“Opinião” – protesto de Zé Kéti contra Lacerda foi usado também contra o regime militar

O sambista Zé Kéti era a verdadeira Voz do Morro

Paulo Peres
Poemas & Canções

O cantor e compositor carioca Zé Kéti, nome artístico de José Flores de Jesus (1921-1999), compôs em 1964 o samba “Opinião”, cuja letra possui um impacto forte, criado pelo relato  do dia-a-dia na favela.

Alguns historiadores afirmam que a data desta composição é anterior a 1964, porque fora composta em protesto ao governador Carlos Lacerda, do antigo Estado da Guanabara, o qual decidira acabar com as favelas, removendo os seus habitantes para a bairros afastados do centro e da Zona Sul.

Em 1964, Nara Leão e João do Vale participaram do Show Opinião, um dos primeiros gritos artísticos de protesto contra o regime militar. O samba “Opinião” inspirou os nomes de um jornal, de um teatro, do grupo que encenou a peça e do segundo LP de cantora, intitulado Opinião de Nara, lançado no final de 1964, pela Philips.
 
OPINIÃO
Zé Keti

Podem me prender
Podem me bater
Podem até deixar-me sem comer
Que eu não mudo de opinião
Daqui do morro
Eu não saio, não

Se não tem água
Eu furo um poço
Se não tem carne
Eu compro um osso
E ponho na sopa
E deixa andar


Fale de mim quem quiser falar
Aqui eu não pago aluguel
Se eu morrer amanhã, seu doutor
Estou pertinho do céu

3 thoughts on ““Opinião” – protesto de Zé Kéti contra Lacerda foi usado também contra o regime militar

  1. João do Vale era um negão, meu conterrâneo estadual, nascido em Pedreiras, torrão do também cantor, José Orlando. Hoje, em São Luís, temos um teatro que leva o nome desse maranhense luminar.
    João do Vale foi um dos mais influentes compositores nordestinos, mas se deixou levar, aínda precoce, pela maldita cachaça. Essa pinga do diabo, que muitos idiotas a celebram como se fosse água benta!
    Quanto ao Carlos Lacerda, foi um dos homens públicos e jornalistas MACHOS, que o Brasil teve a glória de produzir. Já tentei, em vão, localizar um vídeo do Lacerdão, no qual, ele aparece com um revólver em punho, desafiando os generais, a fim de que viessem matar-se com ele, em praça pública.
    Essa provocação mortal de Lacerda, faz-me lembrar duma tradição nefasta aqui da Região: dois homens amarravam-se pelas camisas e começavam a se “comer” na peixeira; até que caísse um para cada lado. Ainda conheci um desses “galos de rinha”, Vld Braga, tinha 24 marcas de facadas no corpo. Depois foi fazer uma “empreitada”, no estado do Pará, lá algo deu errado e o valentão tombou.
    Mas o que interessa mesmo aqui é o samba. Uma letra reduzida para se enquadrar no reducionismo de Rui Barbosa: “Os melhores perfumes, encontram-se nos menores frascos”; e também para concordar com o estado de condensação da matéria.

  2. É a voz do morro sim senhor e esta tem valor.
    No asfalto tem preconceito, tem roubalheira e tem vaidade, egoísmo e falta de solidariedade.
    Zé Keti está fazendo falta. Naquela época, os artistas atuavam, brigavam pela liberdade, pelo amor, pela paz e alegria de viver. Hoje não se manifestam, nem diante do aniquilamento das Artes, da Educação e da Cultura. Estão a míngua, e calados, subservientes, medrosos diante de tudo isso aí.
    Mas, já era esperado, após 21 anos de Ditadura, ainda haverá reflexos por mais 100 anos. Os avanços sociais e culturais não ocorrem de uma hora para outra, depois de uma política ampla de massacre.

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