“Eu, brasileiro, confesso minha culpa, meu degredo, pão seco de cada dia, tropical melancolia”

TRIBUNA DA INTERNET | O que deve ser louvado, na visão de Gilberto Gil e Torquato Neto

Torquato Neto e Gilberto Gil, parceiros e grandes amigos

Paulo Peres
Poemas & Canções

 
O cineasta, ator, jornalista, poeta e letrista piauiense Torquato Pereira de Araújo Neto (1944-1972) é considerado um dos principais integrantes do movimento Tropicalista. “A letra de Marginália II, explica o professor José Geraldo da Silva, do Círculo Fluminense de Estudos Filológicos e Linguísticos, “mostra um depoimento de um locutor virtual, ao falar de sua história, confessando sua culpa e sua comodidade diante dos fatos e da realidade de sua pátria”. 

Para o professor, “há um misto de valores dos quais se apropria para mencionar sua visão crítica e irônica do lugar em que vive, mas que nada faz de concreto para que sua realidade mude. O título apresenta uma carga semântica que nos permite inferir que há uma menção a todos que vivem à margem do sistema por medo de assumir uma identidade patriótica e as implicações sociopolíticas  que isso pode acarretar”. 

A música “Marginália II“ foi gravada no LP Gilberto Gil, em 1968, pela Universal.
MARGINÁLIA II
Gilberto Gil e Torquato Neto


Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu pecado
Meu sonho desesperado
Meu bem guardado segredo
Minha aflição

Eu, brasileiro, confesso
Minha culpa, meu degredo
Pão seco de cada dia
Tropical melancolia
Negra solidão

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Aqui, o Terceiro Mundo
Pede a bênção e vai dormir
Entre cascatas, palmeiras
Araçás e bananeiras
Ao canto da juriti

Aqui, meu pânico e glória
Aqui, meu laço e cadeia
Conheço bem minha história
Começa na lua cheia
E termina antes do fim

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

Minha terra tem palmeiras
Onde sopra o vento forte
Da fome, do medo e muito
Principalmente da morte
Olelê, lalá

A bomba explode lá fora
E agora, o que vou temer?
Oh, yes, nós temos banana
Até pra dar e vender
Olelê, lalá

Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo
Aqui é o fim do mundo

3 thoughts on ““Eu, brasileiro, confesso minha culpa, meu degredo, pão seco de cada dia, tropical melancolia”

  1. Talvez o autor usou a figura do canto do Juriti, porque, dos pássaros silvestres que conheço, é dele o canto que mais imita um tiro: Puuuuuu…..
    Juriti gosta de roça de arroz e capoeira. Na minha infância, eu, meus irmãos e primos pegávamos com arapucas ou a matávamos com espingarda bata-bucha (punheteira). Assim como inhambu, siricora, pecoapá, pai-pedro, surulina, perdiz, carão, aracoã e tantos outras caças. Devido ao crescimento da pior praga da humanidade, a Superpopulação, esses e outros animais, por aqui, já são raros.

Deixe uma resposta para Antonio Rocha Cancelar resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *