CPI da Covid quer aprovar a quebra de sigilo de Carlos Bolsonaro e outros sete envolvidos

Vereador do Rio de Janeiro, Carlos Bolsonaro (Republicanos), filho do presidente Jair Bolsonaro (sem partido)(foto: Reprodução)

Carluxo era um dos condutores do Gabinete Paralelo

Julia Lindner e Natália Portinari
O Globo

A cúpula da CPI da Covid, em acordo com a ala oposicionista, que é maioria no colegiado, decidiu colocar em votação nesta terça-feira a quebra de sigilo telefônico e telemático de oito pessoas ligadas ao governo, entre elas o filho do presidente da República, Carlos Bolsonaro (RJ).

Na pauta da sessão, destinada ao depoimento do ministro Marcelo Queiroga, consta também pedido de transferência de sigilo telefônico do ex-ministro Eduardo Pazuello, do ex-chanceler Ernesto Araújo, do ex-secretário de Comunicação da Presidência, Fábio Wajngarten, e suas empresas, e do assessor especial da Presidência, Filipe Martins.

GABINETE PARALELO – Segundo o senador Alessandro Vieira (Cidadania-SE), autor dos pedidos, a ideia é avançar sobre a investigação do “gabinete paralelo” de aconselhamento do presidente na pandemia. Ele sustenta que a CPI já encontrou indícios da participação dessas pessoas nessa estrutura.

— Há a necessidade de apurar de forma aprofundada os relacionamentos entre aqueles que participavam de uma estrutura de assessoramento e aconselhamento na tomada de decisões do presidente da República na pandemia — diz Alessandro Vieira sobre os pedidos.

TERRA E ZANOTTO – Na mesma sessão, o grupo dos independentes e da oposição, apelidados de G7, também pretende aprovar a convocação do deputado Osmar Terra (MDB-RS) e do médico Paolo Zanotto. Os dois aparecem em um evento do Palácio do Planalto, em setembro do ano passado, no qual se levantou a possibilidade de criar um “shadow cabinet” (gabinete das sombras) para discutir questões da vacina para a Covid-19 no Brasil.

Há, ainda, requerimentos de quebra de sigilo telefônico que miram auxiliares que trabalharam com Pazuello, como a secretária Mayra Pinheiro, do Ministério da Saúde, e o marqueteiro Marcos Eraldo Arnoud, conhecido como Markinhos Show. O empresário Carlos Wizard, outro apontado como integrante do “gabinete paralelo”, também deve ter sigilo quebrado.

Clientes têm R$ 8 bilhões a receber dos bancos e precisam saber cobrar, diz o Banco Central

Charge reproduzida do Arquivo Google

Jéssica Sant’Ana
G1 — Brasília

O Banco Central informou nesta terça-feira (1º) que os clientes de bancos têm cerca de R$ 8 bilhões a receber das instituições. Esse montante, conforme o BC, é referente a parcelas e tarifas cobradas indevidamente, além de saldo não sacado após encerramento de conta, por exemplo. Segundo o banco, parte das pessoas não sabe ou não se lembra que tem o dinheiro a receber.

As informações foram dadas durante o anúncio da criação de um sistema para que pessoas e empresas possam consultar se têm algum valor a receber. A expectativa é que o sistema esteja em funcionamento em dezembro.

RECEBER DE VOLTA – O objetivo do sistema é justamente dar publicidade a esses valores e facilitar a consulta. Para receber o dinheiro, pessoas e empresas têm que entrar em contato com a instituição financeira.

“Além disso, a perspectiva de recebimento de valores baixos pode não motivar as pessoas a procurarem as instituições financeiras com as quais mantém ou mantiveram relacionamento atrás de informações”, afirmou o BC em nota.

A expectativa é que o sistema esteja em funcionamento em dezembro, informou o BC. O programa vai se chamar Sistema de Informações de Valores a Receber (SVR), e a consulta será online.

VEJA AS INFORMAÇÕES – O sistema será alimentado pelas seguintes informações que os bancos e demais instituições financeiras precisam repassar ao Banco Central:

+ contas de depósitos em moeda nacional encerradas com saldo disponível;

+ contas de pagamento pré-paga e pós-paga encerradas com saldo disponível;

+ contas de registro mantidas por sociedades corretoras de títulos e valores mobiliários, por sociedades distribuidoras de títulos e valores mobiliários utilizadas para registro de operações de clientes encerradas com saldo disponível;

+ tarifas cobradas indevidamente, não devolvidas ou sujeitas à devolução em decorrência de compromissos com entidades e órgãos reguladores e de fiscalização;

+ parcelas ou obrigações relativas a operações de crédito cobradas indevidamente, não devolvidas ou sujeitas à devolução em decorrência de compromissos com entidades e órgãos reguladores e de fiscalização;

+ cotas de capital e rateio de sobras líquidas de beneficiários e participantes de cooperativas de crédito;

+ recursos não procurados relativos a grupos de consórcio encerrados;

+ outras situações que englobem valores a devolver reconhecidos pelas instituições financeiras.

A partir de outubro, as instituições precisam enviar as informações ao BC mensalmente, exceto no caso dos recursos relativos a grupos de consórcio, que serão informados trimestralmente.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
– Belíssima iniciativa. Tenho interesse todo especial pela tarifas. Um banco (a Caixa), que me cobra uma tarifa só para eu ter a conta, vou lá reclamar. Tem outro (Itaú), que faz o mesmo e ainda me cobrava para eu ter cartão de crédito. Reclamei e eles pararam de cobrar o cartão, falta a tarifa da conta. E um terceiro banco (Bradesco) também cobrava tarifa pela conta, reclamei, porque era conta-salário e eles cortaram. Os bancos têm mentes maquiavélicas que ficam inventando maneiras de nos extorquir (a palavra correta é esta). (C.N.)

Na CPI, o submundo policial do Senado grita o que é ‘ciência boa’ e o que é ‘ciência ruim’

CPI da Covid

Os senadores da CPI deviam equilibrar um pouco a cena

J.R. Guzzo
Estadão

Um dos efeitos mais notáveis da covid, e não só no Brasil, foi ter criado um tipo até então desconhecido de ciência – a ciência estática, na qual um bloco de cientistas tem certeza absoluta de que todo o conhecimento humano existente na área de medicina, por exemplo, chegou ao seu ponto máximo e não pode mais ser ampliado, nem modificado. Não poderia haver uma abordagem diferente para uma questão médica, sobretudo se ela nunca se apresentou antes? Não, não poderia.

A verdade científica, por esta visão do mundo, esgota-se naquilo que o professor Pedro ou o pesquisador Paulo sabem – ou, mais precisamente, naquilo que acham que está certo, ou de que gostam.

CIENTIFICAMENTE CORRETO – Resultado: é proibido discutir, segundo a ciência estática, qualquer afirmação, constatação ou hipótese que não seja aprovada pelos gestores do que se tornou hoje o universo “cientificamente correto”.

Outra maneira, menos paciente, de descrever isso tudo é dizer logo de uma vez que a política, na onda da covid, entrou com as quatro patas na ciência. Nada demonstra essa perversão tão bem quanto a “CPI” da covid, na qual o submundo policial do Senado grita todos os dias o que é “ciência boa” e o que é “ciência ruim”. A primeira é qualquer coisa que sirva aos seus interesses políticos. A segunda são os fatos que querem abolir.

Todo mundo vê: semianalfabetos que não saberiam dizer que horas são, mas têm uma carteirinha de senador, interrogando médicos e outras pessoas de bem como se fossem um soldado da PM diante de algum vagabundo numa delegacia de polícia. É um “ambiente tóxico”, disse o presidente do Conselho Federal de Medicina. E é isso, na sua forma mais grosseira, o “cientificamente correto”.

MILITANTES EM AÇÃO – Que gente com o nível de um senador de CPI faça isso, quando se pensa cinco segundos no assunto, é bem aquilo que se poderia mesmo esperar. Menos compreensível é a atuação, cada vez mais excitada, agressiva e repressora, dos médicos, pesquisadores e cientistas que praticam o “cientificamente correto” e se tornaram militantes de uma causa: a de que a covid só pode ser tratada de uma forma, a sua, e que qualquer ideia diferente tem de ser denunciada como uma ameaça à saúde pública.

Assumiram o papel de vigilantes. Na vertente mais lamentável da sua conduta, querem punição, inclusive penal, para colegas que estiverem em desacordo com eles.

A política e a ideologia já interferem de maneira cada vez mais rancorosa nas disciplinas da ciência ligadas ao meio ambiente, na biologia humana, na gramática – fala-se, até, de uma “matemática negra”. Por que a medicina seria poupada dessas deformações?

SEM CREDIBILIDADE – Mas é especialmente perturbador que a contaminação política vá tornando cada vez menor, junto à população brasileira, a credibilidade da medicina e dos médicos. Talvez nada comprove isso de maneira tão clara quanto a guerra aberta ao tratamento precoce da covid – ou as tentativas de se fazer alguma coisa pelo paciente antes que a sua situação se agrave a ponto de precisar de uma UTI.

O Conselho Federal de Medicina se coloca, claramente, a favor do direito dos médicos de darem o tratamento que julgarem mais indicado para quem lhes pede socorro, dentro de sua relação pessoal e intransferível com os clientes. É assim em todas as doenças – por que não na covid? Negar a liberdade do médico, aí, é tornar ilegal o livre exercício da medicina no Brasil.

O CFM tem a atribuição constitucional de supervisionar a prática da medicina no País; não é um botequim onde se dá palpite sobre remédio. Não faz nenhum sentido, como acontece na CPI e nos grupos onde se trata a covid como questão política, jogar suas recomendações na lata de lixo.

Bolsonaro acena ao baixo escalão das Forças Armadas, além das Polícias Militares e Bombeiros

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Bolsonaro investe para ter fortes ligações com os PMs

Deu no Correio Braziliense

A decisão do comando do Exército em não punir o general Eduardo Pazuello, que, na última semana, foi acolhido em outro cargo no Palácio do Planalto, gerou reação imediata de diferentes frentes políticas no Brasil. Analistas apontam que, para promover as seguidas intervenções na caserna, Bolsonaro se escora no “baixo escalão” militar, uma característica que manteve dos tempos em que chegou a capitão, oficial subalterno na gradação do Exército.

Para o sócio da Hold Assessoria Legislativa, André César, o chefe do Executivo está criando uma mobilização nas baixas patentes “porque elas falam a língua dele”, assim como as Polícias Militares e os Corpos de Bombeiros.

QUEBRA-CABEÇA – “O presidente está jogando, montando um quebra-cabeça, peça por peça, para fazer uma projeção que pode ser uma prévia de uma ação mais efetiva e mais dramática. Bolsonaro saiu da retórica para a ação. E essa ação pode se dar em cima dos bolsonaristas raiz, da Polícia Militar e do baixo escalão dos militares”, alerta André César.

Camilo Onoda Caldas, diretor do Instituto Luiz Gama, constitucionalista e doutor em Filosofia e Teoria Geral do Direito pela Universidade de São Paulo, tem uma visão semelhante. Ele destaca que Bolsonaro vem testando os limites das instituições e o desafio ao comandante do Exército foi mais um.

“Nenhum episódio de ruptura institucional acontece a partir de um ato isolado. É sempre uma soma de pequenos atos que podem culminar em um grande evento. O regime autoritário não se institui do dia para a noite. Ele testa as instituições. Já tivemos outras experiências no governo Bolsonaro e essa, claramente, é mais uma”, observou.

TOLERÂNCIA – A decisão do comandante do Exército, para o jurista, mostrou uma corporação disposta a tolerar ações políticas de seus agentes. “Imagine se fosse em um ato do Lula? As Forças Armadas proíbem ato político. Basta pensar: se fosse Lula e um general. Alguém ia dizer que não tem caráter político? As Forças Armadas já estão dizendo que são mais tolerantes com um grupo do que com o outro”, aponta.

Professor de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), Rodrigo Patto Sá Motta afirma que a decisão do comandante “acende um alerta e gera uma preocupação sobre qual postura o Exército vai tomar no cenário eleitoral”. “Talvez o que o Bolsonaro queira não seja garantir o alinhamento de todos, mas garantir um bloco forte ao lado dele. Talvez, nas contas que faça, isso seja suficiente”, diz.

O professor ressalta que o mais importante é observar quem estaria disposto a “dar um golpe” a favor do presidente.

CÁLCULO DO GOLPISTA – “Essa é a pergunta real. A decisão de não punir a indisciplina é muito ruim, porque indica a tolerância à anarquia e um aval para tomar medidas golpistas a favor do Bolsonaro”, afirma.

Segundo ele, entretanto, o “cálculo do golpista não é só dar o golpe, mas ter força para governar”. Nesse caso, sem o apoio da maior parcela população, do empresariado e da grande imprensa, a situação se complicaria, caso invista numa tentativa sem sustentação de dentro ou de fora do país.

Analista político do portal Inteligência Política, Melillo Dinis não vê risco de ruptura da ordem democrática com o apoio do Exército. “Duvido que o Exército tome partido a favor do presidente. Do ponto de vista geopolítico, isso é fechar o Brasil. Quem vai querer, num contexto que não é de guerra fria, num contexto internacional, se liquidar junto com Bolsonaro?”, questiona.

GEROU DESGASTE – A decisão do general Paulo Sérgio Nogueira, para Melillo, gera o desgaste da democracia, do Exército e do presidente. “Ninguém sai disso por cima. É ilusão achar que Bolsonaro saiu por cima desse episódio. Ele saiu com muitos problemas para resolver”, avalia. Para o analista, ao atropelar a disciplina militar para submeter aos seus objetivos, o presidente dá um salto no escuro “que vai ter volta do Exército enquanto instituição”.

No último dia 2, durante cerimônia de formatura do curso de aperfeiçoamento de oficiais da Polícia Militar do Distrito Federal, o coronel William Delano Marques de Araújo, que comanda a academia, encerrou seu discurso dizendo:

“Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. Em seguida, o coronel Márcio Cavalcante de Vasconcelos, comandante-geral da PM-DF, concluiu sua fala da seguinte forma: “Deus os abençoe, muita sorte, sucesso. Brasil acima de tudo, Deus acima de todos”. As frases remetem ao lema da campanha eleitoral de Jair Bolsonaro, que, aliás, participou do evento.

NO BAIXO ESCALÃO – Desde que assumiu, o presidente é frequentemente visto em cerimônias das polícias militares, tanto nos eventos de formação de oficiais quanto no de soldados. Para o professor Rodrigo Patto Sá Motta, professor de História da Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG), a imagem que se projeta é a de que Bolsonaro comanda o Exército passando por cima dos regulamentos. Algo que, segundo ele, tem peso nas PMs, forças auxiliares à Arma terrestre.

“Muita gente tinha expectativa de que o Exército seria mais institucional, uma força da República, serviria de anteparo ao bolsonarismo nas polícias. Mas isso não se confirma. A sensação que fica é a de que uma aventura golpista, que, porventura, venha de policiais, pode não ter anteparo das Forças Armadas. Podem se omitir, lavar as mãos”, avalia.

Eleito com o apoio dos militares, inclusive dos policiais, e das categorias da área da Segurança Pública, é preciso observar de perto o movimento dessas corporações.

Megaempresários enfim percebem que o capitalismo precisa entrar em nova fase, mais humana

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Charge do Eneko (Arquivo Google)

Matthew Wilburn King
BBC Future

Quase 250 anos atrás, o economista e filósofo Adam Smith escreveu o livro A Riqueza das Nações, em que descreveu o nascimento de uma nova forma de atividade humana: o capitalismo industrial. Porém, ele e seus contemporâneos não imaginavam o quanto o novo sistema criaria um acúmulo de riqueza em poucas mãos.

O capitalismo alimentou as revoluções industrial e tecnológica, remodelou o mundo e transformou o papel do Estado em relação à sociedade.

PONTOS NEGATIVOS – Ele tirou inúmeras pessoas da pobreza nos últimos dois séculos, aumentou significativamente os padrões de vida e levou ao desenvolvimento de inovações que melhoraram radicalmente o bem-estar humano, além de tornar possível a ida à Lua e a leitura deste artigo de opinião.

No entanto, a história do capitalismo não é totalmente positiva.  Nos últimos anos, as deficiências do sistema se tornaram cada vez mais evidentes.

Priorizar ganhos de curto prazo para as pessoas às vezes fez com que o bem-estar de longo prazo da sociedade e do meio ambiente fosse jogado fora, especialmente porque o mundo está lutando ao mesmo tempo contra uma pandemia de coronavírus e as mudanças climáticas.

QUAL É O FUTURO – Nos últimos anos, várias ideias e propostas surgiram com o objetivo de reescrever o contrato social do capitalismo. Há o modelo dos “cinco capitais”, articulado por Jonathan Porritt, autor de “Capitalism As If The World Matters”.

Porritt pede a integração de cinco pilares do capital humano: natural, humano, social, manufaturado e financeiro, nos modelos econômicos existentes. Um exemplo tangível de onde as empresas estão começando a abraçar “os cinco capitais” é o movimento B-Corporation. As companhias certificadas cumprem a obrigação legal de considerar “o impacto de suas decisões sobre seus trabalhadores, clientes, fornecedores, comunidade e meio ambiente”.

Suas fileiras agora incluem grandes corporações como Danone, Patagonia e Ben & Jerry’s (que é propriedade da Unilever).

MUNDO E MEIO AMBIENTE – Essa abordagem se tornou cada vez mais comum, refletida em uma declaração de 2019 divulgada por mais de 180 CEOs corporativos, redefinindo “o propósito de uma corporação”.

Pela primeira vez, os CEOs que representam o Wal-Mart, Apple, JP Morgan Chase, Pepsi e outros reconheceram que devem redefinir o papel dos negócios em relação à sociedade e ao meio ambiente.

Sua declaração propõe que as empresas devem fazer mais do que oferecer benefícios aos seus acionistas. lém disso, devem investir em seus funcionários e contribuir para a valorização dos elementos humanos, naturais e sociais do capital a que Porritt se refere em seu modelo, ao invés de focar apenas no capital financeiro.

LUCROS EXCESSIVOS – Em uma entrevista recente ao Yahoo Finance sobre o futuro do capitalismo, o CEO da Best Buy, Hubert Joly, disse que “o que aconteceu é que por 30 anos, da década de 1980 a 10 anos atrás, tivemos essa abordagem única sobre os lucros excessivos. Isso causou muitos desses problemas. Precisamos afrouxar esse modelo. Se tivermos uma refundação de negócios, também pode ser uma refundação do capitalismo… Eu acho que isso pode ser feito, tem que ser feito.”

Mais de três décadas atrás, a Comissão Brundtland das Nações Unidas escreveu no documento “Nosso Futuro Comum” que havia ampla evidência de que os impactos sociais e ambientais são relevantes e devem ser incorporados aos modelos de desenvolvimento.

MAIS INCLUSIVO – Ora, é óbvio que essas questões também devem ser consideradas dentro do contrato social que sustenta o capitalismo, para que ele seja mais inclusivo, holístico e integrado aos valores humanos básicos.

Coletivamente, eles podem apoiar empresas alinhadas com suas crenças e exigir continuamente novas leis e políticas que transformem o cenário competitivo das empresas para que possam aprimorar suas práticas.

Quando Adam Smith observava o nascente capitalismo industrial, em 1776, ele não podia prever o quanto ele transformaria nossas sociedades hoje. Portanto, era aceitável sermos tão cegos quanto ao que o capitalismo se transformaria. No entanto, isso não significa que não devamos nos perguntar como ele pode evoluir para algo melhor no curto prazo. O futuro do nosso planeta depende disso.

Governo ataca The Economist, erra na tradução e diz que a revista sugere “matar” Bolsonaro

Cristina Camargo Folha  / Charge do Sponholz

Em uma sequência de 23 tuítes neste domingo (6), a Secom (Secretaria de Comunicação da Presidência) atacou a revista The Economist após a reportagem especial “É hora de ir embora”, sobre o Brasil, com dez páginas que abordam temas como economia, corrupção, Amazônia e as perspectivas para o país.

Uma das críticas traduziu incorretamente termo da revista britânica. A Secom afirma que a The Economist defendeu a eliminação do presidente. A frase correta é “a prioridade é derrotá-lo nas urnas” e não “a prioridade é eliminá-lo”.

MICO HILÁRIO – “Estaria o artigo fazendo uma assustadora apologia ao homicídio do presidente?”, pergunta um dos tuítes da Secom, o de número 14, num mico hilariante.

A Secom do governo de Jair Bolsonaro acusa a revista britânica de produzir uma narrativa “falaciosa, histriônica e exagerada”.

“A revista The Economist enterra a ética jornalística e extrapola todos os limites do debate público”, diz o primeiro tuíte. “Com o objetivo de atacar o presidente da República e influenciar os rumos políticos do Brasil, destila uma retórica de torcida organizada e acaba, na verdade, atacando o intenso trabalho do governo do Brasil, a autonomia da nação brasileira e os brasileiros como um todo.”

TIRAR PELO VOTO – Em um dos trechos do caderno especial, a revista afirma que é preciso realizar reformas, combater a corrupção e defender a Amazônia, “mas será difícil mudar o rumo enquanto Bolsonaro for presidente. A prioridade mais urgente é tirá-lo pelo voto”.

A longa resposta do governo é baseada na constatação da publicação da revista sobre as dificuldades para o país caso Bolsonaro seja reeleito.

“Do que está falando The Economist? Que curso gostariam de mudar?”, pergunta a Secom, para em seguida listar medidas adotadas pelo governo durante a pandemia da Covid-19.

AÇÕES DO GOVERNO – São citados na sequência de tuítes o estado de emergência em saúde pública “antes mesmo de a OMS decretar pandemia”, investimentos no combate à Covid-19, vacinação da população, auxílio emergencial, crescimento do PIB e até mesmo geração de empregos.

“Claro está que, com sua retórica insana, a revista busca desmerecer todo o incontestável trabalho de defesa da vida e de preservação do emprego, das liberdades e da dignidade dos brasileiros. Sob o disfarce de crítica ao presidente, a The Economist a taca a nação brasileira”, diz a resposta.

Em um trecho da reação que repercutiu nas redes sociais, a Secom faz um resumo da “narrativa do texto” da revista. “O presidente seria um ditador que estaria matando o próprio povo; seus apoiadores estariam dispostos à guerra civil e o Exército estaria disposto a intervir caso o presidente perca as próximas eleições.”

QUESTÃO DA AMAZÔNIA – Além de responder à revista, o governo Bolsonaro questiona supostas contradições no texto do caderno especial e acusa a revista de “panfletarismo juvenil” ao apontar o risco de devastação da Amazõnia.

“Em outras palavras: parece que o desespero da Economist e do jornalismo militante, antidemocrático e irresponsável é para que o presidente da República seja ELIMINADO o quanto antes, antes que ele e seu governo concluam o excelente trabalho que fazem para o bem do Brasil”, finaliza a Secom.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Esse tipo de “resposta” oficial exibe o amadorismo da Secretaria de Comunicação do Planalto, supostamente comandada por militares que não entendem do ramo, mas verdadeiramente dirigida pelo “Gabinete do Ódio”, que é pior ainda e expõe ao ridículo a imagem do país.  (C.N.)

Planalto reconhece que afastamento de Caboclo abre crise que amplia desgaste da Copa América

Presidente da CBF, Rogério Caboclo

O romântico Caboclo dificilmente poderá voltar à CBF

Gerson Camarotti
G1 Brasilia

Interlocutores do presidente Jair Bolsonaro demonstraram preocupação com o afastamento do presidente da CBF, Rogério Caboclo, poucos dias antes da realização da Copa América no Brasil. Caboclo foi afastado após denúncias de assédio sexual e moral por parte de uma funcionária da CBF.

A avaliação desse núcleo mais próximo é que o afastamento cria um “ambiente turvo” e “amplia desgaste” para a competição, que tem sido criticada por ser realizada em plena pandemia e com risco de terceira onda no país.

REVOLTA DO TIME – A maior insegurança entre auxiliares é com a dificuldade da CBF controlar a insatisfação de jogadores e corpo técnico da seleção com a realização da Copa América. No governo, a percepção é que dificilmente Caboclo terá condições de reassumir o comando da entidade.

Nas palavras de um interlocutor de Bolsonaro, uma coisa seria conter essa rebelião com Caboclo no comando. Outra coisa será enfrentar essa insatisfação na gestão interina de Antônio Carlos Nunes, o Coronel Nunes, vice-presidente que assumiu por ser o mais velho.

SEM RISCO, MAS… – A avaliação palaciana é que não há risco para realização da competição no país. Mas há grande desconforto no governo com uma manifestação crítica dos jogadores com a vinda da Copa América para o país. Caboclo conduziu a negociação sem o conhecimento da comissão técnica e jogadores.

Ao mesmo tempo, também há desconforto no governo com o desgaste de imagem envolvendo Caboclo e a denúncia de assédio sexual e moral a uma das secretárias da CBF, com gravação e tudo o mais.

Bolsonaro recusou a vacina da Pfizer a 50% do valor pago por EUA e União Europeia

O ex-ministro da Saúde Eduardo Pazuello. Foto: Leopoldo Silva/Agência Senado

Pazuello agiu como um idiota, num governo de imbecis

Fernando Canzian E Natália Cancian
Folha

O governo Jair Bolsonaro recusou vacinas da Pfizer no ano passado à metade do preço pago por Estados Unidos, Reino Unido e União Europeia. Consideradas caras em agosto de 2020 pelo então ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, até 70 milhões de doses da Pfizer poderiam ter sido entregues a partir de dezembro por US$ 10 cada. A vacinação antecipada teria evitado mortes e os prejuízos bilionários provocados pelo fechamento da economia.

Com um PIB (Produto Interno Bruto) total de R$ 7,4 trilhões em 2020, os R$ 30 bilhões agora previstos pelo Ministério da Saúde para a vacinação brasileira correspondem a um dia e meio de um hipotético lockdown nacional —desconsiderando domingos e feriados.

COMPARAÇÕES – O valor equivale a 10% do auxílio emergencial pago em 2020 e é menos do que os R$ 44 bilhões previstos neste ano para compensar o fechamento da economia.

EUA e Reino Unido já imunizaram cerca de 40% da população com duas doses das várias vacinas adquiridas e têm economias funcionando quase livremente. Ambos pagaram cerca de US$ 20 pelas doses da Pfizer, o dobro do valor recusado pelo Brasil durante vários meses em 2020. Na União Europeia, as doses do laboratório norte-americano custaram US$ 18,60.

No Brasil, com o atraso nos contratos, as primeiras doses da Pfizer chegaram só em abril. Oito meses se passaram entre a primeira oferta e a entrega.

PFIZER ENVIOU 53 E-MAILS – O vice-presidente da CPI da Covid, senador Randolfe Rodrigues (Rede-AP), contabilizou 53 emails enviados pela Pfizer ao governo a partir de agosto cobrando resposta sobre a oferta dos 70 milhões de doses.

À CPI, Pazuello qualificou a proposta da Pfizer como “agressiva”, apontou entraves em cláusulas do contrato e disse ter considerado muito elevado o preço de US$ 10 por dose —valor acatado meses depois ainda na gestão de Eduardo Pazuello.

Antes das doses da Pfizer, a imunização ocorria com vacinas do Butantan e da AstraZeneca, mas em quantidades baixas. A vacinação brasileira com duas doses limita-se a 11% da população.

CAUSA PREJUÍZOS – Na economia, isso trava principalmente o setor de serviços, responsável por 70% do PIB e dos empregos. Nos serviços atuam sobretudo os mais pobres e menos escolarizados, que dependem do trabalho fora de casa para obter renda.

Sem vacina, a ocupação desses trabalhadores caiu até 20% na pandemia, aumentando a desigualdade e a pobreza extrema a níveis de 15 anos atrás. O colapso nos serviços levou a série histórica de desemprego do IBGE a um recorde: 14,7%, com 14,8 milhões de desocupados.

O Ministério da Saúde diz ter destinado R$ 30 bilhões para a contratação de mais de 660 milhões de doses de vacinas contra a Covid-19 —considerando no cálculo unidades que ainda não encomendou de fato. Em dólares, portanto, o país está reservando cerca de US$ 9, em média, por dose.

PREÇOS COMPATÍVEIS – De um modo geral, na comparação internacional feita pela Folha com base nas informações disponíveis, o Brasil está pagando preços compatíveis com a maior parte dos países. A grande vantagem a favor do Brasil se dá justamente com o imunizante da Pfizer —o primeiro a ter sido oferecido (e ignorado) ao governo Bolsonaro.

Para Paulo Lotufo, epidemiologista e professor da Faculdade de Medicina da USP, o Brasil perdeu “uma chance de ouro de emplacar logo com a Pfizer a preços convenientes”.

“A Pfizer percebeu que estaria na frente [na corrida das vacinas], mas precisaria muito do Brasil porque seria um local de aplicação imediata, uma vitrine maior do que Israel acabou sendo, com a vantagem de o SUS ser bom pagador e único no país”, diz Lotufo.

VALERIA A PENA – “Qualquer que fosse o preço da vacina oferecida ao Brasil, valeria a pena. Seja pelo impacto em vidas, pelas colossais perdas de uma economia fechada ou o custo de R$ 1.500 ao dia de um paciente internado em uma UTI Covid”, diz Eder Gatti, infectologista especialista em imunização.

Segundo Gatti, nos últimos anos o Ministério da Saúde deixou de realizar estudos para aferir o custo-benefício na compra de vacinas, a exemplo do que fez em 2006 para adquirir imunizantes contra o rotavírus —causador da DDA (doença diarreica aguda) e da gastroenterite aguda. Gatti diz que o Reino Unido, por exemplo, tem quase obsessão com esse tipo de cálculo.

Segundo Martin Weale, economista no King’s College, em Londres, a economia potencial com o fato de o Reino Unido ter acelerado seu programa de compra de doses e a vacinação pode ser estimada em cerca de 300 bilhões de libras (R$ 2,1 trilhões) ao ano, já descontado o gasto com todo o processo de imunização.

CUSTO-BENEFÍCIO – O total leva em conta não só a perda potencial de 220 bilhões de libras (R$ 1,6 trilhão) em termos de PIB causada pelo abre e fecha da economia, mas as vidas e gastos adicionais poupados pelos sistemas de saúde e educação.

Para acelerar a vacinação, o Reino Unido pagou US$ 37 por dose da Moderna, embora tenha limitado essa compra a 17 milhões de unidades.

Para Benedic Ippolito, pesquisador especializado em preços de medicamentos no American Enterprise Institute, em Washington, “o custo das vacinas é muito pequeno em relação ao potencial contrafactual [o estrago econômico causado por lockdowns]”. “É como dar de ombros e dizer: ‘OK, esse preço pode estar alto. Mas essa é uma pandemia única e podemos lidar com a questão dos valores depois’.”

Israel informou ter pago há muitos meses US$ 23,50, em média, por imunizantes da Pfizer e da Moderna e já vacinou cerca de 60% da população com duas doses.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
A matéria é importantíssima e definitiva. Mostra que, na aquisição de vacinas, o general intendente Pazuello se comportou como se estivesse comprando leite condensado para o Exército, discutindo preços, fazendo birra e pressionando o fornecedor. Jamais lhe passou pela cabeça levar em conta o custo-benefício de comprar imediatamente as vacinas. Em tradução simultânea, agiu como um idiota, num governo de imbecis. (C.N.)

Ao não conseguir enxergar a suspeição de Toffoli, o Supremo se desmoraliza por completo

Dos 11 do Supremo, só 2 são juízes concursados – Por José Nêumane

Charge do Mariano (Charge Online)

Deu na Gazeta do Povo

Uma decisão do Supremo Tribunal Federal tomada por meio do plenário virtual, sem transmissão na TV Justiça, enterrou de vez qualquer possibilidade de investigação contra um de seus ministros, Dias Toffoli.

O ministro Edson Fachin já havia negado liminarmente autorização para a Polícia Federal investigar a denúncia, feita pelo ex-governador fluminense Sérgio Cabral, de que Toffoli teria vendido sentenças quando era presidente do Tribunal Superior Eleitoral.

ANULAR A DELAÇÃO – Agora, o plenário da corte decidiu anular a delação toda, que Fachin havia homologado no início de 2020. O pedido de anulação veio da Procuradoria-Geral da República, que não participou do acordo de colaboração premiada.

 Toffoli negou as acusações, e o vice-procurador-geral Humberto Jacques de Medeiros alegou que o ex-governador Cabral agia de má-fé, apresentando apenas fatos já conhecidos e sem provas que embasassem suas alegações – requisito essencial em qualquer acordo de colaboração premiada.

A argumentação da PGR foi aceita por sete ministros e rejeitada por quatro. Não é nosso objetivo, neste momento, analisar as alegações da PGR ou entrar no debate sobre a competência para se assinar acordos de colaboração, mas constatar que o suposto escândalo de venda de sentenças, que agora não terá mais como ser investigado, deu lugar a um escândalo real: o de um magistrado que participa de um julgamento no qual ele tem interesse direto.

SUSPEIÇÃO TOTAL – Ao votar em um julgamento cujo resultado lhe interessava diretamente, Toffoli diz ao Brasil que os ministros do Supremo realmente consideram estar acima de tudo

Isso porque Toffoli, para a surpresa até mesmo de seus colegas de suprema corte, resolveu participar do julgamento, votando – obviamente – pela anulação da delação de Cabral. Juntou-se, assim, a Fachin, Gilmar Mendes, Nunes Marques, Alexandre de Moraes, Ricardo Lewandowski e Luiz Fux na formação da maioria que enterrou o acordo de colaboração. E, ainda por cima, fez questão de votar quando a maioria já estava formada. P

ode-se até argumentar que a intervenção feita apenas com a situação já definida seria uma atenuante; muito pior seria proferir voto quando ainda havia risco de a delação acabar mantida. No entanto, a atitude de Toffoli é escandalosa ainda assim, porque manda uma mensagem ao Brasil: o de que os ministros do Supremo realmente consideram estar acima de tudo neste país.

A LEI É CLARA – Diz o artigo 252 do Código de Processo Penal que “O juiz não poderá exercer jurisdição no processo em que (…) IV – ele próprio ou seu cônjuge ou parente, consanguíneo ou afim em linha reta ou colateral até o terceiro grau, inclusive, for parte ou diretamente interessado no feito” – e era indiscutível o interesse de Toffoli no destino da delação de Cabral.

“Em hipótese alguma o ministro Toffoli poderia ter votado nesse caso”, afirmou a procuradora da República, professora de Processo Penal e colunista da Gazeta do Povo Thaméa Danelon. Várias outras personalidades do meio jurídico e político se manifestaram no mesmo sentido.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG – Muito importante o editorial da Gazeta do Povo, enviado à TI por Mário Assis Causanilhas. Mostra que esse plenário do Supremo tem um peso e várias medidas. Para libertar um criminoso como Lula e permitir a candidatura dele, o STF conseguiu vislumbrar uma indefinida e pouco nítida suspeição do então juiz Sérgio Moro, embora suas decisões tivessem sido confirmadas em instâncias superiores, sempre por unanimidade. No entanto, para blindar um de seus membros, famoso por ter recebido mesada de R$ 100 mil do escritório de advocacia da própria mulher, sem declarar ao Fisco, esse mesmo plenário não conseguiu enxergou que o tal ministro era suspeito para julgar a si próprio. E ainda chamam essa turma de tribunal… (C.N.)   

Alexandre de Moraes vai decidir se o deputado Daniel Silveira deve ser preso novamente

Deputado federal Daniel Silveira (PSL) chega ao IML do Rio de Janeiro (RJ) nesta quarta-feira (17) para fazer exame de corpo de delito

Daniel Silveira desrespeita as regras da prisão domiciliar

Deu no G1 — Brasília

A Procuradoria-Geral da República (PGR) se manifestou, na noite desta sexta-feira (4) a favor de que o deputado Daniel Silveira (PSL-RJ), réu no inquérito dos atos antidemocráticos, volte para a prisão por violação no uso da tornozeleira eletrônica.

Ele foi preso em fevereiro por ataques a ministros do Supremo Tribunal Federal (STF). Desde o meio de março, está em regime domiciliar.

NÃO HÁ PRAZO – A decisão sobre a volta de Silveira à prisão cabe ao ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Alexandre de Moraes, que não tem prazo para se manifestar.

Além do uso da tornozeleira eletrônica, Daniel Silveira está submetido a uma série de medidas cautelares: proibição de receber visitas sem prévia autorização judicial; proibição de contato com investigados nos inquéritos em tramitação no Supremo que apuram a organização de atos antidemocráticos e a divulgação de conteúdo falso, as chamadas “fake news”; proibição de acesso a redes sociais pelo deputado ou pela assessoria dele; proibição de concessão de entrevistas sem prévia autorização judicial.

APOLOGIA AO AI-5 – O deputado foi preso em razão de um vídeo em que fez apologia ao AI-5, instrumento de repressão mais duro da ditadura militar, e pediu a destituição de ministros do Supremo Tribunal Federal (STF).

Daniel Silveira também é alvo de processo disciplinar no Conselho de Ética da Câmara dos Deputados, que pode levar à cassação do deputado Daniel Silveira (PSL-RJ) em razão do vídeo.

O processo que tramita no Conselho é baseado em sete representações diferentes. Uma dessas representações foi apresentada pela Mesa Diretora da Câmara, encabeçada pelo presidente da Casa, Arthur Lira (PP-AL). Outras seis, de autoria dos partidos PSOL, PT, PSB, PDT, PCdoB, Rede e Podemos, foram unificadas à representação da Mesa, já que tratam do mesmo assunto.

O Chile preocupa. Por que os casos de covid estão aumentando tanto, mesmo com a vacinação?

chile vacinação covid

Chile lidera vacinação na América Latin, com 40% de imunizados

Fernando Reinach
Estadão

Para entender o fim da pandemia, cientistas estão observando como o Sars-CoV-2 se comporta nos países que estão adiantados no processo de vacinação. Dados iniciais indicam que casos, internações e mortes estão sendo reduzidos rapidamente. Mas no Chile o resultado é outro. É importante entender o que está acontecendo por lá para evitar que o mesmo aconteça no Brasil.

O problema é o Chile. Por lá, onde mais de 40% da população foi vacinada com duas doses ainda são registrados 400 casos por dia por milhão de habitantes.

CONTÁGIO EM ALTA – Esse número vem crescendo e é muito maior que o registrado no Brasil, que, com apenas 10% da população vacinada, tem pouco menos de 300 novos casos por dia por milhão de habitantes. Por outro lado, o número de mortos por milhão de habitantes no Chile é de 6 por dia por milhão de habitantes (comparado com 9 no Brasil e zero na Inglaterra e Israel). A questão que preocupa muitos cientistas é por que o número de casos e mortes continua crescendo no Chile.

Possíveis explicações incluem diferenças climáticas, novas cepas e o relaxamento prematuro do distanciamento social. Entretanto, uma importante diferença entre o Chile e os países em que o número de casos e mortes está caindo é o tipo de vacina utilizada.

Nos EUA estão sendo usadas exclusivamente vacinas de mRNA (Pfizer e Moderna). Na Inglaterra vacinas da Pfizer e da AstraZeneca foram utilizadas em proporções semelhantes. Na Alemanha 80% das doses são Pfizer e Moderna e 20% são AstraZeneca. Em Israel 100% das doses são Pfizer. Essas vacinas têm alta eficácia e efetividade. Por outro lado, no Chile, 85% das doses ministradas são de Coronavac e 15% de Pfizer.

MENOR EFICIÊNCIA – Uma possível explicação para as diferenças encontradas no Chile é a menor eficiência da Coronavac. Talvez a Coronavac seja capaz de reduzir internações e mortes, mas não consiga impedir completamente a propagação do vírus. Quando os resultados da fase 3 da Coronavac e do estudo em Manaus forem publicados, e os de Serrana forem terminados e avaliados, é possível que essa hipótese seja comprovada ou descartada. O tempo dirá.

Embora o Chile esteja realizando um dos processos de imunização mais bem-sucedidos do mundo, com o qual conseguiu reduzir o número de internações de idosos, o governo ainda não foi capaz de conter a propagação do vírus

No Brasil iniciamos a vacinação com a Coronavac e logo em seguida começamos a usar a vacina da AstraZeneca. Hoje estamos usando 50% de cada uma delas. Com a compra de 200 milhões de doses da Pfizer, é possível que quando chegarmos a 40% da população vacinada com duas doses, mais de 50% do total de doses ministradas seja da Pfizer e o restante seja dividido entre Coronavac e AstraZeneca.

UM BOA NOTÍCIA – Portanto, é pouco provável que tenhamos 85% das doses vindas da Sinovac/Butantan como ocorre no Chile. Nosso futuro talvez esteja mais próximo do que ocorre hoje na Inglaterra do que ocorre no Chile. Isso é uma boa notícia. O triste é que já poderíamos estar com 40% da população vacinada.

Israel é o país que vacinou a maior fração de sua população (60%). Em seguida existem três países onde aproximadamente 40% da população já foi vacinada: Chile, Estados Unidos e Inglaterra. Entre os três, foi o Chile que vacinou mais rapidamente. Mais abaixo, como comparação, estão a Alemanha com 20% e o Brasil, onde pouco mais de 10% da população foi vacinada com duas doses. Quando quadruplicarmos o número de vacinados, chegaremos ao nível de Chile, EUA e Inglaterra.

ISRAEL À FRENTE – O número de casos por milhão de habitantes é quase nulo em Israel (que vacinou 60% da população). Na Inglaterra e USA, onde 40% da população foram vacinados com duas doses, o número de novos casos é de 50 por dia por milhão de habitantes. E mesmo a Alemanha, com 20% da população vacinada, também está com 50 casos por dia por milhão de habitantes.

O Brasil, com 10% de vacinados na segunda dose, ainda está longe de Alemanha, Inglaterra, EUA: estamos com 300 casos por dia por milhão de habitantes, seis vezes mais que esses países. Mas isso já era esperado, pois estamos no início do processo de vacinação e temos dificuldade em implementar medidas de distanciamento social.

Polícia Federal insistiu em devassar atos antidemocráticos, e Aras levou 5 meses até preferir “arquivar”

Charge do Nani (nanihumor.com)

Deu no G1 — Brasília

A Polícia Federal defendeu junto à Procuradoria-Geral da República (PGR) um aprofundamento das investigações do inquérito dos atos antidemocráticos. A PGR, no entanto, demorou cinco meses para se manifestar e, na sexta-feira (4), pediu ao Supremo Tribunal Federal (STF) o arquivamento do inquérito.

Parlamentares e blogueiros bolsonaristas são investigados no inquérito, que apura o financiamento e a organização de manifestações realizadas em abril do ano passado. A abertura do inquérito foi pedida pela PGR e autorizada pelo STF. As manifestações levantaram causas inconstitucionais, como ataques ao Congresso e ao STF e apologia ao AI-5, considerado o ato mais repressor da ditadura militar.

SEM COMPROVAÇÃO? – Ao pedir o arquivamento, o vice-procurador-geral da República, Humberto Jacques de Medeiros, argumentou que as investigações da PF não conseguiram apontar a participação dos deputados e senadores nos supostos crimes investigados.

A TV Globo teve acesso a documento que comprova que o relatório parcial da PF foi liberado para a PGR em 4 de janeiro. Não foram feitas diligências por parte da PGR.

No relatório parcial, assinado pela delegada da PF Denisse Ribeiro, ela afirma que vê “justa causa” para aprofundamento das investigações, mesmo diante de “lacunas” na apuração. Algumas dessas lacunas, segundo ela, ocorreram porque a PF não conseguiu obter provas junto à CPI das Fake News.

DELEGADA INSISTIU – “Apesar de a Polícia Federal não ter conseguido utilizar determinados meios de obtenção de prova (busca e apreensão, acesso ao conteúdo obtido pela CPI, por exemplo) para completar lacunas em alguns eventos e também para verificar a consistência e subsistência de algumas das hipóteses criminais apresentadas, observa-se que há justa causa para aprofundamento desses fatos, não necessariamente dentro do presidente inquérito situação que deverá ser avaliada pelo ex. sr. ministro relator”, disse a delegada.

Em outro trecho, a PF afirma que a investigação permitiu identificar a “existência de um grupo de pessoas que se influenciam mutuamente, tanto pessoalmente como por meio de redes sociais digitais, com o objetivo de auferir apoio político partidário por meio da difusão de ideologia dita conservadora”.

O relatório afirmou também que foi verificada a tentativa de um empresário e do deputado Eduardo Bolsonaro (PSL-SP), filho do presidente Jair Bolsonaro, de comprar ou alugar uma rádio para fortalecer apoios políticos. “Uma articulação de Otávio Fakhoury – empresário – com o deputado federal Eduardo Bolsonaro, do PSL, no intuito de adquirirem ou alugarem uma rádio com o fim de possuírem, um canal de mídia tradicional para a difusão do ideal conservador”.

CRUZAMENTO DE DADOS – Ao longo do inquérito, a PF faz uma série de cruzamento de dados e mostra a relação de empresários, políticos e apoiadores do governo. Sites que apoiam Bolsonaro lucraram durante os atos antidemocráticos

Uma das linhas de investigação da PF é se houve o direcionamento de repasse do governo federal para sites e outros canais bolsonaristas atacarem as instituições.

A PF diz que não foi possível obter informações aptas a verificar se a Secretaria de Comunicação da Presidência adotou medidas que impedissem o direcionamento de recursos federais aos canais.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Em tradução simultânea, a Procuradoria-Geral da República abriu o inquérito somente para manter as aparências. Sentou em cima, deixou o tempo passar, sem fazer diligências, e agora quer arquivar. O argumento do subprocurador é de uma desfaçatez assustadora. Alega que não se comprovou o envolvimento de deputados e senadores. Ora, é claro que não. Os atos pediam justamente o fechamento do Congresso e nenhum parlamentar quer perder a boca rica, como se dizia antigamente. (C.N.)

No mundo moderno, não há espaço para aventuras extremistas em países como o Brasil

Charge do Genildo (genildo.com)

Merval Pereira
O Globo

O arquivamento do processo de indisciplina contra o General Eduardo Pazuello, sob pressão do presidente Bolsonaro, foi um erro do Comandante do Exército, General Paulo Sérgio Nogueira, gerou insegurança e alimentou suspeitas de que o Exército sucumbiu a um projeto autoritário que está em curso. Suspeitas assumidas por mim, no impacto da notícia surpreendente.

A versão de que o Alto Comando do Exército acatou a decisão de não punir Pazuello para não criar mais uma crise militar pode denotar ingenuidade por parte dos generais quatro estrelas, mas anula a de que o golpe de Bolsonaro representa a submissão política de uma instituição de Estado ao projeto autoritário do governo da ocasião.

SINUCA DE BICO – No caso específico, Comandante e Exército como instituição se encontravam numa verdadeira “escolha de Sofia”, ou, em português popular, numa “sinuca de bico”. O ato do Pazzuelo foi, sem dúvida, contrário aos regulamentos militares. Mas foi praticado, de fato, não pelo General, e sim pelo Presidente, ao chamar um General da ativa para uma manifestação política, e levá-lo ao palanque.

Mais, ao manifestar seu apoio ao general, o Comandante em Chefe colocou o Exército e seu comandante na seguinte situação:

1 – Mantém os regulamentos e pune o General – e implicitamente “pune” o seu comandante em Chefe – tendo como consequência a revogação da punição pelo Presidente e, em seguida, a demissão do General Paulo Sérgio Nogueira (o que, de fato, é um dos objetivos do Bolsonaro). Se o Exército aceita essa decisão está, de fato, “dominado”; se não aceita, tem de “demitir” o Presidente. 

2 – Passa por cima da punição, numa aparente “derrota” imediata da disciplina, mas mantém a linha atual de comando, aprofunda o evidente “desgaste” do Presidente na Força (não há militar que se preze que aceite de bom grado a violação de seus princípios), e com isso se fortalece para uma possível “resistência” futura.

COM OU SEM GOLPE – Nesse caso, pode-se discordar da estratégia adotada pelo Comandante do Exército, mas não se deve desqualificá-la, pois teria tomado uma decisão como chefe de um órgão de Estado, e não de uma corporação.

O importante é definir se as Forças Armadas, mais especialmente o Exército, respaldam o golpe que está sendo articulado por Bolsonaro, com o apoio em seus segmentos subalternos, das polícias militares, da Polícia Federal e da Polícia Rodoviária Federal.

Bolsonaro usa a disciplina para abusar das Forças Armadas, mas não podemos dar ao Exército o epíteto de golpista, mesmo porque, se fosse verdade, o jogo estaria terminado. E não está. A ojeriza dos militares ao PT e a Lula está por trás da condescendência com que Bolsonaro é tratado, mas não pode ser razão para a quebra da ordem democrática.

SEM CONFRONTO – Além do fato de que Lula foi presidente por 8 anos, e não houve confronto entre o então Comandante em Chefe com as Forças Armadas.

 O caso ocorrido no governo Dilma, de tentativa de interferência no ensino militar, quando editou-se um decreto transferindo para o ministério da Defesa algumas das tarefas do Comandante do Exército, inclusive a definição dos currículos das escolas militares, é um osso atravessado na garganta dos militares.

Mas a solução não são as escolas militarizadas incentivadas pelo governo Bolsonaro, que representam uma tentativa de incutir as regras militares aos estudantes civis, numa ação tão perniciosa quanto a petista.

VENEZUELA AO CONTRÁRIO – No mundo moderno, não há lugar para aventuras extremistas, pelo menos em países como o Brasil, com um peso geopolítico específico de líder regional.

Não podemos virar uma Venezuela com sinal trocado, nem uma Bielorússia. O fato é que estamos isolados no mundo, e temos que voltar a nos unir aos organismos internacionais que regem os países democráticos do Ocidente. O receio da volta da esquerda ao poder nos aproxima de um pensamento regressivo que torna o Brasil um pária internacional.

Não é possível que a maioria das Forças Armadas admita respaldar um regime autoritário comandado por um capitão que abusa do “seu Exército” em nome da proteção contra uma assombração esquerdista. É o mesmo erro cometido pelos que consideravam as milícias uma solução para a segurança pública.

Após o assédio sexual, um homem chamado Caboclo é afastado da presidência da CBF

Rogério Caboclo CBF

Caboclo vai ter de pagar uma bela indenização à secretária

Deu no Lance!

O presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), Rogério Caboclo, foi afastado do cargo de presidente da entidade por trinta dias após decisão do Conselho de Ética. O cartola foi acusado de assédio sexual e moral por uma funcionária da instituição.

Com o afastamento do cartola, quem assume a presidência da CBF é Antônio Carlos Nunes, o vice mais velho da instituição. Uma reunião entre os diretores e vice-presidentes foi convocada para a manhã desta segunda-feira, 7, no Rio de Janeiro.

ASSÉDIO SEXUAL E MORAL – O cartola Rogério Caboclo foi acusado formalmente de assédio sexual e moral por uma funcionária da CBF. Na denúncia, a sua secretária diz que o presidente perguntou se ela se masturbava, além de tentar forçá-la a comer um biscoito de cachorro, chamando-a de “cadela”.

Além disso, o presidente da CBF sofre pressão de jogadores por conta da crise da Copa América, que teve a sua sede mudada para o Brasil, gerando insatisfação de atletas.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG –
O assédio sexual é apenas um detalhe. Rogério Caboclo, presidente da CBF, pagou R$ 10,5 milhões em um apartamento no Rio de Janeiro. O valor foi pago à vista. O imóvel fica localizado na Barra da Tijuca e a compra foi feita em dezembro de 2019. A aquisição foi realizada oito meses após o cartola assumir o cargo na confederação que determina os rumos do futebol brasileiro. A lista de compras de imóveis do dirigente vem aumentando desde 2013. De lá para cá, a empresa da qual Caboclo é sócio gastou mais de R$ 23 milhões na aquisição de imóveis. Ao colunista Diego Garcia, do UOL, o cartola disse que a compra foi compatível com o que ganha. Como dizia Ibrahim Sued, gente fina é outra coisa. (C.N.)

Coalizão israelense é uma geringonça política que mantém  indefinido o futuro dos palestinos

Charge [Sabaaneh / Monitor do Oriente Médio]

Guilherme Casarões
O Globo

O Oriente Médio voltou aos holofotes internacionais graças a um novo ciclo de violência entre Israel e os palestinos, cujo desenrolar coincidiu com mais uma eleição israelense — a quarta em dois anos. São eventos interligados, que representam a dinâmica viciosa que tragou ambas as sociedades, sequestradas por forças políticas radicais que sustentam sua legitimidade pela violência, pelo ódio e pelo medo.

Por uma década, o grupo palestino Hamas e a coalizão de extrema direita liderada por Benjamin “Bibi” Netanyahu beneficiaram-se da existência um do outro. Cada foguete vindo de Gaza dava boas razões para o premier israelense caracterizar os palestinos como uma ameaça existencial ao povo judeu. Cada nova expansão de assentamentos ilegais na Cisjordânia e em Jerusalém Oriental confirma aos palestinos que Israel não está disposta a acabar com a ocupação ilegal de seus territórios.

QUEBRA DA DINÂMICA – A formação de um novo governo em Israel, a ser confirmado nos próximos dias, representa uma quebra dessa dinâmica. Pela primeira vez em 12 anos, o Likud, principal partido do país, está fora da coalizão — mesmo tendo obtido o maior número de cadeiras.

Diante de um sistema partidário fragmentado, isso se explica por uma aliança inédita entre forças políticas de centro, direita nacionalista, (extrema) direita religiosa, esquerda e até mesmo árabes muçulmanos para derrubar a hegemonia de Netanyahu.

Se a beleza da democracia está justamente na articulação e no diálogo de grupos políticos tão distintos, essa pluralidade também pode ser uma fraqueza. Em temas sensíveis, como a relação com os palestinos, não parece haver consenso possível entre árabes israelenses, sionistas progressistas e nacionalistas religiosos que já defenderam até a anexação da Cisjordânia.

SEM REVIRAVOLTA – É apressado imaginar que o novo governo representará uma reviravolta rumo à viabilização de um Estado palestino. O mais provável é que esse assunto seja evitado, até que a coalizão possa ficar de pé.

A “geringonça israelense”, essa inusitada correlação de forças, pode significar uma mudança gradativa na política de Israel, recompondo o centro democrático e trazendo de volta a governabilidade ao país.

Mas essa nova realidade não é favorável aos interesses do Hamas e de outros grupos radicais palestinos. Para eles, um governo israelense disposto a negociar mais e bombardear menos prejudica sua estratégia de incitar o medo e fomentar o terror contra civis.

NA EXPECTATIVA -Será importante observar como as lideranças palestinas, violentas ou moderadas, reagirão ao provável governo israelense. O cessar-fogo entre Israel e Hamas, celebrado duas semanas atrás, ainda é frágil demais para evitar, por si só, um novo surto de violência no entorno de Gaza.

Para a Autoridade Palestina, essa será uma janela de oportunidade para reabrir canais de diálogo, facilitado pelos representantes árabes e de centro-esquerda da coalizão, com vista a uma nova rodada de negociações, paralisadas há quase uma década.

É também fundamental acompanhar as movimentações das grandes potências, notadamente Estados Unidos e China. Como parte de suas crescentes ambições geopolíticas, o governo chinês já manifestou seu desejo de mediar as próximas etapas das conversas entre israelenses e palestinos. O tom foi de oposição a Washington, que, nos últimos anos, alinhou-se incondicionalmente ao projeto expansionista de Netanyahu.

BIDEN NA MEDIAÇÃO? – Esse reforço diplomático à causa palestina servirá de plataforma para que o recém-chegado presidente Joe Biden reposicione os EUA neste tabuleiro. Ele deverá recuperar o papel de mediação, totalmente rejeitado por Netanyahu quando Obama presidiu o país, depois implodido pela amizade entre Bibi e Donald Trump.

Maquiavel já dizia que a ação política é um misto de virtù, que diz respeito à competência e capacidade de liderança, e fortuna, que remete ao imponderável, ao acaso. Os ventos parecem estar favoráveis à retomada — oxalá derradeira — das negociações entre Israel e Palestina. Estará a “geringonça israelense” à altura desse desafio?

É precoce apostar num vencedor na eleição de 2022 sem saber quem estará na final

Charge do Benett (Folha)

Carlos Pereira
Estadão

Em pesquisa do Datafolha, realizada nos dias 20 e 21 de janeiro de 2021, foi perguntado “quem estaria fazendo mais pelo Brasil no combate ao coronavírus: o presidente Jair Bolsonaro ou o governador de São Paulo, João Doria”. Uma maior parcela, 46%, escolheu o governador Doria.

Mesmo diante dos desgastes provenientes dos sucessivos erros na gerência da pandemia, que levaram à morte mais de 456 mil vítimas da covid-19, 28% das pessoas ainda atribuíram ao presidente Bolsonaro o papel mais relevante no combate da pandemia.

RESULTADOS ESTRANHOS – Esses resultados são contraintuitivos, especialmente quando se observa que das 40 milhões de pessoas (19% da população) que já se vacinaram com a primeira dose ou das 20 milhões (9,5%) que se vacinaram com as duas doses, em torno de 65% receberam a vacina Coronavac, 33% a da AstraZeneca e 2% a da Pfizer.

Ou seja, sem a tenacidade do governador Doria e da eficiência do Instituto Butantan, apenas 6,6% da população teria sido vacinada até o momento com a primeira dose e somente 3% com as duas doses.

Por mais inusitado que possa parecer, em vez de almoçar com o governador Doria do PSDB e ajudá-lo em uma campanha de nacionalização de seu nome, o ex-presidente Fernando Henrique Cardoso (presidente de honra do PSDB) preferiu almoçar com o ex-presidente Lula.

VÁRIOS CANDIDATOS -Além de Doria, o PSDB possui pelo menos dois outros pré-candidatos à Presidência para as eleições de 2022: o senador pelo Ceará, Tasso Jereissati, e o governador do Rio Grande do Sul, Eduardo Leite. Pelo que se sabe, FHC também não convidou nenhum deles para almoçar nem os consultou sobre a pertinência do convite recebido para encontrar Lula.

A suposta justificativa de FHC para o encontro com Lula seria a necessidade de juntar forças em prol da “frágil” e “indefesa” democracia brasileira, que estaria sob ameaça iminente de quebra institucional com Bolsonaro. Para derrotar Bolsonaro em 2022, FHC já anunciou que votaria no petista no segundo turno e que também se arrependia de não ter votado em Haddad em 2018.

Estudiosos de governos populistas argumentam que, se a quebra da democracia não ocorrer num primeiro mandato, certamente ocorrerá num segundo.

TUDO SE JUSTIFICARIA –  Como Bolsonaro já deu inúmeras demonstrações do seu pouco apreço pelos procedimentos institucionais e valores democráticos, tudo se justificaria para evitar tal catástrofe. Afinal de contas, como diria o sociólogo francês Raymond Aron, a política “não é jamais uma luta entre o bem e o mal, mas entre o preferível contra o detestável”.

Entretanto, de acordo com a última pesquisa do Datafolha, Lula derrotaria facilmente Bolsonaro por 55% a 32%. Bolsonaro também perderia no segundo turno para Ciro Gomes (48% a 36%) e empataria tecnicamente com Doria (40% a 39%).

Seu governo é rejeitado por 45% da população; apenas 24% o aprovam. Para piorar, 54% dos eleitores dizem que não votariam na sua reeleição de jeito nenhum. Isso ainda sem levar em conta os efeitos negativos da CPI da Covid.

EVIDENTE FRAGILIDADE – Diante desses números desastrosos, fica evidente a fragilidade do presidente. É, portanto, no mínimo precoce que o centro democrático busque alianças ou sinalize apoio a alternativas supostamente “menos ruins” ou “menos preferíveis” no momento em que Bolsonaro dá sinais de perda expressiva de competitividade eleitoral.

Ceder ao argumento de que o governo Bolsonaro, especialmente a sua reeleição, representaria uma ameaça de ruptura democrática é pura chantagem contra uma candidatura do centro democrático. E o que é pior, significa se fiar em um salvador da pátria, com um contencioso moral para lá de questionável cujo partido levou o País para a pior recessão econômica da história, como o único capaz de derrotá-lo.

Não só o PSDB, mas o centro democrático como um todo, precisam encarar seriamente o desafio de encontrar uma alternativa competitiva que rejeite as duas opções polares existentes e se coloque no jogo. Não é possível apostar num placar antes de colocar o time em campo.

PF identifica uso irregular de rede em nome de Michelle, além da Presidência, Câmara, Senado e Exército

Charge do Nani (Nanihumor.com)

Pepita Ortega, Rayssa Motta e Fausto Macedo
Estadão

A Polícia Federal identificou que ao menos 1.045 acessos de contas ‘inautênticas’ ligadas a aliados do presidente Jair Bolsonaro – derrubadas pelo Facebook há quase um ano – partiram de órgãos públicos como a Presidência da República, a Câmara dos Deputados, o Senado e o Comando da 1ª Brigada de Artilharia Antiaérea do Exército.

Além disso, ao analisar parte dos perfis apontados pela rede social como falsos, os investigadores que atuam no inquérito dos atos antidemocráticos conseguiram identificar assinantes de redes privadas das quais partiram 844 acessos, incluindo uma provedora ligado à primeira-dama Michelle Bolsonaro.

DIZ A DELEGADA – As informações constam em relatório enviado ao Supremo Tribunal Federal pela delegada Denisse Dias Rosas Ribeiro em dezembro. No documento de 154 páginas, a delegada descreve os achados da PF, com base no relatório da Atlantic Council – instituição que realiza análise independente de remoções do Facebook por comportamento inautêntico coordenado – ao tratar de uma das hipóteses criminais sob suspeita no inquérito dos atos antidemocráticos.

Nessa linha de investigação, a PF mira o ‘movimento online de pessoas associadas para supostamente promover a difusão de ideias com potencial de causar instabilidade na ordem política e social’, identificada no relatório produzido para o Facebook. Após a plataforma divulgar a derrubada das contas apontadas no documento, os investigadores pediram para acessar os dados.

MORAES DEFERIU – O ministro Alexandre de Moraes, relator do caso no Supremo Tribunal Federal, deferiu o acesso ao relatório, no qual, segundo os investigadores, o Facebook apontou que a derrubada das contas se deram ‘em consonância com as medidas previstas para a seguinte tipologia estabelecida pela empresa’ – “Operações executadas por um governo para atingir seus próprios cidadãos. Isso pode ser particularmente preocupante quando combinam técnicas enganosas com o poder de um Estado”.

A partir do documento, a PF buscou ‘dados externos e independentes’ para checar as informações do relatório e identificou 80.552 acessos das contas apontadas no documento.

Os investigadores seguiram a análise e decidiram se debruçar sobre um dos três grupos que atuavam ‘utilizando contas inautênticas e de forma coordenada’, o chamado Grupo Brasília.

CONTAS INAUTÊNTICAS – “Utilizando o grupo Brasília como referência, limitou-se o escopo da análise a aproximadamente 15.528 vínculos de conta -> endereço IP. Desse universo foram solicitados às operadoras (Claro, Tim, Oi e Vivo) dados cadastrais de 5.120 vínculos de contas com endereço IP, sendo que apenas 844 acessos tiveram seus assinantes identificados (total 31 assinantes), dos quais alguns deles com vínculos com os proprietários das contas inautênticas apontadas pelo Facebook”, diz o relatório.

A PF aponta a mulher do presidente Jair Bolsonaro, Michelle, como assinante da provedora de internet na qual foi acessada a conta ‘Bolsonaro News’ e o perfil de Tercio Arnaud Thomaz, que é assessor do presidente e integra o chamado “gabinete do ódio”, núcleo instalado no terceiro andar do Palácio do Planalto.

Também consta na lista um assessor parlamentar lotado no gabinete do senador Flávio Bolsonaro, Fernando Nascimento Pessoa. A partir de sua internet, teriam sido acessadas as contas ‘SnapNaro’, ‘Trump We Trust’, ‘DiDireita’, ‘Tudo é Bolsonaro’, ‘Porque o Bolsonaro?’ e ‘Snapressoras’.

DE ÓRGÃOS PÚBLICOS – Dentro da amostragem – os 15 mil acessos selecionados para análise – a PF identificou que 1.045 deles partiram de órgãos públicos – o comando da 1ª Brigada de Artilharia Antiaérea, a Presidência da República, a Câmara dos Deputados, o Senado e a Câmara dos Vereadores do Rio. Em na internet de todos os órgãos, com exceção da rede do Senado, uma das contas acessadas foi a de Tercio Arnaud Thomaz, operador do “gabinete do ódio”.

A PF busca identificar se mais de uma pessoa utilizava as contas sob suspeita e solicitou dados de usuários à Presidência da República, à Câmara, ao Senado e à Câmara de Vereadores do Rio.

Segundo os dados fornecidos pela Câmara, um conta de nome ‘Eduardo Guimarães’ estaria ligada ao usuário de Carlos Eduardo Guimarães, listado como secretário parlamentar do deputado Eduardo Bolsonaro, e também ao usuário do próprio parlamentar.

DADOS PENDENTES – Segundo os investigadores, está pendente o envio de dados pelo Senado e pela Presidência com relação aos dados cadastrais dos usuários ligados ao acesso das contas derrubadas pelo Facebook. A Secretaria-Geral da Presidência encaminhou dados sobre os usuários, mas ‘devido ao formato do arquivo digital apresentado foi solicitado novo envio’. Já com relação à Câmara Municipal do Rio, a instituição alegou que não possuía arquitetura de registro de logs de acesso à internet e assim não conseguiria fornecer as informações.

Em uma outra fase, a PF ainda analisou o conteúdo de 88 contas identificadas pela Atlantic Council, sendo que a análise preliminar indicou ‘provável supressão de conteúdo’ de diversas páginas. Os investigadores listaram os proprietários das contas, o número de seguidores, a quantidade de imagens publicadas, além de outros dados.

A PF lembra das pendências que existem no âmbito da linha de investigação aberta com base nas informações prestadas pelo Facebook, mas indica que apesar da apuração não ter sido concluída, ‘não há impedimento para o compartilhamento de dados e subsequente avaliação da repercussão desses fatos em outras esferas’.

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NOTA DA REDAÇÃO DO BLOG
Em tradução simultânea, não há novidade. Apenas fica claro que a PF quer investigar esses atos antidemocráticos, mas o prevaricador-geral da República, Augusto Aras, está sentado em cima, blindando o Planalto e a troupe presidencial. A parte referente ao Exército foi citada, porém não aprofundada. Ah, Brasil... (C.N.)

Escândalo da Nestlé expõe venda ardilosa de produtos alimentícios que não são saudáveis

Achocolatado em Pó NESQUIK Morango 380g

63% dos alimentos e bebidas Nestlé não são saudáveis.

Marcos Nogueira

Fez algum barulho – embora menos do que deveria, devido ao caos pandêmico-político – a divulgação de documentos internos da Nestlé que vazaram para o jornal britânico Financial Times. Neles, os executivos do conglomerado admitem que 63% dos portfólio de alimentos e bebidas Nestlé não são saudáveis.

São chocolates e achocolatados, biscoitos, doces, refrigerantes, pratos prontos, sorvetes e todas as categorias de alimentos ultraprocessados – produtos industriais em que nenhum ingrediente in natura prevalece, com o uso de substâncias químicas alheias ao receituário das cozinhas domésticas.

SEM VALOR NUTRITIVO – Não há surpresa alguma quanto ao conteúdo exposto. O espanto vem da revelação da desfaçatez dos funcionários da corporação: eles sabem que vendem alimentos sem valor nutritivo, mas mantêm o discurso de que a adição de vitaminas e que tais faz bem ao consumidor (crianças, em muitos casos).

O exemplo mais gritante que a reportagem exibe é o Nesquik de morango – um pó para ser misturado ao leite, de óbvio apelo infantil. Na versão inglesa do produto, 14 gramas de pó contêm 14 gramas de açúcar (corante e aromatizante aparecem em fração desprezível). O Nesquik brasileiro de morango, segundo tabela exibida na embalagem, oferece 11 gramas de açúcar em 14 gramas, algo como 79% da massa total.

NÃO SÃO SAUDÁVEIS – Segundo os documentos internos, 99% dos doces da Nestlé e 96% das bebidas (exceto o café puro, categoria à parte) não podem ser considerados saudáveis.

Nem a água embalada pela corporação atinge 100% de salubilidade – 18% dos produtos, provavelmente as bebidas saborizadas, tomaram bomba no teste da saúde.

Em defesa própria, a Nestlé publicou nota com a seguinte declaração: “Acreditamos que uma dieta saudável significa encontrar um equilíbrio entre bem-estar e prazer. Isso inclui ter algum espaço para alimentos indulgentes, consumidos com moderação. Nossa rota de viagem não mudou, e é clara: continuaremos tornando nosso portfólio mais saboroso e saudável”.

A empresa, de origem suíça, tem faturamento global anual de 2,6 bilhões de francos suíços (R$ 533,38 bilhões).

Caso Pazuello eleva tensão entre generais do presidente e comando do Exército, diz historiador

José Murilo de Carvalho vê atrito entre Planalto e Alto Comando

Felipe Corazza
BBC News Brasil

Tensão, dúvidas e medo são as palavras escolhidas para caracterizar as relações entre militares e o poder político no Brasil recentemente por um dos maiores especialistas no assunto. Para o historiador e cientista político José Murilo de Carvalho, a decisão do Exército, anunciada na quinta-feira (03/05), de não punir o general da ativa Eduardo Pazuello por participação em ato político ao lado do presidente da República vai fazer crescer uma crise já instalada: o cisma entre o comando das tropas e aqueles que Carvalho classifica como “generais do presidente”, em referência aos que ocupam cargos no governo de Jair Bolsonaro (sem partido).

“Sabe-se que os componentes do alto comando do Exército eram favoráveis a algum tipo de punição. O comandante os teria convencido a não punir. Imagino que com isso tenha perdido autoridade”, diz, mencionando o atual comandante do Exército, general Paulo Sérgio.

Como o sr. caracterizaria a época recente do Brasil em termos da relação entre a caserna e a política?
Época de tensão, dúvidas e medo.

Como o sr. reagiu ao saber que o general Eduardo Pazuello não receberia qualquer punição por ter participado de um ato político mesmo sendo um militar da ativa?
Desapontamento e receio. O primeiro por ter acreditado na existência de generais de caráter capazes de resistir a pressões descabidas, mesmo que pelo pedido de demissão, como foi o caso do general (Edson) Pujol e de seus colegas da Marinha e da Aeronáutica. O segundo pelas consequências que poderão advir para a manutenção da disciplina no Exército.

O vice-presidente, general da reserva Hamilton Mourão, havia declarado ele próprio que Pazuello deveria ser punido, sob risco de o contrário alimentar uma ‘anarquia’. Estamos, então, entrando no território da anarquia entre os militares?
É curioso que o general Mourão tenha sido punido duas vezes por ter feito declarações políticas. Prefiro a posição atual dele, ironicamente adotada depois de se ter feito político.

A decisão de não punir Pazuello vem sendo tratada por analistas ou até por outros militares como um ponto inédito no histórico das Forças Armadas. Há precedente?
Há o caso do coronel Jurandir Mamede, em 1955. Mas, antes de 1964, e até mesmo alguns anos depois, a indisciplina e a conspiração eram rotina nos quartéis. Uma das medidas dos golpistas de 64 foi punir e expurgar os inimigos e estabelecer um pensamento único nas Forças.

A gestão Bolsonaro é marcada, desde o início, por abrigar militares em cargos diversos. Com essa situação do general Pazuello, com o sr. avalia que deve ficar a relação entre o comando da ativa e os militares que ainda estão no governo?
Já há tensão entre os generais do presidente e os generais da tropa, e ela deverá aumentar. Pelas notícias divulgadas, sabe-se que os componentes do alto comando do Exército eram favoráveis a algum tipo de punição. O comandante os teria convencido a não punir. Imagino que com isso tenha perdido autoridade.

Analistas diversos apontaram que o presidente pode estar tentando criar uma situação de tensão para explorá-la em uma tentativa de levante com vistas à eleição de 2022. O sr. crê que isso seja possível ou viável?
Acho difícil. O perigo maior é que ele consiga mobilizar as polícias militares.

O Brasil de 1964 era um país muito diferente do atual em termos econômicos e nas relações internacionais. Uma suposta “aventura militar” hoje teria consequências distintas?
Em 64, dominava a Guerra Fria. Os golpistas tiveram forte apoio dos Estados Unidos. Hoje, isso não seria possível. No máximo, haveria alguns silêncios. O país se tornaria ainda mais pária.

Desde a redemocratização, os militares têm repetido o discurso da profissionalização para se afastar de questões políticas e recuperar o prestígio. Em qual grau isso fica comprometido após o atual governo?
Profissionalização significa dedicação total às tarefas militares. Ela avançou bastante nas últimas décadas na Marinha e na Aeronáutica. No Exército, avançou pouco e é ele que tem, por causa de sua presença no território nacional, capacidade de controlar o país. O direito de exercer um papel político está embutido nas convicções do Exército desde 1889.

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NOTA DA REDAÇÂO DO BLOG
Com todo respeito, o ilustre historiador parece exagerar quando considera que Mourão foi punido. Na primeira transgressão, em 2015, apenas trocou de cargo, mas foi mantido no Alto Comando, uma possibilidade impensável. Na segunda transgressão, em 2017, apenas passou para a reserva, não houve qualquer punição. (C.N.)