, quando ministra do primeiro governo Lula, entrou em conflito com a então titular de Minas e Energia, Dilma Rousseff, por causa da construção das hidrelétricas de Santo Antônio, Jirau  e Belo Monte.

Belo Monte no Pará e Santo Antônio, na qual Furnas é sócia da Odebrecht, e a de Jirau que tem participação da Eletronorte e também uma fração da Odebrecht, foram consideradas por Marina Silva com investidas prejudiciais ao meio ambiente. Foi esta a razão pela qual Lula terminou, por pressão de Dilma Rousseff, exonerando a líder da ecologia brasileira.

ALVO DE CRÍTICAS – O ministro Ricardo Salles, como o jornalista André Trigueiro já destacou seguidamente na GloboNews, tornou-se um personagem extremamente crítico no panorama brasileiro. Todos o responsabilizam pelas queimadas do Pantanal de Mato Grosso e o desmatamento na Amazônia.

Mas ele continua no cargo e não se pode atinar por qual razão Bolsonaro o mantém na pasta. A favor de Salles só se encontram os desmatadores e os que desejam invadir áreas verdes pensando que com isso obterão lucros. Mesmo que o presidente da República sancione o projeto negacionista, as empresas diante da reação da imprensa do país não terão condições de investir em um projeto que pode ser sustado a qualquer momento, até mesmo pelo Supremo Tribunal Federal.

INSS E PROVA DE VIDA –  Informação aos aposentados e pensionistas do INSS; matéria de Clayton Castelani, Folha de São Paulo, informa que no próximo mês de junho, o INSS se dispõe a suspender o pagamento desses direitos caso os aposentados e pensionistas não façam prova de que se encontram vivos.

Basta cada um procurar a agência bancária através da qual recebe os vencimentos para cumprir a exigência que se repete a cada ano. Os leitores devem ter estranhado, talvez, não ter me referido a benefícios e sim a direitos.

Explico: as aposentadorias e pensões não são benefícios, são direitos pelos quais os segurados pagaram a vida inteira. Benefício, por exemplo, é o auxílio de emergência. As aposentadorias e pensões são apólices sociais.

Supremo deve rejeitar o silêncio de Pazuello ao depor na CPI da Covid

Governo tenta esquivar Pazuello do comparecimento à CPI

Pedro do Coutto

O Supremo Tribunal Federal, logicamente, deve rejeitar o recurso do Advogado Geral da União, André Mendonça, para que Pazuello permaneça em silêncio na convocação da CPI da Pandemia, depoimento marcado para quarta-feira, dia 19.  Reportagens de O Globo e da Folha de São Paulo focalizam amplamente o tema. No O Globo, a matéria é assinada por Jussara Soares, Marina Muniz, Julia Lindner e Filipe Vison. Na Folha, por Matheus Teixeira e Marcelo Rocha.

O relator no STF é o ministro Ricardo Lewandowski que, ainda hoje, deve examinar a questão, pois certamente a AGU pediu um desfecho rápido, que anteceda a proxima quarta-feira. O recurso de André Mendonça não tem sentido, pois o general Pazuello está convocado como testemunha e não como indiciado pela Comissão de Inquérito. Ele poderá ser acusado numa etapa posterior às suas explicações.

ESQUIVA – Está claro. Tem que se levar em conta a possibilidade de suas declarações serem aceitas como legítimas pela audiência marcada. Tentando esquivar Pazuello do comparecimento, o governo Bolsonaro passa tacitamente um temor pelo que o ex-ministro da Saúde possa declarar.

Logo, a situação do Planalto é de risco, através de uma tentativa de fuga que não se coaduna com a postura ética do governo, pois se o ex-ministro errou, o que o governo tem a fazer é consertar os seus erros e revelar que adotou novos caminhos para combater o coronavírus e a Covid-19 que está deixando um rastro de mortes que já ultrapassa a 420 mil.

VACINAS – Uma grande parte desse total teria sido evitada se o governo tivesse aceito propostas de compras de vacinas que lhe foram colocadas, a começar pela chinesa Corona Avc e na sequência pela Pfizer, cujo presidente da América latina depôs na CPI no Senado.

Um aspecto que deveria ser preocupação do governo e que está se tornando uma preocupação permanente da população é o que se refere à escala de contaminação diária com que o país hoje se defronta. Essa contaminação está atingindo a média de 70 mil homens e mulheres por dia e uma taxa de mortes superior a dois mil casos a cada 24 horas. O ministro Marcelo Queiroga, conforme já dito em outros artigos, precisa colocar o pé no freio.

Resultado do Datafolha terá reflexos intensos e trará à tona entrevistas de Mourão

Presença política de Mourão vai se tornar um ponto de referência

Pedro do Coutto

Com base nos números revelados ontem pelo Datafolha, cresce a importância da entrevista do general Hamilton Mourão aos repórteres Gustavo Uribe e Leandro Colon, publicada na Folha de São Paulo de 11 de março de 2021. Nessa entrevista, de página inteira, o vice-presidente da República afirmou que o povo é soberano e se ele quiser a volta de Lula, “paciência”, teremos que aceitar pois vivemos em um regime democratico que sustenta o estado de direito. Devemos receber o resultado naturalmente.

A opinião de Mourão na ocasião é a mesma mantida em relação às questões políticas do momento. Ele, por exemplo, afirmou em uma entrevista à GloboNews que o general Eduardo Pazuello não tem como deixar de comparecer à CPI da Pandemia e deve fazê-lo à paisana, usando, portanto, trajes civis, uma vez que o cargo que desempenhou não é militar.

PONTO DE REFERÊNCIA – A presença política de Hamilton Mourão vai se tornar um ponto de referência após a divulgação e levantamento do Datafolha, porque  se o presidente Jair Bolsonaro, desde o início de 2020, encontra-se em campanha pela sucessão, no momento em que sentir que o voto popular não poderá levá-lo a um novo mandato, tentará interromper o processo sucessório, provavelmente baseado na expressão que voltou a usar de “meu Exército”.

Ingressaremos, dessa forma, num período bastante sensível com o deslocamento de ações políticas para o universo das Forças Armadas. Não creio que as Forças Armadas possam participar  de uma tentativa de golpe de Estado, pois as afirmações dos generais Edson Pujol e Paulo Nogueira representam um posicionamento bastante claro quanto ao respeito à Constituição, à democracia e à liberdade.

Jair Bolsonaro deve estar sendo aconselhado nesta altura dos acontecimentos a tentar a reconquista do espaço em áreas carentes como colocou em prática, ampliando as medidas do governo no Nordeste. Aliás, as ações no Nordeste e em todo o país com base no auxílios-emergenciais e da distribuição das cestas básicas, conforme observei na época, produziram efeitos, mas que se evaporam através do tempo.

MANUTENÇÃO DE PROGRAMAS – Evaporam em período curto, principalmente ao que se refere ao auxílio de emergência. Quando se começa a liberar qualquer medida importante para os grupos que estão sofrendo até fome, não se pode recuar e deixar de se manter tais programas. É natural que todos os incluídos em faixas de melhoria, seja ela qual for, tenham sempre na imaginação a perspectiva de que o que era essencial continuaria a ser permanente.

Dessa forma, o auxílio de emergência que começou com um determinado valor e que agora termina com outro menor, causa um sentimento de frustração, uma vez que os beneficiados passam a sair de uma esfera relativa de conforto para um plano de decepção.

RELATIVIDADE – Como definiu Einstein, “tudo é relativo, só Deus é absoluto”. O relativo não pode ser de maneira alguma afastado da visão das pessoas que analisam os fenômenos políticos e que sabem que tais análises não podem ser calcadas em superfícies de gelo, como se o que aconteceu ontem pudesse ser mantido na neve ao longo dos espaços de tempo que vem a seguir na política, na economia, na administração, nas relações humanas.

O Datafolha destacou com bastante nitidez a realidade política atual. Se esta realidade mudar ou não, o caminho das urnas é outro assunto. Mas, pessoalmente, acho que não mudará, pois em matéria de voto, no caso voto de aprovação ou rejeição, quando o candidato recua dificilmente irá se recuperar.

DEPOIMENTO DE PAZUELLO –  Jussara Soares, O Globo de ontem, publica matéria revelando que a Advocacia Geral da União está preparando recurso ao Supremo para que o ex-ministro Eduardo Pazuello possa ficar em silêncio no depoimento marcado pela CPI no dia 19, quarta-feira. A AGU pensa alegar que na verdade Pazuello comparecerá como investigado e não como testemunha.

Entretanto, de forma surpreendente, o senador Flávio Bolsonaro defende a presença do ministro e que ele responda as perguntas que lhe forem endereçadas. Disse que Eduardo Pazuello terá a oportunidade de responder e rebater as acusações em massa que foram publicadas pelos jornais e divulgadas pelas emissoras de televisão.

LUCRO DOS BANCOS  – Larissa Garcia, Folha de São Paulo, informa que o lucro da Caixa Econômica Federal no primeiro trimestre do ano alcançou R$ 4,6 bilhões.  

O banco Itaú, no mesmo período, teve um lucro de R$ 65 bilhões, o Bradesco de R$ 64 bilhões; o Banco do Brasil de R$ 4,9 bilhões. Como não há crédito sem débito, e vice-versa, deixo uma pergunta no ar: quem pagou todos esses lucros? E ainda falta o Santander divulgar as suas contas no período de janeiro, fevereiro e março.

Lula dispara sobre Bolsonaro na estrada das urnas de 2022

Charge do Amarildo (agazeta.com.br)

Pedro do Coutto

Pesquisa da Datafolha publicada hoje como  manchete principal da edição da Folha de São Paulo revela que o ex-presidente Lula da Silva dispara e abre grande vantagem sobre Bolsonaro nas eleições de 2022 que definirá a sucessão presidencial.

Lula vence em praticamente todas as regiões do país e a sua maior força encontra-se nos eleitores e eleitoras de menor renda, embora atinja percentual ponderável nas faixas de rendimento mais alto. A reportagem de Fábio Zanini focaliza bem a diferença entre os dois candidatos principais e destaca que há um declínio de Bolsonaro entre os segmentos que o levaram à vitória em 2018.

ÁREAS DE INFLUÊNCIA – Bruno Bogossian, também na Folha, assinala que os números do Datafolha acentuam que Lula retomou antigas áreas de influência, enquanto Bolsonaro vê a sua base encolher.

Na minha opinião, os números do Datafolha traduzem uma insatisfação bastante forte em relação ao governo Bolsonaro, o que aliás não deve surpreender ninguém conforme disse em artigos anteriores, sobretudo em função do congelamento salarial e da subida dos preços tanto na alimentação quanto nas tarifas públicas, e ainda por cima dos remédios, setor ignorado pela última pesquisa do IBGE publicada ontem e que apontou um índice inflacionário minúsculo de 0,3% em abril. São contradições entre o candidato Jair Bolsonaro e o presidente da República.

São contradições que inevitavelmente refletem no plano político eleitoral. A esperança de melhoria social desapareceu na administração que assumiu o país em janeiro de 2019. Em dois anos não foi anunciado qualquer projeto construtivo, nenhuma iniciativa para conduzir a uma redistribuição de renda, somente restrições produzidas pelo ministro Paulo Guedes que acumula na Economia quatro ministérios, a coordenação do plano de privatizações, além de opinar  em casos que se referem ao Banco do Brasil, à Petrobras e à Caixa Econômica Federal.

REFLEXO –  Colocadas essas questões essenciais, o reflexo teria que se fazer sentir no plano político voltado para as eleições de 2022. O tempo passa rápido, como rápida está revelada a força eleitoral do ex-presidente da República. Como definiu Einstein, “tudo é relativo, só Deus é absoluto”. Assim, o Datafolha acentua que a relatividade entre as ações de Lula e as de Bolsonaro produziram uma vantagem bem acentuada do ex-presidente sobre o atual presidente do país.

O Datafolha selecionou um grupo de possíveis candidatos à Presidência da República para medir a predisposição quanto a seus nomes numa disputa. Reunido o grupo, Lula desponta com 41%, Bolsonaro 23%, Sergio Moro 7%, Ciro Gomes 6%, Luciano Huck 4%, o que surpreende pois ele não é político, João Doria com apenas 3%, Mandetta 2 %, o empresário João Amoedo também com 2%. Os brancos e nulos estão reunidos em uma faixa de apenas de 9% .

ENTUSIASMO – O índice de 9% significa, a meu ver, que acompanho eleições desde 1955, a existência de um entusiasmo em torno da sucessão presidencial, e a vontade de votar branco ou anular está menor do que aquela que geralmente se concretiza depois da apuração dos votos. O Datafolha fez uma simulação para o segundo turno do desfecho.

Lula, se as eleições fossem hoje, teria 55% dos votos contra 32% de Bolsonaro. Cinquenta e quatro por cento não votariam em Bolsonaro de forma alguma, e 37% não votariam em Lula de jeito nenhum. Passando a hipótese de um segundo turno, Lula, como acentuei, alcançaria 55% contra 32% de Bolsonaro. Se Lula enfrentasse Sergio Moro, teria 53% contra 33%. Contra João Doria alcançaria 57% a 21%.

Se Doria enfrentasse Bolsonaro, alcançaria 40 pontos contra 39 de Bolsonaro. Se o duelo final fosse entre Ciro e Bolsonaro, Ciro teria 46% contra 36% de Bolsonaro. Portanto, Bolsonaro perderia no confronto para todos os candidatos possíveis de estarem presentes na sucessão de 2022. Este é o panorama político jogando luz sobre o futuro próximo que decidirá o destino do país.

Depoimento de Barra Torres, da Anvisa, foi arrasador para o governo Jair Bolsonaro

Bomba de Barra Torres demonstra que o país encontra-se desgovernado

Pedro do Coutto

O depoimento do almirante Antonio Barra Torres, presidente da Anvisa, foi simplesmente arrasador para credibilidade do governo Bolsonaro, sobretudo na medida em que revelou a reunião realizada no Palácio do Planalto quando se cogitou editar um decreto alterando a bula da cloroquina, estendendo os seus efeitos para o combate ao coronavírus e à Covid 19.

Reportagens de André Sousa e Julia Lindner, no O Globo, e de Julia Chaib e Renato Machado, na Folha de São Paulo, destacam o depoimento do almirante que mostrou ao país um lado pleno de incompetência do governo Bolsonaro, pois não é possível cogitar-se alterar uma bula de qualquer medicamento sem dois estágios: primeiro o de que a bonificação terá que ser sempre homologada através de uma análise rigorosamente técnica.

VIOLAÇÃO – Segundo, alterar a bula de um medicamento viola o direito de propriedade que o laboratório possui sobre o produto que comercializa. A iniciativa nesse sentido, confirmou Barra Torres, significa um absurdo completo. Ele opinou contra o decreto e com isso revelou o seu distanciamento do governo.

Ele tem mandato na Anvisa e legalmente não pode ser exonerado. Mas agora, na minha opinião, ninguém pode exercer nenhum cargo importante na administração pública se não tiver a confiança do chefe do Executivo. A bomba que Barra Torres explodiu demonstra que o país se encontra em um desgoverno.

BLINDAGEM  – Se Bolsonaro demitir Barra Torres estará formalizando um atestado público de que só tem compromisso consigo mesmo e com o seu projeto de reeleição nas urnas de 2022. Se ele não pressionar Barra Torres sofrerá um enfraquecimento bastante sensível. Especialmente junto aos seus adeptos da direita política que se julgam e julgam o presidente blindado contra a verdade.

A verdade termina sempre se impondo e a mentira, mesmo repetida cem vezes, não prevalece. Os exemplos históricos são muitos, inclusive no Brasil. Vejam o caso de Jânio Quadros em 1961 quando renunciou à Presidência da República e abriu uma crise institucional no país cujos efeitos se prolongam até hoje, um deles a vitória de Bolsonaro nas urnas de 2018. O presidente até hoje não realizou os projetos que anunciou na campanha. O presidente esqueceu o candidato.

APOSENTADORIAS – As aposentadorias dos funcionários públicos, dos servidores das empresas estatais e dos empregados da iniciativa privada são efetivamente seguros sociais, cujas apólices vencem ao completarem trinta e cinco anos de serviço para os homens e trinta anos de serviço para as mulheres, quando então podem resgatar as contribuições que fizeram sobre os seus salários, através do tempo exigido para conquistarem o direito de se aposentar.

Por isso, afirmo, que a portaria do ministro Paulo Guedes, separando os vencimentos de um emprego e adicionando os salários de novas colocações está perfeitamente dentro da lei, do espírito da Constituição, do bom senso e da realidade.

Se uma pessoa se aposentou em um emprego e continua exercendo outra ocupação não pode estar sujeita a um único teto baseado em 90% dos vencimentos dos ministros do STF. São duas situações distintas, não podendo ser singularidades numa só perspectiva.

APLICAÇÃO DA NORMA – O governo Bolsonaro não compreendeu até hoje que se ele nomeia um general da reserva para ministro de Estado, o general tem pleno direito a receber o seu soldo acrescido da remuneração estabelecida para o exercício do novo cargo. Essa norma logicamente tem que se aplicar a todas as situações funcionais, porque é legítima. As pessoas pagam por sua aposentadoria, contribuem para a seguridade social e para o INSS. A permanência de quem se aposentou no mercado de trabalho é altamente rentável para o Tesouro Nacional e também para o INSS.

Por que isso? O aposentado que continua trabalhando investido em outro emprego contribui, no caso do funcionalismo público, para a seguridade social. No caso dos servidores das empresas estatais, a exemplo de Petrobras e Furnas, por exemplo, continuam contribuindo para o INSS. Estou expondo duas contribuições e acrescento que tanto a aposentadoria do funcionário público, quanto a aposentadoria dos que são regidos pela CLT, não se altera. Portanto a contribuição arrecadada capitaliza diretamente o Tesouro nacional e no caso da CLT, capitaliza o próprio INSS.

Em simples palavras: a receita decorrente da sequência de contribuições não muda o valor da aposentadoria no serviço público. E não muda o valor da aposentadoria paga pelo INSS. Não muda também o desembolso dos fundos de aposentadoria complementar e de pensão que continuam da mesma forma que o INSS, recolhendo as contribuições dos empregados.

RECEITA DA SEGURIDADE – Os leitores devem ter percebido um aspecto bastante sensível da questão. O aposentado que permanece trabalhando amplia a receita da seguridade e do INSS sem causar aumento algum de despesas a essas duas fontes. Parece incrível, mas os burocratas, especialmente do INSS, não conseguem entender essa realidade. Também não entendem os técnicos formados em universidades como Harvard, Stanford, Chicago e Oxford.

Essa turma é insensível à importância de se valorizar o trabalho humano. Só pensam em cortar despesas e favorecer o sistema empresarial. Para eles, os funcionários e empregados não importam em seus cálculos.

Focalizei o assunto porque a portaria de Paulo Guedes aumenta os vencimentos do presidente da República, do vice-presidente Hamilton Mourão e dele próprio, Paulo Guedes. Mas isso não tem nada a ver com a essência legítima do direito. Se alguém contribuiu para sua apólice social, tem pleno direito de ser atendido pelos efeitos dessa contribuição.

PRIVATIZAÇÃO DA ELETROBRAS – Manoel Ventura no O Globo e Danielle Brant e Thiago Resende na Folha de São Paulo, destacam com nitidez um dos problemas essenciais da privatização da Eletrobras, projeto defendido pelo ministro Paulo Guedes e por setores, é claro, da iniciativa privada, entre eles o da State Grid, nome em inglês da gigantesca empresa chinesa. Empresa que construiu a maior hidrelétrica do mundo, a de Três Gargantas, ultrapassando a de Itaipu.

Gargantas aguarda o projeto do governo Bolsonaro de privatizar a Eletrobras. A questão é complexa e envolve ativos de valor extraordinário. O ministro Paulo Guedes, por diversas vezes, se referiu a tal ideia fixando seu preço em R$ 16 bilhões. A meu ver, uma brincadeira de mau gosto. Como pode a Eletrobras valer R$ 16 bilhões, se ela abrange Furnas, Chesf, Eletrosul, Eletronorte e a rede de transmissão que Furnas aciona distribuindo a energia proveniente de Itaipu.

OFERTA PELA OI – R$ 16 bilhões é a oferta feita pela Claro, pela Tim e pela Vivo para aquisição da OI, antiga telecom que se encontra com graves problemas financeiros. Se a Oi vale R $16 bilhões, quanto valerá a Eletrobras?

Nicola Pamplona, Folha de São Paulo, assinala que o preço da energia elétrica continuará subindo ao longo de todo o ano de 2021. O governo Bolsonaro deve estar contando com essa energia suplementar para as urnas de 2022.  Por falar em 2022, o ex-governador Ciro Gomes anunciou ontem sua candidatura pelo PDT, colocando-se como terceira opção entre Jair Bolsonaro e Lula da Silva.

Não acredito. Se Ciro Gomes sem apoio de Lula não conseguiu candidatar-se em 2018 com Lula apoiando Fernanda Haddad, muito menos poderá obter espaço no eleitorado contrário ao governo com Lula pedindo votos para si próprio.

Barra Torres, presidente da Anvisa, vetou mudar a bula da cloroquina para tratar a Covid-19

Depoimento de Torres expõe Bolsonaro a mais uma contradição

Pedro do Coutto

No depoimento ontem à CPI da Pandemia, o almirante Antonio Barra Torres, presidente da Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa), revelou ter desaconselhado de imediato o governo no que se refere à ideia de, por decreto executivo, qualificar a cloroquina como capaz de produzir efeitos contra o coronavírus e a pandemia que passou a ser tratada como Covid-19.

A resposta de Barra Torres deixou a oposição satisfeita e a bancada governista contrariada porque revelou ter o segundo escalão do governo se oposto a uma hipótese totalmente absurda, segundo especialistas na matéria, entre os quais se encontra o almirante. A CPI ouvirá hoje Fabio Wajngarten , ex-chefe da Secom da Presidência da República, após divulgar, há cerca de duas semanas, uma entrevista criticando os rumos traçados para a Comunicação.

CLOROQUINA – O depoimento do diplomata Ernesto Araújo, ex-ministro das Relações Exteriores, que era para ocorrer amanhã, quinta-feira, ficou para o dia 18. No dia 19, encontra-se marcado o depoimento do general Eduardo Pazuello. Patrícia Campos Mello, Raquel Lopes e Julia Chaib, Folha de São Paulo desta terça-feira, revelam que a CPI vai questionar Ernesto Araújo, indagando qual o objetivo de sua atuação em favor da cloroquina, utilizando a rede do Itamaraty para propor aquisição do medicamento em vários países.

Se o medicamento tinha sido vetado para o coronavírus pela Anvisa, sob o ângulo de análise das três repórteres, não teria o menor cabimento ou sentido que o ex-chanceler partisse para uma ofensiva para adquirir a cloroquina. Além disso, o problema do uso de remédios ou imunizantes para a pandemia é um processo que teria que partir do Ministério da Saúde: no caso, o ex-ministro do exterior assumiu um comportamento que não era adequado porque estava sem base no roteiro estabelecido pelo Ministério da Saúde.

EXPOSIÇÃO DE BOLSONARO – O depoimento de Barra Torres vai, sem dúvida, agravar a tensão no governo , expondo o presidente Jair Bolsonaro a mais uma contradição. A pergunta que é decorrente da constatação é a de que por qual motivo então o presidente da República insistiu na tese absolutamente rejeitada pela comunidade científica ?

De outro lado, reportagem de Renato Machado e Julia Chaib, no Valor, destaca uma entrevista com o senador Marcos Rogério, aliado do governo federal, na qual diz que a oposição quer colocar no presidente da República o carimbo de culpado. O senador Marcos Rogério sustenta que o general Eduardo Pazuello não deve temer a sua ida à CPI, pelo contrário, deve aproveitar a oportunidade para divulgar a sua versão dos fatos.

O senador acrescenta que não tem procedência a notícia de que Eduardo Pazuello desejasse recorrer ao STF para não comparecer. Na minha opinião seria o pior caminho a ser seguido por Pazuello, pois é claro que o Supremo não poderia expedir tal mandado de segurança.

MEIO AMBIENTE – Fato acentuado na noite de segunda-feira pelo jornalista André Trigueiro, especialista em questões de meio ambiente no programa em pauta da GloboNews. Encontra-se em tramitação final na Câmara dos Deputados um projeto que recebeu parecer do deputado Neri Geller que tem como alvo facilitar amplamente a liberdade de desmatadores da Amazônia que poderiam a partir dessa nova lei expandir à vontade plantações ligadas ao agronegócio, enquanto outros empresários passariam a  instalar e colocar unidades industriais e comerciais sem a necessidade de licença ambiental, tanto para um caso, quanto para outro.

Para se ter uma ideia da nocividade da proposta, Raphael Di Cunto e Rafael Walendorff, Valor, destacam que a meta é retirar a necessidade de licença ambiental para 17 atividades comerciais e industriais.

André Trigueiro é um especialista na matéria que se refere ao meio ambiente e ao efeito estufa. Mais uma iniciativa contrária aos interesses legítimos dos que lutam, como André Trigueiro, para preservar o meio ambiente e conter o avanço de iniciativas que causarão maior aquecimento global.

DESCASO DE SALLES – Tal projeto prejudica ainda os sistemas e abastecimento de tratamento de água e de esgotos, incluindo a construção de usinas de triagem de resíduos sólidos. É incrível como o ministro Ricardo Salles trata o problema ambiental.

Por causa disso, em outra matéria também do Valor, Daniela Chiaretti, revela manifestações de ambientalistas comprometidos com o interesse nacional e internacional, classificando o parecer do deputado Neri Geller como o pior que transitou até hoje na legislação brasileira. As manifestações sobre o assunto devem ter efeito para impedir mais essa bomba contra a Amazônia brasileira.

BOLSONARO E LULAPesquisa da Consultoria Atlas divulgada na segunda-feira e objeto de matéria de Ricardo Mendonça no Valor de terça-feira, revela que em matéria de imagem pública, o presidente Bolsonaro recuperou pontos que havia perdido junto à população. Voltou aos 40%, enquanto Lula da Silva alcançou 37%.

A pergunta não se referiu  apenas ao desempenho, mas também à veiculação da imagem. A veiculação da imagem de Bolsonaro é natural por ser o atual presidente da República. A colocação de Lula em segundo lugar funciona para deixar explícito que o combate nas urnas de 2022 será entre ele e Jair Bolsonaro. Aliás é esta opção que o ex-presidente da República vem considerando como a melhor para a sua candidatura.

À medida em que o tempo for passando, outras pesquisas virão, principalmente as do Datafolha que focam mais nitidamente o potencial dos candidatos. Uma pesquisa de imagem funciona para definir trajetórias,  mas não incluem plenamente o revestimento político que cada candidato vai assumir na estrada que leva a outubro de 2022.

FOME NO BRASIL – Em artigo publicado no Valor de ontem, a jornalista Maria Clara do Prado focaliza o problema da fome no Brasil e acentua que a concentração de renda continua existindo como uma característica marcante e duradoura da vida nacional. Desde o final dos anos 90, o Brasil está exposto a uma série de fatores que comprimem cada vez mais a pobreza.

Hoje, são 61 milhões de brasileiros e brasileiras vivendo em condições sub-humanas. Acrescenta Maria Clara que 61 milhões representam a população de Portugal multiplicada por dez. Cada vez mais a maior parte da população brasileira é exatamente aquela cuja renda proveniente do trabalho vai diminuindo a cada ano.

COAF – Fábio Pupo, Folha de São Paulo de segunda-feira, assinala que o presidente Bolsonaro aplicou um veto reduzindo a verba destinada a modernizar o sistema anticorrupção no Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf.

A incorporação do Coaf foi o primeiro lance que atingiu o ex-ministro Sergio Moro quando estava à frente do Ministério da Justiça. Estava acertado com o presidente Bolsonaro que o órgão fundamental para combater a corrupção e a lavagem de dinheiro fosse mantido sob o controle do juiz da Lava jato.

OBSTÁCULO – O Coaf representa um sistema de percepção e análise de todas as operações financeiras realizadas no Brasil e também capaz de identificar depósitos brasileiros feitos no exterior. Estava claro que o Coaf não ia permanecer nas mãos de Sérgio Moro. O Coaf representa um obstáculo ao grande número de atividades políticas e empresariais e da administração pública brasileira.

O Coaf permite vislumbrar as comissões e os super preços que circulam entre o relacionamento do poder público com os interesses do empresariado. Isso porque, digo eu, a corrupção é algo que exige pelo menos dois atores, mas pensando bem há um terceiro, a fonte que autoriza o pagamento das faturas, tais pagamentos não podem demorar. Mas essa é outra questão. O que quero dizer é que o controle do Coaf é vital para o descontrole do dinheiro público no Brasil.

Depoimentos de Wajngarten e Araújo à CPI ameaçam blindagem do governo

Araújo e Wajngarten serão os centros das atenções dos senadores

Pedro do Coutto

Na próxima quarta-feira, o depoimento de Fabio Wajngarten, ex-chefe da Secom, e de Ernesto Araújo, na quinta-feira, são ameaças políticas muito fortes que terão como alvo o governo Jair Bolsonaro, cujos integrantes tentam mudar o foco da CPI da Pandemia. Mudar o foco não conseguirão, sobretudo porque está também na alça de mira da CPI a questão das fake news e da usina produtora delas no Planalto.

Julia Lindner e Natália Portinari, O Globo desta segunda-feira, focalizaram a extensão dos trabalhos da CPI para tornar pública a realidade da usina das notícias falsas nas redes sociais e nas ações do gabinete que opera na Casa Civil de contestação às críticas desfechadas contra o governo.

BASE LÓGICA – Nesse gabinete, na minha impressão, não se consegue transformar a falsificação de fatos em realidades. Sobretudo porque não existe a menor possibilidade de alguém, ou no caso de uma fonte, mudar o processo de compreensão se este processo não incluir uma base lógica.

Hoje em dia, inclusive, com os meios de comunicação funcionando em tempo real, no caso das edições online, a mentira logo é exposta ao conhecimento público que identifica nela a falta de suporte necessário. As fake news, é preciso que se esclareça, só alimentam a vontade dos bolsonaristas ou outras correntes que recorram a este universo sombrio de comunicação.

Atualmente, o sistema de informação e confirmação funciona praticamente em conjunto. Pois se uma pessoa recebe uma notícia que julga de importância acentuada irá procurar a sua confirmação. Isso reduz o tempo em que vive a notícia falsa.

CLOROQUINA – Na Folha de São Paulo, Patrícia Campos Mello publica extensa reportagem revelando que o ex-chanceler Ernesto Araújo foi capaz de mobilizar o Ministério das Relações exteriores para assegurar o fornecimento de cloroquina ao país, mesmo após a Organização Mundial de Saúde ter divulgado que o remédio não servia para o combate ao coronavírus.

O ex-chanceler comparecerá na próxima quinta-feira à CPI da Pandemia quando será , como é lógico, objeto de intensa massa de indagações centradas em sua atuação à frente do Ministério das Relações Exteriores. Como todos sabem, a sua passagem pelo Itamaraty foi efetivamente uma catástrofe.

Ele, no momento, tenta manter influência na Casa de Rio Branco e desfocar a atuação do seu sucessor, Carlos França, que está desenvolvendo um trabalho infinitamente superior. Aliás, o que não é difícil, uma vez que Araújo transformou o Itamaraty em um centro de confusão e contradições, umas após a outra.

TELEGRAMAS –  Patrícia Campos Mello destaca também a série de telegramas que o ex-chanceler enviou a outros diplomatas brasileiros no exterior, não respeitando a lógica dos fatos. A confusão foi generalizada.

Araújo e Wajngarten serão os centros das atenções dos senadores que compõem a CPI e também de outros parlamentares. A semana, como se vê, não oferece ao governo perspectivas favoráveis. Os depoimentos vão representar um sério abalo no sistema defensivo do Planalto.

PASSEIO DE MOTO – O presidente Bolsonaro participou, no domingo, de um passeio de moto pelas ruas da capital e em meio a cerca de 100 motociclistas, não usando máscaras e nem assegurando o distanciamento entre as pessoas, recomendado pela OMS e pela consciência nacional e internacional.

Para mim, o presidente Jair Bolsonaro rompeu com a lógica e as suas atitudes sucessivas são de contestação ao combate à pandemia que inclusive está exigindo do ministro Marcelo Queiroga um freio à sequência de mortes e contaminações.

FAKE NEWS –  A respeito das fake news acentuo que a melhor forma de combatê-las é a exigência imediata do direito de resposta previsto na Lei de Imprensa. O direito de resposta forçará as redes sociais a observarem com mais atenção a origem do noticiário injetado nas redes da internet.

A liberdade de expressão é um fato intocável. Mas isso não quer dizer que aqueles que usam a  liberdade de expressão estejam fora das medidas legais que se aplicam aos casos de calúnia, injúria e difamação. Qualquer pessoa pode falar à vontade, mas sob a responsabilidade do que afirma. As nuvens da internet não foram feitas para legitimar os irresponsáveis. Os danos causados pela irresponsabilidade são sempre dramáticos, quando não, trágicos.

INVESTIGAÇÃO – Vivemos em um mundo que impulsiona as pessoas pelo conhecimento real dos fatos, exatamente o contrário do que agem os que ascendem à usina da fantasia. Agora mesmo, matéria de Paulo Saldaña, Folha de São Paulo, o ministro da Educação Milton Ribeiro está sendo investigado por ter atuado para retardar investigação numa universidade presbiteriana de Londrina.

Pode ser que Milton Ribeiro faça alguma coisa, uma vez que a sua atenção não surgiu ainda no noticiário dos jornais e nas emissoras de televisão. O mesmo acontece com a falta de iniciativa do ministro Marcelo Queiroga em frear a contaminação da Covid-19. A população agradecerá aos dois ministros se resolverem finalmente atuarem nesses dois pontos.

Bolsonaro complica Queiroga ao anunciar vídeo com ministros defendendo a cloroquina

Charge do Zé Dassilva (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Matérias publicadas neste domingo na Folha de São Paulo e no O Globo revelam que o presidente Jair Bolsonaro resolveu produzir um vídeo tendo ao seus lado os 22 ministros do governo defendendo o uso da cloroquina como medicamento eficaz para o combate à Covid-19.

Sério problema para o ministro da Saúde, Marcelo Queiroga, uma vez que ele enfrentará um dilema: ficar bem com o presidente ou ficar mal com a classe médica e científica. É evidente, como já a ciência chegou à conclusão, que a cloroquina nao tem eficácia alguma no combate ao coronavírus e, portanto, não pode ser usada contra a pandemia.

POSIÇÃO DIFÍCIL – O titular da Saúde talvez esteja nesse momento sentindo que não deveria continuar no governo porque certamente ficará numa posição muito ruim com os médicos e com as entidades médicas do país. Do país só não, talvez até ficasse mal com entidades médicas internacionais, a começar pela Organização Mundial de Saúde.

A matéria na Folha de São Paulo está assinada por Ricardo Della Coletta e no O Globo por André de Souza. O que pode salvar Marcelo Queiroga é o difícil, mas sempre possível, recuo de Bolsonaro.

ATAQUE – O presidente Jair Bolsonaro, acrescentam Ricardo Della Colleta e André de Souza, voltou a atacar a CPI dizendo que tornou-se um grande vexame, inclusive porque a Comissão Parlamentar de Inquérito não fala em cloroquina. Bolsonaro se enganou.

O tema cloroquina entrou várias vezes no depoimento de Queiroga que tentou se esquivar em uma tentativa criticada pelo presidente da CPI, Omar Aziz. Portanto, a cloroquina não deixou de ser colocada no palco do Senado Federal.  O tema, inclusive, encontra-se também no Tribunal de Contas da União que deseja saber qual o montante das verbas que foram destinadas à distribuição do remédio.

COMPRA DE TRATORES –  Reportagem de Bruno Pires, Estado de São Paulo de ontem, destaca que um esquema político a base de distribuição de verbas a deputados, no montante de R$ 3 bilhões, tem como destino a aquisição de tratores agrícolas para atender a realização de obras que indicadas através de emendas parlamentares.

Esses recursos foram usados para conseguir apoio aos candidatos governistas, e foram gastos em 101 ofícios, alguns deles com tratores e equipamentos agrícolas por preços até 259% mais caros que os valores fixados pelo governo.

MERCADO DE TRABALHO –  Na Folha de São Paulo, matéria de Nicola Pamplona e Leonardo Vieceli, focaliza o problema encontrado pelos jovens para ingressar no mercado de trabalho. A população brasileira, digo eu, cresce a velocidade de 1% ao ano: são assim 2 milhões de pessoas que passam de uma idade para outra e que precisam encontrar possibilidade de ingresso no mercado de trabalho.

Com a dificuldade está se criando uma figura nova no cenário nacional. Não se trata de desemprego, pois o jovem nao era empregado. Significa a existência de um processo de não-emprego, tão grave quanto os 14 milhões de desempregados existentes no Brasil.

Quando se fala em desenvolvimento econômico e social tem que se levar em conta o crescimento demográfico, como é usado para estabelecer a renda per capita de um país. Se o Produto Interno Bruto crescer 1% ao ano terá ocorrido uma estagnação no país. Para que tenhamos avanço é necessário que o PIB cresça mais do que 1%, no caso brasileiro.

SUCESSÃO DE 2022 – Reportagem de Joelmir Tavares e Carolina Linhares, Folha de São Paulo, focaliza as primeiras movimentações de candidatos em potencial para a sucessão de 2022. Dois nomes, claro, se destacam, o próprio presidente Jair Bolsonaro e o ex-presidente Lula da Silva.

Porém, há esforço para que haja uma terceira força com possibilidade de chegar pelo menos ao segundo turno da votação. Mas essa busca encontra dificuldades, havendo poucos nomes capazes de arregimentar um bloco que não esteja nem com Lula e nem à direita de Bolsonaro. Mas nao está fácil.

João Doria dificilmente se afastará do governo para disputar eleições em condições difíceis. O nome de Tasso Jereissati surgiu na última semana como alternativa do PSDB. O nome de Luciano Huck nao foi cogitado pelos jornalistas da matéria. Ciro Gomes, vetado por Lula, tanto hoje quanto em 2018, na minha opinião não tem possibilidade alguma.

CONFRONTO IDEOLÓGICO – Também na Folha de São Paulo e exercício interessante da repórter Ana Estela de Sousa Pinto; ela aborda a base de um confronto ideológico citando o exemplo da França.

Na França, Emmanuel Macron disputará a reeleição em abril também de 2022. A posição solidificada da direita, com Marine Le Pen como candidata natural, está alcançando nas pesquisas uma fração de 25%. Para mim esse fenômeno eleitoral da direita, exceções confirmando a regra, estão contidas na faixa entre 20% a 25%, não devendo fugir dessa realidade. Foi o que aconteceu no segundo turno da última eleição presidencial francesa.

No Brasil, a mais recente pesquisa do Datafolha apontou 32% a favor de Jair Bolsonaro, mas o julgamento não era manifestação de voto e sim de consideração positiva do seu governo. Projetado para amanhã o panorama de hoje, Bolsonaro no caminho das  urnas vai percorrer uma faixa que acredito seja de 25%. O problema é saber se 25% serão capazes de levá-lo ao segundo turno. Acho que sim, terá ele a oportunidade de se confrontar com o ex-presidente Lula da Silva. As urnas vão decidir.

Ministros procuram embaixador da China para consertar mais um erro de Jair Bolsonaro

Bolsonaro cria embaraços internacionais e coloca o país em risco

Pedro do Coutto

A GloboNews colocou no ar no jornal das 18 h de sexta-feira, um pequeno vídeo sobre a iniciativa dos ministros Carlos França, Marcelo Queiroga e Paulo Guedes que foram à Embaixada da China em Brasília para um encontro com o embaixador do país para tentar contornar o mal-estar criado na política diplomática, consequência de uma fala do presidente Jair Bolsonaro sobre a vacina fornecida ao Brasil.

Bolsonaro de forma indireta, mas quase direta, ainda insinuou novamente que o coronavírus foi iniciativa da China para expandir a sua presença na economia de diversas nações, entre as quais situa-se o Brasil. Os três ministros assumiram o episódio até então inédito na diplomacia brasileira, ou seja, tentar consertar um erro, mais um da série, cometido pelo presidente da República.

INTERFERÊNCIA – A GloboNews colocou a matéria com destaque e a reportagem acentuou que o embaixador da China aceitou as desculpas e aparentemente o assunto estaria encerrado. Mas o que causa espanto à população brasileira é o fato de um presidente da República necessitar da interferência do chanceler e de mais dois ministros de Estado para remediar e, com isso evitar, qualquer represália no plano econômico e social. Pequim é hoje a capital do país que se tornou o maior parceiro comercial do Brasil.

O comércio entre as duas nações oscila em torno de US$ 100 bilhões por ano, significando 40% das exportações brasileiras. O temor dos integrantes do governo é o de que possam ser suspensas ou reduzidas as exportações de soja, de carne, de minério de ferro e até de petróleo para o país que mais cresceu no último ano. Quando o presidente Bolsonaro fala, o agronegócio fica extremamente preocupado.

CPI DA PANDEMIA – Numa pequena entrevista na entrada do Palácio do Planalto a um grupo de repórteres, o vice-presidente Hamilton Mourão disse que o general Eduardo Pazuello não poderá se furtar a comparecer à Comissão Parlamentar de Inquérito da Pandemia, quando deverá responder às perguntas que lhe forem feitas pelos senadores. Afinal de contas, ele foi ministro da Saúde e a sua nomeação foi considerada de risco pelo próprio governo em face de ser ele um general da ativa.

Pazuello, acrescentou Hamilton Mourão, não deverá comparecer fardado, pois o cargo que desempenhou é de natureza civil. Portanto, tem que comparecer com trajes civis. Nesse ponto, Mourão fixa uma posição absoluta igual a do general Paulo Sérgio Nogueira, atual comandante do Exército escolhido pelo ministro da Defesa Braga Netto.

A situação de Eduardo Pazuello está confusa, como assinalam as reportagens de Jussara Soares, no O Globo de sábado, e de Felipe Frazão e Rafael Moraes Moura, no Estado de São Paulo. Jussara Soares revela que Pazuello decidiu recusar o cargo que o presidente Jair Bolsonaro lhe ofereceu na Secretaria Geral da Presidência da República.

AGU – O Planalto havia escalado a Advocacia Geral da União para orientar o depoimento e o desempenho do ex-ministro da Saúde na CPI. Mas Pazuello resolveu recusar a nomeação, o que faz com que retorne para sua função militar, não aceitando integralmente que a sua defesa seja feita pela AGU.

Este fato é impactante , até porque Pazuello já contratou o advogado criminalista Zoser Hardman para assessorá-lo e defendê-lo se for o caso no inquérito constituído no Senado Federal.  Ao rejeitar o cargo, Pazuello demonstra tacitamente que se afastou ou está se afastando do presidente Jair Bolsonaro. Com isso, cresce a importância do seu depoimento marcado para o dia 19. Ele não poderá recuar, pois o  seu comparecimento determinado pela CPI está também na vontade do presidente da República.

AMAZÔNIA – Reportagem de André Borges, Estado de São Paulo, com dados do próprio Ibama, revela que o desmatamento da Amazônia bateu um novo recorde no mês de abril deste ano , crescendo 42% em relação ao mês de abril de 2020.

Chega-se à conclusão, como resultado de todas as setas críticas convergindo contra Salles, que o ainda ministro do Meio Ambiente está reunindo prejuízos de alto porte para o Brasil. A presença de Ricardo Salles no ministério está criando graves problemas para o esforço internacional contra o desmatamento da Amazônia e também as queimadas no Pantanal do Mato Grosso do Sul.

VICE PARA 2022 – O Globo, matéria de Paulo Cappelli, edição de ontem, diz que Jair Bolsonaro, Lula da Silva, Ciro Gomes e João Dória, os dois primeiros candidatos reais, estariam à procura de um candidato a vice para companheiro de chapa.

A meu ver, Ciro Gomes, alvejado por Lula, não tem condições de disputar com qualquer possibilidade de vitória. O governador João Doria, conforme ele próprio já deixou claro, sentindo-se sem espaço entre Lula e Bolsonaro, provavelmente tentará a reeleição para o governo de São Paulo. Poderá até formar ao lado de Lula, uma vez que não existe hipótese dele se alinhar com Bolsonaro, pois já foi excluído por este de forma absoluta. Além do mais, a João Doria não interessa a Vice -Presidência da República.

A interpretação que merece ser colocada é a de que Jair Bolsonaro não está nada satisfeito com a presença de Hamilton Mourão no Planalto. O general vem em diversas ocasiões criticando ministros do governo. Foi o caso de Ernesto Araújo, e agora o episódio  com Eduardo Pazuello. A meu ver, nitidamente, Hamilton Mourão representa e lidera uma corrente militar totalmente adversa ao pensamento de Bolsonaro que ao invés de orientar, desorienta a Administração e, com isso, desorienta o próprio país.

REVISTA ÉPOCA –  Na edição de sexta-feira, O Globo em reportagem que ocupou página inteira, anunciou que a revista Época, da família Roberto Marinho, vai deixar de circular a partir de 29 de maio. Afirma o texto que o crescimento da edição online do jornal vem absorvendo e reduzindo, em consequência, a venda da revista nas bancas, cujo conteúdo será editado online e, semanalmente, publicado na tradicional edição impressa de O Globo.

Esse fato, a meu ver, acentua estar em curso uma reforma em todo o sistema Globo a partir deste ano e que já envolve uma parceria da Som Livre com uma empresa de grande porte americana, a parceria da TV Globo e da GloboNews com o Google, e agora a retirada de circulação da revista Época.

A qualidade da TV Globo é bastante elevada, da mesma forma que os leitores do jornal e os que acessam as edições online, as quais permitem atualização dos fatos quase em tempo real. Entretanto, assinalo que para informações tópicas e que ocupam pouco espaço, as edições online servem para percepção urgente do que acontece na economia, na política, na administração e na área policial, como foi o caso  do desfecho de sangue no Jacarezinho.

ANÁLISES PROFUNDAS – Entretanto, para análises mais profundas dos fatos, é preciso ler-se as edições impressas porque é impossível que uma edição online possa transcrever, por exemplo, uma reportagem de página inteira como essa do O Globo sobre a saída da revista Época das bancas de jornal.

Uma coisa é a notícia tópica e curta, outra é o desdobramento lógico dos assuntos, cada vez mais detalhada de acordo com a importância do episódio acontecido ou do lançamento de algum programa de impacto na opinião pública.

Dentro de alguns dias, voltarei ao assunto. Ele é fascinante e dá margem para que se analise o processo de formação de opinião de forma clara, transparente e objetiva. Até hoje, nenhum meio de comunicação que tenha surgido conseguiu abalar aquele ao qual imediatamente sucedeu. Está aí o exemplo da televisão e do rádio, o do cinema e os jornais, a internet e as edições de papel através das quais assim caminha a humanidade, como o título do filme de George Stevens.

Rio: Cidade aberta ao tráfico, à milícia, à violência e à morte em um cenário triste de pobreza

Conflitos se eternizam pela omissão dos poderes públicos

Pedro do Coutto

O título deste artigo está inspirado no famoso filme “Roma cidade aberta”, de Roberto Rossellini., que praticamente abriu a época do neorrealismo italiano e que inclui passagens das últimas tentativas de resistência de tropas nazistas à invasão da Itália pelas forças americanas e brasileiras. A montagem, é curioso observar,  foi feita por Federico Fellini que integrava a equipe do autor.

O Rio, digo eu, é uma cidade aberta ao tráfico de drogas, à milícia que sufoca os habitantes, à violência que se projeta nos confrontos entre bandos rivais e às polícias militar e civil. A morte e a desolação são consequências de um conflito que se eterniza e que nasce da omissão dos poderes públicos. A qualquer hora a morte faz sua passagem e deixa marcas desesperadoras.

FILMAGENS – Nos noticiários da TV Globo, e divulgados também pela GloboNews, a operação policial ocorrida na região do Jacarezinho, na Zona Norte do Rio, é uma obra de um realismo total que foi acrescentada por filmagens pelos celulares de moradores da enorme favela.

Nessas tomadas, surpreende até a qualidade dos ângulos e dos movimentos registrados e revelados pelas telas manuais. As filmagens da Globo são também impressionantes, feitas com lentes que atravessaram as ruelas da favela e do alto de helicóptero registraram a imagem de um problema social impactante que vem se acumulando pela falta de poder de compra das classes sociais de renda mais baixa.

O panorama desolador ressalta também os efeitos que decorrem do cenário de carência e de miséria. O ser humano é capaz de promover grandes mudanças na tecnologia pois há mais de 50 anos conseguiu chegar à Lua, mas por aqui não consegue sequer reduzir a miséria ou implantar um saneamento para uma vida digna de milhares de brasileiros.

DOMÍNIO DO CRIME – A fome continua e o tráfico, a milícia e o crime encontraram um campo positivo para dominar não só as comunidades pobres, mas no caso do Rio de Janeiro, toda a população carioca e fluminense.

Os combates entre criminosos e policiais deixam um rastro macabro de desfechos. A morte viaja inclusive pelas balas perdidas que não escolhem somente as vítimas dos confrontos, mas inocentes encurralados pela guerra urbana. Crianças são vítimas do absurdo e não conseguem chegar à adolescência.

Adolescentes também são mortos e suas famílias tornam-se prisioneiras de uma situação insuportável. Governos passaram pelo Rio, e a melhor prova da omissão  e da culpa está nas fotografias das prisões de diversos ex-governadores e também de prefeitos que igualmente se dedicaram à corrupção e para os quais as vidas alheias não tem importância, não valem nada.

LUXO E OSTENTAÇÃO – Mas suas vidas, pelo menos até a Lava Jato, eram de luxo, despesas monumentais, roubos gigantescos que subtraíram recursos financeiros. Governadores e prefeitos enriqueceram, adquiriram propriedades de custo altíssimo, viajaram de lanchas pelas águas da omissão, depósitos de grande porte desceram sobre as suas contas bancárias, anéis, brilhantes e crimes estão nas páginas que vão relatar eternamente períodos da vida da cidade, consequência da aliança entre ladrões de casaca e as forças do tráfico e da milícia que estrangulam qualquer reação das comunidades.

As favelas espalham-se cada vez mais no Rio. Hoje, são dois milhões de pessoas, uma tela em que a imagem é simplesmente tão dramática quanto trágica.  A corrupção não respeita limites e com ela, por falta de assistência médica de urgência, morrem a cada dia centenas de seres humanos.

DESAFIO – O grande desafio e motivo de angústia para todos nós é a incapacidade de sairmos deste quadro fatídico que oprime todas as escalas sociais. Ninguém está livre do quadro legado pelos corruptos e corruptores. Na Folha de São Paulo a reportagem é de Júlia Barbon e Thaís Nogueira. No O Globo, a matéria foi produto de sua equipe de reportagem.

O episódio de quinta-feira foi tão marcante que alcançou destacados materiais, inclusive com fotos no New York Times, no Washington Post e no inglês The Guardian. Outros jornais franceses e italianos, espanhóis, enfim, de dezenas de países destacaram o acontecimento que ficará na história nacional e internacional como prova de guerra urbana reproduzindo no século XXI a atmosfera de Chicago nos anos de 1929 a 1931 quando então Alcapone foi encarcerado.

A OBSESSÃO DE BOLSONARO  – Reportagem de Ricardo Della Coletta e Ricardo Machado, Folha de São Paulo, acentua de forma nítida a obsessão de Jair Bolsonaro pela cloroquina, um remédio que já ficou comprovado cientificamente não ter qualquer influência no tratamento da Covid-19, insistindo em apresentá-lo como uma solução médica para um ciclo mundial que só no Brasil já alcançou mais de 400 mil casos fatais e cuja contaminação diária vem alcançando números alarmantes sem que o ministro Marcelo Queiroga consiga deter.

Pelo contrário, em seu depoimento na CPI do Senado tentou esquivar-se sobre o falso remédio que o presidente da República insiste em defender. Jair Bolsonaro atacou também a CPI e disse constituir uma xaropada. Para ele, vidas humanas não importam, o que importa é a sua permanência cada vez mais difícil no poder e no governo do país.

BANCO DO BRASIL – A repórter Larissa Garcia, Folha de São Paulo, revela que no primeiro trimestre de 2021 o Banco do Brasil apresentou um lucro líquido de R$ 4,9 bilhões. Uniu-se assim a uma faixa de resultados milionários encabeçada pelo Itaú e pelo Bradesco, conforme observamos em artigos anteriores.

O fato de o Banco do Brasil ter alcançado de janeiro a março um lucro de R$ 4,9 bilhões reporta ao filme da reunião ministerial de 22 de abril de 2020, quando o ministro Paulo Guedes disse em tom veemente a Bolsonaro: “venda logo esse banco”, usando uma palavra de baixo calão que deixou perplexos todos aqueles que assistiram ao vídeo marcado pela irresponsabilidade e agressão ao bom senso que não prevalece no país a partir da posse de Jair Bolsonaro na Presidência da República.

Como vender o principal estabelecimento de crédito , inclusive de atuação essencial nos municípios, se ele apresenta um lucro financeiro dessa dimensão ? Um negócio a mais para a movimentação de participações financeiras.

LULA E SARNEY  – Na edição de ontem da Folha de São Paulo, Daniel Carvalho focaliza o encontro entre Lula da Silva e Sarney voltado para a articulação e construção de uma aliança política visando as eleições de 2022 que se aproximam velozmente no calendário político.

Velozmente porque a população brasileira encontra-se ansiosa por uma mudança no comando político do país. A matéria assinala e destaca que José Sarney esquivou-se por seu turno de uma conversação com o presidente Bolsonaro , na tentativa de reeleição nas urnas do próximo ano.

Bolsonaro até agora não apresentou projeto algum, a não ser o congelamento salarial, obra prima do ministro Paulo Guedes. O governo diariamente se transformou em alvo de ataques dos jornais e de emissoras de televisão, que não estão inventando nada, encontram-se apenas reproduzindo o desastre e a oposição que o próprio Jair Bolsonaro faz a si mesmo no plano alto do Planalto e da planície das desilusões cada vez mais acentuadas de correntes que nele votaram contra a corrupção e a favor da mudança.

Comandante do Exército comunica à CPI que Pazuello não comparecerá fardado ao depoimento

Charge do Amarilso (agazeta.com.br)

Pedro do Coutto

Reportagem de Malu Gaspar e Mariana Carneiro, O Globo desta quinta-feira, revela que o general Paulo Sérgio Nogueira de Oliveira, comandante do Exército, procurou o senador Omar Aziz, presidente da CPI da Covid-19, para dizer que ele fez chegar ao general Eduardo Pazuello uma comunicação sugerindo que em seu comparecimento à Comissão de Inquérito, marcada para o dia 19, não estivesse fardado e sim em trajes civis, pois o cargo que ele ocupou não pertencia à hierarquia militar e sim ao universo político-administrativo.

A comunicação do general Paulo Sérgio representou, sob a inevitável lente política, que o Comando do Exército não faz restrições ou impõe limitações aos trabalhos do Senado, pois, digo eu, se houvesse no pensamento do general Paulo Nogueira alguma restrição de qualquer tipo à convocação de Pazuello, ele teria dito palavras muito diversas das que ele comunicou, revelando tacitamente que o Exército não se encontra em jogo ou em subjugamento do Senado Federal.

BOM RELACIONAMENTO – O general Paulo Nogueira mantém um bom relacionamento pessoal com o senador Omar Aziz, inclusive quando este foi governador do Amazonas, o general foi comandante da 12ª Região Militar com sede em Manaus. Paulo Sérgio Nogueira, quando foi nomeado pelo general Braga Netto e pelo presidente Jair Bolsonaro para comandante do Exército, estabeleceu relações de amizade com o presidente da CPI. Mas este é um outro assunto.

O comandante do Exército informou em primeira mão a Omar Aziz que Pazuello talvez não pudesse prestar depoimento porque dois coronéis com quem ele tinha estado no final de semana estavam sob suspeita de Covid.  Paulo Sérgio explicou a Omar Aziz que um dos coronéis, Elcio Franco, ex-secretário executivo de Pazuello na Saúde, também acompanhou o treinamento que o general fez no Planalto, no fim de semana passado, para se preparar para o depoimento e responder às perguntas da Comissão.

AVISO – Paralelamente, a iniciativa do general Paulo Sérgio pode ser interpretada como um aviso politicamente sensível ao presidente Jair Bolsonaro de que o Exército não apoia golpes de Estado e tampouco iniciativas que colidam com o regime democrático e a liberdade.

Pois se o general deu explicações a respeito da convocação de Pazuello, deixou clara a posição democrática do Exército, enviando uma informação importante ao próprio presidente da República: o Exército é uma instituição do Estado e não do governo se ele se distanciar da democracia; e que não é instrumento para implantar a ditadura militar que os apoiadores de Bolsonaro pediram no último sábado.

PROJETO REJEITADO – A reportagem é de Bruno Góes, O Globo de ontem, revelando que apesar dos esforços da deputada Bia Kicis, os deputados que compõem a Comissão de Constituição e Justiça da Câmara rejeitaram um projeto de interesse do Planalto que limitava as ações do Poder Judiciário e previa a possibilidade de impeachment de ministros do Supremo Tribunal Federal.

A discussão foi intensa e os deputados voltaram-se contra o parecer da presidente da Comissão. Foi rejeitado e a matéria pelo resultado não poderá ser incluída na pauta de votações. O bloco governista vai tentar agora a remessa da proposição ao Senado Federal. O projeto original foi defendido pelo deputado Eduardo Bolsonaro. Como se constata, a Câmara por coincidência do destino, rejeitou exatamente uma iniciativa que também, na tarde de quarta-feira, o presidente Bolsonaro ameaçou a Corte Suprema.

Muito bom o artigo de Merval Pereira, O Globo de quinta-feira, sobre o fato de o presidente Bolsonaro ter ultrapassado o limite na medida em que ameaçou frontalmente o Supremo, estendendo sua ameaça aos governadores e prefeitos do país. Merval Pereira acentuou que o presidente Bolsonaro encontra-se desequilibrado,  partindo agora para estabelecer um ambiente político capaz de levar ao autoritarismo.

PRODUÇÃO INDUSTRIAL –  Matéria de Leonardo Vieceli, Folha de São Paulo de ontem, revela que em março a produção industrial brasileira recuou 2,4%, pelos dados fornecidos pelo IBGE. Com esse resultado a produção retornou ao nível pré-pandemia, verificado em fevereiro de 2020.

A produção negativa zerou os ganhos acumulados até o início da pandemia. Enquanto isso, o Bradesco revelou ter obtido um lucro de R$ 6,4 bilhões no primeiro trimestre do ano. O lucro do banco foi praticamente igual ao do Itaú para o mesmo período. Assim, continua azul a rota de voo dos principais bancos do país.

A um passo do fim do governo, Bolsonaro desafia o Supremo e ameaça a própria democracia no País

Bolsonaro disse que não será contestado por nenhum tribunal

Pedro do Coutto

No evento na tarde de ontem, no Ministério das Comunicações, o presidente Jair Bolsonaro, sentindo fugir o seu espaço político, desencadeou ataques ao Supremo Tribunal Federal, aos governadores, aos prefeitos, e disse que tem a certeza de que qualquer ato que tome será aprovado pelo poder Legislativo. A matéria, como é lógico, está publicada no O Globo, na Folha de São Paulo e no Estado de São Paulo, os três principais jornais brasileiros.

Bolsonaro disparou seus ataques especialmente ao STF dizendo que está preparando um decreto, acentuando que deseja ver se haverá alguma reação. O presidente da República, impulsionado pelo seu projeto autoritário, o qual na minha opinião nunca escondeu, voltou a atacar fortemente a China, frisando que o principal parceiro comercial do Brasil criou um vírus em laboratório para sua política de expansão ideológica.

ATAQUES – Atacou os governadores e os prefeitos afirmando que vai assinar um decreto impedindo que eles estabeleçam isolamento social e a redução das atividades comerciais. Jair Bolsonaro citou a Constituição Federal dizendo que ela garante o direito de ir e vir.

A meu ver, o chefe do Executivo prepara uma ruptura praticamente total no regime democrático. Inclusive porque o STF , o Congresso, os governadores e prefeitos desafiados contra seus poderes não podem recuar diante da necessidade de uma resposta. A acusação e a resposta terão inevitavelmente reflexos no setor militar do país.

Não é possível que o presidente da República ameace com decretos, dizendo que será cumprido e não será contestado por nenhum tribunal.  Ainda em relação ao Supremo, Bolsonaro acrescentou literalmente ” não ouse contestar o decreto; quem quer que seja; sei que o Legislativo não cotestará”. Não pode haver nenhum desafio mais direto do que esse feito pelo presidente da República. Escrevo esse artigo na manhã de hoje por considerar a urgência de que o episódio se reveste.

DEPOIMENTOS – O impulso presidencial teve base claramente nos depoimentos dos ex-ministros Henrique Mandetta e Nelson Teich à Comissão Parlamentar de Inquérito que investiga as omissões e os erros do governo no combate à pandemia. A democracia, na minha opinião, passou a correr grave risco e a solução da crise desencadeada deve se fazer sentir ainda ao longo do dia de hoje.

As afirmações do presidente da República constituem uma agressão frontal à Suprema Corte do país. O ataque à China agrava todo o panorama. O presidente Jair Bolsonaro transportou o país para uma atmosfera bastante semelhante à atmosfera de março de 1964 que culminou com a queda do presidente João Goulart.

Na política, o essencial é sentir-se a densidade da atmosfera e não, como costumam fazer os cientistas políticos, análises sobre uma superfície gelada. A política muda de instante em instante e assume caracteres difíceis de prever.

Se não responder de forma convincente a Mandetta, Bolsonaro terá renunciado ao poder

Charge do Amarildo (agazeta.com.br)

Pedro do Coutto

As acusações feitas pelo ex-ministro Henrique Mandetta a Jair Bolsonaro e ao seu governo são de tal formas graves que se o presidente da República não responder até o final do dia de hoje, quinta-feira, às denúncias formuladas, terá renunciado ao poder político, de fato, podendo até se manter à frente do governo, porém sem a liderança que o país exige de um presidente da República.

A acusação de que o Palácio do Planalto quis acrescentar recomendação médica na bula da cloroquina, estendendo falsamente a sua aplicação também para os casos da Covid-19, são de tal natureza grave que o presidente Bolsonaro está enfrentando um problema concreto e gigantesco: não pode aceitar ser incluído entre falsificadores de bula, isso é um absurdo. Talvez, sem precedentes. Falsificação de remédios ocorreram através da história, mas em tempos  remotos. Não há cabimento em que uma equipe de governo possa sequer pensar em tal prática.

INDÍCIOS – A reportagem de Natália Portinari, Julia Lindner e André de Souza, O Globo, edição de quarta-feira, destaca a existência de indícios que comprometem tanto o Planalto quanto o próprio Jair Bolsonaro. Não tem cabimento. Trata-se de um crime e não é possível que um governo possa adotar como instrumento de ação no enfrentamento à pandemia a abrangência de uma medicação, incluindo o coronavírus.

Para Igor Gielow, Folha de São Paulo, o governo encontra-se em pânico pois não esperava que tal episódio viesse à tona e alcançasse a repercussão que alcançou. Sabia-se, segundo Mandetta, que o governo estava minando o plano de ação do Ministério da Saúde. A começar pela recusa do próprio presidente em se vacinar. A vacinação, revela Diogo Junqueira, Folha de São Paulo, estava exigindo uma campanha publicitária honesta por parte da administração federal.

Em seu depoimento à CPI , Henrique Mandetta deu como exemplo a campanha contra a contaminação pelo HIV, decorrente do relacionamento sexual entre homens. Vale frisar que não há caso de contaminação pelo HIV no que se refere ao relacionamento homosexual de mulheres.

CAMPANHA CONTRA O FUMO –  Pessoalmente, acrescento uma campanha sanitária que obteve sucesso absoluto, a campanha contra o fumo, especialmente contra o cigarro, que, como se constata, reduziu em cerca de 80% o hábito de auto envenenamento pelo consumo de cigarros de várias marcas, inclusive no cenário mundial.

O cinema americano, por exemplo, diminuiu de forma bastante ampla o consumo do tabaco que só poderia prejudicar fortemente os seres humanos. Outro ponto que o presidente da República precisa dar resposta está no fato de se recusar a vacinar-se.

ROTEIRO –  Estava preparado um roteiro para televisão, no qual Bolsonaro apareceria sendo vacinado. Com a recusa, Bolsonaro anulou a divulgação de sua imagem recebendo a injeção que deve ser aplicada a toda população brasileira.

Além disso, como fator de omissão, ressalta André Shalders, Estado de São Paulo, o governo confirmou só ter comprado a metade das 560 milhões de doses de vacinas de várias procedências do volume anunciado. Inclusive deixou passar a oportunidade, logo após a pandemia se instalar e progredir, da aquisição de grande quantidade de vacinas que a Pfizer ofereceu.

Naquele momento, Jair Bolsonaro achava que os vendedores de vacinas deveriam articular melhor suas vendas ao governo brasileiro. Foi um desastre total. Uma parcela acentuada das 400 mil mortes teria sido imunizada e continuaria a viver.

GUEDES ELOGIA PT Numa audiência pública na Câmara Federal sobre o auxílio de emergência instituído pelo governo Bolsonaro, o ministro Paulo Guedes – reportagem de Thiago Resende, Folha de São Paulo, afirmou que o PT de Lula da Silva, ganhou merecidamente as eleições de 2002, 2006, 2010 e também 2014 com a criação do Bolsa Família.

A declaração soou de maneira forte nos meios políticos na medida em que Paulo Guedes referiu-se a duas vitórias de Lula para si próprio e outras duas vitórias de Lula transferindo votos para Dilma Rousseff.

Esta, digo eu, sofreu o impeachment por absoluta incompetência e sua total ausência de diálogo político , principalmente com o Congresso Nacional. Inflou no cargo e assim partiu para o seu próprio desastre. Mas em matéria de Lula, temos que reconhecer que ele é um caso isolado no mundo em matéria de disputas eleitorais. Ele se envolveu em sete eleições, sendo derrotado em três e vencendo em quatro. Não tenho na memória nenhum presidente que de forma direta e indireta participou de número igual.

ROOSEVELT – O exemplo mais próximo é o de Franklin Roosevelt nos Estados Unidos que venceu em 1932,1936,1940 e 1944, neste caso a sua última vitória na vida. Morreu em abril de 1945, um mês antes do final da Segunda Guerra.

A sucessão de suas vitórias levou com que o Congresso mudasse a legislação, o que perdura até hoje: um presidente da República só pode ser reeleito uma vez e deixando a Presidência não pode mais se candidatar a nada.

Roosevelt foi um fenômeno, e chegou até a participar em abril de 1945 do primeiro encontro entre os três grandes realizado em Yalta, na Crimeia. Sentou-se ao lado de Churchill e Stalin. Como se vê, a relatividade política é um fato.

Depoimento arrasador de Mandetta: Planalto propôs até alterar a bula da cloroquina

Mandetta acusou Bolsonaro de ter adotado discurso negacionista

Pedro do Coutto

O depoimento ontem do ex-ministro Henrique Mandetta foi efetivamente arrasador contra Bolsonaro e o seu governo pela inação  que ele assumiu no combate ao coronavírus. Disse que o presidente da República contrariou orientação do Ministério da Saúde, e que Bolsonaro com isso pode ter contribuído para espalhar mais rapidamente a pandemia. Na Folha de São Paulo a reportagem publicada hoje é de Renato Machado com Constança Resende e Julia Chaib.

No depoimento à CPI do Senado, o ex-ministro da Saúde acusou também o presidente da República de ter adotado discurso negacionista diante dos fatos que surgiam. No dia 16 de abril de 2020, Mandetta chegou a escrever uma carta a Jair Bolsonaro defendendo o isolamento social, a vacinação em massa e o uso de máscaras anti-contaminação.

CONSTRANGIMENTO – Outros ministros do governo receberam cópias, mas o episódio terminou sendo constrangedor. Seu documento foi interpretado  como um caminho diverso daquele traçado pelo chefe do Executivo. No documento, Mandetta revelou ter acentuado expressamente que o posicionamento do governo deveria levar em conta que a pandemia se alastrava e que tal processo iria provocar um colapso no sistema de Saúde, com gravíssimas consequências para a população.

Numa declaração revelada pela GloboNews, ontem, Henrique Mandetta acusou o ministro Paulo Guedes de desonestidade intelectual, no episódio relativo à disponibilidade de recursos financeiros para o combate à pandemia. Mandetta afirmou que enquanto o presidente do Banco Central Roberto Campos Neto ligava para ele apoiando o seu trabalho, pelo contrário, Paulo Guedes, cometendo uma desonestidade, falava apenas o seguinte: já mandei o dinheiro , agora que se virem lá. E vamos tocar a economia.

Pela frase, Mandetta interpreta como tendo sido uma das vozes que influenciou erradamente o presidente da República.  Diante da acusação gravíssima, o senador Randolfe Rodrigues apresentou à CPI requerimento para que Paulo Guedes seja imediatamente convocado a depor.

CLOROQUINA – Outro episódio gravíssimo foi apresentado pelo ex-ministro da Saúde dizendo que o vereador Carlos Bolsonaro participava das reuniões do Palácio do Planalto em relação ao combate à pandemia. Numa dessas reuniões, o gabinete do Palácio do Planalto sugeriu a edição de um decreto para alterar a bula da cloroquina e incluir, entre as recomendações traçadas, mais uma, estendendo a sua qualidade no combate à Covid-19.

Na minha opinião trata-se de uma afirmação profundamente preocupante, pois entre os seus efeitos negativos, além de se chocar com as pesquisas científicas, o remédio poderia se transformar em fator de risco para a saúde e a vida das pessoas.

Pretendia publicar esta parte do artigo na edição de amanhã, pois a de hoje já estava editada e acessada por leitores. Entretanto, pela gravidade científica e política das declarações , vejo que a matéria da Folha de São Paulo, e do O Globo e do Estado de São Paulo focalizam a extrema situação na qual o Planalto se envolveu.

DESORIENTAÇÃO – Nas edição de hoje da Folha de São Paulo, Ruy Castro destaca um panorama de desorientação do governo Bolsonaro enquanto o ex-ministro Delfim Netto também condena o comportamento do governo no combate à contaminação acelerada da virose.

Na voz de Delfim Netto pode ser incuída a voz da Federação das Indústrias de São Paulo, principal núcleo empresarial do país.

Bolsonaristas não conseguiram obstruir o depoimento de Mandetta na CPI

Pronunciamento foi sereno, transferindo a munição para Renan

Pedro do Coutto

A bancada bolsonarista na CPI da Covid-19 tentou mas não conseguiu procrastinar os trabalhos e tampouco obstruir e confundir o ex-ministro Henrique Mandetta na exposição que fez, relatando com tranquilidade os problemas com os quais se confrontou no governo Bolsonaro quando esteve à frente do Ministério da Saúde.

Mandetta disse que não conseguiu colocar em prática medidas previsíveis a respeito da pandemia que começou a ocorrer em janeiro de 2020 e que somente foi notada pelo governo a partir de março e, mesmo assim, sem acreditar, de fato, no perigo que ela representava.

ALERTA – Os fatos, disse ele, provaram o contrário, destacando ter alertado o Palácio do Planalto quanto à ineficácia da cloroquina no tratamento do coronavírus. O ex-ministro da Saúde relatou as atividades que fez e a preocupação que teve com a distribuição de oxigênio para evitar casos como o de Manaus.

Mandetta não fez ataques ao presidente da República. Na minha impressão deixou as informações que obteve com a sua experiência para análise da própria Comissão Parlamentar de Inquérito. Foi um pronunciamento sereno, conforme assinalei, transferindo a munição de choque para o relator Renan Calheiros. Um dos fatos marcantes no dia de ontem é que o trabalho da CPI vai continuar no mesmo tom com que começou.

QUEIROGA E A IMPRENSA –  A Folha de São Paulo focalizou nesta segunda-feira a confusão feita pelo ministro Marcelo Queiroga  em evento na Federação das Indústrias do Estado de São Paulo, ao dizer aos empresários que não devem programar anúncios comerciais para parte da imprensa “não contribui com o Brasil” em meio à pandemia.

Queiroga praticamente propôs um tipo de chantagem e cooptação. No seu modo de ver, a imprensa que criticar o governo não deve ser programada publicitariamente pelas empresas industriais de São Paulo. Um absurdo total, provando que o ministro não entende nada do que fazem os jornais e as emissoras de televisão.

ANTIÉTICO – Condicionar publicidade à linha editorial não é certo. A ideia fica na tentativa e depois como papel usado jogado no lixo. Ele está baseado nas informações da antiga imprensa em que os donos de jornais impunham linhas políticas aos veículos dos quais eram proprietários. Isso acabou, desapareceu do mapa essa antiética.

A notícia é dada de acordo com os fatos ocorridos. Querer que a imprensa só fale bem do governo é um desserviço à opinião pública. As edições são elaboradas profissionalmente, não representando e nem podendo ser porta-vozes de interesses empresariais ou político-administrativos.

FALHAS NO MEC –  O governo Jair Bolsonaro está sendo marcado pelos erros seguidos e pelas omissões que o envolvem. Como exemplo, no Ministério da Educação, o ministro Milton Ribeiro é praticamente um ausente do sistema educacional. Sua ausência vem sendo acompanhada por erros primários.

Agora de acordo com reportagem de Paulo Saldaña, Folha de São Paulo desta segunda-feira, o MEC transferiu errado R$ 836 milhões de recursos do Fundeb, educação básica, através do qual se realizam parcerias com governos estaduais e municipais num esforço que deveria ser conjunto para as várias escalas da educação  nacional.

A parcela foi repassada na última sexta-feira para estados e municípios apesar de milhares de matrículas terem sido deixadas de fora nos cálculos do fundo. A correção ficou de ser feita dentro de alguns meses. Mais um grande problema para o governo Bolsonaro.

UNIFICAÇÃO TRIBUTÁRIA –  Geraldo Adoca e Fernanda Trisotto publicam reportagem no O Globo sobre o projeto do governo de unificação dos tributos federais. Trata-se da pretendida fusão que poderá ser feita por etapas e que vai agregando aos poucos todas as unificações contidas na proposição do projeto considerado importante para o país.

O problema é que, na minha opinião, os impostos só podem produzir mais receita se o poder de consumo da sociedade evoluir, afastando-se do panorama de carência que o envolve nos dias de hoje. Conforme digo sempre, qualquer ação tributária depende fundamentalmente do nível do poder de consumo. Com os salários perdendo para a inflação não é possível receita alguma tornar-se suficiente para enfrentar os problemas que tem pela frente,

Também no O Globo, matéria de Bruno Alfano, revela que pelo orçamento votado pelo Congresso e que teve origem no trabalho do Ministério da Economia, o Ministério da Educação foi atingido fortemente pelo corte de suas verbas. Um absurdo. Em 2018, para que se tenha uma ideia, a rubrica orçamentaria da Educação atingiu R$ 23,2 bilhões. Agora, em 2021, após os índices inflacionários de 2019 e 2020 o corte reduziu os recursos para R$ 8,9 bilhões.

EDUCAÇÃO TORPEDEADA – Com esse corte, que engloba os investimentos da pasta, o sistema educacional foi torpedeado. Um retrocesso total. Retrocessos assim não acontecem, por exemplo, com os bancos de primeira linha, como é o caso do Itaú, do Bradesco e do Santander. Reportagem de Aline Bronzati e Marcelo Mota, o Estado de São Paulo, focaliza o lucro líquido do Itaú no primeiro trimestre deste ano: foi de R$ 6,4 bilhões, segundo o banco, superando até as expectativas.

O lucro de R$ 6,4 bilhões representa um aumento de 64% do lucro alcançado no primeiro trimestre de 2020. Portanto o lucro líquido do Itaú superou por larga margem os índices inflacionários calculados pelo IBGE.

BIG BROTHER  –  Na edição de segunda-feira da Folha de São Paulo, Júlia Moura publica reportagem sobre os reflexos no mercado da publicidade que empresas fizeram no Big Brother Brasil deste ano. Há casos em que o avanço de compras surpreendeu e alcançou um aumento de 80% comparado com o nível mensal anterior à fase final do programa.

O BBB, que é baseado em um projeto norte-americano, no Brasil, na edição de 2021 que se encerrou ontem, tornou-se um fator recorde de vendas comerciais. O nível de audiência teve base em pesquisa da empresa Kantar que adquiriu o Ibope no início deste ano.

AUDIÊNCIA – A audiência bateu em torno de 27 a 30 pontos por domicílio. Para se ter uma ideia do que esse índice representa no plano concreto, acrescenta a reportagem que o público estimado pelo Kantar foi de 39,8 milhões de pessoas.

Mas não é só: é preciso considerar, digo eu, que o programa desencadeou nas pessoas um impulso fora do comum para a aquisição dos produtos colocados pelas páginas coloridas da publicidade comercial. Para exemplificar a força da publicidade no caso do BBB, acrescenta o Kantar, o preço da TV Globo , preço nacional, é de R$ 504 mil por 30 segundos.

Desemprego do povo não preocupa Paulo Guedes, que só cuida do próprio emprego

Charge reproduzida do Arquivo Google

Pedro do Coutto

Numa entrevista a Thiago Bronzatto, Marcelo Corrêa e Manoel Ventura, Paulo Guedes sustenta a tese de que aqueles que instalaram a CPI da Saúde e aqueles que estão convocando depoimentos vão se surpreender, já que no seu modo de ver, a população não vai apreciar tal iniciativa. A população quer resolver o problema e preservar sua vida e seus empregos, disse.

Na minha opinião, quando Paulo Guedes fala em preservar os empregos deve se referir contra o seu próprio projeto que jamais teve como essencial a recuperação do mercado de trabalho e a redução do desemprego, pois sem isso nenhuma economia mundial consegue se reerguer e desenvolver.

Paulo Guedes se disse tranquilo sobre a hipótese de ser convocado, mas acentuou que a investigação da CPI não é importante para corrigir os rumos da política pública contra a pandemia.

ATAQUE DE ARAÚJO  –  A reportagem é de Marília Miragaia, Folha de São Paulo de domingo. Ela reproduz declarações de Ernesto Araújo que não satisfeito com o desastre que causou na política externa do Brasil, resolveu agora atacar o próprio presidente Jair Bolsonaro.

Um governo popular  e visionário foi se transformando, disse Araújo, numa administração tecnocrática, sem alma e sem ideal. O projeto de construir uma grande nação minguou e foi desconstruído pela base parlamentar que o sustentava. Araújo assim dá sequência à corrente daqueles que ocuparam cargos de relevo e que terminaram se revoltando contra aqueles que os beneficiaram.

DISPUTA –  O Globo e a Folha de São Paulo encontram-se em luta aberta, mas numa disputa cordial, em torno de quem é mais lido. Os números são conflitantes, mas na minha opinião voltam-se para pontos construtivos, uma vez que quanto mais lido um jornal ou dois jornais melhor para a cultura  nacional.

Ninguém duvida que são O Globo, a Folha de São Paulo, o Estado de São Paulo e o Valor Econômico os órgãos de imprensa mais importantes do Brasil. No que se refere à cidade de Brasília tem que se levar em conta a presença do Correio Braziliense.

Os jornais, da mesma forma que os canais de televisão e as emissoras de rádio, são instrumentos coletivos de avanço e progresso. Junte-se às emissoras de televisão e rádios, o sistema de internet que revolucionou o processo de informação em todo o planeta.

MAIS INFORMAÇÃO – Falei em processo de informação, muito bem. Nenhum meio de comunicação que surgiu até hoje eliminou aquele que muitos pensavam que fosse suceder. Desta forma a imprensa de Gutenberg sobreviveu à era do rádio.

A era do rádio sobreviveu à era da televisão. A televisão sobrevive à internet. No fundo, todos representam os sentimentos humanos e o desejo de serem cada vez mais e melhor informados.

CONVOCAÇÕES –  Renato Macho e Julia Chaib, Folha de São Paulo, destacam e analisam a série de convocações que a CPI da Pandemia vai realizar no decorrer de seus trabalhos. Os aliados de Bolsonaro travam embates que terminam colocando em campo bolsonaristas e os oposicionistas.

Mas também desse redemoinho vão surgir verdades e fatos concretos que vão influenciar os rumos políticos de hoje ao final de 2022, passando pela sucessão presidencial.

Se o Planalto treina Pazuello para CPI é porque Bolsonaro já desistiu da obstrução

Charge do Aroeira (brasil247.com)

Pedro do Coutto

Reportagens de Jussara Soares, de Natália Portinari e Geraldo Adoca, O Globo desta segunda-feira, revelam duas movimentações: primeiro o Palácio do Planalto começou a treinar o general Eduardo Pazuello para o seu depoimento à Comissão Parlamentar de Inquérito sobre os erros e omissões do governo em relação ao enfrentamento à Covid-19 e também ao primeiro estágio do coronavírus.

Isso de um lado. De outro, destacam os esforços tanto de Jair Bolsonaro quanto de Lula da Silva tentando obter o apoio do ex-presidente José Sarney no que se refere à CPI e à sucessão presidencial de 2022. O ex-presidente da República retorna ao centro do palco agora como fator de equilíbrio entre os choques ideológicos que podem ser classificados hoje entre a direita de Bolsonaro e a esquerda de Lula.

CONSERVADORISMO – Pessoalmente, acho que Bolsonaro é da direita e Lula não é praticamente da esquerda. Ao contrário, Lula é um conservador conforme comprovou nos mandatos que exerceu e também no êxito que teve ao eleger Dilma Rousseff para sucedê-lo. No segundo mandato Dilma fracassou e não teve sensibilidade para conduzir a política fora de uma esfera de atrito permanente. Atrito esse que abrangeu a realidade do país.

Lula, de fato, é um homem de centro-esquerda. Ele não se propõe a reformas profundas, mas a mediar reivindicações dos trabalhadores com os interesses dos empresários. Lula tem a seu favor um forte respaldo da opinião pública. Venceu eleições e transferiu 43% dos votos do país a Fernando Haddad, candidato muito fraco.

No Planalto, a preocupação é grande com o desempenho de Pazuello, sobretudo porque o general continua no governo aguardando uma nomeação para a área político-militar de Brasília. Portanto, a sua posição é bastante sensível. Não há dúvida de que ele fracassou no desempenho à frente do Ministério da Saúde, não conseguindo resolver os problemas que encontrou.

CLOROQUINA – O desastre foi muito grande, ampliado pela compra de cloroquina que não teve nenhum uso prático para combater a Covid-19. É verdade que em matéria de compras surgem sempre assessores bastante entusiasmados com aquele ou esse fornecimento.

Não quero dizer, nem de longe, que Pazuello tenha representado interesses alheios à administração. É um homem honesto, mas é preciso que os administradores tenham cuidado acentuado com esse tipo de influência da assessoria. Acrescento como exemplo o caso da refinaria de Pasadena, adquirida pela Petrobras por um preço seis vezes maior do que valia, com a presidente da República endossando a aquisição prejudicial aos interesses do país.

Quanto ao retorno de Sarney à arena política, o ex-presidente é um homem de ótimo trânsito em todas as faixas políticas brasileiras. Ele tem a seu favor o fato de ter exercido o mandato sem causar problemas relativos ao choque ideológico inevitável. O destino, contudo, agiu contra ele e contra o país na medida em que Fernando Collor elegeu-se presidente da República. Mas esta é outra questão.

BUSCA POR EMPREGO – Na edição de ontem da Folha de São Paulo, Ruy Castro escreveu um artigo sobre a iniciativa do escritor Lúcio Cardoso de procurar uma agência de propaganda buscando colocação profissional no quadro de redatores.

Por ironia do destino, o texto que apresentou não foi suficiente para classificá-lo. Isso acontece vida afora. Muitas vezes, o entrevistador ou selecionador não conhece o candidato à seleção. Em outras vezes, Ruy Castro cita, conhece muito bem. E, por isso, evita aprová-lo pois amanhã o então candidato pode representar uma ameaça para o próprio autor do exame.

DA VINCI – Pessoalmente tenho muito apreço por quem pede emprego, pois na vida já pedi algumas vezes. A favor do pedido de emprego cito um fato que pertence à história universal. Um dos maiores gênios da humanidade, Leonardo da Vinci, na época em que a Itália não estava unificada, pediu emprego no reino de Florença, cidade onde nasceu. Depois de não satisfeito pediu emprego à Ludovico Sforza, no reino de Milão. Foi atendido como artista e como engenheiro.

Mas não como engenheiro militar, atividade a que se propunha também. Em Florença e em Milão idealizou um sistema eficaz de abastecimento de água e de circulação das correntes aquáticas.
Quando o rei da França, Carlos V, invadiu e dominou Milão,

Leonardo da Vinci dirigiu  a ele carta solicitando a sua manutenção no emprego. Foi atendido, sobretudo como artista. Leonardo também exerceu a elaboração de espetáculos de artes que foram, um sucesso. Fica aí, portanto, o exemplo para todos que já buscaram emprego na vida.

Sistema impresso é retrocesso e permite que fraudadores preencham votos em branco

Charge do Alpino (Yahoo Brasil)

Pedro do Coutto

Encontra-se em tramitação na Câmara dos Deputados um projeto de lei que restabelece o sistema antigo de votação feito através de cédulas de papel e através de cédulas únicas para as disputas para a Presidência da República, governos dos estados, senadores, deputados estaduais e vereadores.

Trata-se de um retrocesso que infelizmente tem o apoio do presidente Jair Bolsonaro, não sei por quais motivos, mas ele alega que há precedentes de fraudes como a que ocorreu, no seu ponto de vista, na apuração das disputas em 2018.

TESE DA FRAUDE – Embora vitorioso nas urnas por larga margem, Bolsonaro sustenta a tese da fraude. Acha, como parte de seus seguidores também, que venceria no primeiro turno alcançando mais de 50% dos votos úteis. Nada ficou comprovado e acredito mesmo que nenhuma investigação tenha sido feita por ser desnecessária.

Um amigo meu, Filipe Campello, de conhecimento profundo sobre as urnas eletrônicas e também a respeito dos logaritmos, além de especializado em Computação, me disse que no processo eletrônico de votos só existe uma possibilidade e mesmo assim mínima da fraude.

Como cada máquina receptora possui um pendrive, embora não esteja ligada a nenhum outro sistema, o caminho dos fraudadores encontra-se restrito a substituição dos pendrives. Mas isso implicaria numa engrenagem ainda mais complexa. Teriam que ser retirados do pendrive quantidades de votos e no mesmo espaço de sua usina serem injetados outros votos exatamente no limite matemático dos votos retirados. Como os leitores estão percebendo, a fraude por esse roteiro só poderia ser muito pequena e em sessões restritas a número diminutivos.

CÉDULAS EM ENVELOPES – A partir de 1945, quando Vargas já deposto, as eleições se realizaram a 2 de dezembro. Era o seguinte: os eleitores e eleitoras podiam colocar em envelopes as cédulas de seus candidatos que disputavam o Palácio do Catete, o Senado e a Câmara Federal.  

As eleições para governador de Estado, deputados estaduais e vereadores só ocorreram em 1947. No Rio, então Distrito Federal, não houve eleição para deputados estaduais, só para vereadores. Os prefeitos eram nomeados pelo presidente da República.

O sistema de cédulas individuais foi usado nas eleições de 1950 e também no pleito de 1954. A partir de 1955, por pressão da UDN, e aceitação pelo PSB e pelo PTB, criou-se a cédula oficial. Nela, os eleitores assinalavam com um x ao lado do nome, o voto que desejassem marcar.  

BRECHA  – Havia um espaço para o voto nulo e outro espaço, esse aberto, para o voto em branco. Eis aí uma passagem para o desfiladeiro político no rumo à fraude. Era simples: bastava a conivência de fiscais e alguém colocaria um x, tornando o voto branco em nominal.

Foi com essa perspectiva desonesta que o escândalo do Proconsult tentou transformar a derrota de Moreira Franco em vitória e a vitória de Brizola em derrota. Mas não conseguiram. A computação pela Proconsult baseava-se nas manifestações eleitorais nas áreas de classe média e rica, deixando para segundo plano os subúrbios do Rio e a Baixada Fluminense.

Com isso, Moreira Franco surgia na frente. Mas o Jornal do Brasil no qual eu trabalhava tinha instalado um sistema de acompanhamento das apurações com uma vantagem; eu havia acertado com Paulo Henrique Amorim, então redator chefe, e com Ronald de Carvalho, editor, a divisão por áreas eleitorais. Isso porque para se poder analisar eleições e computação tem que se definir a projeção algébrica dos votos.

VOTOS DO SUBÚRBIO – Por exemplo, na Cidade do Rio de Janeiro, os votos do subúrbio e da Zona Oeste eram mais numerosos que os votos do Leblon, de Ipanema, de São Conrado, da Tijuca e do Grajaú. Em Copacabana, como os eleitores já estariam se perguntando, a vantagem da classe média era pequena sobre as de menor renda. Isso porque Copacabana estava repleta de apartamentos conjugados e de apartamentos com número médio de moradores acima da média das casas de renda mais alta.

Existe um bairro no Rio, que focalizo no meu livro “O voto e o povo”, era o termômetro da cidade. Por que isso? Simplesmente porque o Méier em um dos seus lados é um bairro de predominância de classe média, mas o outro tem o perfil característico de subúrbio. Esta explicação é fundamental.

PRESSÃO – Em 1982, de repente, a pressão aumentou, sentiu-se no ar. Se a fraude prevalecesse, teria que ser feita na sexta-feira, dia em que a hipótese foi colocada por mim; Paulo Henrique Amorim e Ronald de Carvalho. A conclusão foi uma só: a única possibilidade de fraude era preencher os votos em branco que estavam à disposição dos ladrões. Se não houvesse tal prática imunda o resultado real seria respeitado.

Como aliás aconteceu. Na edição de domingo,o JB publicou matéria minha na primeira página: ““Brizola consolida vitória pela margem de 126 mil votos”. Deixo o episódio para aqueles que o incorporarem na memória ou então colocarem na história moderna do país.

PAULO GUEDES –  Numa entrevista de página inteira a Thiago Bronzatto, Marcelo Corrêa e Manoel Ventura, manchete principal de domingo de O Globo, o ministro Paulo Guedes sustenta que, no governo, está tendo que lutar dez vezes mais do que pensou ao assumir o cargo de titular da Economia. Destacou como dificuldades: o relacionamento com o Congresso, com o Supremo Tribunal Federal e com a  imprensa, incluindo as emissoras de televisão.

Francamente, não sei qual a luta que Paulo Guedes trava com o STF. Com a imprensa e com a televisão a culpa do desentendimento pertence exclusivamente a ele, Paulo Guedes, pois não consegue elaborar um projeto definido de desenvolvimento econômico e social.

Pelo contrário, ele só envereda por caminhos impopulares , como é o caso do congelamento salarial, da Reforma da Previdência Social , a redução da jornada de trabalho, das desonerações fiscais que o governo estendeu a diversos setores empresariais. Além disso, ele só descompõe o funcionalismo público, acusando-o de absorver a maior parte dos recursos orçamentários.

IGP-M – Paulo Guedes não diz uma palavra sobre o IGP-M que rege a locação de imóveis. Para ele ser pobre não é uma maldição, mas uma necessidade a ser explorada. Não compreende que só pode haver avanço de receita se houver avanço de consumo.

Todos sabem que o sistema tributário em todo o mundo no final da estrada depende sempre do consumo  praticado pela população. Paulo Guedes disse ter sido um pouco ingênuo ao pensar que sua atuação no Ministério da Economia seria mais rápida do que está sendo. Guedes diz ao Globo que continua apostando na democracia e que não pensa em sair do cargo.

Entretanto, para mim, Paulo Guedes já está demitido pela opinião pública. Na Folha de São Paulo de domingo, Vinícius Torres Freire afirma que Paulo Guedes só diz bobagens sobre a saúde e a pobreza dos brasileiros. Tem razão. Da mesma forma que Flávia Lima, ombudsman da Folha, analisa o que ela considera ser o mundo de Paulo Guedes. Um universo imaginário.

JULGAMENTOS DO STF – Também na Folha, Matheus Teixeira e Camila Mattoso focalizam julgamentos do STF que envolvem a Operação Lava Jato, Dizem eles, aliás com toda razão, que o único julgamento definitivo que se encontra em pleno vigor é o que anula as sentença de Lula e permite a sua candidatura às eleições presidenciais de 2022. Os demais julgamentos que envolvem a Lava Jato encontram-se interrompidos por pedidos de vista.

Um deles a respeito da parcialidade do ex-juiz Sergio Moro. O outro sobre uma operação que ironicamente foi chamada de Vaza Jato. Essas duas não têm data para ingressarem na pauta que cabe ao ministro Luiz Fux fazer, pois ele é o presidente do STF.

PRECONCEITO – No Estado de São Paulo também de domingo, Bruna Arimateia escreve sobre a eclosão de forte preconceito racial registrado pelas mensagens de espectadores da TV Globo sobre personagens do Big Brother Brasil.

São volumes enormes de ofensas a pessoas de raça negra ou de mestiçagem evidente. As edições do programa abrangem ataques , ofensas, invenções , xingamentos, preconceitos e desqualificação das figuras atingidas.

Creio que seja este um levantamento eficaz para desmentir a frase tradicional, porém falsa, de que não existe preconceito de cor e de raça no Brasil. Os números do Big Brother provam exatamente o contrário.

IBGE rebate Paulo Guedes: Desemprego cresceu, não diminuiu

Charge do Ivan Cabral (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

No final da tarde desta sexta-feira, o IBGE divulgou os resultados da última pesquisa nacional por domicílios, levantamento que acusou a existência de 14, 4 milhões de desempregados no país, o que colide com os números apresentados pelo ministro Paulo Guedes, que dizia que houve no mês de fevereiro uma recuperação dos empregos com carteira assinada na ordem de 260 mil postos de trabalho.

O IBGE está com um presidente novo, Eduardo Rios Neto, que além de contestar o ministro da Economia, afirmou também que o Instituto está pronto para realizar o Censo, faltando apenas que o governo libere R$ 2 bilhões para a sua execução.

QUEDA DA RENDA – O número de desempregados no país, como disse antes, é de 14,4 milhões de pessoas e o panorama da economia brasileira não dá margem para que se possa desenvolver um cálculo otimista referente à redução desse exército de indivíduos. Esse índice altíssimo de desemprego contribuiu também para a queda da renda do trabalho no país, que decorre da restrição do consumo que, para os grupos de menor renda, muitas vezes significa o fantasma da fome.

O volume de renda recuou 7,4%. O reflexo atinge também as receitas do INSS e do FGTS, cuja arrecadação depende da folha de salário. É difícil ter esperança no governo Bolsonaro que mantém um ministro como Paulo Guedes. Na edição de ontem da Folha de São Paulo, Cristina Serra publica artigo sobre a atuação do ministro da Economia e diz que Paulo Guedes, por suas mais recentes palavras, situa-se como um personagem da Casa Grande e Senzala, obra clássica de Gilberto Freyre.

Foi lamentável a declaração de Paulo Guedes tentando mostrar como uma política inadequada a presença de filhos de porteiros nas universidades através do financiamento do FIES. Paulo Guedes tem afirmado reiteradas vezes que constitui um fato negativo empregadas e empregados domésticos viajar para Disney World na cidade de Orlando na Flórida.

RESPEITO – Paulo Guedes com suas manifestações, acentua Cristina Serra, demonstra ter uma ojeriza a pessoas de famílias pobres e que lutam para sobreviver. Muitas dessas famílias, digo, fazem uma refeição só ao longo do dia porque não têm dinheiro para almoçar e jantar. Merecem respeito essas pessoas que desempenham funções humildes, porém indispensáveis à vida de todos nós de classe média e para aqueles que se encontram na faixa dos ricos.

O novo presidente do IBGE, como suas revelações assinalam, deve ser alguém independente e que resolveu liderar as informações verdadeiras encontradas pela equipe técnica do Instituto. Os dados do IBGE são fundamentais a qualquer projeto de desenvolvimento econômico e social. Trata-se da lógica contra a mágica. Exatamente o contrário do que costuma dizer Paulo Guedes: recorre à mágica contra a lógica.

DESMATAMENTO –  Reportagem de Camila Mattoso, também na Folha de São Paulo, ontem, ocupa uma página inteira e revela ter aparecido o nome da empresa  investigada pela PF por madeira ilegal e que é defendida pelo advogado Rafael Favetti. A empresa é a Rondobel . Sustenta Favetti, em entrevista, que a derrubada de parte da floresta verde não tem nada de ilegal, pelo contrário. E se disse surpreendido porque houve “precipitação” por parte de Alexandre Saraiva, ex-superintendente da PF na Amazônia.

O delegado insiste em considerar absurda a interferência do ministro Ricardo Salles, do Meio Ambiente, em uma questão que envolve a PF vinculada ao Ministério da Justiça.

O advogado Rafael Favetti sustenta que o inquérito aberto tem o objetivo “politiqueiro” e que a madereira agiu dentro da lei. Rafael Favetti já ocupou o cargo de secretário executivo do Ministério da Justiça.

FAUSTÃO NA BAND – A repórter Cristina Rodrigues, também da Folha, revela que o apresentador Faustão, após 32 anos na TV Globo, vai se transferir para a Band, a partir de janeiro de 2022. A saída de Faustão havia sido anunciada pela Globo há cerca de dois meses e causou surpresa porque a própria emissora tomou a iniciativa, acrescentando não ter chegado a um acordo com Fausto Silva para que este continuasse com seu programa aos domingos.

A repercussão foi grande, a meu ver, porque o programa de Faustão é um sucesso e acrescento pontos importantes à TV Globo. O programa recebe uma grande sustentação visual refletida na mudança de vários cenários de apresentação de cantores e de danças, estas inclusive objeto de concurso. A pandemia afastou o auditório e a solução dada foi formar janelas de espectadores de suas residências.

O programa não perdeu o ritmo e a atuação de Faustão deve ser analisada por vários ângulos. No horário de 18h às 20h, antecedendo o Fantástico, ele registra cerca de 20 pontos , um índice muito alto. Como a audiência medida é de 3,5 a 4 pessoas por residência, isso representa um público de aproximadamente entre 35 a 40 milhoes de pessoas. No horário atual, a Band registra 5 pontos, praticamente quatro vezes menos.

ENIGMA – Na Band, a atuação de Fausto Silva representa um enigma que só poderá ter resposta quando a situação de fato se desenrolar. Faustão, na minha opinião, é um apresentador muito importante, sobretudo porque ele abre o palco e contribui para que muitos artistas tenham a oportunidade de se apresentar.

Ao contrário, por exemplo, do Programa do Chacrinha, de Sílvio Santos, Flávio Cavalcanti no passado, e de Moacyr Franco, o Domingão não expõe as pessoas que se apresentam ou que são entrevistadas a posições ridículas.

Esta exposição era tradicional tanto no rádio quanto na TV. A apresentação de candidatos a cantor começou na década de 40 com Ary Barroso, na Rádio Tupi. Ia ao ar logo depois do futebol nas tardes de domingo. O programa deslocou-se para a TV Tupi quando começou a funcionar no Rio, em fevereiro de 1951.

GONGO – Quem cantasse bem era aplaudido. Quem cantasse mal era contudo. Havia o personagem Macalé que acionava a batida do gongo. Os que não tinham vocação terminavam saindo até vaiados. Ary Barroso foi o primeiro programa de calouros do Brasil. Ele já era um artista consagrado pela “Aquarela do Brasil”, de 1940.

Na década de 1940, Abelardo Barbosa tinha um programa na Rádio Guanabara chamado Cassino do Chacrinha. Havia até uma música específica chamada para o programa. Abelardo Barbosa consagrou-se na Globo nas tardes de domingo.

Sílvio Santos começou com programa de auditório. Ele arrendou um horário na Globo e durante alguns anos ocupou as tardes de domingo na emissora. De repente a TV Globo quis encerrar o arrendamento, que na opinião de Walter Clark, diretor na época, terminava não sendo positivo para a emissora.

SBT – Sílvio Santos transferiu-se para a TV Tupi e de lá obteve a concessão do canal TVS que se transformou no SBT. Silvio Santos obteve a concessão do canal no governo Figueiredo e as tardes nos dias de semana tinham um programa de auditório de de entrevistas, “O Povo na TV”, apresentado por Wilton Franco, que já não se encontra mais entre nós.

Mas eu disse que na Band a disputa por pontos do Ibope, que agora se chama Instituto Kandar, definirá a aceitação pelo público da mudança de canal de Fausto Silva.Há um precedente interessante por audiência de disputa por audiência. No Carnaval de 1984, no governo Brizola, com o primeiro carnaval no sambódromo do Rio, o então diretor geral Bonifacio de Oliveira Sobrinho, que havia sucedido Walter Clark na Globo, não se sabe porque decidiu não transmitir o desfile das escolas de samba. Pensou ele que o meio fosse mais forte que a mensage.

MEIO E MENSAGEM – Digo isso baseado num ensaio de Marshall McLuhan, teórico da Comunicação, o homem que classificou a televisão com uma aldeia global. Ele achava que o veículo era mais forte que o conteúdo. Mark acertou em muitos pontos. Um deles serviu para dividir o tempo entre antes e depois da imprensa de Gutenberg.

Dou um exemplo: as duas maiores tragédias da humanidade a meu ver são a crucificação de Jesus Cristo e o nazismo de Hitler. A diferença é que a crucificação é um relato, o nazismo um registro, pois na época já haviam jornais, fotografias, cinema e a televisão nos Estados Unidos, inaugurada em 1934. A diferença é fundamental.

Mas é fundamental dizer que em 1984, a Globo no horários das escolas de samba registrou 7 pontos de audiência e a TV Manchete, que veiculou os desfiles, alcançou pico de 46 pontos.Isso comprovou o que penso. O meio não é por si mais forte que o conteúdo. Claro que o melhor conteúdo em um veículo mais forte é excepcional. Mas mesmo em um veículo nem tão forte representou o interesse popular pelo desfile.

Com Ruy Castro e Bernardo Mello Franco por testemunhas, Paulo Guedes sai da sombra

Guedes, na Economia, foi o homem das informações erradas

Pedro do Coutto

Nas edições desta sexta-feira da Folha de São Paulo e do O Globo, respectivamente, Ruy Castro e Bernardo Mello Franco focalizaram com objetividade e perfeição o verdadeiro perfil do ministro Paulo Guedes, refletindo-o como se ele estivesse  em frente a um espelho e os seus tradutores iluminando a sua atuação no governo Jair Bolsonaro, ampliando ainda mais o desastre que está representando para o país.

No início, chamado ironicamente de “Posto Ipiranga”, retratando o anúncio que apresentava o posto como informativo de todos que procuravam uma resposta, Paulo Guedes, ao contrário, durante esses dois anos de mandato como ministro da Economia foi o homem das informações erradas. Errou tudo ! Inclusive no episódio da Reforma da Previdência Social, no qual anunciou que seria produzida uma economia anual de R$ 100 bilhões; o que em dez anos alcançaria R$ 1 trilhão.

DELÍRIO – Quando eu vi essa promessa no noticiário, senti imediatamente que Paulo Guedes era um delirante. Não passou muito tempo e ele esqueceu o compromisso consigo mesmo e com as finanças brasileiras. Hoje, ele destaca exatamente o contrário: a busca de recursos para fazer face aos projetos com os quais sonha e que não tem reciprocidade no plano concreto.

Seu desempenho negativo, conforme dito anteriormente, está refletido nos textos de Ruy Castro e de Bernardo Mello Franco , nesta sexta-feira. Os dois jornalistas relacionam os desastres cometidos pelo ministro da Economia e acentuam as consequências para o país. A mais abrangente está contida no descrédito do governo Bolsonaro. Paulo Guedes é um dos maiores responsáveis pelo panorama que o outono revela, neste início de maio, Dia do Trabalhador.

CRÍTICAS AOS CHINESES –  O ministro simultâneo da Fazenda, do Planejamento, do Trabalho, da Previdência Social e ainda por cima coordenador do projeto de privatizações das estatais não consegue acumular tantas responsabilidades que resultam em um fracasso total. Agora mesmo, há poucos dias, todos viram as afirmações do ministro sobre a China e a sua vacina.

O chanceler Carlos França teve que entrar em campo imediatamente após a agressão para suavizar a situação e manter a posição do Brasil em relação ao seu maior parceiro comercial.  Agredir a China, aliás como Bolsonaro já fez, significa um supremo absurdo e um ato de intolerância para com aquele país. Agora, com Carlos França, graças a Deus, retoma-se o pragmatismo que é próprio das relações exteriores do Brasil.

A CPI E A CLOROQUINA –  Reportagem de Raquel Lopes, Folha de São Paulo, numa página inteira focaliza o roteiro traçado pela CPI da Covid, chamando a atenção para as perguntas que inevitavelmente serão feitas ao general Eduardo Pazuello quanto a aquisição e a distribuição de cloroquina, incluindo a imagem do presidente da República exibindo a caixa do remédio, de acordo com cientistas e infectologistas, absolutamente inadequado para o combate ao coronavírus.

Por isso, o governo já atingido pela convocação dos ex-ministros Henrique Mandetta e Nelson Teich, atemoriza-se ainda mais com o depoimento do general Pazuello. Este, parece um personagem chave capaz de por si próprio agravar ainda mais a situação, fazendo com que o governo seja demolido pelos seus próprios erros.

A BOMBA NO RIOCENTRO – O repórter Bernardo Pasqualette assina reportagem na Folha de São Paulo desta quinta-feira, retroagindo no tempo, focalizando o atentado do Riocentro ocorrido há 40 anos. Foi em 1981, quando o capitão Wilson Machado e o sargento Guilherme Pereira do Rosário, no carro de Machado, um Puma, levaram bombas para explodir no meio das comemorações na véspera do Dia do Trabalho.

Sucede que o destino fez com que a primeira bomba explodisse junto a Guilherme do Rosário e Wilson Machado. Rosário morreu no local. Wilson Machado teve uma ruptura que atingiu o seu intestino, mas sobreviveu. Hoje é coronel da reserva. O presidente João Figueiredo tentou punir os responsáveis, mas não conseguiu porque o segmento militar o impediu.

PROVA –  A prova do atentado foi a existência de uma segunda bomba que não foi ativada. Quando explodiu a primeira, essa segunda bomba rolou para fora do Puma e ficou no chão. A reportagem da TV Globo focalizou tanto o carro quanto a segunda bomba e a matéria foi ao ar no jornal das 13h. Mas a segunda bomba destruiu completamente a versão do Exército de que Machado e Rosário foram vítimas de participantes da comemoração. Era preciso, para os radicais da direita, que a imagem fosse esquecida. E foi o que aconteceu. No Jornal Nacional, à noite, a imagem da segunda bomba foi excluída.

O Riocentro estava repleto. Entre os artistas, Chico Buarque iria se apresentar. Se as bombas explodissem pouco depois do acidente no Puma, as consequências seriam trágicas. A história do Riocentro ficará na memória do tempo.

MANOBRA –  Reportagem de Danielle Brant, na Folha de São Paulo, revela os esforços que vêm sendo desenvolvidos pela deputada Bia Kicis, presidente da Comissão de Constituição e Justiça, para colocar em pauta projetos que se destinam a limitar e neutralizar a ação do Supremo Tribunal Federal.

O esforço da parlamentar não resultará em nenhuma consequência concreta, porém fornece a ela a imagem do profundo temor que faz o governo tentar impedir as acusações contra ele, e assinalam tacitamente que ele próprio, o governo, sente-se sem argumentos para debater e confrontar as acusações. O temor do bolsonarismo está deixando atrás de si a própria fuga da realidade.

ALCKMIN E HUCK –  Reportagem de Joelmir Tavares, Folha de São Paulo, destacando que o ex-governador Geraldo Alckmin em conversa mantida com o apresentador Luciano Huck, da TV Globo, na quinta-feira, o incentivou a manter a sua candidatura à próxima sucessão presidencial. Na minha impressão, Geraldo Alckmin quer disputar novamente o governo de São Paulo, quando deverá ter pela frente o atual governador, João Doria, buscando a reeleição.

O atual governador de São Paulo, por sua vez, já antecipou que não poderá se candidatar à Presidência porque numa polarização entre Lula e Bolsonaro não sobra espaço para qualquer outro candidato.

Quem se candidatar, evidentemente, será derrotado. Como digo sempre, é preciso não esquecer que mesmo preso e apoiando um candidato inexpressivo, como Fernando Haddad, Lula deu a ele 43% dos votos registrados nas urnas. Pedindo para si, está claro, Lula terá ainda mais na sucessão presidencial.

CONDENAÇÕES – O Supremo praticamente já consolidou a sua candidatura, apagando as condenações que pesaram sobre ele e que o levaram a ficar preso por 18 meses.

Aliás, por falar em decisão do Supremo, há comentaristas que ainda não focaram mais nitidamente no que aconteceu na Corte em relação à Lava Jato.  Quando Cármen Lúcia votou pela parcialidade de Sergio Moro e Edson Fachin transferiu a decisão da Segunda Turma para o Plenário, a maioria dos ministros, incluindo o presidente Luiz Fux, conseguiu evitar que o julgamento evoluísse para anular não só as sentenças contra Lula, mas todas as sentenças de Sergio Moro que se basearam na Operação Lava Jato.

Seria um paraíso para os advogados, que no fundo também torcem para que não ocorram julgamentos definitivos transitados em julgado. O fato concreto é que o reconhecimento da parcialidade de Sergio Moro no caso singular e específico do tríplex do Guarujá afastou a perspectiva de uma anulação de todos os processos que incluem sobretudo as delações negociadas por Marcelo Odebrecht, Léo Pinheiro, Pedro Barusco, que devolveu US$ 95 milhões, Paulo Roberto Costa, além de vários outros. Esta é a realidade do que ocorreu e que impediu uma liberação geral.

IGPM –  Matéria de Fernanda Brigatti, da Folha de São Paulo, destaca que o IGPM calculado pela Fundação Getúlio Vargas acusa a alta de 32% no período de março de 2020 a março de 2021. Trata-se do Índice Geral de Preços do mercado, o qual, vejam só o absurdo, rege a correção anual dos aluguéis residenciais.

Tal percentagem é impossível de ser arcada pela esmagadora maioria dos inquilinos. A FGV acha 32% em um ano, mas no mesmo espaço de tempo os salários foram reajustados em 0%. Não foram sequer corrigidos os 5% registrados pelo IPCA no ano passado.

Para se ter a noção do reflexo social tremendamente negativo é só lembrar que o país, em números redondos, possui 50 milhões de domicílios de todos os tipos. Desses, 15% são ocupados por locatários. O IGPM surge como um fantasma para  milhões de brasileiros. Um impacto enorme.