Não existe obra (ou biografia) proibida que, depois, não tenha sido exibida livremente

Pedro do Coutto


O título deste artigo contém uma síntese a liberdade de criação e expressão contra o falso direito de proibição, seja ela praticada em nome da moral, ou a partir da posição de grupos e pessoas, com base em diversas questões. A começar do teatro grego, cujas tragédias, escritas há pelo menos mil anos antes de Cristo, continuam sendo exibidas até hoje livremente. Nada mais trágico, por exemplo, do que Édipo, cujo reflexo alcançou e envolveu ensaios magníficos de Sigmund Freud acerca da alma humana.

Dando-se um salto enorme no tempo A Prostituta Respeitosa, de Sartre, no Brasil, décadas de 40 e 50, enfrentou obstáculos por parte da censura. Ontem, menores de 18 anos não podiam assisti-la. Hoje, a peça é exibida com censura absolutamente livre. Me lembro que Maria Dela Costa e Sandro Poloni enfrentaram dificuldade em montar a obra de Sartre, no Rio de janeiro, já na década de 60.
 

Os censores, sempre na contramão da história, como os fatos comprovam, criavam obstáculos a tudo que se referia a sexo. Estranha compulsão. Mas os tempos passam. Escrevo este artigo motivado por reportagem na Folha de São Paulo, Caderno Ilustrada,  a qual revela que não a censura, mas a Justiça, nos últimos dez anos decidiu proibir a circulação de 25 livros sobre diversos temas e pessoas. Incrível.

Os que se julgam atingidos, sem razões aceitáveis, obtiveram aceitação judicial. Não lutam ou lutaram pelo direito de resposta, previsto na Constituição, tampouco contestam os fatos que os incomodam. Nada disso. Simplesmente não querem discutir os assuntos. Querem negar o direito à liberdade dos autores, os quais, no fundo, arriscam-se mais do que eles. Pois é fácil distinguir a tentativa de uma chantagem do impulso natural de pesquisar, informar, analisar, expor a realidade, ou parte dela, de seres humanos que se tornaram figuras públicas.
 

FALSIDADES

Muitas vezes obras literárias destroem falsidades e falsificações. O caso, por exemplo, do Eu Acuso, Emile Zola, denunciando a terrível injustiça do governo francês para com Dreyfuss, personagem eterna e símbolo da mistificação e da injustiça. Isso na literatura. No teatro e o cinema os casos são extremamente múltiplos. Criou-se, em nosso país, um cavalo de batalha, como se costumava dizer, para a exibição de Les Amant, de Louis Malle. Hoje, acesso livre do público de todas as idades. No máximo, o selo de desaconselhável para menores de 11 anos.
 

Na música, as intervenções passadistas são bem menos numerosas, quase não existem. Por isso, inclusive, causa espanto e indicação o comportamento de Chico Buarque de Holanda, Caetano Veloso e Gilberto Gil que se voltaram contra a possibilidade – a possibilidade – de escreverem sobre eles biografias não autorizadas. Maior manifestação de temor não existe. Porque será? Eles, como tantos outros, possuem o direito constitucional de resposta e também de processarem os autores se cometerem qualquer violação legal. Sempre viveram com base no justo enaltecimento (público) de suas atuações e presença na arte. De repente de combatentes contra a opressão transformam-se em opressores. 

Mas da mesma forma que o livro sobre Roberto Carlos, que circula por aí, não vão conseguir inverter o processo natural da história da arte e da política. Dirijo a todos que são favoráveis à negação da liberdade que apontem um só caso em que, através do tempo,  a censura e a proibição conseguiram se manter. Esse é o destino dos passadistas. Nada mais, nada menos.

One thought on “Não existe obra (ou biografia) proibida que, depois, não tenha sido exibida livremente

  1. Em protesto contra esse mala Roberto Carlos, joguei no lixo todos os 79 discos de vinil e uns 35 CDs que herdei de minha mãe.
    Sou radicalmente contra quem defende a censura. Quem tem bom senso, não ouve mais Roberto Carlos.

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