Getúlio, interpretação soberba de Tony Ramos

Pedro do Coutto

O filme de João Jardim é ótimo e apresenta, além da sequência dos últimos dias do presidente Getúlio Vargas, que se suicidou a 24 de agosto de 1954, uma interpretação fantástica, soberba mesma, do ator Tony Ramos vivendo o personagem título, no trágico desfecho do drama policial e político desenrolado com a morte do major da Aeronáutica no atentado da Rua Tonelero, onde morava o jornalista Carlos Lacerda.

Foi numa noite de 5 (cinco) de agosto, em que o major Rubem Vaz acompanhava Lacerda que havia participado de uma palestra contra o governo Vargas no alto da Tijuca. No atentado, praticado pela guarda do Palácio do Catete, ficou ferido o guarda municipal Sálvio Romero, que acertou um tiro no automóvel, um táxi, que transportava os sicários, assim chamados na época. Esse táxi, vejam só, fazia ponto na rua Silveira Martins, ao lado do Palácio do Catete. Lacerda foi baleado no pé. O autor que ordenou o atentado, Gregório Fortunato, era chefe da guarda pessoal de Vargas. Mas estes fatos os leitores vão identificar no filme. Os personagens também. 

Quando afirmo que a atuação de Tony Ramos é excepcional o faço em função da extrema complexidade do personagem que teve a sorte de interpretar. Personalidade dificílima, portanto obrigando o ator a mergulhar nos sintomas que conseguiu perceber. Impenetrável. Ambíguo, extremamente político e de sensibilidade pouco exposta. Para acentuar essa realidade, hoje histórica, recorro às duas citações, a meu ver chaves, na tentativa e no esforço de traduzi-lo. Carlos Heitor Cony e o senador Afonso Arinos de Melo Franco. O jornalista Carlos Heitor Cony, com o brilho que caracteriza seus textos, separou Getúlio de Vargas.

GETÚLIO SEPARADO DE VARGAS

Getúlio, o homem extrema e profundamente político, transitando e se equilibrando nas mudanças das situações. Vargas, o estadista. O criador do IBGE, do primeiro censo demográfico do país, em 1940, o homem que implantou a Cia. Siderúrgica Nacional, autor da CLT, em 1943, instalando as leis trabalhistas, as férias, o direito à previdência social, o que não existia, o homem que limitou as jornadas de trabalho, criou, em 53, e inaugurou a Petrobras no início de 54. O homem que, ao lado Governador Juscelino Kubitschek, dias antes de morrer, inaugurou à siderúrgica Belgo Mineira. O político que, no poder, enfrentou em 32 a revolução constitucionalista de São Paulo, a intentona comunista de 35, o atentado integralista a (braço de nazismo no Brasil) em maio de 38, no qual esteve a um passo da morte.

Foi também no seu período de ditador, De 37 a 45, que, de 37 a 42, o chefe de polícia foi temível Filinto Muller. Filinto não chegou a 45. Vargas o demitiu em 42, quando o Brasil declarou guerra à Alemanha, a Itália e Japão. Mas não desejo afastar da figura de Vargas. Exatamente vinte após sua morte, numa entrevista à Tribuna da Imprensa, Afonso Arinos traçou uma revisão histórica, assinalando arrepender-se do discurso que fizera em 54, no Congresso, contra o então presidente. Ele não teve nada, como o filme mostra, com o atentado a Lacerda. Na ocasião, na única vez que citou o nome do jornalista, afirmou: “o tiro contra Lacerda foi vibrado nas costas do governo. Só morto sairei do Catete”. Cumpriu a promessa. E o tempo levou Afonso Arinos a fazer, acrescentando a Cony, outra definição essencial sobre Vargas: ele foi um gigante solitário; um enigma até para si mesmo.

Tony Ramos compreendeu o abismo psicológico de um homem da dimensão de Vargas, no desfecho: “Saio da vida para entrar na História”. Não deixem de ver o filme.

One thought on “Getúlio, interpretação soberba de Tony Ramos

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *