A reabilitação de Lula é uma alternativa para derrotar Bolsonaro nas eleições de 2022

Charge do Amarildo (agazeta.com.br)

Pedro do Coutto

Analisando-se sob o ângulo político inevitável, as decisões do Supremo Tribunal Federal e a onda da opinião pública revoltada contra Jair Bolsonaro, são os fatores essenciais para que Luiz Inácio Lula da Silva retornasse ao panorama marcante do país hoje e representasse uma forma eficaz de impedir a reeleição do atual presidente da República.

O processo político é dinâmico, ao contrário do que alguns cientistas políticos acreditam ao não levar em conta o caráter mutante de um sistema que abrange tanto a ideia democrática de liberdade, quanto os interesses legítimos tanto das classes produtoras, quanto dos 100 milhões de assalariados que se encontram com os seus vencimentos perdendo para a inflação.

DESASTRE – A ressurreição de Lula significa um posicionamento voltado para impedir a continuidade do desastre que nasceu nas urnas de 2018. Foram episódios que ficarão na história. Desejo que sejam focalizados em toda plenitude pelos historiadores do futuro.

No momento em que Jair Bolsonaro desencadeou precocemente a sua campanha eleitoral, a sociedade brasileira percebeu o risco que o país corria, sobretudo em face da atuação do próprio presidente da República, ameaçando pessoas, ridicularizando a pandemia, promovendo aglomerações, não usando máscara em situações públicas, agredindo pessoas com palavras de baixo calão. Tudo isso criou a necessidade de se ter um candidato capaz de derrotá-lo nas urnas em 2022.

OPONENTE – Percorrendo-se os caminhos políticos, não se encontrou um nome sequer que fosse mais viável eleitoralmente do que Lula da Silva. Na época da comunicação veloz, ficou nítido que o prazo para as eleições seria pouco para uma nova liderança. Apareceu o governador João Doria, mas o seu nome despertou dúvidas quanto às possibilidade de enfrentar o atual chefe do Executivo. Mas Lula tem todas as condições para isso.

Basta ver, conforme já frisei anteriormente, que Lula transferiu a Fernando Haddad, um candidato inexpressivo , 43% dos votos que marcaram o último embate para Presidência da República. Assim, com a decisão do Senado em instaurar a CPI da Saúde e com as decisões da Corte Suprema, as correntes preocupadas com a manutenção da democracia e com a liberdade de expressão, concluíram que o ex-presidente tem condições para evitar a continuidade do desastre que se instalou no Brasil.

COMUNICAÇÃO DO GOVERNO – Reportagens de Jussara Soares e Daniel Gullino, no O Globo, e de Gustavo Uribe, na Folha de São Paulo, nas edições de ontem, destacaram a substituição estabelecida por Bolsonaro na área de Comunicação da Presidência da República.

Bolsonaro afirmou que o país está no limite e aguarda um sinal do povo. Sinal para quê ? Por uma imagem melhor, pode ser. É uma expressão que pode ter sentido duplo, como aquele que marcou a renúncia de Jânio Quadros em 25 de agosto de 1961. A área de Comunicação é disputada, mas a disputa não recai sobre nenhum jornalista profissional. Tem recaído ao longo dos anos, desde o primeiro governo Dilma Rousseff em técnicos em publicidade. A publicidade comercial nao e compativel com a  divulgação política e administrativa

O jornalismo é um teorema, que tem que ser comprovado na prática. A publicidade é um axioma, figura matemática que dispensa comprovações. As empresas estatais de uns tempos para cá, a exemplo de Furnas, não escalam jornalistas para o setor . Limitam-se a nomear pessoas que nada tem a ver com o jornalismo. Sei que agências de Comunicação e Relações Públicas estão por trás deste fenômeno. Claro, inclusive porque os contratos com empresas desse tipo rendem comissões.

ANÁLISE DOS FATOS –  Em matéria de salário não pode haver comissão. Trabalhei 15 anos em Furnas e posso citar o equívoco. Matéria de Comunicação só é eficiente através do jornalismo. Isso porque o jornalista tem sensibilidade para análise dos fatos que serão notícias e sabem dar o tratamento adequado aos conteúdos enviados aos veículos.

O jornalismo é composto também pela importância dos textos elaborados. No governo Bolsonaro não há texto positivo, pois não se conhece do Planalto um projeto sequer construtivo que se destine aos direitos coletivos da população. Não há obras, não se fala em rodovias, ferrovias. Em termos de petróleo, só se fala em aumentos de preços.

ALUGUÉIS DISPARAM – O Estado de São Paulo de quarta-feira coloca em destaque com bastante propriedade a crise social criada pelo reajuste dos aluguéis com base no IGPM da FGV. A matéria abrange tanto os aluguéis residenciais, quanto comerciais. Com o IGPM torna-se impossível os inquilinos pagarem os aluguéis. O IGPM de janeiro de 2020 a janeiro de 2021 acusa um reajuste de 21% e recai sobre as locações, mas o IPCA do IBGE aponta uma inflação de 5,4% no mesmo período.

Logo, com os salários congelados, os atuais inquilinos não conseguem pagar o aluguel, pois este pesa bastante na despesa da população.  A tese de congelar salários e elevar os preços é própria do ministro Paulo Guedes. Não tem cabimento e se tornou impossível.

CONFERÊNCIA DO CLIMA –  No O Globo de ontem, Renato Grandelle assinala que a reunião do clima convocada por Joe Biden começa no dia 22 de abril, encontro no qual Bolsonaro não deve se esquivar. No atual governo, o desmatamento e as queimadas apresentaram um grau de devastação maior do que aquele que existia antes de Bolsonaro assumir e Ricardo Salles ser nomeado para o Ministério do Meio Ambiente.

Na Folha de quinta-feira, Patrícia Campos Mello focaliza a posição do governo americano em relação ao setor, acentuando que a Cúpula dos Líderes, empenhada em conter o aquecimento global, está aguardando – afirmação da jornalista – seriedade por parte do presidente Bolsonaro e do governo brasileiro sobre a questão que aflige o universo.

Bolsonaro, a meu ver, ingressou em seu período final tendo pela frente uma montanha de gelo que necessita remover para cumprir a missão de governo, a qual não vem dando importância.

Governo desmorona e se aproxima do fim: Bolsonaro derrubou a si mesmo

Charge do Duke (domtotal.com)

Pedro do Coutto

Com a decisão do Supremo Tribunal Federal e o imediato cumprimento por parte do senador Rodrigo Pacheco instalando a CPI da Saúde, que tanto o governo se esforçou para bloquear, o quase ex-presidente Jair Bolsonaro, vitorioso nas urnas de 2018, se aproxima do fim, não podendo culpar ninguém, uma vez que foi ele próprio que criou a situação de calamidade que hoje envolve o País.

Poucas vezes, talvez nenhuma, através da história, pode-se contemplar o acúmulo de erros em todas as direções desde o seu início até o final que a meu ver será revelado em poucas semanas, talvez até em poucos dias. Foi um desastre total o combate ao coronavírus, posições em colisão com a Ciência no que diz respeito à vacinação, o propósito de atribuir à cloroquina eficácia onde não existia, e a interpretação equivocada levando à demissão de Henrique Mandetta, uma outra iniciativa tão incrível como a revelada pela passagem do general Eduardo Pazuello na Saúde.

DECRETO DAS ARMAS – Os erros e absurdos não param aí. Há o Decreto das Armas que só prejuízos podem causar à população somada ainda à questão do meio ambiente, nomeando o ministro que é contrário à preservação das florestas e se apresentou como adversário no combate ao desmatamento e às queimadas na região amazônica.

O resultado da soma de tais fatores negativos não podia deixar de ocorrer quando a administração Bolsonaro ingressará no terceiro ano de seu mandato. Além disso, há a gravação da conversa entre o presidente da República e o senador Jorge Kajuru. Deve-se frisar também como algo que sintetiza a falta de nível para o cargo, a ameaça de Bolsonaro ao senador Randolfe Rodrigues focalizando a hipótese de uma luta corporal.

CONVERSA COM KAJURU – O artigo do jornalista Ruy Castro na Folha de São Paulo desta quarta-feira ilumina com intensidade o lado sombrio de um período de governo que todos começaram a  esquecer. O professor Hélio Schwartsman, também na Folha de São Paulo, escreve sobre o episódio da gravação, com a conversa entre Kajuru e Bolsonaro. O presidente em alguns momentos do diálogo incentiva a troca de opiniões.

Em outros momentos, queixa-se da gravação e daquilo que disse. Schwartsman analisa a questão sob diversos aspectos: ético, moral e também sob a lente da obrigação legal caso a conversação incluísse uma proposta de suborno a uma autoridade pública.

Schwartsman usa a lógica de sempre. Mas acrescento um outro aspecto relativo à gravações: a possibilidade de um interlocutor fazer perguntas de surpresa ao outro na busca de uma resposta que seja desfavorável a ele e favorável a quem grava.

ORÇAMENTO – O Globo de ontem também publica uma extensa matéria de Geraldo Doca destacando mais um conflito do governo desta vez com a sua base parlamentar. Trata-se do Orçamento para 2021. O deputado Arthur Lira, presidente da Câmara Federal, rejeitou a proposta do governo formalizada pela equipe do ministro Paulo Guedes de cortar gastos previstos no projeto da Lei de Orçamento que se destinam ao cumprimento de emendas dos parlamentares indicando obras públicas a serem realizadas no decorrer do atual exercício. Foi mais um ponto negativo para o Planalto.

O Planalto perdeu para Rodrigo Pacheco, para o Supremo e perde agora para Arthur Lira. O presidente da Câmara quer que se cumpra o que está na lei em face de as emendas serem impositivas, ao contrário de antigamente em que eram autorizativas.

Em todas as contradições do Executivo deve-se registrar o fracasso total do ministro Paulo Guedes. Ele previa uma economia anual de R$ 100 bilhões, profetizando que no final da década o processo atingiria um R$ 1 trilhão. Foi um sonho de uma noite mal dormida de verão.

DESMATAMENTO –  Ricardo Della Coletta, Folha de São Paulo de ontem, revela que o novo chanceler Carlos França recebeu mensagem de embaixadores estrangeiros, incluindo Estados Unidos, Alemanha, Reino Unido, Noruega e União Europeia, no sentido de que nosso país revele nitidamente o que está acontecendo e as controvérsias e problemas que vem sendo focalizados intensamente pelos nossos jornais e emissoras de televisão.

Os governos desses países preocupados com o aquecimento global, expõem a disposição do conjunto das nações citadas informando que o nosso país só obterá apoio financeiro dos países ricos se apresentar projetos concretos de seu empenho no combate ao desmatamento e às queimadas que esterilizam amplas regiões brasileiras.

O desmatamento, que o ministro Ricardo Salles tenta negar, nunca foi tão alto nos últimos dois anos como tem acontecido. Não adianta negar, os satélites esclarecem tudo.

UMA PÁGINA NA HISTÓRIA –  Com base no artigo de Ruy Castro, acentuo que, de fato, o governo Bolsonaro vai começar logo a ser esquecido pelo povo brasileiro. Não é para menos, os salários estão congelados, estão perdendo para a inflação do IBGE e refletindo na queda do poder de compra.

Assim, coloca-se um marcador de página em um momento em que se encerra mais um capítulo do desgoverno e da história do Brasil.

Ao ameaçar ‘dar porrada’ no senador Randolfe, o presidente se mostrou despreparado e desequilibrado

Disposição de Bolsonaro é incompatível com o cargo que ocupa

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro revelou encontrar-se completamente descontrolado, pois tornou público, na gravação divulgada pelo senador Jorge Kajuru, estar disposto a uma luta física com o senador Randolfe Rodrigues, autor do requerimento de criação da CPI da Covid-19 para investigar a atuação do Ministério da Saúde no combate à pandemia.

O presidente da República em sã consciência não poderia desafiar ninguém para uma briga de rua, sobretudo porque tal disposição é incompatível com o cargo que ele ocupa. Bolsonaro revelou também estar fora da razão lógica quando investe contra o Supremo e pediu a Kajuru que consiga abrir um processo de impeachment contra o ministro Luís Roberto Barroso.

PLACAR – O ataque de Bolsonaro a Barroso só pode levar o Supremo a acompanhar integralmente a liminar que determinou a instalação da CPI no Senado. Dos 11 ministros, a meu ver, o placar da votação marcada para hoje deverá ser de 10 votos a um em favor do despacho de Barroso.

Isso porque, provavelmente, o ministro Nunes Marques votará em contrário, em face de seu relacionamento com o Planalto. Entretanto, se votar assim, Nunes Marques terá criado para si um ambiente difícil na Corte Suprema do país. Mas essa é outra questão.

CANDIDATURA – Pessoalmente, tenho dúvida se Bolsonaro será até candidato, pois dificilmente, no grau de exacerbação em que se encontra e em consequência dos erros que comete em série, ele poderá completar o seu mandato.  Nenhuma atmosfera de tensão permanente deve se prolongar ao longo de 20 meses. Uma ruptura ocorrerá muito antes deste prazo se esgotar.

A confusão que se criou em torno do Orçamento e das emendas dos senadores e deputados está ganhando cada vez mais corpo, dificultando uma solução sobre o problema.

GUEDES ESTÁ PERDIDO – O ministro Paulo Guedes, parece perdido no meio da onda. Preocupado com a questão do teto das verbas, está tentando conseguir, sem sucesso, uma saída para um problema insolúvel. Os deputados e senadores não abrirão mão de suas emendas, está claro. O teto da Lei de Orçamento é apenas uma visão teórica das finanças do país.  

Não adianta utilizar cálculos matemáticos para recursos financeiros que não existem. Com teto ou sem teto, o fato é que a balburdia se generalizou no Planalto. O próprio Guedes encontra-se às tontas em seu conflito com os presidentes do Senador e da Câmara, Rodrigo Pacheco e Arthur Lira.

RENDA PER CAPITA – Enquanto isso, reportagem de Eduardo Cucolo, Folha de São Paulo, revela que o Brasil caiu sensivelmente em matéria de renda per capita no mundo. No momento, de acordo com o Fundo Monetário Internacional, o nosso país encontra-se na posição 85 de um total de 130 nações.

A renda per capita é o resultado da divisão do PIB (R$ 6,6 trilhões) pelo número de habitantes, cerca de 210 milhões de brasileiros e brasileiras. A renda per capita do Brasil só pode cair, pois a população não para de crescer na base de 1% ao ano, enquanto o PIB, de acordo com o mesmo FMI, recuou 3% no ano passado.  

A renda per capita não representa a questão da distribuição de renda. Esta segunda face é a mais complicada do problema em função do congelamento dos salários e da subida dos preços. Não há nenhuma hipótese de que com os salários congelados, a distribuição de renda avance. E sem salários também, o consumo não pode crescer.

PETROBRAS – Matéria de Bruno Rosa, O Globo de terça-feira, assinala que na reunião de acionistas da Petrobras realizada na última segunda-feira, o indicado de Bolsonaro à Presidência, general Silva e Luna, teve 42% dos votos contrários e 58% dos votos favoráveis. A informação é também de Lauro Jardim em sua coluna no O Globo. Vejam só: a União, principal acionista da Petrobras, claro votou em Silva Luna que substituiu Roberto Castello Branco, no que foi acompanhada pelo BNDES.

O maior acionista privado da estatal, o banqueiro Juca Abdalla não participou do processo de votação, enquanto os representantes do Fundo de Pensão e Aposentadoria Complementar do Banco do Brasil e da Caixa Econômica e da Previ se abstiveram.

O resultado não deixa de ser uma derrota para o governo, uma vez que nunca houve uma abstenção e uma rejeição no que se refere à eleição do presidente da estatal nesse nível de 42%. Também, digo, nunca houve um presidente da República como Jair Bolsonaro.

DERROTA NO SENADO – O senador Rodrigo Pacheco revelou no fim da tarde de ontem sua decisão quanto à CPI requerida pelo senador Randolfe Rodrigues para investigar a atuação do Ministério da Saúde no enfrentamento à pandemia.

Cumpriu exatamente o despacho do ministro Barroso, do STF, e apenas acrescentou que a CPI também poderá apurar eventuais irregularidades em estados e municípios, conforme proposta do senador Eduardo Girão, desde que “limitado às fiscalizações de recursos da União repassados aos demais entes federados para combate da pandemia”.

 Assim, Rodrigo Pacheco rejeitou a possibilidade de a CPI ouvir governadores e prefeitos, como desejava o presidente Jair Bolsonaro. O desfecho deverá ser mantido na tarde de hoje pelo Pleno do STF. Bolsonaro está acumulando derrotas em série e perdendo a própria capacidade política de seu governo.

Com ataque ao STF, CPI e passeatas pedindo por ditadura, o governo desaba e só um milagre salva Bolsonaro

Manifestação

Manifestações defendem até a intervenção no Supremo

Pedro do Coutto

Ao receber a ligação do senador Jorge Kajuru neste domingo, o presidente da República, Jair Bolsonaro, pediu que ele estendesse a CPI da Saúde para governadores e prefeitos, uma vez que não quer ser culpado sozinho.

O telefonema foi gravado pelo senador e, na mesma noite, o Fantástico divulgou o fato. A edição de ontem, de O Globo, reportagem de Eliane Oliveira e Bruno Goés, destaca o diálogo. Além de pedir a extensão da CPI, Bolsonaro atacou o STF propondo o impeachment do ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal. Kajuru divulgou o conteúdo do telefonema.

PERPLEXIDADE – O fato foi recebido com perplexidade, sobretudo porque inacreditavelmente, conforme revelou o jornal da GloboNews ontem à tarde, o presidente também ameaçou agredir Randolfe Rodrigues, autor do requerimento de criação da CPI da Covid-19. Jair Bolsonaro, a meu ver, está desorientado.  

É importante destacar que, com o seu conhecimento, passeatas ocorridas neste domingo na Avenida Paulista, na Praia de Copacabana, na Esplanada de Brasília, defenderam a implantação de uma ditadura militar, com ele no comando. Faixas apontavam o comunismo no país e militantes afirmavam estar com Deus e em defesa da liberdade cristã. A ditadura militar seria contra o Congresso e contra a Corte Suprema.

Se a crise já estava com temperatura elevadíssima, agora então subiu ainda mais, atingindo um perigoso limite. A ruptura pode ocorrer ainda esta semana. O presidente da República a cada dia revela mais que não tem condições de governar.  

VAGA NO STF – Thiago Prado, no O Globo, informa que Bolsonaro optou por André Mendonça para a vaga no STF que será aberta em julho com a aposentadoria do ministro Marco Aurélio Mello. Mas a Corte reage e não vê clima para aceitar Mendonça.

Por esse motivo, ministros entraram em contato com Rodrigo Pacheco para que o Senado, se a indicação vier a se confirmar, rejeite o nome do atual advogado-geral da União. O desentendimento entre os Poderes aprofunda-se.

RENDA DAS FAMÍLIAS – O Estado de São Paulo, através de reportagem de Fabrício Castro e Eduardo Rodrigues, destaca que segundo dados do Banco Central, o comprometimento da renda das famílias brasileiras com dívidas alcançou 31,1%, pico da série histórica, e que esse fato está influindo na queda da renda, o que reflete a perda do poder de compra ameaçando assim a economia nacional que vem sendo objeto de afirmações inverídicas do ministro da Economia.

E agora Paulo Guedes ? Não há resposta, pois o poder de consumo só pode baixar e não subir em razão do congelamento dos salários. Todos esses fatos formam uma cadeia que está levando a uma situação insuportável, inclusive no que se refere à corrupção. Paulo Guedes fixou em R$ 16 bilhões a privatização da Eletrobras. Já escrevi sobre isso ontem.

REMÉDIO SEM EFICÁCIA – Mas hoje, lendo Vinicius Sassine, Folha de São Paulo, vejo que o Ministério da Saúde gastou R $125 milhões com a compra de Tamiflu, remédio que não tem eficácia  contra à Covid-19. Além da impropriedade, Sassine aponta que o preço cobrado foi 33% maior que o de mercado.

Sem dúvida, o governo ingressou em um espiral e é quase impossível voltar à tona com o redemoinho que o próprio Bolsonaro criou. Todos se lembram da reunião ministerial de 22 de abril de 2020. Falta pouco para completar um ano.

LEGISLATIVO TOMA INICIATIVA –  Na tarde de ontem, no jornal das 16h, a GloboNews informou que o senador Rodrigo Pacheco e o deputado Arthur Lira, presidentes do Senado e da Câmara, conversaram ao telefone com o secretário-geral ONU, e que pediram a ele a antecipação de entregas de vacinas contra a Covid-19 ao Brasil.

Pacheco disse que reforçou ao secretário-geral o pedido para que o Brasil se torne prioridade na entrega de vacinas. Esta notícia é absolutamente incrível: o Legislativo substituindo o Executivo numa tarefa que cabe ao governo realizar.  

STF e Senado enfrentam Bolsonaro; se tivesse apoio militar, ele já teria tentado um golpe

Charge do Miguel Paiva (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

O presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ministro Luiz Fux, marcou pautar para próxima 4ª feira o julgamento sobre a instalação da ‘CPI da Covid’ para a sessão plenária. A ação impetrada por dois senadores deu margem à decisão do ministro Luís Roberto Barroso de determinar o funcionamento da CPI aprovada por um terço da Casa que propõe investigar a ação do governo no enfrentamento à pandemia, abrangendo inclusive as iniciativas do Ministerio da Saúde.

O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, conforme afirmou em entrevista, pretende ler em plenário, na sessão desta terça-feira, o requerimento de criação da Comissão Parlamentar de Inquérito. O caso tem aspectos que merecem ser analisados.

ASSINATURAS – Até março, o pedido de instalação da CPI tinha 33 assinaturas. Uma delas, porém, já foi desconsiderada; a do senador Major Olímpio que morreu, vítima da Covid-19. Vinte e sete assinaturas são necessárias

Noticiou-se no fim de semana que o governo estava tentando pressionar alguns signatários para que retirassem seus nomes, fazendo com a lista ficasse com menos de um terço da Casa. Com o falecimento do senador Major Olímpio, o Senado passa a funcionar com 80 parlamentares, até pelo menos que o suplente seja empossado. Assim o quórum de um terço sofre alteração e cai para 26 assinaturas. Mas é apenas um detalhe.  

O segundo aspecto é que o ministro Barroso concedeu a liminar com base no total de assinaturas e assim juristas acham que nenhum signatário deveria retirar a sua assinatura agora, pois foi a base original para a decisão. Uma manobra difícil.  No que se refere a atuação do presidente do Senado, ele próprio afirmou que não vai acrescentar uma virgula no documento encaminhado à Mesa Diretora. Pelo contrário, vai dar provimento.

COLISÃO – Portanto, qualquer hipótese de recuo colide com esses obstáculos. No que se refere ao posicionamento de Rodrigo Pacheco, ele demonstra estar empenhado nos trabalhos que a CPI possa desenvolver no sentido de cobrar do governo uma ação mais enérgica no combate à pandemia que apresenta mais de 340 mil óbitos.

Esse e o quadro político de hoje, sendo que a semana promete um desenrolar de fatos mais sensíveis do que a que terminou. É preciso aguardar a posição final do governo diante da realidade fixada pelo STF e pelo presidente do Senado.  

ABALO – No que se refere ao relacionamento do presidente Jair Bolsonaro com a área militar, ao que tudo indica, ele não tem uma posição favorável, abalada aliás com a demissão do general Fernando Azevedo e também em face das renúncias dos comandantes do Exército, da Marinha e Aeronáutica.

Mas o maior atrito foi com o general Edson Pujol cujas opiniões colidem com a do titular do Planalto. Os pronunciamentos são todos a favor da legalidade democrática. A crise não tem saída lógica.  

SEM PROJETO –  Em seu artigo de ontem no O Globo, Miriam Leitão, relaciona uma série de acontecimentos negativos registrados pelo governo Bolsonaro. Ocupam um terço da página da Economia. O governo não apresenta dados favoráveis, e a série de atritos nos quais se envolve trazem consequências desastrosas

Tendo cumprido dois anos de mandato, Bolsonaro não conseguiu estabelecer um projeto de governo, nenhuma modificação substancial e nenhum plano piloto para a Economia.

Onde estão os R$ 100 bilhões que o governo obteria com a Reforma da Previdência Social e que ao longo de dez anos atingiria R$ 1 trilhão? Jamais acreditei em tal afirmação impossível. O resultado aí está. O ministro da Economia não dispõe de recursos a não ser que desloque de um setor federal para outro.

PANDEMIA – Em seu espaço de domingo, no O Globo e na Folha de São Paulo, Elio Gaspari focaliza a questão da existência de privataria por ocasião da pandemia. Ele se refere à privataria abordando o programa de desestatização e privatização de empresas estatais. O caso da privatização é complexo.

A questão não é apenas proporcionar mais eficiência à atuação de cada uma, como é o caso da Petrobras, de Furnas, do Banco do Brasil ou da Eletrobras. Pelo contrário. Envolve também uma questão de preços. Por exemplo, o caso da Eletrobras. O ministro Guedes calcula que a Eletrobras tenha um valor comercial de R$ 16 bilhões.

A meu ver, um preço ridículo porque a Eletrobras reúne Furnas, Chesf, Eletrosul e Eletronorte, e é responsável pela transmissão da energia do país.

COMPARAÇÃO – Dezesseis bilhões de reais só para comparar é o preço ofertado pela Claro, pela Tim e pela Vivo para adquirirem em consorcio a Oi que não teve um desempenho no mesmo porte do que as três empresas que desejam adquiri-la. Não é possível que a Oi valha tanto quanto uma estatal com o ativo da Eletrobras, principalmente pelo caráter essencial de sua produção e serviços. O País pode funcionar sem a OI, claro, mas não sem energia elétrica.

A privatização da Eletrobras por R$ 16 bilhões seria uma operação de grande margem de lucro aos compradores, entre os quais, a chinesa State Grid.

Ricardo Salles defende os madeireiros e diz que pressão dos ecologistas aumenta desmatamento

Ricardo Salles, o Ministro da Destruição Ambiental | Exame

Ricardo Salles imita Bolsonaro e não diz coisa com coisa

Pedro do Coutto

Numa entrevista a Camila Mattoso, Folha de São Paulo, o ministro Ricardo Salles afirmou que a pressão em favor do meio ambiente na Amazônia está sendo indevida e funcionando para aumentar o desmatamento ilegal.

O ministro, adversário do meio ambiente, disse que pela primeira vez na história, um grupo que dá as caras pode ser chamado de organização criminosa. Ricardo Salles  criticou a demora na investigação sobre apreensão recorde de madeiras no Pará e afirma que informações dos empresários são coerentes sobre legalidade

Para Salles, não tem sentido não termos respostas conclusivas depois de mais de 100 dias da madeira ser apreendida. O chefe da PF do Amazonas, Alexandre Saraiva, disse o contrário e afirmou que todo o material apreendido é produto de crime e que as investigadas não são empresas, mas uma organização criminosa.

“DENTRO DA LEI” – Salles respondeu a Alexandre Saraiva, dizendo que é preciso investigar atentamente para não confundir o produto de ações ilegais com ações legais. O ministro se disse surpreso com a atuação de Saraiva. Para o ministro, com base em documentos que lhe foram entregues pelos desmatadores, o abate das árvores foi feito dentro da lei. O superintendente acha o contrário. Salles acrescenta mais um problema com suas palavras, lançando-o no colo da Presidência da República.

A questão do clima e do meio ambiente preocupa a comunidade internacional com grande intensidade, pois à medida que o desmatamento avança, crescem também as preocupações e as tensões.

ABONO –  Em sua coluna de ontem, no O Globo, Ancelmo Gois publica que o professor Marcelo Neri, da FGV Social, afirmou que o impacto do abono de emergência de R$ 250 durante quatro meses contribuirá para reduzir a miséria no país na escala de 10,3%.

Mas ainda assim, frisa Ancelmo Gois, existem 4,5% de paupérrimos. Pessoalmente afirmo, um abono de R$ 250 em quatro meses não pode reduzir a miséria que abrange milhões de brasileiros. A afirmação de Neri não pode sequer levado a sério.

A crise, portanto, com o Congresso, com o STF, com os generais do Alto Comando e com os representantes do meio ambiente mostram que Bolsonaro encontra-se em uma solitária ilha cercada  de problemas muito graves.

Isolamento de Bolsonaro revela fracasso de seu governo e a crise não tem saída

Charge do J. Bosco (oliberal.com)

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro revelou tacitamente o fracasso de seu governo na medida em que tentou impedir o funcionamento da Comissão Parlamentar de Inquérito para investigar a atuação do Ministério da Saúde diante da pandemia da Covid-19.

O ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), expediu uma liminar estabelecendo o funcionamento da CPI, o que levou o presidente da República a uma reação exacerbada.

SOLIDARIEDADE – Os ministros do STF, exceto Nunes Marques, firmaram uma posição de solidariedade a Barroso, deixando o governo desestabilizado diante da opinião pública. Afinal, todos sabem que o governo fracassou no combate ao coronavírus. Basta ver a atuação da Saúde na gestaõa da crise sanitária durante o tempo em que Pazuello esteve à frente da pasta

A irritação de Bolsonaro tornou-se mais ampla, pois ele também investiu contra as manifestações da oposição no Congresso no que se refere a à aprovação de emendas de parlamentares.

ORÇAMENTO DE 2021 – O Congresso, por sua, vez, reportagem de Julia Chaib e Thiago Resende,  Folha de São Paulo deste sábado, acionaram o Tribunal de Contas da União para que o órgão não se posicione contra o Orçamento de 2021, apesar dos valores insuficientes para despesas obrigatórias, como aposentadoria e pensões.

O movimento integra a estratégia da cúpula do Congresso de enfraquecer o discurso do ministro da Economia, Paulo Guedes, que defende um amplo veto a emendas parlamentares. A intenção de Arthur Lira, presidente da Câmara, é preservar as emendas negociadas de última hora e que destinam dinheiro a obras e projetos para bases eleitorais de congressistas.

CRÍTICAS AO IBGE – A confusão tornou-se geral e, além disso, Bolsonaro voltou a criticar a metodologia do IBGE para calcular o índice de desemprego no país, uma vez que o trabalho do Instituto, segundo o presidente da República, apresenta um número exagerado de desempregados.

Bolsonaro citou números errados para defender o seu argumento. Segundo o presidente, o país tinha 14 milhões de desempregados, e agora possui 20 milhões. Ele diz que esse número foi inflado porque a metodologia do IBGE consideraria como empregados os 40 milhões de informais que perderam trabalho na pandemia.

Mas os números estão errados, já que no trimestre encerrado em janeiro, de acordo com dados da Pnad Contínua do IBGE, divulgados no fim de março, o número de desempregados no Brasil é de 14,3 milhões de pessoas. O maior número de desempregados desde o início da série histórica da pesquisa, em 2012.

COMANDOS MILITARES – Os confrontos não cessam por aí. Há também uma tensão forte entre Jair Bolsonaro e os comandos militares que ainda estão reagindo mal à demissão do general Fernando Azevedo e também em face das renúncias dos comandantes do Exército, da Marinha e Aeronáutica.

Bolsonaro substituiu Azevedo pelo general Braga Netto e novos comandantes assumiram os postos nas Forças Militares, mas o maior atrito foi com o general Edson Pujol cujas opiniões colidem com a do titular do Planalto. Pujol não aceita a expressão “meu exército” usada por Bolsonaro em suas declarações, mas o presidente da República ainda insiste em repeti-la.

“VARA DE CONDÃO” – Enquanto isso, o ministro da Saúde Marcelo Queiroga afirmou que está fazendo possível na pasta, mas que não tem “vara de condão” para resolver os problemas da falta de vacinas nos estados e municípios brasileiros, que chegaram a paralisar a imunização contra a covid-19.

Queiroga visitou novamente a Fiocruz, mas apenas para contatos formais. O ministro não estabelece uma ação firme para conter o número de mortes ou tão pouco as contaminações. Uma calamidade

SALÁRIOS E INFLAÇÃO –  Agravando ainda mais o panorama, reportagem de Fernanda Brigatti, Folha de São Paulo, destaca que as negociações de reajustes salariais concluídas em janeiro e fevereiro deste ano indicam que os trabalhadores com data-base no primeiro semestre terão dificuldades para compensar as perdas da inflação nos últimos 12 meses.

Sem a reposição da inflação, o salário encolhe, pois o valor não acompanha a alta de preços importantes para o orçamento das famílias.

O governo perde o controle também da inflação e a crise se agrava, pois não há rumo preciso. Aliás, o governo Bolsonaro se caracteriza pela falta de planejamento de projeto de governo, apesar de estar há dois anos no Planalto. Não conseguiu estabelecer um plano concreto de governo.  A perplexidade é geral.

Bolsonaro ataca Barroso, do Supremo, e amplia crise contra o seu próprio governo

Bolsonaro evidenciará os trabalhos da CPI que desejava evitar

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro dirigiu ontem um forte ataque contra o ministro Luís Roberto Barroso, do Supremo Tribunal Federal (STF), porque este concedeu medida liminar determinando ao Senado que a abertura de  CPI da Pandemia para investigar a atuação do governo e apurar eventuais omissões no enfrentamento à Covid-19.

O pedido de criação da CPI foi protocolado em 15 de janeiro pelos senadores Alessandro Vieira (Cidadania-SE) e Jorge Kajuru (Cidadania-GO). O presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, dizia aguardar momento que fosse mais oportuno para atender a iniciativa dos senadores, porém no último mês chegou a declarar que a instalação de uma CPI no momento “seria algo contraproducente”.  

CRISE – Por fim, a  bancada da oposição conseguiu reunir trinta e uma assinaturas para que a CPI comece a funcionar, o que tanto incomodou o presidente da República,. A atitude de Bolsonaro agrava a crise que se desenvolve contra o seu próprio governo na medida em que ao criticar o ministro, o presidente da República leva o STF a se solidarizar com Luís Roberto Barroso, garantindo assim  o despacho e fortalecendo ainda mais a iniciativa contra o Executivo.

Bolsonaro cometeu um erro duplo: vai ocasionar uma decisão em bloco do STF e colocará em maior destaque os trabalhos da CPI que ele desejava evitar. Por que evitar a CPI se ele tem a certeza de sua atuação contra a Covid-19 ? Querendo obstruir uma medida oposicionista acabou por ampliar a repercussão dos fatos.
 
“MEU EXÉRCITO” – A crise do governo ganha maior dimensão do que aquela que já apresentava, sobretudo porque Bolsonaro voltou a se referir ao “meu Exército”, frase que deu margem a reações contrárias por parte dos militares. O general Fernando Azevedo foi exonerado por Bolsonaro e em solidariedade ao ex-ministro, os comandantes do Exército, da Marinha e Aeronáutica também renunciaram.

O general Edson Pujol fez afirmações contrárias a qualquer manifestação política fora do texto constitucional e isso causou mal estar no Planalto. O general Braga Netto assumiu o ministério da Defesa e os representantes da Forças militares também se pronunciaram a favor da legalidade, o que era esperado.

Bolsonaro ficou mais isolado no Planalto e a crise deve ganhar ritmo mais intenso do que já vinha pontuando o panorama político brasileiro. A impressão que se tem é que dias ainda mais difíceis ocorram já a partir deste fim de semana para o presidente da República.Nada política deixa de ter consequências , portanto as afirmações de Bolsonaro acarretarão outros desdobramentos.

IMPASSE DO ORÇAMENTO – Reportagem de Julia Chaib, Gustavo Uribe  e Bernardo Caram, Folha de São Paulo, revela que problema do Orçamento para 2021 também está causando desgaste e inquietação, uma vez que os deputados do Centrão e setores militares buscam desmembrar o Ministério da Economina.

Os que são a favor da desacumulação de funções argumentam que ninguém pode ser ministro da Fazenda, do Planejamento, do Trabalho e da Previdência Social, além de coordenar a privatização e empresas estatais, a exemplo da Petrobras e do Banco do Brasil. Assim, parte dos deputados que apoiam o governo desejam poder influir no preenchimento dos cargos que surgiriam em consequência do desdobramento.

JANTAR COM EMPRESÁRIOS – De outro lado, o presidente Jair Bolsonaro foi a um jantar na residência do empresário Washington Cinel, da companhia de segurança Gocil, em São Paulo, onde disparou ataques ao governador João Doria, tanto em função do programa de vacinas, e também em virtude do seu comportamento político. Bolsonaro chamou o governador de São Paulo de “vagabundo”, acrescentando um palavrão.

Não foi um lance inteligente, pois vai ampliar a reação de João Doria e acarretará choques ainda mais profundos entre o Planalto e o Palácio dos Bandeirantes. As afirmações feitas por Bolsonaro causaram perplexidade pelo conteúdo e pelo caráter ofensivo. Estiveram presentes na comitiva Paulo Guedes (Economia), Tarcísio de Freitas (Infraestrutura), Marcelo Queiroga (Saúde), e Fábio Faria (Comunicação), além do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, e do general Augusto Heleno (chefe do Gabinete de Segurança Institucional)

ESTRATÉGIA DE LULA – Matéria de Paulo Capelli, O Globo, destaca que o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva dirigiu uma comunicação aos dirigentes do PT no sentido de que o partido, salvo casos excepcionais, abra mão de candidaturas dos governos nos estados em 2022, o que tem por objetivo de facilitar a sua caminhada às urnas na sucessão presidencial. Liberando acordos com partidos contrários, Lula acena com a possibilidade de aceitarem alianças com o PT em nível nacional.

O lance é plausível e revela que Lula está aprofundando as articulações para a sua candidatura. O objetivo é criar uma rede de apoio em nível nacional para combater Jair Bolsonaro na sucessão presidencial no próximo ano.

Lula e Bolsonaro empatam na internet, mas Lula cresce e Bolsonaro estaciona

Petista teve pico em monitoramento de redes sociais

Pedro do Coutto 

As presenças do presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva  estão se igualando nas redes sociais da internet. Os dados são do Índice de Popularidade Digital (IPD), editado pela consultoria Quaest, analisados também por Joelmir Tavares, Folha de São Paulo, nesta quinta-feira.

Bolsonaro liderava o IPD desde que o monitoramento foi criado, em janeiro de 2019. Mas agora divide a liderança com Lula, cuja candidatura à sucessão presidencial de 2022 foi liberada por Fachin e está para ser decidida em definitivo pelo Plenário do Supremo Tribunal Federal quando o ministro Luiz Fux colocá-la em pauta.

EMPATE – Se o Pleno do STF mantiver a decisão de Fachin, Lula está livre para disputar as eleições presidenciais. No início desta semana estavam empatados tecnicamente no quesito desempenho digital, Bolsonaro com 63,3 e Lula com 61,1.

O quadro, segundo analistas ouvidos pela Folha, estabelece a polarização esperada entre as duas candidaturas potenciais. Esse resultado, a meu ver, reduz a possibilidade de um terceiro nome poder disputar o pleito em condições de vencer.

Aparentemente, não há espaço para terceira via em termos de candidatura viável. Mas como se por um ponto se vence ou se perde, essa terceira força, na hipótese de um segundo turno, poderá ser decisiva a favor de um dos candidatos. Não se pode subestimar qualquer resultado.

POPULARIDADE –  O agravamento da crise econômica está contendo a popularidade de Bolsonaro, embora os dados pesquisados se baseiem em seguidores nas redes sociais. Esses se equilibram entre Lula e Bolsonaro nas plataformas Facebook, Instagram, Twitter, Youtube, Wikipedia e Google. É importante esse acompanhamento sobretudo porque até ressurgir o nome de Lula, o espaço nas redes sociais estava sendo ocupado unicamente por Jair Bolsonaro em matéria de política eleitoral. Mas o quadro mudou e o índice tem acusado equilíbrio nos últimos dias.

Em março, Lula ficou à frente de Bolsonaro em matéria de seguidores, estabelecendo assim um empate em relação a qual funciona uma lógica política, já que qualquer terceiro nome que venha a ser focalizado não consegue se aproximar dos dois que lideram a pesquisa. Há também que ser observada a política de comunicação através das redes sociais no sentido de levar as pessoas a acompanhar a rivalidade notória e a dança dos números, sobretudo à medida em que se aproxima a sucessão de outubro de 2022.

CANDIDATURAS – Os partidos consideram importante que um ano antes do pleito os candidatos possam ser efetivamente lançados. A partir daí a corrida pelo Planalto ingressará numa fase de aceleração , como é natural nos processos políticos.

Relativamente à comunicação, incluindo jornais e emissoras de TV, há a necessidade fundamental de que os textos possuam visões concretas a respeito de fatos e problemas brasileiros, porque não adianta as pessoas aparecerem em público sem que apresentem uma perspectiva baseada em fatos lógicos.

Entre esses, por exemplo, a questão dos salários, a questão do aumento de preços, a gravíssima questão do atendimento da saúde, principalmente na fase em que nos encontramos atacados pela Covid-19. Além disso, há necessidade de uma redação clara e uma verbalização que traduza transparência. Caso contrário, as mensagens políticas perdem em matéria de credibilidade.

ORÇAMENTO – No O Globo de ontem, Miriam Leitão analisa as controvérsias em torno da elaboração do Orçamento e assinala que existem erros de todos os lados, superestimação de despesas, subestimação de receita na maioria dos casos e também o inverso.

Na Folha de São Paulo, Thiago Resende, Bernardo Caram e Renato Machado analisam a matéria orçamentária e acentuam que deputados e senadores estão ameaçando retaliar o governo se houver veto pelo presidente Bolsonaro às emendas que consignam verbas cujas execuções dependem da indicação dos parlamentares.

Como se vê, a confusão não se encontra apenas no Ministério da da Saúde. Entretanto, os casos críticos se repetem, o índice de contaminação é altíssimo e o ministro Marcelo Queiroga não consegue entrar em campo e tão pouco tem entusiasmo para frear a calamidade produzida pela pandemia. O ministro precisa agir e comandar, de fato, o Ministério da Saúde.

Brasil só será ajudado financeiramente se provar que reduziu o desmatamento, diz Mourão

Mourão: vice-presidente se prontificou a telefonar para homólogo chinês, Wang Qishan, para buscar suprir insumo — Foto: Romario Cunha/VPR

Mourão fala com fraqueza sobre a questão ambiental

Pedro do Coutto

Numa entrevista à Maria Cristina Fernandes, Valor Econômico de ontem, o vice-presidente Hamilton Mourão afirmou que o Brasil só poderá contar com recursos financeiros internacionais se provar que reduziu o desmatamento e as queimadas da Floresta Amazônica.

O general Hamilton Mourão é também presidente do Conselho Nacional da Amazônia e, portanto, exerce um posto muito superior ao do ministro Ricardo Salles,  alvo permanente de fortes ataques e que, recentemente, interpelou o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, porque este apreendeu 200 mil metros cúbicos de madeira desmatada ilegalmente.  

MINISTRO DEVASTADOR – O superintendente Saraiva, inclusive, agora citado por Mourão, já tornara pública a sua surpresa de um ministro do Meio Ambiente agir não para preservar, mas para colocar em gravíssimo risco o meio ambiente, que é tema nacional e internacional.

Por falar em internacional, Bolsonaro foi convidado pelo presidente Joe Biden a participar de um encontro virtual sobre o assunto que ameaça a própria geografia. A economia global depende do meio ambiente. A participação de Bolsonaro, se ele for, será uma tremenda saia justa 

GUEDES E O CORTE DE SALÁRIOS –  Reportagem de Bernardo Caram, Thiago Resende e Renato Machado, Folha de São Paulo e a reportagem de Daniel Weterman, o Estado de São Paulo, destacam o empenho do ministro Paulo Guedes, esse “homem fatal” de Nelson Rodrigues, no sentido de destravar no Congresso o projeto do governo que recria o problema de corte de salários e redução da jornada de trabalhos, tanto nas empresas estatais, nas empresas privadas e no funcionalismo público federal, estadual e municipal, com o objetivo de reduzir os encargos financeiros de todos os órgãos que atuam no mercado de trabalho.

A destinação em vigor encerrar-se-ia no mês de maio, mas Paulo Guedes quer se antecipar a esse limite. Encontra, entretanto, resistências no Senado e na Câmara dos Deputados. Na minha opinião, Paulo Guedes, no fundo, só se preocupa com os custos das empresas e não dá a menor importância para os salários.

Os salários estão congelados, o consumo dissolve-se pela impossibilidade de avançar. E sem consumo não há administração pública que funcione.

Queiroga se adapta a Bolsonaro e mostra não ter condições de enfrenta a Covid-19

Falta a Queiroga o dinamismo que caracteriza os líderes

Falta a Queiroga o dinamismo que deve caracterizar os líderes

Pedro do Coutto
 
O ministro Marcelo Queiroga está realmente demonstrando não ser um homem de combate frontal, faltando-lhe dinamismo e disposição para enfrentar a forte onda da Covid-19, cuja velocidade tem aumentado a cada 24 horas, atingindo na noite de terça-feira a tragédia de 4200 mortes, uma parte das quais representou a absurda questão da falta de leitos de UTI.

Vejam os leitores a situação que nós brasileiros estamos enfrentando, com um temor que se amplia a cada momento e em que o número de contaminações e desfechos fatais avançam velozmente. Há duas semanas, os índices de contaminação haviam descido para 70 mil casos diários. De repente começou a se configurar a disparada e a média de infectados passou para uma escala diária de 89 mil, entre homens e mulheres.

MANCHETE – Inclusive, mantida uma contaminação dessa ordem, o número de mortes também subirá, uma vez que o percentual de falecimentos, como é lógico, encontra-se na percentagem de crescimento da infecção. A vertiginosa subida de contaminações foi ontem manchete principal das edições da Folha de São Paulo, do O Globo e do Estado de São Paulo.

O panorama é de alarme irrefutável. O medo está tomando conta da população, exceto os irresponsáveis que se reúnem em aglomerações. Já foi dito claramente que os instrumentos de combate ao coronavírus são a vacina, o distanciamento social e a permanência de cada um em sua residência.

O vírus ataca violentamente, basta ver que o total de mortes está a caminho de 350 mil casos fatais. O presidente Jair Bolsonaro não parece preocupado. Na edição de O Globo, Julia Lindner, Daniel Gullino e Rayanderson Guerra, focalizam a visita de Bolsonaro à cidade catarinense de Chapecó, quando ao lado do prefeito voltou a defender a ideia de tratamento precoce já rejeitada pelos cientistas e médicos de modo geral. O presidente da República não usou máscara, como demonstra a foto publicada.

SEM DISPOSIÇÃO – Eu disse no início deste artigo que o ministro Marcelo Queiroga não tem disposição de combate, não é um homem que se empenha a fundo na defesa do seu trabalho de ministro. Como cardiologista todas as pessoas falam muito bem dele. Mas como ministro da Saúde, para mim, francamente, é um desastre.

O ministro da Saúde tem que ser alguém que tenha a emoção do combate, a disposição de evitar o número cada vez maior de mortes e infecções como está ocorrendo. Alguém que utilize os jornais, as emissoras de TV e as redes sociais para dirigir apelos vigorosos a todos, chamando a atenção para o risco que corremos.  

CONSEQUÊNCIAS – Uma contaminação diária de milhares de seres humanos representa em si um perigo enorme. Os hospitais não têm equipamentos para atender a todas as emergências e os médicos, enfermeiros e auxiliares de enfermagem encontram-se em exaustão. Vejam todos as consequências de o governo Bolsonaro não ter agido imediatamente ao surgirem os primeiros casos.

Um número enorme de contaminações teria sido barrado. Os índices de mortes estariam pelo menos diminuídos à metade. Desastre completo do governo e agora também pela inaptidão completa do médico Marcelo Queiroga.

Se Deus é onipresente, as pessoas podem fazer as orações em suas próprias casas

O momento é de manter odistanciamento e evitar aglomerações

Pedro do Coutto

Em um excelente artigo na Folha de São Paulo desta segunda-feira, o professor Hélio Schwartsman sustentou a tese de que se Deus é onipresente, todas as pessoas podem fazer orações de suas casas. Por isso, considera um equívoco a decisão do ministro Nunes Marques, do Supremo Tribunal Federal, em determinar o funcionamento normal das igrejas e templos religiosos.

Para Schwartsman, um homem altamente culto, Nunes Marques não entendeu bem o que está acontecendo no país. O momento é de manter o distanciamento e evitar aglomerações, pois estas facilitam a circulação da Covid-19 que está contaminando no país uma média diária de 80 mil pessoas.

EM CASA – Não se trata de limitar temporariamente os direitos dos cidadãos para conter a epidemia. Rezar é de todas as atividades a que mais facilmente se pode adaptar ao home office. Acrescenta o articulista, se Deus é onipresente, não há problema em que cada pessoa faça as suas orações em suas próprias casas.

Deus é absoluto, na visão de Einstein, e tudo mais torna-se relativo. Daí o cientista partiu para modificar a cultura científica. Entretanto, na minha opinião, essa concepção de Schwartsman pode tornar a ideia de Deus também relativa, uma vez que sem ela não haveria a relatividade descoberta pelo homem que mudou a ciência superando a Lei de Newton.  

Se perguntarem a mim se Deus existe, de fato, eu digo que sim. Parto do princípio que uma ideia que tem mais de 5 mil anos, a partir da versão judaica, e dois mil anos a partir da corrente cristã, não pode haver dúvida quanto a mistérios e enigmas. Uma farsa não pode atravessar todo esse tempo em vão. Isso de um lado.

ACEITAÇÃO – De outro, pelo menos 90% da população no mundo acredita em Deus, tanto os israelitas, quanto os católicos, os evangélicos e os muçulmanos. Portanto, a atmosfera conduz a verificarmos que Deus está presente em decorrência da aceitação de número tão grande de seres humanos. O cálculo atual sobre o número de habitantes da Terra é de 7,7 bilhões de pessoas. Há aqueles que declaram serem ateus “graças a Deus”.

Ironia à parte, deve-se assinalar que em todos os dias, em todas as horas, bilhões de pessoas fazem apelos ao Divino. Numa canção de Caymmi, o personagem sai do Pará em vem para o Rio de Janeiro. Diz ele: “Mamãe me deu conselhos / Na hora de eu embarcar /Meu filho ande direito /Que é pra Deus lhe ajudar”. Dorival Caymmi colocou um aspecto muito importante, qual seja dizer que para Deus ajudar é preciso que o ser humano ande direito.

PINTURA DE MICHELANGELO –  Na Capela Sistina, em Roma, Michelangelo pintou uma imagem com Deus esticando o braço para tocar a mão de Adão. E Adão esticando o braço para tocar a mão de Deus. No entanto, ficou um espaço entre as duas mãos com os braços estendidos fortemente. Michelangelo, acrescento, tinha certeza de sua imortalidade e projetou uma tentativa irrealizável. Se ele acreditasse que era possível, teria pintado as duas mãos se encontrando. É preciso não só ver o fato, mas ver no fato, como é aliás uma das qualidades de Schwartsman.

Fui amigo de Antonio Houaiss, tradutor de “Ulysses”.  Em um almoço, sugeri um projeto que fosse capaz de abordar os textos contidos na Bíblia judaica e no Novo Testamento cristão porque se os redatores foram pessoas comuns, como explicar a sofisticação dos textos e o ritmo das frases e dos destaques?

No caso do Novo Testamento, como é o caso de Mateus, Lucas, Marcos e João. Há também textos deixados por São Pedro, que era um pescador. Mas Houaiss, com quem trabalhei na Enciclopédia Delta Larousse, nos deixou e viajou para o sempre. Poucas pessoas no Brasil seriam capazes de coordenar um projeto desta ordem.  Ele achou a ideia boa. Deixo-a como sugestão.

FOME – A fome atingiu 19 milhões de brasileiros na pandemia em 2020. Eles estão entre as 116,8 milhões de pessoas que conviveram com algum grau de insegurança alimentar no Brasil nos últimos meses do ano, o que corresponde a 55,2% dos domicílios.

Reportagem de Victória Damasceno, manchete principal da Folha de São Paulo de ontem, destaca o gravíssimo problema que inclusive ameaça os grupos sociais de menor renda. A pesquisa foi realizada pela Rede Penssan (Rede Brasileira de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional).

Não é para menos a existência da fome. No governo Jair Bolsonaro os salários estão congelados enquanto os preços sobem à vontade. É a teoria de Paulo Guedes que fracassou em todos os projetos que fez. Não há como resolver os desafios sociais com a redução salarial. Os salários estão perdendo para a inflação. Até para a inflação do IBGE, que a meu ver encontra-se subestimada.

SALÁRIO MÍNIMO – A mesma pesquisa que Victória Damasceno aborda, acentua que uma parcela muito grande dos brasileiros tem dificuldade em adquirir alimentos. É claro: há o desemprego e vivemos em um país em que 30% da mão-de-obra ativa ganham apenas o salário mínimo.  

Cinquenta por cento recebe de um a dois e meio salários mínimos. Acho que o IBGE está encontrando sérias dificuldades para divulgar a situação inflacionária existente.  

“EVANGÉLICA” – O tema relativo à decisão do ministro Gilmar Mendes foi também abordado por Merval Pereira em sua coluna de ontem, no O Globo. Mas há um aspecto que desejo frisar, há igrejas evangélicas que elegem parlamentares evangélicos, como eles se apresentam. Entretanto, eu estranho a denominação “evangélicas” como somente protestantes.

Evangélicos são todos os cristãos que acreditam na herança milenar legada a partir da crucificação. Jesus Cristo, para mim, é a maior figura da história humana. Tanto assim que dividiu o templo entre antes e depois dele. Mas essa é outra questão. Os evangélicos, todos os cristãos, seguem o Novo Testamento, caso de Mateus, Marcos, Lucas e João. Portanto, evangélicos são também os católicos.

Os protestantes são aqueles que seguem a revolução provocada por Martinho Lutero no século XVI. Aliás, Lutero deve merecer um lugar de mais destaque na história universal. Mas essa é outra questão.

PREÇO DO GÁS – Reportagem de Nicola Pamplona, Folha de São Paulo de terça-feira, destaca que a Petrobras, na fase final do mandato de Castello Branco, vai reajustar, a partir d 1º de maio, o preço do gás canalizado e mais uma parcela que completa 39% só em três meses deste ano.  

Antes foi reajustado no final de 2020 em 32%. Segundo a Petrobras, o reajuste decorre devido à elevação do dólar, dos preços do mercado internacional e do custo de transportes. A meu ver o aumento é absurdo, pois os consumidores, todos nós, nada temos a ver com a consequência da taxa de câmbio.

Aquela taxa que alguns meses atrás, o mesmo ministro Paulo Guedes disse que o câmbio era flutuante, um dia vale R$ 4, no outro vale R$ 5.  No caso brasileiro, a flutuação verdadeira é aquela que passa de R$ 5 em uma escala que se aproxima de R$ 6. O câmbio flutuante é uma balela do ministro da Economia. Paulo Guedes transfere para IBGE a responsabilidade da tarefa de conter o índice inflacionário.

BANCO DO BRASILGeraldo Doca, O Globo, assinala que o novo presidente do Banco do Brasil, Paulo Ribeiro, dirigiu uma carta aos funcionários dizendo que sua administração seguirá o alinhamento traçado pelo presidente Bolsonaro. Portanto, os servidores podem respirar aliviados, pois não haverá fechamento de agências e nem demissões incentivadas ou não. Aliás, pretendo escrever nos próximos dias um artigo sobre tais demissões e o custo verdadeiro das terceirizações.

As terceirizações custam muito mais caro às estatais do que se elas tivessem feito contratos provisórios, com definição de prazos. Se um dia revelarem o custo, verificarão um dos motivos para a manutenção de tal sistema.

RICARDO SALLESDaniel Carvalho, Folha de São Paulo de ontem, publicou importante matéria focalizando o elogio feito pelo vice-presidente Hamilton Mourão ao delegado da Policia Federal na Amazônia, Alexandre Saraiva. Saraiva atacou fortemente o atual ministro do meio ambiente, acusando-o de apoiar devastadores da região que chegaram a estocar 200 mil metros cúbicos de árvores derrubadas.

Hamilton Mourão dirige um grupo especial que supervisiona os desmatamentos e queimadas na Amazônia, crime que tanto influi para o aquecimento global quanto para desgastar a imagem do Brasil no exterior.

TUCANOSO repórter João Pedro Pitombo, em matéria de grande destaque na Folha de São Paulo, revela que com o apoio do governador João Doria, o PSDB iniciou um processo visando afastar bolsonaristas do partido e ao mesmo tempo entregar comandos regionais capazes de tentar uma aproximação com as esquerdas. Para mim, uma consequência do lançamento da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva.

João Doria com a sua iniciativa está sinalizando que será candidato à reeleição em São Paulo, afastando-se da ideia de concorrer à Presidência da República em 2022. Ele estava disposto a enfrentar Bolsonaro nas urnas. Mas em relação a Lula não é esse o seu objetivo. Ao contrário, admite até um acordo com o ex-presidente da República. 

Chefe da PF no Amazonas acusa o ministro Ricardo Salles de se empenhar por madeireiros devastadores

Charge do Amarildo (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Numa entrevista a Camila Mattoso, Folha de São Paulo, nesta segunda-feira, o superintendente da Polícia Federal no Amazonas, Alexandre Saraiva, afirmou ter recebido uma indagação do ministro Ricardo Salles sobre uma apreensão de 200 mil metros cúbicos encontrados no Pará, tudo que foi apreendido desde dezembro do ano passado.  

Alexandre Saraiva diz ter recebido com surpresa o questionamento de Ricardo Salles, pois pela primeira vez um ministro do Meio Ambiente se manifesta de maneira contrária a uma ação que visa proteger a Floresta Amazônica.

VERIFICAÇÃO DE APREENSÃO – O ministro Ricardo Salles foi na quarta-feira, dia 30, ao Pará, onde fez uma espécie de verificação do que foi apreendido, assinalando preocupação com o resultado de uma apreensão da própria Polícia Federal. Salles apontou falhas na ação e tem dito que há elementos para achar que as empresas investigadas estão com a razão.

 Alexandre Saraiva se espantou e disse a Camila Mattoso, na entrevista, que o ministro do Meio Ambiente se preocupar com tal fato, a ponto de dizer que as empresas acusadas tinham razão em desmatar seria a mesma coisa “que um ministro do Trabalho se manifestar contrariamente a uma operação contra o trabalho escravo”.

AÇÃO CRIMINOSA – Saraiva destaca que tudo que foi apreendido era produto de ação criminosa, inclusive porque no caso dos 200 mil metros cúbicos de madeira, as empresas atingidas até agora não recorreram contra o fato. Saraiva disse que há mais de dez anos ocupa o cargo de superintendente na Amazônia, abrangendo Roraima, Maranhão, Amazonas e Pará. Os desmatamentos configuram ações criminosas e, portanto, têm que ser objetos de reação por parte da Polícia Federal e do governo brasileiro.

Saraiva acrescentou que na Polícia Federal “não vai passar nenhuma boiada”, frase que Ricardo Salles se referiu durante a reunião ministerial de 22 de abril de 2020, quando se dirigiu ao presidente Jair Bolsonaro: “Vamos aproveitar o momento que a imprensa está voltada para a pandemia para fazer passar a boiada”, disse na ocasião.

NA ORDEM DO DIA – O tema, como todos sabem, está na ordem do dia vinculado ao aquecimento global e à proteção do meio ambiente. Inclusive, Jair Bolsonaro foi convidado pelo presidente Joe Biden a participar de encontro internacional pela internet sobre as queimadas e os desmatamentos não só no Brasil, mas em todo o mundo.

Este é um panorama geral do que acontece na Amazônia brasileira e é um bom tema para o jornalista André Trigueiro, comentarista da GloboNews, especializado na questão que envolve a defesa do verde no Brasil.

ALIANÇA – Na edição de ontem de O Globo, o repórter Gustavo Schmitt revela que começaram as articulações e os entendimentos no sentido de que o Centro, distanciado do presidente Jair Bolsonaro e do ex-presidente Lula, consiga formar uma aliança e escolher um candidato para que não se repita a polarização que ocorreu nas urnas de 2018.

Estão empenhados no projeto, além de Ciro Gomes, o governador João Doria, o governador Eduardo Leite, do Rio Grande do Sul, o apresentador da TV Globo, Luciano Huck, o empresário João Amoêdo e o ex-ministro da Saúde Henrique Mandetta. As articulações incluem também o deputado Rodrigo Maia e o prefeito Eduardo Paes.  

Para o professor Eduardo Grin, da Fundação Getúlio Vargas, a ideia é boa, mas a presença de Ciro Gomes no movimento pode criar obstáculos. Em decorrência da sua própria personalidade e também do fato de que, de todos dessa iniciativa, é o mais distante do ponto de vista ideológico que seus integrantes têm da economia, uma vez que Ciro Gomes tem o pensamento voltado para ação estatal no desenvolvimento econômico e social brasileiro.

CALENDÁRIO APERTADO – Grin diz que o calendário já está apertado e que o melhor caminho para o movimento é lançar-se publicamente no mês de outubro, um ano antes das eleições de 2022. “Há que se ter pressa, já que a polarização aumenta a cada dia”, disse.
 
Entretanto, na minha opinião, João Doria e Eduardo Leite vão encontrar dificuldades de se integrar no movimento. Isso porque com o lançamento da candidatura de Lula, os dois governadores logicamente vão disputar a reeleição em São Paulo e no Rio Grande do Sul apoiando uma candidatura presidencial, sendo que João Doria não poderá optar por Jair Bolsonaro.  

No Rio de Janeiro, o deputado Marcelo Freixo, matéria de Bernardo Mello, afirmou ter iniciado articulações para formar uma chapa contra o candidato que vier a ser lançado por Bolsonaro. Trata-se, disse, de uma união das forças democráticas contra o atual presidente da República que representa uma ameaça à própria democracia.

DÍVIDAS – Idiana Tomazelli, o Estado de São Paulo de ontem, revela em sua reportagem que as dívidas das igrejas evangélicas com o INSS e o Imposto de Renda já atingem R$ 1,9 bilhão. Uma parte, inclusive, está inscrita na Dívida Ativa da União. Em alguns casos, como é o caso da corrente do bispo R. R. Soares, foram efetuados descontos nos salários, mas não houve recolhimento ao INSS. Idiana Tomazelli acentua que nesse caso existe o crime de apropriação indébita.

As dívidas das igrejas incluem também o não recolhimento da parte que cabe aos empregadores (20% sobre a folha de salários) e também o não recolhimento, como ela frisou, das contribuições dos empregados.

Até o momento, pela lei, a contribuição de religiosos para com os templos estão sujeitas à incidência das contribuições para a Previdência Social. O secretário especial da Receita Federal, José Barroso Tostes Neves, já desenvolveu diálogos com os devedores. Além da contribuição patronal, os empregados têm a obrigação de contribuir para o INSS à base de 7,5 % para os salários menores até 14% para os salários de R$ 6,4 mil.

Bolsonaro, se for candidato, pode não ir ao segundo turno nas urnas de 2022

Insatisfação com o governo Bolsonaro é grande e cresce a cada dia

Pedro do Coutto

O presidente Jair Bolsonaro tem pela frente dois obstáculos que terá que superar para tornar viável a sua candidatura à reeleição nas urnas de 2022: a falta de estabilidade do seu governo e a perspectiva – revelam Pedro Venceslau e Bruno Ribeiro, no Estadão de sábado, dia 3 – de que o PSDB, o DEM e o MDB estão se aproximando para firmar uma aliança capaz de disputar o pleito daqui a um ano e meio.

A afirmação foi feita pelo ex-prefeito de Salvador ACM Neto que sustentou a necessidade do surgimento de uma terceira força capaz de abrir a perspectiva de um candidato entre Lula e o atual presidente da República. Esta é uma questão essencial para fornecer uma oportunidade às forças que se consideram de centro em busca de um nome viável com potencial político para enfrentar uma batalha difícil, mas não impossível.  

LIMINAR DE FACHIN – A meu ver, Lula está assegurado no segundo turno de 2022 dependendo apenas do julgamento pelo Supremo, da liminar de Edson Fachin que anulou todas as condenações contra ele fixadas em Curitiba, por Sergio Moro. Na reunião mais recente da Segunda Turma, foi anulada a condenação do triplex devido a imparcialidade de Moro, por três votos a dois. Mas este foi um julgamento.

Para o segundo julgamento o debate será baseado na anulação ou não de todos os processos contra o ex-presidente, e o resultado favorável conta com os votos, é claro, de Gilmar Mendes, Ricardo Lewandowski e Dias Toffoli.

O voto da ministra Cármen Lúcia no julgamento da Segunda Turma foi para viabilizar a candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva. Para mim ficou claro, uma vez que a tese do ministro Edson Fachin é de anulação das sentenças, transferindo o julgamento para a Justiça Federal de Brasília. A habilitação de Lula traz consigo um impulso no STF para neutralizar ações de extremistas contra o próprio Supremo e o Congresso Nacional.

GRANDES CHANCES – Lula, de todos os nomes, é o que maior contingente de votos possui. Basta lembrar que em 2019 ele transferiu 43% do eleitorado para Fernando Haddad. Pedindo voto para si mesmo, Lula poderá até ultrapassar esse percentual. Admito até que ele possa vencer direto no primeiro turno, já que a insatisfação com o governo Bolsonaro é muito grande e cresce a cada dia. Basta ler as cartas de leitores publicadas no O Globo, na Folha de São Paulo e no Estadão.

Pode-se também considerar as reportagens e comentários da imprensa, nas redes sociais da internet, nos programas de televisão, sobretudo da GloboNews. Por aí vemos o grau de rejeição ao governo. Dificilmente, Jair Bolsonaro poderá se recuperar. Ele se mantém numa posição política nada flexível.  

FRACASSOS DE GUEDES – Miriam Leitão, no espaço de sua coluna no O Globo, afirmou frontalmente que o governo acabou e apenas permanece sem apresentar fatos e disposições que o reanimem. Foi um artigo importante. Na síntese reflete tantos fracassos do ministro Paulo Guedes quanto a desarmonia nas bases do Executivo, agora também no Congresso através de posições explicitadas até pelo Centrão. Natália Portinari focaliza o tema no O Globo deste domingo e destaca o sintoma como início de um processo de desgaste dentro das próprias bancadas do governo no parlamento.

Outro fato que deve preocupar o Planalto está contido também no O Globo, reportagem de Bernardo Mello, Filipe Vidon e Rayanderson Guerra. Trata-se de incitamento por parte de lideranças de baixa patente das PMs sobre as tropa contra governadores adversários do Palácio do Planalto. O confronto visa medidas restritivas para tentar conter a pandemia, que foram adotadas por estados comandados por opositores de Jair Bolsonaro. Mais um setor, cujo movimento acrescenta intranquilidade ao panorama institucional do país.  A confusão é muito grande.

IMPASSE – Adriana Fernandes, no Estado de São Paulo, reproduz declarações do presidente do Banco Central, Roberto Campos Neto, em relação  ao impasse que ocorre sobre o Orçamento para 2021. Na opinião de Campos Neto, a dificuldade entre o Legislativo e o ministro Paulo Guedes agrava a incerteza fiscal.

Um dos reflexos do panorama confuso que está se projetando na área econômica está assinalado por Júlia Moura e Eduardo Cucolo, na Folha de São Paulo de ontem. Um elenco de empresas listadas na Bovespa reduziram os seus investimentos de forma considerável. A redução decorre da falta de nível de consumo, já que ninguém pode produzir somente para estocar.

RETRAÇÃO NO CONSUMO – Tudo, inclusive a arrecadação tributária, depende, direta e indiretamente, dos níveis de consumo, da mesma forma que as receitas do INSS e do FGTS. A retração do consumo é uma consequência direta do alto nível de desemprego e do congelamento de salários que estão fazendo com que a renda do trabalho humano seja reduzida mês a mês pelas taxas oficiais de inflação.  

Esta colocação representa um desafio do governo para consigo mesmo.  Um desafio para Jair Bolsonaro no caminho das urnas de 2022. Por isso não será uma surpresa se ele não for ao segundo turno da sucessão presidencial, sucessão de si mesmo.  

Contradições do presidente Bolsonaro e suas ações contra a vacinação derrubam o país  

Charge do Iotti (Arquivo do Google)

Pedro do Coutto

Em artigo publicado ontem no O Globo, a divulgadora científica Natália Pasternak afirmou que a omissão do presidente Jair Bolsonaro e suas ações contra a vacinação na realidade estão derrubando o país a partir de suas palavras de que a Covid-19 era apenas uma gripezinha, algo assim sem maior importância e risco.

A realidade revelou à população que o presidente da República se tornou um adversário da vacinação e também de outras medidas indispensáveis para conter a contaminação. A contaminação, digo eu, está atingindo uma velocidade de mais de 80 mil pessoas por dia. As mortes estão na ordem de 3 mil pessoas em 24 horas.

DESCONTROLE – O ministro Marcelo Queiroga não está conseguindo pisar no freio para conter o ciclo da infecção, deve entregar o ministério, inclusive porque não demonstra aptidão para um combate desta ordem. 

Natália Pasternak compara a inação do governo à noite do último baile da monarquia na Ilha Fiscal. Era o fim do império.Sobre isso – acrescento – o historiador Hélio Silva tem um belo título: “1889: a República não esperou o amanhecer”.  Natália Pasternak disse ainda que enquanto as mortes ocorrem, o presidente Jair Bolsonaro passeia de jet-ski, trata a pandemia com descaso e conclui que os que tinham medo eram maricas brasileiros.

GOLPE – Na Folha de São Paulo de ontem, Demétrio Magnoli publica artigo sustentando que mesmo com a substituição do ministro da Defesa e dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, o presidente Jair Bolsonaro perdeu qualquer perspectiva de desfechar um golpe contra a democracia como vinha ensaiando, principalmente a partir do momento em que participou da manifestação em frente ao Comando Militar da Esplanada dos Ministérios, na verdade incentivando os ataques ao Supremo Tribunal Federal e ao Congresso.  

Com isso, deixou claro que pretendia livrar-se de ambos, o que se tornou impossível, principalmente agora. Isso porque os novos comandantes não possuem a menor condição de romper com as correntes representadas e represadas por seus antecessores.  

A minha opinião decorre de uma análise sobre o conteúdo do artigo de Demétrio Magnoli. Disse ele: “O vírus da anarquia militar está neutralizado pelos pronunciamentos dos generais Azevedo e Silva e Edson Pujol, principalmente porque a questão institucional inclui a disciplina e o respeito à democracia”.  O governo, acrescento, ficou extremamente desestabilizado com o perigoso caminho que planejou para o Brasil, absolutamente rejeitado pelos brasileiros e brasileiras.

VETOS ABSURDOS –  O presidente Bolsonaro, reportagem de Gabriel Shinohara, O Globo, vetou dispositivos da nova Lei de Licitações. Um dos trechos vetados estabelecia a obrigatoriedade do poder público divulgar os editais de licitações na imprensa oficial e em jornais de grande circulação. Bolsonaro, para mim, traduziu demandas de empresas e administradores públicos interessados em que o assunto mergulhe nas sombras.

Existe inclusive uma questão. Coloco para conhecimento pleno dos leitores. As manobras das quais saem as comissões de empresários pagando administradores, não se encontram nos termos originais das concorrências. Se for por aí, ninguém descobre não. Querendo descobrir é só fiscalizar os famosos termos aditivos que incidem sobre os preços das obras. Esses termos aditivos valem muitos bilhões de reais.  

LEILÕES – Amanda Pupo e Adriana Fernandes, o Estado de São Paulo, em reportagem publicada com grande destaque, revela que entre os dias 7 e 9 deste mês o governo vai colocar em prática leilões de aeroportos, de portos e ferrovias, com a expectativa de arrecadar R$ 10 bilhões.  

O país está com a sua imagem arranhada pela condução da política na atual fase da vida brasileira. Parece que a questão não é de imagem, mas sim de projetos e obras que possam melhorar as condições da infraestrutura nacional. Vinte e dois aeroportos operados pela Infraero, cinco terminais portuários e o primeiro trecho da Ferrovia de Integração Oeste-Leste, na Bahia. 

Contestado pelas ações e pelas palavras de Bolsonaro, Queiroga deve se demitir imediatamente  

Bolsonaro incita população a não seguir recomendações de Queiroga

Pedro do Coutto
 
O presidente Jair Bolsonaro vem assumindo posições e feito afirmações extremamente opostas às recomendações do ministro Marcelo Queiroga para combater a pandemia da Covid-19 que apresenta índices diários muito altos de novas contaminações.

 De quinta para sexta-feira foram 89 mil infectados pelo coronavírus, resultado em grande parte das aglomerações de pessoas, da falta do uso de máscara e do desrespeito em relação à necessidade de distanciamento.

MAU EXEMPLO – Matéria de Bruno Góes e Fernanda Trisotto, O Globo de ontem, revela que, em transmissão pelo sistema da internet, Bolsonaro afirmou que ainda não sabe se tomará a vacina e que vai esperar até o último brasileiro ser vacinado para então decidir o que fará. Tal afirmação, evidentemente, se reflete na população, fazendo com que uma parcela não siga as recomendações do ministro Marcelo Queiroga que colocou a vacinação e o uso da máscara como pontos fundamentais para combater e frear os efeitos da pandemia.

 Em artigo publicado na sexta-feira pela Folha de São Paulo, Ruy Castro destaca que Bolsonaro não leva em conta a opinião de qualquer ministro civil, incluindo Queiroga, cujo constrangimento é muito grande levando-se em consideração que as palavras do presidente da República o deixam muito mal, sobretudo diante das classes dos médicos e cientistas.

DEMISSÃO – Marcelo Queiroga não tem outro caminho, a meu ver, a não ser o de entregar imediatamente o cargo de titular da Saúde. Como se constata, nenhum ministro acerta trabalhar com Bolsonaro na pasta.  

Além dessa contradição, O Globo revela, com base em dados do SUS, que até o final de março o governo tinha previsto a entrega de 46 milhões de vacinas, entretanto só distribuiu 20 milhões para os estados. Queiroga chegou a anunciar que pretendia alcançar o ritmo de vacinação na base de 1 milhão de pessoas por dia. Difícil chegar a tal montante sem que o governo distribua um número desejado para vacinação em massa.

MERCADO DE TRABALHO – No espaço de O Globo que ocupa às sextas-feiras, Flávia Oliveira chama a atenção para um ponto muito importante a respeito do mercado de trabalho brasileiro. Da mão de obra ativa de 100 milhões de pessoas, apenas 29,7 milhões são empregados com carteira assinada. Portanto, tanto eles quanto seus empregadores contribuem para o INSS.

Os empregadores contribuem para o FGTS na base de 8% sobre os salários. Como se vê, a informalidade está se expandindo veloz e largamente. E a informalidade não produz receitas nem para a Previdência Social, nem para o Fundo de Garantia. O governo quando pensa, digo eu, em promover demissões voluntárias, não leva em conta que para cada trabalhador ou trabalhadora que sai do universo formal, diminuiu a arrecadação do próprio governo.

ALUGUÉIS DISPARAM  – Em reportagem publicada na Folha de São Paulo de quarta-feira, Fernanda Brigatti expõe a fortíssima subida do IGPM no período entre janeiro de 2020 e janeiro de 2021. Somente em 12 meses, o índice calculado pela FGV avançou 31,1%, criando uma situação de verdadeiro alarme social.

Isso porque o IGPM, de acordo com a lei, corrige os aluguéis residenciais. Os locatários assim se encontram numa onda que ao mesmo tempo corrige os aluguéis e congela os salários.

PLANOS DE SAÚDE – Camila Tortelli, no Estado de São Paulo de quinta-feira, publica reportagem informando que o presidente da Câmara Federal, deputado Arthur Lira, tornou oficial a verba de R$ 135 mil para cobrir os gastos de saúde dos deputados. Parece incrível, mas é fato que, enquanto sobem os remédios e as consultas médicas para pelo menos 80% da população brasileira, cada deputado vai receber R$ 135 mil para as despesas com saúde.

As despesas tanto podem ser para compras de remédios, como para consultas e até procedimentos cirúrgicos. Os assalariados brasileiros recebem um tratamento muito diferente. Os preços dos remédios poderão subir até 10% a partir deste mês de abril, mais um fator para tornar sufocante o quadro social do país.

SONY E SOM LIVRE – O próprio O Globo publicou com destaque o fato da Sony Music e a Som Livre, empresa independente de música, da Globo Comunicação e Participações S.A, terem fechado acordo para transferir a propriedade para empresa internacional. Há alguma coisa crítica no universo financeiro liderado pelo jornal O Globo, pela TV Globo, pela Globo News e outras empresas de Comunicação.  

Vale acentuar inclusive que a TV Globo já tornou pública que não renovará com o apresentador Faustão, cujo contrato termina no fim de dezembro deste ano. Tem-se a impressão de que Fausto Silva, a partir de 2022, estará no SBT, segundo informações que circulam.

Aliás, no programa do último domingo, Faustão recebeu o ator Otaviano Costa e a atriz Flávia Alessandra. O casal está obtendo sucesso na área comercial ao fazer a propaganda do supermercado Mundial. Na ocasião, Otaviano Costa disse no ar ser muito grato a Faustão pelo apoio recebido no início da carreira e que irá para onde Faustão for, se assim conseguir. O programa que é um sucesso na Globo ajusta-se ao estilo da programação da emissora de Sílvio Santos.

ENTREVISTA DE LULA –  Entrevistado pela Band News, Lula afirmou que não assinou o manifesto em defesa da democracia divulgado na quarta-feira porque não foi procurado e lamentou o fato, como também lamentou a falta de apoio nas eleições de 2018 para Fernando Haddad, inclusive de Ciro Gomes, que resolveu após o 1º turno viajar para Paris. Lula acentuou que Bolsonaro deveria parar de falar apenas com os seus militantes e passar a se dirigir com responsabilidade aos 210 milhões de brasileiros.  

A candidatura de Lula se fortaleceu a partir do momento em que foi beneficiado pela decisão da 2ª Turma do STF que anulou as condenações impostas ao ex-presidente por Sergio Moro.  A respeito da situação eleitoral de Lula, a jornalista Cristina Serra publicou artigo semana passada na Folha de São Paulo criticando o ministro Gilmar Mendes e Ricardo Lewandowski, estranhando a mudança de voto da ministra Cármen Lúcia que foi decisiva para o desfecho contra a sentença relativa ao triplex do Guarujá.

EXPECTATIVA – Peço, entretanto, atenção para um ponto essencial da questão: o relatório do ministro Edson Fachin remetido ao pleno do STF, abrangendo assim os 11 ministros. A decisão de Cármen Lúcia pode tornar possível a confirmação pelos 11 ministros da Corte Suprema. Vale acentuar que o ministro Dias Toffoli, nomeado por Lula, deve dirigir seu voto em favor do ex-presidente, sobretudo porque existe uma forte expectativa de que Lula retorne ao poder.

Luiz Inácio Lula da Silva possui a maior parcela dos votos do país, tendo transferido 43% do eleitorado para Fernando Haddad. Bolsonaro venceu por 57% a 43%, mas a realidade era outra muito diversa da atual.  

Tentativa de golpe de Bolsonaro encontra-se na estrada do tempo com a queda de Jânio Quadros em 1961

Charge do Gervásio (nocaute.blog.br)

Pedro do Coutto

É claro que o presidente Jair Bolsonaro tinha em mente (agora não sei se continua com a ideia) de fechar um golpe de Estado no país e partir para uma ditadura que se ajusta com o seu temperamento. Tanto tentou que, não encontrando respaldo do ministro da Defesa, Azevedo e Silva, e também do general Edson Pujol (Exército), do almirante Ilques Barbosa (Marinha) e do brigadeiro Antônio Carlos Moretti Bermudez (Aeronáutica), viu-se obrigado a nomear o general Braga Netto, o general Paulo Sérgio Nogueira, o almirante de esquadra Almir Garnier Santos, e o tenente-brigadeiro Carlos Alberto Baptista Júnior.

Evidentemente que tendo participado de manifestações contra o Congresso e contra o Supremo Tribunal Federal, o presidente da República estava desenvolvendo em sua mente uma ruptura totalitária. Foi impedido pelos militares que deixaram os postos. O episódio é transparente, afinal de contas, que outro motivo teria o chefe do Executivo para adotar medida tão drástica no segmento militar?  

FATO TRAUMÁTICO – Mas eu disse que o impulso de Bolsonaro se encontra através da estrada do tempo com a tentativa alucinada de Jânio Quadros que em 1961 desejava o poder absoluto. Sua renúncia em 25 de agosto, Dia do Soldado, decorreu de um fato traumático: o governador Carlos Lacerda, numa entrevista de primeira página, manchete do Jornal do Brasil, revelava ter sido convidado por Jânio Quadros para participar de um golpe de Estado.  

Imediatamente, Jânio partiu para fazer uma intervenção na Guanabara. Não encontrando respaldo do ministro da Guerra, Odylio Denys, do ministro da Marinha, Sílvio Heck e do ministro da Aeronáutica, Gabriel Grün Moss, renunciou de maneira espetacular, comunicando a sua iniciativa ao Congresso Nacional.

Os parlamentares advertidos pela entrevista de Lacerda ao JB aceitaram imediatamente a comunicação, inclusive o senador Auro de Moura Andrade. Afirmou que a renúncia é um ato individual de vontade, não está sujeito à apreciação pelo Poder Legislativo.

GESTO DE FIDEL – Jânio Quadros tentou repetir um gesto de Fidel Castro em 1960, quando uma multidão concentrada em Havana deu a ele o pretexto para retornar ao poder. Mas houve uma diferença fundamental: ninguém foi às ruas no país para apoiar Jânio Quadros. Sua renúncia encerrou um capítulo da história.  

Na edição de ontem de O Globo, Merval Pereira publicou mais um excelente artigo sobre a contradição de Jair Bolsonaro para consigo mesmo. Ele buscou uma solução apaziguadora escolhendo os novos chefes militares, como acentuou Igor Gielow na edição de ontem da Folha de São Paulo.  Inclusive, o general Paulo Nogueira ocupava um cargo de confiança na equipe do general Edson Pujol.  

GERADOR DE CRISES – Jair Bolsonaro, na minha opinião, é um gerador de crises e de contradições. Na tarde de quarta-feira, no Palácio do Planalto, ao assinar o calendário de pagamento do abono de emergência não usou máscara, ao contrário do que aconselha o ministro Marcelo Queiroga, e mostrou-se contrário às medidas restritivas, entre elas o distanciamento social.  

Disse haver dois inimigos no país: o vírus e o desemprego. “Não é ficando em casa que vamos solucionar esse problema”, afirmou. Ficar em casa tem sido um apelo constante dos cientistas e dos médicos que atuam no combate à Covid-19, entre eles o ministro Marcelo Queiroga.

MANIFESTO –  O governador João Doria, o apresentador da TV Globo, Luciano Huck, o ex-governador Ciro Gomes, o empresário João Amoêdo, o ex-ministro Henrique Mandetta e o governador Eduardo Leite lançaram um manifesto a favor do regime democrático, da liberdade de expressão, rejeitando qualquer iniciativa que se volte contra a democracia.

A matéria publicada na Folha de São Paulo, reportagem de Joelmir Tavares, e Vera Magalhães, O Globo, alcançou forte repercussão, aliás como era esperado. O ex-ministro Sergio Moro não foi convidado a se integrar na manifestação democrática.

DESEMPREGO – Reportagem de O Globo destaca texto divulgado pelo IBGE com base na pesquisa nacional por domicílios que revela ter subido para 14,2% o nível de desemprego em janeiro, atingindo assim o maior nível registrado desde 2012.

A pesquisa do IBGE colide com dados do governo divulgados na véspera informando ter havido um aumento de 460 empregos com carteira assinada regidos pela CLT no mês de fevereiro. Se em janeiro o desemprego estava subindo, qual a explicação lógica de terem sido feitas 460 mil contratações no mês seguinte, em fevereiro deste ano?

Aliás, para mim, é fácil elucidar a questão. Basta ver quantas novas contribuições foram registradas para o INSS e para o FGTS. Pois se os empregos tem vínculo com o INSS e o FGTS, é fácil saber se os depósitos estão sendo feitos para os dois órgãos.

DÍVIDA – Dívida do país sobre 0,6% em fevereiro. A informação é do Banco Central. Sobre ela na Folha de São Paulo escreveu Larissa Garcia. No Estado de São Paulo escreveram Eduardo Rodrigues e Fabrício de Castro. O endividamento atingiu assim 90% do Produto Interno Bruto brasileiro.

O PIB é de R$ 6,7 trilhões. A dívida alcançou R$ 6,1 trilhões. O governo continua emitindo títulos para aquisição pelo mercado. Os juros anuais são de 2,75%.  

PRESERVAÇÃO DA AMAZÔNIA – O Flamengo, matéria publicada pelo Estado de São Paulo, vai entrar em campo engajado contra o desmatamento e as queimadas da Amazônia, atuando assim com a camisa da cor verde que representa o meio ambiente.

O clube da maior torcida do Brasil firmou um contrato de publicidade com a empresa Moss que atua no setor de créditos de carbono vinculados à preservação do meio ambiente e contra o aquecimento global. A equipe rubro-negra é treinada por Rogério Ceni. Quem será o técnico do time contrário ? 

Golpe de 64 cassou mandatos, aposentou ministros do STF, suspendeu eleições diretas — era o amanhecer da ditadura

A história de 64 começa na verdade em 61 quando Jânio Quadros renunciou

Pedro do Coutto
 
As comemorações que o general Braga Netto promoveu nesta quarta-feira, dia 31, foram marcadas por uma história incompleta daquela que ele pretendeu apresentar ao divulgar o texto que achava adequado. Na realidade, a deposição do presidente João Goulart foi sucedida pelo Ato Institucional nº 1, que teve a colaboração do jurista Francisco Campos, também autor, em 1937, do ato de Getúlio Vargas implantando O Estado Novo e estabelecendo uma ditadura total no país que durou até 29 de outubro de 1945 quando foi afastado pelo movimento político-militar que restaurava o regime democrático.  

Em 1964, pelo Ato Institucional nº 1, o general Castelo Branco, então escolhido presidente da República, cassou mandatos parlamentares, aposentou os ministros Victor Nunes Leal, Hermes Lima e Evandro Lins e Silva do STF. Os dois primeiros nomeados por JK, Evandro por João Goulart. Alterou a composição da Corte Suprema; ao invés de sete ministros, onze. Nomeou personalidades ligadas à UDN que possuíam cultura jurídica. Foi o caso de Adaucto Lúcio Cardoso, Aliomar Baleeiro, além de outros que asseguraram a maioria do governo nos julgamentos.

MOBILIZAÇÃO – A história de 1964 começa na verdade em 1961. quando Jânio Quadros renunciou. O vice João Goulart encontrou sérias dificuldades para assumir e, não fosse a mobilização do governador do Rio Grande do Sul, Leonel Brizola, e do general Machado Lopes, não teria conseguido chegar à Presidência da República. Mas, para isso, teve que aceitar a emenda parlamentarista que estabeleceu um sistema à base de decisões múltiplas no que se refere a decretos e projetos e lei.

As matérias teriam que ser assinadas pelos ministros das pastas a que se referiam, pelo Primeiro Ministro, cargo criado na crise e finalmente pelo próprio presidente da República. Só valiam com as três chancelas.  

O primeiro-ministro foi Tancredo Neves que harmonizava o PSD com o PTB e também era um homem de grande habilidade política. A UDN participou do ministério; Virgílio Távora nos Transportes, Gabriel Passos nas Minas e Energia, Affonso Arinos, embaixador do Brasil na ONU. Walther Moreira Salles na Fazenda, Ulysses Guimarães na Indústria e Comércio e João Pinheiro Neto no Trabalho.

REFORMA MINISTERIAL – E assim formou o governo. Mas teve que fazer a reforma ministerial porque os deputados que formavam a equipe tinham que disputar a reeleição. O mesmo ocorreu com Santiago Dantas, então ministro das Relações Exteriores.

Em relação ao senador Affonso Arinos, a Consultoria da República chegou à conclusão de que ele não poderia acumular o seu mandato com o posto de embaixador da ONU. No episódio, o governo Goulart evaporou. Santiago Dantas perdeu a eleição no Congresso para o cargo de primeiro-ministro.  

QUEDA – Goulart no plebiscito de 6 de janeiro de 1962 livrou-se do parlamentarismo. Sua queda começou aí. No governo foi acossado por Leonel Brizola que desejava ser candidato à sua sucessão, mas não podia porque era seu cunhado. O processo político radicalizou-se e Carlos Lacerda, então governador da Guanabara, desencadeou uma campanha fortíssima com o apoio da UDN e de correntes militares contra Goulart.

João Goulart procurou radicalizar também para não perder a liderança do PTB para Brizola. Com isso, ele mobilizou sindicatos, assinou decreto encampando as refinarias de Manguinhos e Capuava, iniciou um processo de reforma agrária, mas não atribuiu importância aos acontecimentos no Sindicato dos Metalúrgicos quando os trabalhadores carregaram o comandante Aragão.

O CLIMA ERA TERRÍVEL – O governo militar não identificou o cabo Anselmo como agente duplo e participou no dia 30 de março de uma reunião com sargentos no Automóvel Clube, na Rua do Passeio. Jango foi aconselhado por Tancredo Neves a não comparecer. Não aceitou o conselho. Brizola não esteve presente na reunião com os sargentos. O clima estava terrível. Saiu o decreto da reforma agrária, possibilitando a desapropriação de áreas distantes a dez quilômetros de rios, açudes, ferrovias e hidrovias.

Jango preparou um projeto de reforma urbana que estabelecia que os proprietários de imóveis alugados separassem dois de sua predileção, e os demais seriam vendidos sob a forma de aluguel. Pode-se imaginar a repercussão que isso teve, e que conseguia unir contra Jango tanto a anarquia quanto os setores comunistas. Em 31 de março foi o fim do governo.

OMISSÃO – Mas o general Braga Netto quando diz que o movimento de 31 de março, apoiado por Lacerda, era para garantir a democracia, omitiu as consequências citadas por mim no início deste artigo. Ocultou também o Ato Institucional nº 2 que adiou as eleições presidenciais de 65 para 66, prorrogando o mandato de Castelo por um ano, suspendeu os habeas corpus e mandados de segurança, tornou inapreciáveis judicialmente decisões do governo e transformou a sucessão presidencial de direta para votação pelo Congresso.

A censura à imprensa viria a ser implantada pelo seu sucessor Costa e Silva na dramática reunião ministerial do Palácio das Laranjeiras em dezembro de 68 quando foi editado o Ato Institucional nº 5. Com ele, além da censura, se intensi vieram as torturas e seus personagens que acabaram expostos na história do Brasil.

Assumiu o ministério da Justiça o ministro Gama e Silva, o ultradireitista. Quando Costa e Silva foi atingido por um AVC, o governo foi assumido por uma junta militar formada pelo general Aurélio de Lira Tavares, pelo almirante Augusto Rademaker e pelo brigadeiro Márcio de Sousa Melo. As violências atingiram o auge e se mantiveram ao longo dos cinco anos de mandato do general Emílio Garrastazu Médici.

ELEIÇÕES ADIADAS –  Vale frisar um ponto importante, quando da “eleição” de Castelo Branco, pelo Congresso, Juscelino, então senador por Goiás, votou em seu nome. Castello tinha assumido o compromisso de garantir eleições livres em outubro de 65, conforme previsto na Constituição. Mas depois adiou as eleições para 66 e afastou Carlos Lacerda pelo voto indireto.

Carlos Lacerda não se conformou e rompeu com a revolução e a ditadura militar. Ele, que foi líder do movimento de março, acabou preso e teve os direitos políticos cassados. Havia sido eleito governador da Guanabara em 1960. Em 65 seu candidato Flexa Ribeiro perdeu as eleições diretas para Negrão de Lima na Guanabara. Foram as últimas eleições diretas para governadores antes do seu restabelecimento em 1982.

Depois de Médici, o governo militar elegeu Geisel presidente da República. Seu irmão Orlando Geisel havia sido nomeado ministro do Exército de Médici, e nessa condição assegurou a investidura de Ernesto Geisel na Presidência. Geisel não confirmou Orlando no ministério. Alguns dias após a posse do novo governo, Orlando foi afetado por um AVC. Faleceu pouco depois.

LEIA DA ANISTIA – Geisel escolheu para sucedê-lo o general João Figueiredo, tendo como vice Aureliano Chaves. Figueiredo em 79 assinou a Lei da Anistia. Seu governo partia para abertura, manteve uma relação cordial com Leonel Brizola que estava exilado no Uruguai. Tentava uma abertura política, mas foi surpreendido pela bomba no Riocentro em 30 de abril de 1981, quando morreu o sargento Antônio do Rosário e ficou gravemente ferido o capitão Wilson Machado. Hoje, Machado é coronel da reserva. Antes, em 26 de março, uma bomba destruiu a sede da Tribuna da Imprensa.

A participação dos extremistas militares ficou comprovada. Além da bomba que explodiu no Riocentro, uma segunda bomba caiu no chão ao lado do carro em que os dois se transportavam. O automóvel era dirigido por Wilson Machado. A segunda bomba foi revelada no Jornal de uma da tarde pela TV Globo. Mas foi excluída do Jornal Nacional. O diretor de jornalismo, Armando Nogueira, ficou mal no episódio.

EXPOSIÇÃO DA UNIÃO SOVIÉTICA – Vale destacar no ciclo do poder militar um acontecimento bastante sensível. João Goulart reatara relações diplomáticas e comerciais com a então União Soviética. A União Soviética em 62 montou uma exposição de seus produtos no Rio, no Campo de São Cristóvão. Num sábado, por volta das 22h, chega espavorido à exposição Carlos Lacerda.

Eu era repórter no Correio da Manhã e também estava na exposição. Um radical da corrente militar, major Lameirão, revelou a não sei quem que havia colocado uma bomba na exposição. O governador chegou aflito, pois uma bomba na exposição da União Soviética acarretaria uma intervenção na Guanabara. Chegaram os peritos e encontraram um artefato, mas desativado. Lameirão talvez tenha delirado e confundiu seu desejo com a realidade. Entretanto o objeto estava lá.

Telefonei para o Correio da Manhã e passei o fato. O jornal foi o único a publicar no domingo o acontecimento da noite de sábado. Acrescento isso na história da ditadura militar e na própria história do Brasil.  

NA LINHA DE AZEVEDO E PUJOL –  Em declarações publicadas ontem pelo O Globo, Mourão afirma que não haverá ruptura institucional com as mudanças em curso no Ministério da Defesa e no blog da jornalista Andréia Sadi da TV Globo e da GloboNews, Mourão disse que em matéria de ruptura institucional e constitucional a chance é absolutamente zero. As Forças Armadas, disse, vão se pautar sempre pela legalidade.

Acrescenta o jornal que militares da reserva estão se articulando para defesa da democracia e pela não politização das Forças Armadas, classificando-as como forças do estado e não do governo.  

DEBANDADA – Na Folha de São Paulo, reportagem de Bernardo Caram, Thiago Resende e Fábio Pupo, anuncia que se o presidente Bolsonaro não vetar dispositivos introduzidos pelo Congresso no projeto do Orçamento para 2021, orçamento que se eleva a R$ 3,6 bilhões , a equipe do Ministério da Economia ameaça debandada da pasta.

O ministro Paulo Guedes pretende levar o caso ao presidente Jair Bolsonaro. Novo problema para o governo. Fica com Paulo Guedes ou com Arthur Lira e Rodrigo Pacheco? Os projetos de Paulo Guedes, a meu ver, fracassaram seguidamente. O caso dessas emendas parlamentares é mais um da série.

No meio da tempestade, candidatura de Bolsonaro perde força para sucessão de 2022

Charge do Nani (nanihumor.com)

Pedro do Coutto
 
É o que digo sempre, os panoramas da política se alteram repentinamente e surgem novos rumos, novos confrontos, novas disputas que se acentuam com o calor dos debates e do desempenho dos candidatos, independentemente de legendas partidárias. Os exemplos são muitos: Jânio Quadros, Fernando Collor, Fernando Henrique Cardoso e Lula iluminaram a realidade fornecendo novas imagens.  

Há um mês e meio atrás discutia-se quem seria o adversário de Bolsonaro nas urnas de 2022. Cogitou-se o nome do João Doria entre os mais prováveis. De repente, o STF tornou Lula elegível. Mudou tudo. Agora, a crise militar, com a demissão do general Azevedo e Silva e a saída dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

TUDO MUDOU – Não adianta o Planalto tentar, como fez, amenizar a crise dizendo que Bolsonaro havia demitido os comandantes das Forças Armadas. Saíram por iniciativa própria, basta ver a declaração feita ontem pelo general Edson Pujol, veiculado pela GloboNews, quando disse que os militares não têm partido político e que a política não entra nos quartéis. Tudo mudou.  

E agora uma nova realidade surge no palco na sequência da tormenta militar que ainda está muito longe do desfecho final. Seria importante uma pesquisa do Datafolha sobre o reflexo na opinião pública sobre a crise militar, medindo também o abalo sofrido por Bolsonaro. Abalo que ainda pode se ampliar caso o general Braga Netto não consiga reunir nomes para preencher os comandos do Exército, da Marinha e  da Aeronáutica no Ministério da Defesa.  

INTERVENÇÃO – Na tarde de ontem, assinalando o reflexo na Câmara Federal, o deputado Major Vitor Hugo não conseguiu colocar em pauta o projeto contido em Medida Provisória, ampliando a atuação do governo federal enquanto durar a pandemia, permitindo até a intervenção nos estados. A rejeição foi a prova da perda de influência do Palácio do Planalto na área parlamentar.

Houve também o pronunciamento do presidente do Senado, Rodrigo Pacheco, ressaltando que não era hora de expandir poderes, mas de enfrentar a pandemia. Com isso, perde também embalo a nomeação da deputada Flávia Arruda na coordenadoria política do governo. Como se constata a cada momento, o governo Bolsonaro entrou em pleno declínio. A meu ver sua recuperação é dificílima. Se é que existe perspectiva nesse sentido.

DEMISSÃO NA PETROBRAS – Reportagem de Nicola Pamplona destaca a demissão da Petrobras do gerente executivo de Recursos Humanos, Cláudio Costa. Descumpriu a proibição do estatuto de que funcionários não podem negociar ações da empresa 15 dias antes da divulgação das demonstrações financeiras.

Isso foi feito por Cláudio Costa e o balanço levou a estatal a um prejuízo de R$ 102,5 bilhões em valor de mercado em apenas dois dias. A Petrobras não informou se a venda foi feita antes ou depois da queda das ações. E também não revelou o nome dos proprietários dessas ações, embora pela lei em vigor todas as ações, tanto ordinárias quanto preferenciais, só podem ser nominativas.

As transações atribuídas a Cláudio Costa, sabe-se apenas, foram feitas pela corretora Tullet Prebon. Existiu também o caso, com grande repercussão, da compra de ações por certificados de risco. Os que compraram, certamente com base na informação privilegiada, lucraram cifras muito altas. Um mistério ainda a ser desvendado.

Demissão de Azevedo e saída dos comandantes do Exército, Marinha e Aeronáutica deixam Bolsonaro por um fio no Planalto.

Sobe o clima de insatisfação nas Forças Armadas

Pedro do Coutto

A demissão do general Azevedo, que recebeu a solidariedade dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica, e o registro do general Edson Pujol, comandante do Exército, abalaram profundamente o governo na medida em que sobe o clima de insatisfação nas Forças Armadas e destaca-se um enigma no desfecho político.

Certamente, o vice Hamilton Mourão forma na linha de Fernando Azevedo Silva. Afastado do Ministério da Defesa, porém, não poderá se pronunciar publicamente, principalmente porque, na minha opinião, ele pode se tornar uma alternativa para o desfecho da onda que se criou no país em relação ao presidente da República.

DEFINIÇÃO DOS COMANDANTES – Merval Pereira e Miriam Leitão, em artigos da edição de hoje, o Globo, destacaram com precisão as horas que antecederam a definição dos comandantes das Forças Armadas em solidariedade ao general Azevedo e Silva.

Ontem e hoje escrevi neste blog que o clima em Brasília lembrava as atmosferas que precederam a renúncia de Jânio Quadros, a queda de Joao Goulart e a substituição do general Silvio Frota, então ministro do Exército pelo presidente Ernesto Geisel.  

Hoje, terça-feira, eu me lembro também da tensão que marcou o movimento político-militar de 11 de novembro de 1955, que teve como objetivo garantir a posse de Juscelino Kubitschek na Presidência da República que fora eleito nas urnas de 3 de outubro.  

MOBILIZAÇÃO – Na madrugada de 11 de novembro, o general Odílio Denys, comandante do 1º Exército, comunicou ao ministro Teixeira Lopes que o Exército não aceitava a forma com que o presidente em exercício Carlos Luz demitiu o próprio lote.   A partir do amanhecer do 11 de novembro, a Câmara Federal, então no Palácio Tiradentes, estava mobilizada para votar o impeachment de Carlos Luz e empossar o senador Nereu Ramos na Presidência da República.

No momento, a dificuldade de Jair Bolsonaro é flagrante. A pressão nos meios militares vai refletir no posicionamento do Centrão porque manter o apoio ao governo, nesta encruzilhada, pode se reverter num ato contrário ao próprio Congresso do qual o Centrão faz parte.  

A excelente reportagem de Eliane Cantanhêde, manchete principal em oito colunas na edição do Estado de São Paulo de hoje, destaca declarações do general Fernando Azevedo e Silva ao deixar o cargo de ministro da Defesa na nota que divulgou aos jornais: “preservei as Forças Armadas como instituições de Estado”.

CRISE – Ficou claro que Azevedo destacou tacitamente que Jair Bolsonaro desejava usar os segmentos militares como instituições, não do Estado, mas do governo. Eliane Cantanhêde, inclusive, na Globo News, na noite de ontem, havia feito brilhante comentário chamando atenção para a crise e dando como certa a saída dos comandantes do Exército, da Marinha e da Aeronáutica.

Aliás, no O Globo de hoje, Miriam Leitão assegurava igualmente que os três comandantes entregariam os cargos em solidariedade à posição de Azevedo e Silva.

Quanto à insatisfação existente na caserna, Jussara Soares, Natalia Portinari e Julia Lindner publicaram também importante reportagem. Igor Gielow, na Folha de São Paulo classificou um impulso de Bolsonaro como uma jogada desesperada arriscando a crise militar.