Dois assuntos importantes: 1) Alckmim dialoga com Campos; 2) crise com Aécio e Marina

Pedro do Coutto

Em reportagem na edição de 28 de maio da Folha de São Paulo, Marina Dias revela as conversas que vêm ocorrendo entre o governador Geraldo Alckmim e Eduardo Campos sobre a possibilidade de o PSB apoiar a reeleição do atual chefe do Executivo paulista, abrindo assim espaço para, no maior colégio de votos do país, divulgar melhor sua campanha à presidência da República. A perspectiva de tal acordo concretizar-se abrirá duas dissidências.

Uma no PSDB com o senador Aécio Neves, outra na legenda de Marina Silva, que inclusive já havia se pronunciado publicamente contra qualquer acordo da coligação da qual faz parte com os tucanos em São Paulo. Eduardo Campos, ao retornar ao tema, provavelmente provocará nova reação contrária por parte de Marina Silva que poderá até fazê-la deixar de ser candidata à vice presidência, desmontando a chapa voltada para as urnas de outubro.

Quanto a cisão no PSDB, ela será inevitável. Simplesmente porque uma aproximação da principal corrente partidária com Eduardo Campos será insuportável para Aécio Neves. Destruirá sua candidatura antes mesmo de iniciada a campanha oficial, o que, pela lei acontece a partir de primeiro de julho. A ruptura entre Aécio Neves e Alckmin, um sonho para Dilma Rousseff, já vem se desenhando há algum tempo, na medida em que o governador de São Paulo, pelo menos até agora, não vem demonstrando entusiasmo em relação a Aécio neves.

Vem fazendo falta à movimentação nacional do PSDB. O motivo parece ser o temor de que uma subida de Aécio no Estado termine forçando uma participação mais efetiva do ex-presidente Lula na área paulista, cujo reflexo poderia atingir a candidatura de Alckmin à reeleição. Não que Lula não apoie Dilma, mas pelo menos não dirija ataques veementes à sua administração. Alckmin conquistaria essa alternativa não se empenhando com vigor por Aécio. A aproximação com Eduardo Campos, na realidade, abriria o caminho para o distanciamento que lhe convém no ano eleitoral. Isso de um lado.

De outro, Eduardo Campos, além de poder tentar atingir parte do eleitorado paulista, obteria, como me referi anteriormente, um pretexto para livrar-se de Marina Silva, cujas posições vêm sendo interpretadas pelo PSB como prejudiciais à aliança firmada. Como foi o caso da entrevista (publicada pela Folha de São Paulo) prevendo a derrota de Aécio Neves se for ao segundo turno contra Dilma Rousseff, e a defesa da candidatura de João Paulo Lobianco, ambientalista, ao governo de São Paulo. Com isso tudo, torna-se provável o afastamento entre Campos e Marina. Da mesma forma que a ruptura envolvendo Alckmin e Aécio Neves. São dois lances bastante sensíveis no panorama da sucessão presidencial.

 

Divergências separam Campos e Marina em vários Estados

Pedro do Coutto

Se alguém tivesse dúvida quanto ao destino da candidatura Eduardo Campos nas urnas de outubro, essa dúvida se dissiparia com a leitura da reportagem de Sérgio Roxo, O Globo de 26 de maio, na qual foram expostas divergências essenciais entre o ex-governador de Pernambuco e Marina Silva, candidata à vice em sua chapa. Estão ocorrendo em diversos Estados, a começar por São Paulo, maior colégio de votos do país. Há uma tendência de o PSB (de Campos) apoiar a candidatura à reeleição do governador Geraldo Alckmim, mas a ex-senadora pelo Acre vetou a aliança e indicou o ambientalista João Paulo Capobianco, ou então o coordenador da sigla de Marina em SP, Céçio Turino.

Sérgio Roxo, além dessa, levantou outras divergências que estão impossibilitando a formação de alianças regionais. A dificuldade de acerto, mais uma vez, tornou-se evidente. Já havia surgido antes, aliás, quando Marina Silva atacou Aécio Neves ao declarar que, se for ao segundo turno, será derrotado por Dilma Rousseff.

Com isso, afastou a perspectiva de qualquer aproximação com o senador mineiro que poderia se transformar em fator importante entre as correntes da oposição. Não apenas na hipótese de um segundo turno, mas mesmo no primeiro. Porque, penso eu, as pesquisas do Datafolha e do IBOPE estão apontando uma escala de 31 pontos para as correntes contrárias à Dilma e ao PT. Rousseff permanece no patamar que para o Datafolha é de 37, e para o IBOPE, pesquisa que sucedeu à do Datafolha, de 40% das intenções de voto.

SINTONIA

As alianças eleitorais possuem relativa importância, mas dependem do grau de aceitação das candidaturas nas respectivas unidades da Federação. Firmar alianças, em si, nada acrescentam se não houver sintonia e se não captar votos adicionais.

Além disso, não contribuem para aumentar o espaço na televisão do horário partidário. A divisão desse tempo, fator fundamental, claro, se bem utilizado, é regido pelo número das bancadas que os partidos possuem na Câmara Federal. As candidaturas estaduais, portanto, com base na própria lei eleitoral do país, não têm poder para alterar a distribuição estabelecida. Assim, os acordos regionais, na verdade, esgotam-se nas imagens dos candidatos nas bases originais. Dificilmente podem se refletir na dimensão nacional do debate.

O tempo partidário utilizado em São Paulo, Minas, Rio de janeiro, conjunto que representa 50% do eleitorado brasileiro, é o mesmo que é exibido em Sergipe, Goiás, Paraná, Rio Grande do Sul, sobrando parcelas mínimas para os candidatos a governador, Senado, aos deputados federais e estaduais. A proporção utilizada para os candidatos à presidência permanece nas divisões pelos estados.

Mas ainda não é essa, embora muito forte, a questão mais abrangente. Está no desempenho dos candidatos nas respectivas unidades, sua penetração nas bases regionais e, ainda por cima de tudo, a capacidade que tiverem de transferir votos. Há, inclusive, não raro, casos em que a simples presença de um político na campanha faz com que os apoiados ou indicados por ele, ao invés de ganhar, percam votos. É o caso, por exemplo, do deputado pelo Paraná, André Vargas, atualmente sem partido, cujo mandato (o Globo na segunda-feira) o PT, legenda da qual se desligou, agora deseja cassar. Pois se ele apoiar a candidata do partido ao governo estadual, basta isso, a senadora Gleisi Hoffmann estará derrotada.

Ele não acrescenta. Ao contrário: subtrai.

 

 

Craque sozinho não ganha jogo: futebol é conjunto

Pedro do Coutto

A frase que está no título é de Pelé, em entrevista recente a O Estado de São Paulo e é absolutamente correta. Ele, maior jogador do mundo, pode apresentar seu caso como exemplo. Na Copa de 62 sofreu uma distensão muscular na estreia contra a Tchecoslovaquia e, na partida seguinte, foi substituído por Amarildo. O Brasil foi bicampeão do mundo. Os leitores mais jovens devem estar estranhando porque não foi substituído na própria partida da contusão. Não podia. A regra vigente não previa substituição, como hoje. Acho que o critério de uma equipe poder fazer até três substituições foi implantado pela FIFA na década de 80.

Dada esta explicação essencial, escrevo este artigo com base numa reportagem de Victor  Costa, O Globo de 21 de maio, seção de esportes, sobre o interesse do treinador do Barcelona, Luis Henrique, pelo centroavante Fred, do Fluminense, para formar um trio de frente com ele, Messi e Neymar. Victor Costa acentua que Felipe Scolari forneceu excelentes referências a respeito de Fred. Será um ótimo negócio para o jogador, que tem 30 anos, para o Fluminense também, que já possui um substituto, Valter, que se vem destacando de jogo para jogo. Coloca-se bem, interpreta claramente os espaços do campo, entrega muito bem a bola nos lançamentos à distância, é ótimo nos arremates. Desenvolveu uma atuação espetacular na vitória do Flu sobre o São Paulo.

Porém, eu falava de Fred. No Fluminense, o time equivocadamente centraliza demais as jogadas nele. Fica na frente esperando os cruzamentos e os passes curtos. Com isso, atrai a marcação sobre si e a disputa fica lenta em consequência.

CENTRALIZAR É ERRADO

Assisto e acompanho futebol há muitos anos e nunca vi uma equipe dar certo na medida em que centraliza os lances num único jogador por mais craque que seja. Foi o caso de Leônidas da Silva, o Diamante Negro, no Flamengo e no São Paulo. De Heleno de Freitas no Botafogo, de Zizinho no mesmo Flamengo e Bangu. Futebol é conjunto, tanto no ataque quanto na cobertura das ações defensivas, o que nos faltou contra o Uruguai no final da Copa de 50.

Neymar, Fred e Messi, será um trio tecnicamente  fascinante. Mas dos três quem volta para defender? Quem faz os lançamentos à longa distância? Quem se desloca para enfrentar os choques com as defesas adversárias? Não estou dizendo que não vá dar certo. Apenas destaco que o conjunto não é somente a soma das partes. É algo mais, sobretudo no movimento intenso que faz do futebol o mais  fascinante esporte inventado e aperfeiçoado no mundo.

Torço para que a contratação de Fred pelo Barcelona se concretize. Será ótimo para o atacante, espero que também para o Barcelona, uma equipe que destaca o sonho e a paixão dos torcedores. Na Espanha, Fred será uma presença a mais para o entusiasmo das multidões que, apesar da TV, lotam os estádios. Um caso de paixão que rola em torno da bola, do grito de gol, do sucesso.

Zuenir mostra Roberto Carlos como um artista a favor da censura

Pedro do Coutto

Excelente o artigo de Zuenir Ventura, O Globo de sábado, destacando,para muitos, uma face do cantor Roberto Carlos, um artista a favor da censura, não só à biografia de Paulo Cesar de Araújo sobre ele, mas também chegando ao ponto de cumprimentar o ex-presidente Sarney, quando, no seu governo, proibiu a exibição  do filme “Je vous salue Marie”, de Jean Luc Godard, autor de extensa obra cinematográfica, na qual “O Acossado” tem lugar de destaque. O texto do estúpido telegrama enviado, acentuou Zuenir, encontra-se no site do jornalista Mário Magalhães.
Aliás, diga-se de passagem, foi igualmente absurda a decisão de José Sarney, um membro da Academia Brasileira de Letras. Voltando a Roberto Carlos, o aspecto a meu ver maias impressionante, é que provavelmente tornou-se o único artista a defender a censura. Uma contradição profunda que o expõe a uma situação muito ruim, além de vergonhosa. Esqueceu que a inspiração da arte está na liberdade de criação e que, até hoje, no mundo, não há exemplo de uma obra interditada no passado que depois não tenha sido exibida livremente.
Sem exceções. Podem procurar na literatura, no teatro, no cinema, na pintura até mesmo na escultura. A igreja da Pampulha, à beira do lago de Belo Horizonte, de Oscar Niemeyer figura nessa relação de sombras produzidas pelo fanatismo, pelo falso puritanismo, pela burrice enfim. O próprio Vaticano, no passado, chegou a colocar no index obras de arte importantíssimas. Um esforço em vão de tentar eternizar conceitos que o tempo ultrapassa e de julgar, por si, a liberdade e a visão cultural dos outros.
OBSCURANTISTA
Como toda censura é retrógada, o comportamento de Roberto Carlos pode ser também assim classificado. Obscurantista. Ridículo, em total contradição com a arte e, portanto ,como artista que é, consigo mesmo. Colocado à frente de um espelho a imagem que surge e reflete não o favorece. Pelo contrário. O prejudica diante de milhões de pessoas que admiram suas interpretações e composições musicais. Ele não suportaria ver censurada uma de suas obras, claro. Portanto não pode apoiar a censura às obras dos outros. A começar pela biografia de Paulo Cesar de Araújo feita sobre sua vida. Pois se todas as biografias dependessem de aprovação prévia dos biografados, os prejuízos recairiam  principalmente na história geral.  Porque todos os focalizados transformariam em heróis de si mesmos. Todos eles titulares de condutas exemplares e próximas da perfeição.
E todos nós sabemos que não é nada disso. No caminho de todos os seres humanos há sempre um álbum de família, peça de Nelson Rodrigues de difícil ultrapassagem e superação. Por mais importantes que sejam ou tenham sido em suas vidas. Por mais que tenham acrescentado à própria humanidade. Roberto Carlos precisa acordar: se a   censura prevalecesse, a arte já teria chegado ao fim. A arte é, sobretudo, liberdade de criação, de interpretação, de exposição.

Dilma recupera espaço e se mantém distante de Aécio e Campos

Pedro do Coutto
Numa primeira leitura da pesquisa que o IBOPE divulgou à noite de quinta-feira, verifica-se claramente que a presidente Dilma Rousseff, ao avançar três pontos, recuperou o espaço perdido, na visão também do Datafolha. Ela havia descido para 37, avançou agora para 40% das intenções de voto. Inclusive para o IBOPE, no quadro projetado hoje, venceria no primeiro turno. Este é um aspecto. Outro o que acentua que sua forma de governar pouco influi na tendência eleitoral. Tanto assim que enquanto alcança uma distância de 20 pontos sobre Aécio Neves, segundo colocado, sua forma de governar é aprovada por 47% do eleitorado e rejeitada pela parcela de 48%. A soma dos votos de Aécio Neves, Eduardo Campos e do pastor Everaldo não supera os 40 pontos que obteve no levantamento.
De outro lado, é mínima a diferença entre os que julgam seu governo entre ótimo e bom e aqueles que o consideram ruim  e péssimo, a alta fração de 33 pontos. De modo geral, a análise fria dos números conduz a um panorama curioso: pelo menos metade dos que não aceitam seu desempenho como positivo, mesmo assim, na hora da urna, votariam nela. Talvez, penso eu, porque os escândalos verificados na Petrobras não sensibilizem o povão, restringindo-se às classes médias e altas.
Esta questão é importante e deve funcionar como uma espécie de bússola ou termômetro para os marqueteiros que, usualmente, consideram-se e são considerados gênios e estrategistas de campanhas eleitorais. Nada disso.
FATOS CONCRETOS
Como escrevi outro dia, sem fatos concretos, nenhum processo ou forma de comunicação consegue avançar. Vejam só um exemplo publicado pelo Globo, também na edição de quinta-feira. Um deputado do PSDB recorreu ao Tribunal Superior Eleitoral e obteve liminar proibindo o PT de manter na televisão os filmetes que atacavam indiretamente as atuais oposições sob ameaça que uma derrota da atual presidente da república seria uma volta ao passado, simbolizando de forma subliminar na figura do ex-presidente Fernando Henrique. Tais filmetes são muito ruins, mal feitos, pessimistas. Mas estes fatores não são motivo para que seriam vetados. O PSDB errou, pois tais produções provocaram na verdade reações contrárias ao governo. Sua veiculação, assim, interessa aos tucanos de Aécio Neves. O PSDB deveria querer mantê-los, não proibi-los.
Uma contradição clara. O mesmo raciocínio se aplica ao PT se agisse para afastar Fernando Henrique de aparecer ao lado de Aécio Neves. Não teria cabimento, pois a impopularidade de FHC é muito alta.
Vamos voltar aos números do IBOPE: Dilma 40; Aécio 20, Eduardo Campos 11%. Brancos e nulos 14. Na pesquisa anterior eram 24%. Não sabem 10 pontos. Eram 13%. Importante, principalmente para Dilma é que ela conseguiu captar uma pequena parcela dos que anulariam o sufrágio. Aliás, para o IBOPE, Aécio subiu de 16 para 20. Campos de 6 para 11. Os números do IBOPE praticamente coincidem com os do Datafolha. Os candidatos sobem. Os brancos e nulos descem. O caminho das urnas está traçado.

Paulo Roberto Costa, o terceiro homem de Orson Welles

Pedro do Coutto
No título está contido o nome de um filme famoso, de mistério, uma entre as grandes obras que o genial Orson Welles legou ao cinema em particular e ao universo da arte e da técnica em geral. O terceiro homem é um personagem que surge das sombras do passado e cuja existência no enredo desafia o rumo das investigações e a sequência lógica das explicações.
O autor de Cidadão Kane, filme inspirado na vida de Randolf Heartz, dono de um império de comunicação, era também um mestre na narrativa inconclusiva, desafiadora da percepção humana.
Ao ler no Globo, edição de 21, a excelente reportagem de Carolina Brígido e Cleide Carvalho, sobre a contradição, no espaço de 24 horas, que marcou os despachos do ministro Teori Zacascki, mandando soltar e em seguida novamente prender quase todos os acusados pela Polícia Federal de corrupção e lavagem de dinheiro (Operação Lava-Jato), me veio à memória o Terceiro Homem. Um enigma. Por qual motivo, afinal cuja explicação não se encontra, o ministro Zavascki concedeu somente a Paulo Roberto Costa o direito de se defender em liberdade?
DESTRUINDO PROVAS…
Sobre ele, além das suspeitas e denúncias da Polícia Federal que recaem a respeito de todos, ainda por cima ao ser preso em suas residências (Carolina Brígido e Cleide Carvalho revelam que ele possui duas) no momento em que tentava destruir provas deixadas nos computadores, havia se tornado o centro de operações financeiras suspeitas em série que teria praticado quando diretor da Petrobrás.
Na minha opinião, o surpreendente ato de Teori Zavascki, o segundo da controvertida trama de onde não deveria ter saÍo. mas não é esta a questão. A pergunta, por exemplo, é qual a diferença entre ele e Alberto Youssef? Zavascki diz que reviu a decisão com base nas informações complementares que lhe foram fornecidas entre o anoitecer e o amanhecer seguinte pelo juiz Sérgio Moro, do Paraná. Mas se assim foi, Paulo Roberto Costa não poderia ter sido excluído da revogação, uma vez que é titular de vultosas contas bancárias no exterior.
Por que entregou o passaporte à Polícia? Mas o mesmo procedimento desabou sobre os demais. Porque o processo, se nele forem incluídos os deputados André Vargas e Luiz Argolo, desloca-se para o STF, é argumento que não convence. Uma vez que tal deslocação ainda não ocorreu e, hoje, não se pode logicamente sustentar que acontecerá.
MAIS DÚVIDAS
O ministro Zavascki, O Globo publica, revelou que vai enviar todos os processos ao Supremo Tribunal Federal, pois em sua visão jurídica cabe à Corte decidir sobre os possíveis desdobramentos.
Se assim é, porque não tomou tal providência antes de mandar libertar os acusados, para, horas depois, mandar prendê-los novamente? E, para finalizar, qual o fato que o levou a excluir da “reprisão” Paulo Roberto da Costa, ex-diretor da Petrobrás, que reinterpreta na trama e no drama o personagem-chave de um filme consagrado, agora tão famoso junto à opinião pública quanto os escândalos da Petrobrás?
Uma nuvem de mistério, sem dúvida, envolve a questão.

    Apesar do recuo, Zavascki prejudicou a candidatura Dilma

    Pedro do Coutto

    Mesmo depois de seu recuo quase total, na tarde de terça-feira, de decisão que tomara no dia anterior, no espaço de 24 horas portanto, de soltar os acusados da Operação Lava-jato da Polícia Federal, cuja ´prisão fora determinada pelo juiz Sérgio Moro, o ministro Teori Zavascki, do Supremo, contribuiu para aumentar o grau de desencanto que tomou conta do país. E, indiretamente, prejudicou a candidatura Dilma Rousseff. Não somente pelo fato dela tê-lo nomeado para a Corte, mas principalmente porque o processo envolve a Petrobrás, fonte inesgotável de sombras que levaram à criação da CPIdo Congresso nacional. O PT e o PMDB tentam obstruir o inquérito.

    Aliás não se sabe por que, dos onze soltos na segunda-feira, somente a libertação do ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, personagem atingido por numerosas acusações, foi confirmada na terça, pelo autor da contradição.Lendo-se o site do O Globo na própria terça-feira, na Internet, observa-se as razões de Teori Zavascki. Entre elas, principalmente a versão de que a Justiça Federal do Paraná (Sérgio Moro, titular da décima terceira vara) apresentou informações complementares sobre os processos e decretos de prisão.

    Mas como informações complementares? Ele, Zavascki, as havia solicitado? Ou passou a pedi-las diante da reação da opinião públicae do próprio juiz Sérgio Moro? Se não foi nenhuma coisa nem outra, o ministro precipitou-se na decisão de soltura. O argumento de Moro de que os acusados poderiam fugir do país, uma vez que possuem contas com saldos milionários no exterior, já havia sido colocado publicamente pelo juiz da 13ª Vara Federal. E por qual motivo a sombra de uma fuga não se estende a Paulo Roberto Costa?

    DUAS IMPRESSÕES

    Ficaram flutuando em nuvens de dúvidas duas impressões: 1) a reação verificada dentro do STF contra a medida liminar; 2) Também a reação do governo federal, uma vez que a liberdade concedida a um bando de acusados pesaria negativamente em relação a campanha de Dilma Rousseff à reeleição, pois a parcela menos informada do eleitorado tem por hábito atribuir ao governo e aos políticos a autoria de tudo, a responsabilidade por tudo de mal que atinge o Brasil. É possível, inclusive, que os dois fatores tenham convergido para que Zavascki recuasse no amanhecer do dia seguinte da decisão que havia tomado no entardecer da véspera. Não se pode adivinhar.

    Mas é possível interpretar atitudes tão divergentes e diametralmente opostas como a de soltar num dia e voltar a prender no outro. O ministro com sua oscilação que surpreendentemente excluiu apenas Paulo Roberto Costa, acrescenttou o episódio à atmosfera de desencanto e falta de esperança. que está envolvendo todas as candidaturas às urnas de outubro. Ele tentou, claro, uma explicação pouco convincente: a de que recebeu informações complementares do juiz Sérgio Moro. Assim, tacitamente admite que, se não as recebesse, não recuaria, portanto permanecendo no erro que ele próprio assumiu.

    Assumiu, sim. Caso contrário, é legítimo presumir, não voltaria atrás, como voltou. Dessa forma, reconhece, estava na direção errada. Felizmente, para o SAupremo Tribunal Federal e para o país, mudou de opinião em 24 horas. Teori Zavascki fica devendo esse episódio à memória jurídica nacional.

    O desejo de mudança no país e a mudança do voto

    Pedro do Coutto

    Em artigo publicado na Folha de São Paulo, edição de 19, o senador Aécio Neves pediu atenção dos leitores (especialmente dos eleitores e eleitoras, como é natural) para um aspecto contido na recente pesquisa do Datafolha a respeito da sucessão presidencial de outubro: o desejo de mudança na forma de o governo administrar o país. Tecnicamente está certa a colocação. Tanto assim que 69% das classes pobres, que compõem a grande maioria dos votantes apoiam a mudança. Em seguida, 76% da classe média desejam um novo rumo. Finalmente 81% dos grupos sociais de renda mais alta. No Brasil, infelizmente, os que ganham por mês dez salários mínimos são considerados vértice da pirâmide. Falso incluí-los na alta renda. Mas vamos aceitar para efeito de análise.

    Podemos considerar, em média, que o índice de insatisfação passa da casa dos 70%. Encontra-se refletido até na elevada taxa dos que, hoje, pretendem anular o voto ou votar em branco amanhã. Atitude de protesto que, de acordo com a legislação eleitora, só acrescenta para o candidato que alcançar maior intenção de votos nas urnas. Em todo o país, de fato, é impossível votar em branco ou anular o sufrágio. Isso só estará acrescentando e facilitando a vitória de alguém. Mas esta é outra questão.

    Os insatisfeitos situam-se numa escala muito mais alta. Mas tal atmosfera não se reflete, pelo menos até agora, em intenção de voto. Tanto assim que a presidente Dilma Rousseff, pelo mesmo Datafolha, lidera com 37 pontos, seguida de Aécio Neves (20)  Eduardo campos com apenas 11%. O caráter de insatisfação social não transferiu adesões nem para Aécio muito menos para Eduardo Campos. A soma de ambos, 31 pontos, encontra-se abaixo da posição da atual presidente da república e muitíssimo abaixo do grau de insatisfação e desesperança identificado na pesquisa.

    E NO PT?

    Por coincidência, na mesma edição de 19 da FDolha de São Paulo, o jornalista Valdo Cruz escreveu artigo acentuando a tendência de uma ala do PT debandar da campanha sucessória. Razões não faltam, inclusive em função de declarações sem sentido que o ex-presidente Lula vem fazendo ultimamente.

    Mas é difícil. Essa corrente do PT estaria disposta a votar em quem? Em Aécio? A pesquisa registraria então muito mais de 20% em seu favor. Votaria em Eduardo Campos? Para quê? Para ter certeza antecipada da derrota? São perguntas essenciais relativas ao jogo do poder. Pois quando o eleitor sente que um candidato está previamente derrotado, a tendência é afastar-se dele. Não é o caso de Aécio neves. Que certamente subirá ao longo da campanha além do vigésimo andar a que atinge atualmente. Porém a dúvida é se ele ficará ou não contido no teto da oposição, que oscila basicamente entre 35 e 40%, ou se poderá enfrentar Dilma Rousseff no segundo turno.

    Até agora não ficou demonstrado isso. Não apenas em função dos números do Datafolha. Mas pela constatação, que não só Dilma, mas igualmente Aécio e Euardo Campos perdem para o grau de insatisfação predominante. Enquanto isso não acontecer, a força da inércia transforma-se em fator de apoio a Dilma. Para que Aécio possa derrotá-la, tem que avançar na medida em que possa reduzir o nível dos insatisfeitos. Não acontecendo tal fato, Dilma Rousseff, com a insatisfação ou sem ela, terminará reeleita. As urnas é que vão dizer a verdade.

    Governo perde mais votos fugindo do que enfrentando Pasadena

    Pedro do Coutto

    Uma vergonha total para o Senado as manobras desenvolvidas pelo presidente do Congresso, Renan Calheiros, e pela maioria parlamentar para tornar inócua a CPI da Petrobrás criada para investigar os sombrios episódios que marcaram a compra da refinaria de Pasadena e a construção da refinaria Abreu Lima. Maior farsa da história republicana do país, além de uma contradição total do próprio governo. Pois foi a própria presidente Dilma Rousseff quem afirmou tivesse lido o contrato da aquisição, na íntegra, não o teria assinado.

    Não há, assim, sob a ótica do PT, motivo para obstruir uma denúncia sustentada pela própria candidata do partido à reeleição. Inclusive uma candidata que lidera as pesquisas, como demonstrou o levantamento recente do Datafolha. A reportagem de Júnia Gama, O Globo de 15 de maio, revela com nitidez os lances principais das baixesas praticadas. Talvez as manobras tenham sido aconselhadas pelo ex-presidente Lula para blindar a administração petista que começou com ele. Está errado.

    Mesmo no sentido puramente eleitoral. Dilma perde mais votos fugindo do que enfrentando a CPI. Tanto assim que, não fosse o episódio, sua frente no Datafolha e no IBOPE seria muito maior do que é. Quanto mais a base aliada do governo tentar a fuga, maior será o desgaste. Sua vitória nas urnas já se desenhava definida. Agora não. Cresce a perspectiva de uma disputa com Aécio Neves no segundo turno. Pois todo comportamento na política reflete diretamente na opinião pública, portanto no eleitorado.

    CONTRADIÇÕES E SOMBRAS

    Até o ministro Guido Mantega, matéria de Cristiane Bonfanti e Gabriela Valente, na mesma edição de O Globo, afirmou ter sido contrário à compra de Pasadena. Sua declaração comprova a existência de duas correntes, pelo menos, no governo. Mas as contradições e sombras não terminam aí. Pelo contrário.

    Estendem-se às obras de construção (Itaquera) e remodelação para a Copa do Mundo. Os trabalhos da Arena Corínthians não estarão concluidas a 12 de junho, inauguração com o jogo entre Brasil e Croácia: a cobertura não vai estar pronta. Os lugares mais caros serão expostos à chuva. Uma falha gigantesca,m  que não ocorreu por falta de recursos, como O Globo publicou na primeira página de recente edição. Falta ao governo Dilma uma coordenação mais firme, uma articulação mais forte. A divisão de opiniões a respeito de Pasadena é um exemplo marcante e definitivo. No caso de Itaquera, não se trata de ocultar o sol com a peneira e sim proteger os espectadores da chuva.

    Fazenda leva Mantega a formar na oposição a Dilma

    Pedro do Coutto   

    Reportagem de Paulo Celso Pereira e Geraldo Doca, O Globo 16 de maio, revelou que o Ministério da Fazenda decidiu suspender a campanha publicitária para os trabalhadores que ganham até 2 salários mínimos nacionais (1 mil e 528 reais por mês) procurarem as agências da Caixa Econômica habilitando-se a receber, conforme a lei, um abono salarial de 724 reais. Há um prazo limite para que se inscrevam: 30 de junho. Os que não aparecerem não poderão receber neste ano: só em 2015.

    Os repórteres calculam que, por falta de informação concreta, 1 milhão e 800 mil pessoas, equivalendo, vejam só, a 7% dos que se encontram naquela faixa de remuneração, ainda não procuraram a Caixa Econômica Federal. Mantida tal ausência, o governo reteria em torno de 1 bilhão e 300 milhões, parcela que seria lançada nas contas governamentais para que estas apresentassem superavit fiscal. Só que o abono nada tem haver com a receita.

    Os técnicos da fazenda que levaram Mantega a acolher ideia tão absurda, em minha interpretação, só podem formar na oposição ao governo, ou então, o que é pior, conduzir o ministro Guido Mantega a romper com o Planalto e vir a ser demitido pela presidente Dilma. Sim. Porque se atrás de cada fato político existe sempre um motivo econômico, ao lado de cada fato econômico predomina invariavelmente um reflexo político. Sobretudo num ano eleitoral como esse no qual nos encontramos, com o eleitorado, de todos os níveis de renda, voltado para as urnas de outubro.

    O ministro Mantega falhou no episódio, no mínimo deixando-se envolver pelos autores do projeto da omissão, e o ministro Aloísio Mercadante falhou por desatenção. Bastava comparar a campanha publicitária efetuada no ano passado com o espaço que deveria ter sido preenchido em 2014, mas não foi aproveitado como um passo na estrada da conquista de votos. Vou até além. A veiculação da notícia sobre o abono deveria ter sido feita na TV e no rádio, nos jornais, pela própria Dilma Rousseff. A oposição, leia-se Aécio Neves, porque Eduardo Campos não decola, nada poderia dizer. A matéria faz parte da legislação social do país

    PECÚLIO DOS APOSENTADOS     

    Por falar em legislação social, comprometi-me em outro artigo revelar as leis que instituiram e revogaram as contas de pecúlio dos aposentados do INSS. Hoje, cumpro o compromisso. A conta pecúlio foi criada pela Lei 6243 de setembro de 75, governo Ernesto Geisel. Basicamente, no artigo primeiro, diz o seguinte: “O aposentado que voltar a trabalhar no regime da Lei 3807/60, Lei Orgânica da Previdência Social, terá direito a um pecúlio constituido pela soma das importâncias correspondentes às suas próprias contribuições durante o novo período de trabalho, corrigido monetariamente e acrescido de juros de 4% ao ano”. Em caso de falecimento, o saldo existente caberia a seus dependentes, ou na falta deles, a seus herdeiros legai. O direito foi mantido pela Lei 8212/91, governo Collor.

    O presidente Itamar Franco não tocou no pecúlio, mas revogou o desconto dos aposentados, achando que estavam sendo cobrados duplamente. Foi a Lei 8870 de 15 de abril de 94. Um ano depois, veio o desastre social e a espoliação por parte do governo Fernando Henrique: a Lei 9032, de 28 de abril de 95, restabeleceu a contribuição dos aposentados e, omitindo os saldos das contas, mandou o pecúlio para o espaço. O vazio criou um prejuizo enorme a todos os aposentados que permanecem em atividade. A diferença foi para o Tesouro. Os verdadeiros donos das importâncias ficaram en prejuízo. Um prejuízo enorme.

    Juíza Ana Paula Vieira de Carvalho ilumina o crime do Riocentro

    Pedro do Coutto

    Como uma personagem de Alexandre Dumas pai, autor do célebre romance “Vinte Anos Depois”, a juiza Ana Paula Vieira de Carvalho, mais de três décadas após a tentativa do crime hediondo do Riocentro, ilumina o passado inspirada na consciência humana, e aceita a denúncia formulada pelo Ministério Público Federal contra um grupo de militares e civis que, não fosse o destino, teriam causado centenas de mortes na noite de 30 de abril de 81, e número maior ainda de feridos e mutilados. Havia um show em comemoração a primeiro de maio no Riocentro, com a participação de vários artistas de renome, a começar por Chico Buarque.

    Estávamos no governo João Figueiredo, que encerrava o ciclo da ditadura aberta em 64 com a deposição do presidente João Goulart, e se dispunha a realizar uma transição para a democracia, como de fato aconteceu em 85. Grupos radicais das Forças Armadas se opunham. Com isso, nas sombras, formavam na oposição ao presidente da República. Planejaram lançar bombas no Riocentro e atribuir a setores radicais, mas da esquerda, não da direita. Partiram para o projeto.

    O então capitão do Exército – hoje coronel da reserva  – Wilson Machado e o sargento Guilherme do Rosário teriam executado a trama sinistra, não fosse a mão do destino. Uma das bombas que transportavam explodiu, por acaso, no colo do sargento, matando-o. Wilson Machado ficou seriamente ferido. Esta a verdade do atentado, levantado recentemente em detalhes pela Comissão Nacional da Verdade. A Comissão tentou ouvir o coronel Wilson, mas ele se recusa a depor. Basta este aspecto para acentuar a sua confissão tácita. Há outros acusados pelo MPF, acusações aceitas num gesto histórico pela juiza Ana Paula Vieira de Carvalho. Sua decisão, inclusive, foi magistralmente destacada pelos repórteres Chico Otávio, O Globo, e Bernardo Melo Franco, Folha de São Paulo, edições de 16 de maio.

    NEWTON CRUZ

    O general Newton Cruz figura entre os acusados de tomar conhecimento prévio da preparação do atentado e não denunciá-lo publicamente. Era o chefe do SNI do governo João Figueiredo. O major Devany Monteiro Barros tem contra si a acusação, não a de praticar o ato Hediondo, mas a do que se chama “limpar a cena do atentado”. Este ângulo da  questão merece uma atenção especial. O jornalismo da Rede Globo, então chefiado por Armando Nogueira, exibiu no jornal das 13 horas de primeiro de maio uma sequência filmada mostrando a existência de outra bomba no chão, ao lado do automóvel dirigido por Wilson Machado, portanto além da que explodiu ferindo-o gravemente e matando o sargento Rosário.

    A imagem contrariava a versão do I Exército de que Machado e Rosário estavam realizando uma investigação e haviam encontrado uma bomba prestes a explodir. O que aconteceu? No Jornal Nacional, que começava as 20horas,essa segunda bomba foi retirada do material exibido. Ordens superiores explicou Armando Nogueira, quando deixou a Globo e foi entrevistado pela Isto É. Aquela segunda bomba intacta, parece até que havia uma terceira, seria a prova inicial, porém definitiva, para incriminar o capitão, o sargento, os mandantes, os planejadores do atentado que causaria tanto a explosão quanto a escuridão e o pânico no Riocentro. Mas os fatos ressurgiram com a Comissão da verdade, com o Ministério Público Federal, com a juiza Ana Paula que, ao revelar a face dos criminosos, iluminou o passado distante, mas não esquecido.

     

    Pezão terá aprovado PM fora das favelas durante a Copa?

    Pedro do Coutto

    A pergunta que está no título se impõe diante da reportagem de Marco Antônio Martins, Folha de São Paulo edição de quinta-feira, revelando que o comando da Polícia Militar do Rio de Janeiro agiu nesse sentido para evitar confrontos e clima de insegurança nessas áreas nas quais residem cerca de 2 milhões de pessoas. Se confirmada pela luz dos fatos, a decisão é de um absurdo total, traduzindo-se numa omissão para passar aos turistas uma falsa atmosfera na cidade. Que dizem o governador
    Fernando Pezão e o secretário de Segurança, José Mariano Beltrame?
    Para Paulo Storani, especialista em segurança pública, ouvido por Marco Antônio Martins, o projeto de solução mostra que a PM não possui efetivo suficiente para atuar, ao mesmo tempo, nas ruas do Rio e nos morros cariocas. Mas oferecer o que o repórter chama de trégua significa despir um santo para vestir outro. Nada acrescenta. Pelo contrário, expõe à criminalidade justamente os pontos mais críticos que ameaçam a população. Esquece e enfraquece os níveis de alguma segurança no entorno das favelas e nos bairros mais próximos delas.
    Suspender as atuais operações, inclusive nas UPPS, até o final da Copa do Mundo: falso paliativo para encobrir a realidade, facilitando o comércio de drogas. Talvez para oferecer um atrativo a certo tipo de turista. Oficiais da PM ouvidos pela FSP afirmaram que, com o que chamam de trégua, não haja policiais baleados nos morros durante a disputa da Taça. Quer dizer: a esperança é que não sejam atacados ao longo da Copa do Mundo. A partir de 13 de julho, tudo voltará ao lugar depois que a banda passar, como no verso de Chico Buarque.
    PERDA DE VOTOS
    Não é possível que o governo estadual concorde em oferecer uma perspectiva dessas à população. Sobretudo porque Pezão é candidato ao Palácio Guanabara e tal caminho só lhe conduzirá à perda de votos, ele que já revela possuir tão poucos na última pesquisa publicada pelo IBOPE. Tudo leva a crer que, reafirmada a versão estilo Mágico de Oz, será um desastre em matéria de segurança, promovendo, isso sim, o aumento da insegurança. Uma vez que a PM esquece que os assaltantes e criminosos, de modo geral, depois de praticarem seus impulsos imundos, correm exatamente para esconderijos que possuem ou mantêm em favelas. Na busca de refúgio não vão encontrar a PM para barrar-lhes o caminho. Tal ausência será extremamente propícia para suas ações.
    As favelas poderão deixar, por um mês apenas, de ser palco de confrontos, mas se tornarão cenário adequado para fugas na rota da impunidade. Parece incrível. Será possível um desatino desses?  Pezão deve responder à pergunta.

    O pecúlio dos aposentados do INSS e o marketing eleitoral

    Pedro do Coutto

    Escrevo este artigo no momento em que diversos jornalistas, como Maria Lima, em O Globo, e Fernando Rodrigues, na Folha de São Paulo, edições de 14 de maio, publicaram ótimas matérias analisando as primeiras mensagens publicitárias produzidas pelo marqueteiro João Santana e divulgadas pelo PT no espaço eleitoral da televisão. Maria Lima e Fernando estão certos: os filmetes são bastante ruins, apelando para o medo de um retorno ao passado, ao invés de procurar injetar otimismo em relação ao futuro. A comunicação, a meu ver, para gerar efeitos eleitorais, tem que ser construtiva e otimista.

    Política, aliás, é muito mais conteúdo do que forma. Para os marqueteiros, predomina a forma sobre o conteúdo. O adjetivo é colocado para substituir o substantivo. O marketing virou fator decisivo nos embates voltados para as urnas. Pode até ser, mas o êxito depende da colocação de fatos e problemas concretos. Não devem as peças se restringir à fantasia, pois esta, por si só, não ganha jogo, como na linguagem do futebol, que o ex-presidente Lula tanto aprecia.

    No universo do jornalismo também não, universo no qual me encontro, graças a Deus, há cerca de 60 anos, desde o tempo do antigo Correio da Manhã, grande jornal, hoje apenas um título na névoa do passado.

    PROBLEMAS CONCRETOS

    As questões efetivamente importantes têm que ir ao encontro de problemas concretos acompanhadas de propostas legítimas de solução. Dou exemplo e, a título de sugestão, ofereço um tema à presidente Dilma Rousseff e ao senador Aécio Neves, para mim os únicos candidatos com possibilidade de vitória nas eleições presidenciais deste ano. O tema pode ser transformado em ideia de marketing, mas sem perder a força de que se reveste, podendo se tornar decisivo no desfecho das urnas.

    Estou me referindo à questão da conta pecúlio dos aposentados que permanecem trabalhando. São, acredito, cerca de mais de 5 milhões no país. Até o governo Itamar Franco, os aposentados do INSS que permaneciam em atividade, sofrendo portanto o respectivo desconto para o INSS, tinham o valor desse desconto transformado numa conta parecida com o sistema do FGTS, com a diferença que sobre ela incidia a correção monetária, mas não os juros adicionais existentes no Fundo de Garantia.

    Itamar Franco achou um absurdo os aposentados contribuírem para a Previdência Social e extinguiu o desconto. Foi assessorado de forma incompleta, uma vez que não liberou os recursos financeiros existentes na conta de cada um. O INSS, claro, esqueceu o assunto. Quando assumiu a presidência da República, em 99, Fernando Henrique fez pior: restabeleceu o desconto, mas não o crédito para a conta pecúlio. Foi um desastre. FHC criou a figura ilegítima da contribuição sem retribuição. Antes, o saldo da conta era sacado pelo titular se decidisse parar de trabalhar ou transferido para sua viúva ou herdeiros no caso de falecimento. Era a solução absolutamente justa. Um direito adquirido.

    Agora, em plena campanha eleitoral surge o momento de se colocar o problema em pauta para que se corrija a gigantesca injustiça. Para completar a informação que neste momento transmito, comprometo-me, nos próximos dias, a citar especificamente as leis em que me baseio formando a sequência do absurdo e do assalto cometidos. Nada melhor que eleições para que se corrijam distorções sociais como a que me refiro.

    Lula é o grande eleitor de Dilma, mas comete atos falhos

    Pedro do Coutto

    O ex-presidente Lula é, sem dúvida, como revelou a recente pesquisa do Datafolha, o grande eleitor da presidente Dilma Rousseff na campanha pela reeleição. Mas comete atos falhos nos pronunciamentos que faz, como assinalam a reportagem de Biagio Talento, no Globo e de João Pedro Pitombo, Folha de São Paulo, edições de 13 de maio. As duas matérias referem-se a declarações feitas em atos públicos na Bahia.

    No primeiro caso, criticou os que criticam, hoje, a compra da refinaria de Pasadena, no Texas, em 2006, pela Petrobrás. O assunto é objeto de investigações, inclusive por CPI do Congresso Nacional além de internas na estatal, abertas pela presidente da empresa, Graça Foster. Porém a contradição não é só essa. É que entre os que criticaram a operação que causou um prejuízo superior a 1 bilhão de dólares situa-se exatamente a presidente da República, Dilma Rousseff.

    Assim, logicamente, ao criticar os críticos, Lula revelou desaprovar a atitude assumida por sua candidata nas urnas de outubro. Pois foi Dilma quem afirmou que, tivesse lido todas as cláusulas do sinistro, não o teria assinado na ocasião. Além disso, por não ter sido explicitamente informada, demitiu o ex-diretor Nestor Cerveró, responsável pela apresentação da matéria ao Conselho que na época Dilma presidia.

    Lula usou argumentos aos quais costuma recorrer o ex-presidente da Petrobrás, Sérgio Gabrieli, atual Secretário de Finanças na Bahia, governo Jacques Wagner do PT. Um bom negócio em determinado momento pode se transformar em mau negócio em outro instante e voltar a ser bom amanhã. Não foi esta a afirmação de Dilma Rousseff. Assim, o episódio tornou-se um ato falho do grande eleitor.

    QUE PRECONCEITO?

    Vamos ao segundo caso. Ao lado de Jacques Wagner e Sérgio Gabrieli, Lula inaugurou a Universidade de Integração Racial na cidade de São Francisco do Conde.

    Na ocasião (matéria de João Pedro Pitombo, Folha de São Paulo) reafirmou que não será candidato e que a candidata do Partido dos Trabalhadores é Dilma Rousseff, que sofre o preconceito por ser mulher. Mas como sofre preconceito, se é ela que ocupa a Presidência da República e se disputa a reeleição é porque foi eleita pelas urnas em 2010? Não tem a menor lógica tal colocação. Foi o segundo ato falho cometido no intervalo de poucas horas pelo ex-presidente.

    E, por falar em lógica, não possui também lógica alguma a atitude da ala dissidente do PT e do PR em se oporem à candidatura Dilma Rousseff. Vão apoiar quem? Aécio Neves, do PSDB? Não faz sentido. O quadro eleitoral, como tenho escrito, ontem inclusive, concretamente só comporta duas opções: ou Dilma Rousseff ou Aécio? Não existe uma terceira alternativa  viável. Anular o voto ou votar em branco não significa opção efetivamente válida.

    Ao contrário. Como os votos nulos e brancos são retirados do cômputo final, seja no primeiro ou no segundo turno, indireta mas concretamente estará votando no candidato que lidera as intenções de voto. Evidente. Se os que pretendem esterilizar o sufrágio pensarem um pouco, sem impulso ou paixão, vão verificar que tal atitude não representa coisa alguma. Ao contrário.Facilita o jogo político contra o qual desejam protestar e rejeitar.

    Estarão, isso sim, consagrando as regras do jogo que dizem detestar e contribuindo para eternizar o sistema contra o qual se insurgem e desejam substituí-lo por uma utopia que, como toda utopia, colide com a realidade. Aproveito para repetir uma frase definitiva do grande pensador Alceu Amoroso Lima: “o candidato ideal não existe.”

     

    As pesquisas eleitorais e as ações da Bovespa

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    Pedro do Coutto

    Na edição da Folha de São Paulo de 12 de maio, Daniele Brant e Anderson Figo publicaram ampla matéria de análise colocando em questão o fato das ações de empresas estatais como Petrobras, Banco do Brasil e Eletrobrás terem registrado altas na Bovespa a partir do momento em que a presidente Dilma Rousseff, diante das pesquisas do Datafolha e do IBOPE, teve reduzida sua vantagem sobre Aécio Neves e Eduardo Campos nas intenções de voto para a sucessão presidencial de outubro.

    A matéria está muito bem escrita, mas francamente não vejo relação direta alguma entre uma coisa e outra. O fenômeno deve ter outra explicação, muito mais no campo da especulação financeira do que no plano político. É só observar os números. O Datafolha, inclusive, acentuou na sexta-feira passada haver dúvida quanto à realização de um segundo turno. E, se houver, será entre Dilma e Aécio Neves. Afinal de contas, Rousseff mantém 37 pontos contra 20 de Neves e apenas 11% de Eduardo Campos.

    Eduardo Campos, como se constata, possui em torno de si menos de um terço das tendências em favor da atual presidente da República e praticamente a metade do que o levantamento apontou para Aécio. Não tem a menor chance, em minha opinião. E na observação da totalidade do eleitorado Dilma estará no segundo turno. Logo, somente Aécio Neves tem chance de enfrentá-la, não apenas no início de outubro, mas nas urnas do último domingo daquele mês conforme estabelece a lei eleitoral.

    FAVORITISMO

    Além disso, todas as simulações envolvendo a hipótese de um segundo turno assinalam o favoritismo da atual chefe do Executivo. Não estou afirmando que ela já se encontra reeleita, apenas sustento não existirem motivos lógicos que conduzam ao raciocínio de que as ações das estatais subiram porque ela desceu. Para tal era preciso que Aécio Neves apresentasse uma condição de vitória mais concreta. No momento, inclusive, como a própria Folha publicou, ele tenta firmar uma aliança com José Serra para fazer do ex-governador de São Paulo o candidato a vice em sua chapa. Além disso, quais as mudanças na política econômico-financeira, com antecedência de quase um ano, que poderia destacar uma tendência à revalorização do patrimônio das empresas estatais? Tendência a se refletir, é importante lembrar, na valorização dos papeis no mercado mobiliário produzindo não só seu aumento, mas também incentivando sua liquidez.

    Se não se sabe sequer se haverá segundo turno e se Aécio seria capaz de vencê-lo, o que não é provável, muito menos pode-se ter, desde já, os nomes dos futuros ministros da Fazenda e presidente do Banco Central. Assim, a mim parece que a evolução das ações da Petrobras, apesar da crise que a envolve, do Banco do Brasil e da Eletrobrás são uma decorrência de lances especulativo, como é natural nas Bolsas de Valores, e não em consequência de tendências eleitorais ainda não absolutamente claras apontando para uma mudança na estrutura do poder. Entretanto, tal mudança poderá ocorrer. É importante acentuar que, se reeleita, Dilma Rousseff passará a depender muito menos da influência de Lula do que depende hoje na estrada das urnas. Sem lógica, na vida, não se vai a lugar algum.

    JK definia a política como esperança: é o que está faltando ao Brasil

    Pedro do Coutto

    O ex-presidente Juscelino Kubitshek me disse numa entrevista publicada no Correio da Manhã em 1963, a respeito da sucessão marcada para 1965, mas que foi banida do mapa democrático pela ditadura militar que começou em 64, que, sob a ótica do eleitor, a política principalmente representava esperança, palavra abrangente em sua essência. Juscelino havia sido eleito em 1955 com 33% dos votos, seguido por Juarez Távora (27), Ademar de Barros (20) e Plínio Salgado (10). Outros dez por cento votaram nulo ou em branco.

    A entrevista e os resultados de quase sessenta anos atrás me vieram à lembrança ao ler a matéria que a Folha de São Paulo publicou na edição de domingo, destacando que em relação às urnas de outubro deste ano o índice de desinteresse (hoje) nunca foi tão alto: 16%  pretendem anular ou votar branco, enquanto a parcela de 8% não sabe ainda como vai agir. Há, portanto, uma insatisfação com a política, a qual, na realidade, substitui a esperança pela desesperança.

    Isso é péssimo para o país, mas os políticos e os administradores são os verdadeiros culpados. Corrupção em alta escala, promessas descumpridas, obras que começam em não acabam, eternizando os problemas que se destinavam a resolver. Os eleitores encontram-se exaustos de tantas decepções. Generalizam-se através de todos os partidos. Que, por sua vez, perderam a confiança dos eleitores.

    DESESPERANÇA

    De fato sentem que o Brasil seria outro fossem outros os comportamentos das elites governantes. Basta citar a influência exercida pelo doleiro Alberto Yousseff. Uma vergonha para o país, criando uma decepção coletiva. Com raras exceções, não há o desejo de construir, de acrescentar e melhorar as condições de vida. Prevalecem os interesses setoriais, para dizer o mínimo. Política devia continuar sendo motivo de esperança.

    Deixou de ser, pelo menos até agora, em termos das eleições deste ano. Tanto é assim que Ricardo Mendonça, em reportagem sobre o Datafolha, focalizou um aspecto importante, termômetro da distância e do desinteresse: não fosse obrigatório o voto, 57% dos eleitores não compareceriam às urnas. Compareceriam 42%. Um por cento  disseram não saber como agiriam. Colocada a pergunta se o voto deve continuar obrigatório, 61% disseram que não.

    Um ângulo interessante que vale a pena destacar. Se o voto passasse a ser facultativo, 43% dos 37% que pretendem votar em Dilma não sairiam de casa a 5 de outubro. Mas entre os 20% que se manifestaram em favor de Aécio Neves, a fração de 58% não iria votar. Portanto, fosse facultativo o direito de votar, o prejuízo maior recairia sobre o senador mineiro. Sabem por quê?  Porque a abstenção atingiria mais intensamente as classes de renda mais alta, como também assinala o Datafolha. Restrinjo a comparação a Dilma e Aécio pelo fato de achar, como já escrevi,que se houver segundo turno a disputa será entra a atual presidente e o candidato do PSDB. Eduardo Campos, para mim, não ultrapassará Aécio, que precisa dele para tornar possível o segundo turno. É a sua esperança.

    Dilma tem que partir em busca do tempo perdido

    Pedro do Coutto

    Dando na verdade sequência a meu artigo sobre a pesquisa do Datafolha e agora também com base na reportagem de Adriana Mendes e Demétrio Weber, O Globo, edição de sábado, acentuo que, para a reeleição, Dilma Rousseff tem que deixar a defensiva e partir em busca do tempo perdido. Adriana Mendes e Demétrio ouviram diversos cientistas políticos e chegaram à conclusão de que, nas urnas de outubro, haverá segundo turno entre a atual chefe do Executivo e Aécio neves. Concordo, como escrevi na véspera.
    E recorro ao título do grande romance de Marcel Proust, considerado um dos maiores da literatura universal, para sintetizar o desafio que Dilma terá de enfrentar no desencadeamento da campanha eleitoral. Mas antes, só de passagem, desejo assinalar que há cerca de alguns anos, uma pesquisa realizada em vários países apontou Ulisses, de James Joyce, e em Busca do Tempo Perdido, de Proust, as maiores obras literárias produzidas até hoje, Joyce em primeiro, Proust em segundo. Carlos Heitor Cony votou em Proust.
    Voltando à política brasileira, claro, como disseram os cientistas políticos, que a exposição dos candidatos na televisão é decisiva. Mas não apenas ela. Pois, neste caso, a vitória de Dilma Rousseff já estaria assegurada. Ela possui mais tempo nos horários de propaganda eleitoral e, como presidente da República, muito mais oportunidades de aparecer. Além da caneta mágica do poder. Mas tal raciocínio seria simplista.
    A vantagem que os jornalistas levam sobre os professores de Comunicação é o conhecimento prático e concreto da informação. Portanto, da ocupação do tempo disponível. Se Dilma houvesse ocupado esse tempo apresentando fatos concretos a seu favor, ou favoráveis (concretamente) à sua administração, os números do Datafolha publicados na edição de 9 de maio, seriam outros. Sem dúvida. Portanto o reflexo na escalada pela conquista das intenções de voto seria outro.
    FORMA E CONTEÚDO
    Não vale só a forma. O conteúdo é mais importante. O conteúdo envolvendo a presidente da República tem sido negativo. A presença de falsos amigos, de falsos aliados, à volta das esferas de decisão, especialmente na Petrobrás, tem sido uma catástrofe. A influência do doleiro Alberto Yousseff, um desastre. As demissões determinadas por Dilma comprovam. E ressaltam o tempo perdido com os atos praticados pelos que abusaram de sua confiança. O ex-diretor da Petrobrás, Paulo Roberto Costa, teve sua prisão decretada pela Justiça Federal. Fundos de Previdência Complementar de estatais aplicaram recursos na compra de debêntures da Universidade Gama Filho.
    Apesar de todos esses fatos, Dilma mantém a liderança e surge vitoriosa nas simulações do Datafolha para o segundo turno. Mas para confirmar a previsão (algo difícil em política) tem que deixar a defensiva e sair do corner em que se encontra conduzida a tal situação por um bando de desonestos que, à sua revelia, encontraram um panorama fácil de atuação perniciosa, atingindo negativamente o governo e sobretudo o país, a população e, consequentemente, os eleitores. O roubo deixa, em sua teia, rombos tremendos. É algo sinistro e repugnante.
    Concluo como comecei: Dilma Rousseff tem que partir em busca do tempo perdido, pois quanto mais negócios suspeitos houver, maior quantidade de votos perderá. Acho, com base nas projeções do Datafolha, que será reeleita. Porém, não fossem os ladrões, venceria mais facilmente. O futuro, entretanto, depende do desempenho dela e de Aécio. Os cientistas políticos esquecem sempre a dinâmica dos acontecimentos em suas interpretações. Teoria é uma coisa. Prática é outra.

    Datafolha define quadro: luta é pelo segundo lugar

    Pedro do Coutto

    Analisando-se  lógica e friamente a pesquisa do Datafolha sobre as urnas de outubro, objeto de excelente reportagem de Fernando Rodrigues, Folha de São Paulo de 9 de maio, verifica-se que a efetiva luta eleitoral é travada pela conquista do segundo lugar, já que os números passaram a conduzir à perspectiva de que haverá segundo turno. O Datafolha iluminou e definiu o panorama político.

    Em matéria de pesquisa, aliás como na própria vida, não basta ver os fatos, mas principalmente ver nos fatos. Comparando-se os índices desta semana com os de abril, observa-se que Dilma desceu de 38 para 37, mantendo entretanto uma ampla diferença sobre os dois principais rivais. Aécio Neves avançou de 16 para 20 pontos, salto expressivo, tendência para cima. Eduardo Campos evoluiu pouco: passou de 10 para 11% das intenções de voto. É grande a distância de Aécio sobre Campos. Razão pela qual, provavelmente, a vice na chapa do ex-governador de Pernambuco, que soube dos números antes deles serem publicados, partiu para o ataque contra o senador mineiro.

    POR REGIÕES

    Quando sustento que a luta é pela segunda colocação no primeiro turno é porque não só o Datafolha, mas também os levantamentos do IBOPE e do MDA apontam uma posição consolidada de Dilma Rousseff no primeiro lugar. Não há discussão quanto a isso. A dúvida predominante divide-se em duas escalas: primeiro se haverá segundo turno. As perspectivas estão indicando que sim, se o pastor Everaldo, do PSC, alcançar 3 pontos e todos os demais candidatos somarem mais 4 degraus. Aspecto importante a ser confirmado ou não daqui a cinco meses.

    Mas não somente isso. No Sudeste, onde se encontra a parcela de 50% dos votantes (São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro), o Datafolha assinala 30 pontos para Dilma contra 27 para Aécio. Na região, Eduardo Campos registra apenas 7 pontos. No NordEste, Dilma dispara com 52, superando Campos (que tem 16) e Neves (apenas 12%). Portanto, à luz dos índices, a lógica indica que o segundo lugar vai ser decidido no Sudeste. E nesta região, a vantagem de Aécio sobre Eduardo Campos é de 20 degraus. Toda análise que faço, vale sempre lembrar, é feita sobre os números de hoje. Como no futebol, ninguém pode prever o futuro. Mesmo quando ele está próximo. Porque se por um gol se vence, claro, por um gol se perde.

    Há meses, início do ano, ninguém computava, por exemplo, 3% para o pastor Everaldo. Hoje se considera. E não é só Everaldo. Há Eduardo Jorge, Denise Abreu, Randolfo Rodrigues, Eymael, Levy Fidélis, Mauro Issi. Todos estes podem ter menos de 1 ponto dos sufrágios. Mas nenhum terá zero votos. A presença deles na lista de candidatos é pequena, como se constata. Mas pode produzir o efeito mais importante: conduzir a disputa entre Dilma Rousseff e Aécio Neves – a meu ver – para o segundo turno. A vida é assim. Eleição tem dessas surpresas.

    O Datafolha faz duas possíveis simulações: hoje Dilma venceria Aécio por 47 a 36. E derrotaria Eduardo Campos por 49 a 32%. Fica claro, dessa forma, que Campos chegando em terceiro transfere mais votos para Aécio do que Aécio, no caso oposto, passaria para o ex-governador de Pernambuco. Seja qual for o quadro final, a posição de Dilma parece firme na conquista da reeleição. A disputa, entretanto, vai exigir que ela saia da defensiva em que se encontra.

    Saia da Petrobrás e vá para a estrada. Deixe o planalto e ressurja na planície. Quanto aos índices de rejeição – faltava focalizar, quase esqueço – aproximam-se: 35 para Dilma, 33 para Eduardo Campos, 31 para Aécio Neves. O segundo lugar, repito traçará o rumo na alvorada das urnas para a Alvorada do poder.

    Marina atinge Aécio e, com isso, ajuda Dilma

    Pedro do Coutto

    Numa entrevista a Bernardo Mello Franco, Folha de São Paulo, edição de 8 de maio, inclusive manchete principal do jornal, a ex-senadora Marina Silva atacou diretamente a candidatura Aécio Neves, sustentando que se ele for ao segundo turno será uma derrota certa para o PSDB e, portanto, pata as oposições. Logo, Marina Silva previu que em tal opção Dilma será reeleita.Tanto assim que sustentou em sequência que Eduardo Campos, em cuja chapa ela figura como candidata a vice, é o único capaz de vencer a atual presidente da República nas urnas de outubro.

    Mas também criticou (indiretamente) o próprio Campos, ao sustentar que não possuem cabimento as comparações entre o senador por Minas Gerais e o ex-governador de Pernambuco.Ora, quem colocou tais semelhanças no quadro político foi o próprio candidato de quem ela é a vice. A entrevista, é claro, vai forçar um rompimento entre Aécio e Campos, uma vez que Marina Silva partiu taticamente para abalar a vantagem do primeiro sobre o segundo nas pesquisas eleitorais do Datafolha, Ibope e, por último do Instituto MDA, que realizou o levantamento por encomenda da Confederação Nacional dos Transportes, que tem como presidente o senador Clésio de Andrade (PMDB-MG).

    CONTRADIÇÃO

    A equação proposta por Marina Silva é contraditória. Pois parte, em primeiro lugar, de que haverá segundo turno contra Dilma Rousseff. Assim atribui previamente que a atual presidente será a mais votada a 5 de outubro. Portanto desloca, de fato, que a luta assim será entre Aécio e Eduardo Campos. Mas na medida em que divide as oposições, a ex-ministra do Meio Ambiente do governo Lula inadvertida e indiretamente contribui para fortalecer a atual chefe do Executivo.

    Por quê? Simplesmente porque todos os levantamentos realizados até agora (escrevo este artigo antes da pesquisa do Datafolha) apontam ampla vantagem para Dilma no primeiro posto e para Aécio na segunda colocação. Vamos recordar os números.

    Para o Datafolha,  a escala foi de 38 para Rousseff, 16 para Neves, apenas 10 para Campos. Diferenças percentuais, como se vê, muito grandes. Para o IBOPE, 37 para Dilma, 14 Aécio, somente 6 para Eduardo ampos. Vamos incluir o MDA, para não dizer que não falei de flores: Dilma 37, Aécio praticamente 22, Campos 11 por cento. Relembrados os números, vamos ver o efeito da confirmação da candidatura Dilma na reunião do PT, com a presença de Lula, e também o reflexo das declarações de Marina Silva contra Aécio Neves, publicadas pela Folha de São Paulo no Datafolha que está vindo por aí. A expectativa é grande. Há fatos novos no cenário além da indispensável e inevitável CPI da Petrobrás.

    E no alvorecer de ontem, sexta-feira, sai na manchete da Folha de São Paulo a esperada pesquisa: Dilma 37, Aécio 20, 11 pontos para Eduardo Campos. Comento amanhã.

    Renan omite que Dilma foi quem condenou Pasadena

    Pedro do Coutto

    As reportagens excelentes de Maria Lima, Isabel Braga e Júnia Gama, no Globo, e de Gabriela Guerreiro na Folha de São Paulo, edições de 7 de maio, destacaram a repugnante manobra urdida pelo senador Renan Calheiros para adiar, não a instalação, mas os trabalhos da CPI da Petrobras, tanto os da Comissão criada pelo Senado, quanto os da Comissão Mista, congregando, como o nome indica, senadores e deputados. Jogada pérfida, passadista, anacrônica, colidente sobretudo com a realidade dos fatos.

    Na ânsia de agradar setores do governo,o presidente do Congresso contribuiu para abrir uma dissidência no seu próprio partido, o PMDB, além de se chocar com setores do próprio PT. Renan, em seu lance obscuro, principalmente omite que, de fato, foi a presidente Dilma Rousseff quem se tornou a principal acusadora do episódio da refinaria de Pasadena, quando disse textualmente que, se tivesse lido na íntegra o texto do contrato, não o teria assinado. Além disso, demitiu da direção financeira da BR Distribuidora o próprio Nestor Ceveró, que conduziu a compra da refinaria. Portanto, se não atribuísse culpa a Ceveró, não o teria demitido quando a bomba explodiu. O outro ex-diretor Paulo Roberto Costa já se encontrava fora da Petrobras.

    JOGO DUPLO

    Dentro dessa sequência lógica, Renan Calheiros não está se mostrando politicamente um aliado de Dilma. Pelo contrário. Está fazendo o jogo daqueles que, desejando ocultar o verdadeiro encadeamento do que ocorreu, desejam aproveitar-se da fantasia de companheiros quando são, efetivamente, inimigos da presidente. No plano político, uma espécie extremamente perigosa é a dos falsos correligionários, dos falsos amigos. Pela frente aparentam uma imagem. Pelas costas faturam para si a proximidade com o poder e os poderosos. Aconteceu com Getúlio Vargas por ter confiado demasiadamente em Gregório Fortunato, chefe de sua guarda pessoal.

    A vida não está cheia de Gregórios Fortunatos, mas o poder político está repleto de falsos aliados, falsos amigos, de aproveitadores, que simulam um comportamento solidário, quando na realidade participam de um jogo duplo, à base da encenação. Atitudes falsas e contraditórias, no caso Petrobras, levando a presidente da República a uma suprema contradição. Pois de um lado ela acusa a transação, apontando-a como prejudicial à Petrobrás, e portanto ao País. E de outro utiliza Calheiros para protelar a investigação do que ela própria condenou. Francamente, está na hora da presidente se pronunciar definindo concretamente sua posição quanto aos trabalhos da CPI, tanto fazendo seja ela do Senado ou do Congresso incluindo a Câmara dos Deputados.

    Dilma Rousseff, na realidade, precisa assumir o comando de sua própria articulação política. Que não se esgota nos acordos partidários, mas se estende a toda sua administração. Sobretudo porque, hoje, os temas administrativos e da economia sobrepõem-se às articulações primárias entre as legendas. A atuação do governo, livrando-se dos falsos amigos, é muito mais importante do que o trânsito pelos canais sombrios dos políticos superados no tempo e no espaço.