Sarney estadista acaba a primeira parte, começa o final “não tenho nenhum inimigo”

É impossível negar: foi um discurso menor do senador. Depois do relacionamento de tudo o que fez e que modestamente “limitou em 55 anos”, quando na verdade precisariam de 550 anos, (embora o país só tenha 509) passou ao que chamou “apelo para que não façam a humilhação de uma vida digna, sem qualquer acusação”.

Foi uma sucessão de nomes desconhecidos, sem nenhuma importância. E é lógico, que o plenário inteiro mostrou ao (ainda) presidente da casa, que não gostara, com um mínimo de palmas, formais, desatentas, protocolares.

Todos os senadores, contra ou a favor de Sarney, estavam decepcionados, frustrados, se consideravam enganados. E não escondiam o fato. E repetindo e comentando com palavras do próprio Sarney: “Ele disse que jamais se esconderia no silêncio, mas esse silêncio teria sido muito melhor para ele. Pois o que falou, quer dizer, NÃO FALOU, foi muito pior para ele”.

Consternamento geral, impossível esconder.

Sarney desprendido e generoso: “Estou pronto, digam ao povo que fico”

Fiquei emocionado, comovido, até constrangido com o discurso do presidente Sarney. As duas primeiras manifestações numa relação impressionante do que tem sido a vida de realizações do senador.

E minha surpresa é espantosa, criando o citado constrangimento. Pois não tinha a menor idéia de que quase tudo que existe no Brasil, FOI OBRA, CRIAÇÃO, PREOCUPAÇÃO e CLARIVIDÊNCIA  de José Sarney, como presidente da República ou nas três vezes que presidiu o Senado.

Confesso a minha ignorância histórica. Muita coisa que este repórter acreditava devesse ser colocado na conta de Pedro Alvares Cabral, de D. Pedro I e II e não esqueçamos de D. João VI, fiquei sabendo que foi feito com enorme antecedência pelo próprio Sarney.

O ex-presidente não falou que foi o autor da “Abertura dos Portos”, por excessiva modéstia e timidez.  Mas como usou um tempo enorme para dizer, “fui criador da Radio Senado, do Jornal do Senado, da Televisão do Senado, a popularização da Internet pelo Senado, (e repetia isso tantas vezes), que em determinado momento, assinalei para mim mesmo: “Não demora e Sarney me convence vai ler a carta de Pero Vaz Caminha dizendo que foi ele que escreveu”.

Sarney não leu, mas ficou evidente que a carta foi realmente escrita por ele, e consta do currículo para ingressar na Academia. Mas o ex-presidente estava pronto para NEGAR, que qualquer parente de Pedro Alvares Cabral, de Pero Vaz Caminha ou de D. João VI, tivesse sido nomeado por ele no seu gabinete. (No de sua filha Roseana pode ser, cada um tem seu estado, eu sou do Amapá).

Os falsos democratas

Paulo Solon, Miami:
“Quem defende a democracia não deve justificar um golpe de estado. Quem justifica um golpe de estado, não pode combatê-lo se novamente acontecer no Brasil.”

Marcos Pinto, Niterói:

“Hélio Fernandes, francamente não o entendo! Sempre tive a impressão que o ilustre jornalista era contra os desmandos norte-americanos no mundo, mas agora vejo posicionar-se contra Hugo Chavez, Zelaya e o presidente do Irã…Fica mais difícil ainda quando não podemos mostrar-lhe o erro que comete, seguindo a péssima conduta dos jornalões do Brasil.”

 

Comentário de Helio Fernandes:
É impressionante a interpretação FALSIFICADA que dão ao golpe de estado. Quem está no Poder e não quer sair, e pretende continuar mesmo com a eleição marcada para novembro, não é GOLPISTA? É o que?

Continuo minha luta e minha posição INDEPENDENTE E CRÍTICA em relação aos EUA. Por que não registrar, reconhecer e ressaltar, o fato dos EUA, a partir de 1952, ter reformado a Constituição e RADICALIZADO em relação aos presidentes?

Só podem ser presidentes por 4 anos e reeleitos por mais 4 e depois não podem ocupar mais nenhum cargo, NOMEADO ou ELEITO.

Hugo Chavez diz que ficará até 2050, Zelaya é um carreirista que mudou de posição várias vezes. No Irã, a eleição não vale nada. Acima do presidente estão as forças militares e acima delas, o Aiatolá, que é quem decide tudo.

Preconceito padronizado

Mario Augusto, Rio de Janeiro:
“Pergunto ainda, por que cargas d’água um presidente legitimamente eleito em seu pais e defenestrado do cargo – aqui cabe o termo – ANTI-DEMOCRATICAMENTE num golpe de estado perpetrado na madrugada por forças militares deve ser classificado como “desprezível”. Perplexo vejo um gigante da democracia do meu pais desfraldando energicamente a bandeira da intolerância.”

Comentário de Helio Fernandes:
Nenhuma intolerância. Condeno os dois lados, quem começou tudo foi Zelaya, que estava no fim do mandato, não queria sair. Lancei até a idéia de colocar no governo o cardeal conciliador, mais claro, impossível. Lamento o teu preconceito ao exprimir que “flanelinha” tem que ser negro, para você o contrário de caucasiano.

A gratidão de Gilvan Borges, nem suplente nem eleito

Quem esteve mais tempo em exposição na televisão, na manhã de hoje, foi Gilvan Borges. Sua situação é curiosa. Num Senado cheio de indigentes (perdão, suplentes), ele pode dizer que não é suplente, e não é mesmo. Mas também não foi eleito, espantoso.

O que aconteceu com ele: foi derrotado pelo senador Capiberibe. Entrou na Justiça Eleitoral contra o vencedor, ganhou (?) mas havia recurso. O tribunal eleitoral comunicou ao senado, o então presidente Renan Calheiros TIROU O MANDATO DO VENCEDOR que estava na tribuna. Renan quase chorando, “lamento, mas não posso fazer nada”.

Capiberibe saiu da tribuna já sem mandato, Renan imediatamente ENTREGOU o título, vá lá, o mandato, ao senhor Gilvan Borges, nada surpreendente, ele é do Amapá.

Agora, pelo menos, não pratica traição com os amigos Sarney e Renan, diz, “tudo é perseguição da imprensa”. (Exclusiva)

A hora da reunião do Conselho, a hora do discurso de Sarney

Quase às 10 horas, duas informações, negadas e sonegadas, foram liberadas. Agora se sabe que a reunião do Conselho de Ética será às 3 horas. E como o próprio Sarney anunciou ontem, “falarei depois”, se especula com o horário de 4 horas. Como se vê, pouca diferença.

Por isso, durante toda a manhã, se garantia (mas sem nenhuma convicção) que Paulo Duque (suplente mas aristocrata do Conselho) não pediria o arquivamento das representações, nem vetaria algumas delas. Isso está sendo chamado de “armistício negociado”, mas ninguém garante nada. (Exclusiva)

Quer dizer que Clinton, ex-presidente e marido da Secretaria de Estado, foi à Coréia do Norte, ninguém sabia disso?

Fugindo um pouco do “assunto” Sarney, falemos dessa hipocrisia política, tão comum nos EUA. Querem convencer a opinião pública mundial que um ex-presidente foi à Coréia do Norte por vontade e inspiração própria, sem o menor conhecimento da Casa Branca?

Os amestrados do mundo (e do Brasil) aceitaram e divulgaram. Ninguém sabia de nada, Clinton foi esperado no aeroporto, imediatamente recebido pelo ditador, que não recebe ninguém. Conversaram, poucas horas depois, Clinton embarcava de volta, levando duas jornalistas condenados a 12 anos de prisão.

De boca, o ditador disse ao ex-presidente, “estão ABSOLVIDAS, podem viajar com o senhor”. Hoje, às 10 da manhã, chegavam à Califórnia. Como a Casa Branca fica em Washington, continuavam sem saber de nada. (Exclusiva)

Redundância e desperdício

Senadores (e principalmente os suplentes sem voto, sem povo e sem urna) enchem a boca e retumbam: “Falo como SENADOR DA REPÚBLICA”. Ora, não são republicanos, geralmente nem sabem o que é isso e se sabem não praticam.

E da REPÚBLICA, desde que acabaram com os “senadinhos” (que Rui Barbosa tirou da Constituição dos EUA) é pura redundância essa complementação.

Nos EUA, continuam os “senadinhos”, Obama foi senador estadual, antes de se eleger senador federal e depois presidente da República.

79 funcionários do Senado demitidos e logicamente injustiçados

Sarney anunciou isso ontem. Absurdo e revoltante. Com 10 mil funcionários, cada um dos 81 senadores teria 125 funcionários, a proporcionalidade seria essa. Com menos 79, cada senador seria responsável apenas por 124 funcionários. (Exclusiva)

A sobrevivência de Sarney

Na segunda da BAIXARIA, ou hoje, na quarta da CALMARIA?
Não é PACIFICAÇÃO e sim CORRUPÇÃO

Os baderneiros da segunda-feira abriram inesperado caminho de conversação na terça e as duas incógnitas de hoje, quarta. São incógnitas mesmo, mostraram as armas mas não identificaram o calibre nem o poder de fogo.

Só duas coisas são conhecidas mas desde este momento (9 da manhã) até o fim da tarde esses dois fatos podem mudar de roteiro e produção, menos de ator principal. Quer dizer: atuará como ator principal até à reunião do Conselho de Ética, e depois como escritor do seu próprio discurso de permanência ou retirada.

Não foi por acaso que juntaram os dois fatos, mas fora daí não se sabe mais nada. As conversas de ontem bastante suspeitas, com “apelos” ao “entendimento”, mas sem que alguém falasse num “entendimento contra a corrupção”.

O que não se sabe daria para um livro branco.

1 – A que horas Sarney falará? 2 – Usará a tribuna do plenário ou a cadeira presidencial? 3 – Como anunciou, da cadeira de presidente, “falarei amanhã, depois da reunião do Conselho de Ética, já saberá o que esse Conselho decidirá?

4 – Se não sabe (pela formação do Conselho é impossível não saber) o que será resolvido, terá que preparar dois discursos ou dois “improvisos”. 5 – Um para o caso das representações serem arquivadas ou então recebidas.

6 – A terceira hipótese, muito conversada, seria não resolver nada, Sarney ficaria mais tranquilo.

7 – Discursando do plenário não será uma espécie de “fala do trono”, Sarney poderá ser aparteado. 8 – Aí será massacrado, sua posição é insustentável, não resistirá e a sessão levará horas. 9 – Explicavam que ao subir à tribuna, Sarney avisaria, “nunca pedi para falar sozinho, esta é uma ocasião especial”.

10 – A oposição a ele poderia não aceitar. Se aceitasse, correria em massa para refutá-lo, mas não estaria mais presente, a idéia é “se explicar”, sair e deixar a operação limpeza para os suplentes.

Diante disso, o cidadão-contribuinte-eleitor teria de agora até o discurso (sem contar a Ética, perdão, a reunião do Conselho) no mínimo 7 horas de angustia e espera, para preencher o vazio que criaram deliberadamente.

A ditadura acabava, Brizola aguardava, Maluf se lançava, Ulisses liderava, Tancredo festejava, Sarney operava

Senadores se estilhaçarem, se engalfinharem, se hostilizarem com palavras até impublicáveis, nada surpreendente. O clima e o tom das acusações já antecipavam o que houve na segunda-feira, bem tarde, quase chegando a noite. Disseram tudo que estavam pensando, uns dos outros, não esconderam nada.

Mas se transformarem em HISTORIADORES, é demais. Só mesmo repetindo o que Bernard Shaw afirmou ao visitar a primeira vez a Estátua da Liberdade: “Meu gosto pela ironia não vai tão longe”.

Os senadores que tentavam a humilhação recíproca e polivalente, mostraram que não só não conhecem História, como não sabem definir ou explicar até mesmo os episódios dos quais participaram. É inacreditável mas rigorosamente verdadeiro.

Só um civil, Fernando Lira, e um militar, o general Leônidas Pires Gonçalves, poderiam contar melhor esses fatos, que começaram em 1979/80 e tiveram uma parte do desfecho em 1985. Enquanto não são ouvidos, contarei o que vi, do qual participei, inclusive como personagem prejudicado.

A mudança do clima político-eleitoral começou a se tornar visível com a chegada dos exilados. Principalmente Brizola e Arraes. Os dois tinham prestígio e repercussão para tentarem consolidar o que pretendiam antes de 1964: a presidência da República. Brizola com mais chances, Arraes era sabidamente comunista, mesmo com o fim do golpe não dava para um comunista ganhar eleição.

Um dia, sem qualquer aviso, Brizola foi me visitar na Tribuna. Falou: “Fiz questão que a minha primeira visita fosse a você, por tudo que a tua resistência representa”, Carlos Lacerda havia morrido em 1977, e como Brizola tinha pontos de afinidade, ficamos amigos.

Eu pertencia ao traído MDB, no qual fora cassado em 1966, com Chagas Freitas “governador”, e Miro Teixeira faturando essas aspas. Preterido por Golbery, multinacional patrocinado pela Dow Chemical, mas esperto (nada a ver com inteligência), tirou o PTB de Brizola, teve que fundar o PDT. Continuei no MDB.

Num domingo do final de 1980, Tancredo me telefona, convida para um café no seu apartamento da Avenida Atlântica, conversa de horas e a colocação, textual: “Você quer ser senador, nosso partido precisa de um candidato, a legenda é tua, Helio”. A legenda era o PP, presidida por ele, com Magalhães Pinto como presidente de Honra.

Diziam que o PP não era de oposição ou de governo, Tancredo Neves insistiu, aceitei, ele me disse: “Você fez a opção certa, está eleito”. Minha entrada no partido, uma apoteose e outra surpresa. Me saudando, Tancredo Neves disse naquele vozeirão: “Agora quero ver quem vai dizer que o PP não é de oposição, se temos o jornalista que é o maior oposicionista do país?”.

Refleti sozinho na multidão: então era isso?

Em meados de 1981, estamos almoçando em Brasília, eu, Tancredo e o doutor Ulisses, presidente e maior líder do MDB, quando veio um porta-voz, com o recado: “O general Figueiredo quer falar imediatamente com os dois líderes”. Largaram o almoço, foram atender à convocação. Nem demoraram muito, era uma ordem. A ditadura já no chão, mas no Poder, decidira mudar as coisas.

Acabavam a Arena e o MDB, poderiam ser fundados quantos partidos quisessem, “com um P na frente da sigla”. Como não estabeleceram o número de letras da sigla, o MDB colocou um P na frente, passou a ser PMDB, até hoje não sei de quem foi a idéia que enfureceu Golbery (autor do projeto e o próprio Figueiredo) nada mais podia ser feito.

Brizola se fixou no PDT (que foi registrado), Tancredo que estava registrando o seu PP, ficou sem ação, tentou fazer a FUSÃO com o PMDB, não deu, criaram o que se chamou de INCORPORAÇÃO. Dois partidos num só, duas grandes lideranças disputando o mesmo objetivo, que era a eleição indireta.

Sabiam que uma exigência da ditadura derrubada era o período de TRANSIÇÃO. Os militares queriam essa eleição indireta, que achavam que poderiam mobilizar e manipular.

Só que o deputado Dante de Oliveira, “inspirado” pelo Doutor Ulisses, apresentou projeto na Câmara, estabelecendo a eleição direta, que ficou nacionalmente conhecida como “DRETAS JÁ”.

*  *  *

PS – A Arena passou a ser PDS, inversão das letras PSD, de antes de 1964, o maior partido brasileiro. E Sarney, que servira à ditadura, surgia como presidente do PDS, com todo o fervor democrático que era capaz com seus 52 anos de acomodação.

PS2 – A votação das “DIRETAS JÁ”, a grande batalha entre Tancredo e Ulisses. Os dois combatendo lado a lado, mas os dois sabendo que disputavam uma batalha que não poderia ter dois vencedores.

*  *  *

(Amanhã termino, é muita coisa. Sabendo fatos contados por Tancredo, mas do lado de Brizola. Este sabia que o “Terceiro Homem” era um excelente filme, que não poderia ser refilmado na vida real e política. E como repórter, acompanhando tudo).

Interesse do estado é coletivo, não particular

Pedro do Coutto

O despacho de um desembargador de Brasília impondo a censura própria das ditaduras do passado ao jornal O Estado de São Paulo não constitui apenas um absurdo deplorável à lua da Constituição do país, mas também uma interpretação equivocada e ilegítima da lei 11.111 de 5 de maio de 2005, portanto sancionada pelo presidente Lula. O artigo 220 da Carta Federal, citado em editorial de domingo daquele órgão de imprensa afirma categoricamente que nenhuma lei conterá dispositivo que possa constituir embaraço à plena liberdade de informação jornalística em qualquer veículo de comunicação social. As complementações do princípio estão contidas ao longo da lei maior, a começar pelo artigo 5º. Uma delas veda o anonimato. Outra assegura o direito de resposta. Uma terceira sustenta que a vida privada é inviolável. A quarta assegura o sigilo da correspondência.

Estranhos convênios entre entidades privadas e órgãos púbicos não pertencem, é claro, à vida privada de pessoa alguma. A lei na qual o magistrado se baseou –base falsa- ressalva o não acesso aos documentos públicos na hipótese em que o sigilo seja ou permaneça imprescindível à segurança da sociedade e do Estado. Ora, em que ponto as acusações (não respondidas) ao empresário Fernando Sarney pertencem ao universo do indispensável à segurança do Estado e da sociedade? Em ponto algum. Isso de um lado.

De outro, as matérias relativas ao segredo de justiça são próprias do Direito de Família, em particular, não do Direito em geral. O Direito de Família é de ação privada, muito diferente dos processos de ação pública, nos quais o Ministério Público intervém obrigatoriamente. Como foi no caso de Fernando Sarney. A censura é sempre algo odioso. Um recurso dos que n/ao possuem argumento, a não ser os da força, como foi o caso dos governos militares que dominaram o país de 64 a 85, ou dos que tentam enveredar pela estrada do escapismo. Invariavelmente tem sido assim ao longo da história, não só a brasileira, mas universal.

Uma prova de que se trata de algo nebuloso próprio das sombras? Aqui está: não existe exemplo de obra de arte, documento político ou científico que tenha sofrido interdição em algum instante de trevas e que depois, com o passar do tempo, não tenha sido veiculado livremente, à luz da verdade. Para não buscar infinitos exemplos, basta citar Galileu, em 1610, com a teoria de que o mundo era redondo. Quase foi excomungado pelo Vaticano, passou por humilhações e ameaças sem fim. Recuou para salvar a vida. Com isso, condenou AA eternidade os que desejavam condená-lo naquele momento.

O segredo de justiça, até hoje, não possui regulamentação clara. É algo pessoal, não coletivo. Algo privado e não público. O desembargador Marcio Vieira confundiu a questão. Com isso, confundiu a si mesmo colocando sua amizade pessoal para com a família Sarney acima da própria legislação. Como garantir o sigilo de justiça, indaga o advogado Valdir Passos de Freitas, na publicação O Consultor Jurídico, se o processo passa pela Polícia, pelo Ministério Público, pela Vara Criminal em que estiver ajuizado, passa pelos advogados? Difícil. Mas não é só esta a questão.

O problema situa-se, plenamente, no aspecto público, abrangente e coletivo, e não na esfera individual. Inclusive envolve uma simples dedução lógica: se o segredo de justiça pudesse ser aplicado aos processos nos quais o interesse público é parte, então crime financeiro algum poderia ser publicado na imprensa. Com isso, os golpes e prejuízos se sucederiam sem que a opinião pública pudesse ser avisada do que os desonestos, que são eternos, tramam contra ela, contra o país, contra todos nós. A lei estaria assim ao lado do crime. Não da sociedade.

A culpa é da imprensa

Carlos Chagas

A moda parece secular e agora entra em nova ebulição: a culpa de tudo o que de ruim  acontece na política é da imprensa. São os meios de comunicação que inventam mentiras,  lançando-se em campanha contra as instituições e seus representantes.

Essa última saraivada de asneiras deve-se a gente de peso, como José Sarney, Renan Calheiros, Fernando Collor e, da qual não escapa  o próprio presidente Lula. Quando as coisas apertam  para eles, a solução é acusar a imprensa, como tem acontecido nos últimos dias. Querem “notícias boas” em vez de “notícias más”, imaginando que  a informação possa  ser adjetivada de acordo com  a reação de quem a recebe. Vestem o figurino de vítimas e não hesitam em desfigurar episódios e personagens do  passado.

Tome-se os exemplos dados por eles   esta semana:

Getúlio Vargas teria sido levado ao suicídio por ampla conspiração da mídia, a serviço de interesses escusos e anti-nacionais. Pode até ser verdade que a maioria dos jornalões, em 1954, insurgia-se contra as iniciativas nacionalistas do então presidente, disposto a diminuir a submissão do Brasil a interesses alienígenas. Mesmo assim, a blitz contra Vargas só entrou em seu período agudo depois de descoberta a participação da Guarda Pessoal do Catete no atentado contra Carlos Lacerda e, mais ainda, revelado o exagerado patrimônio financeiro do tenente Gregório Fortunato. Sem falar na contratação confirmada de um pistoleiro que,  em vez de matar o jornalista, matou um oficial da Aeronáutica.

João Goulart também se viu alvo de ampla campanha dos jornais, rádios e televisões, mola mestra da sensibilização da opinião militar que o derrubou. Também é inegável, mas terá a imprensa criado fatos como os da rebelião dos marinheiros, do estimulo pelo governo  à quebra da hierarquia nas forças armadas, do assalto ao poder pelos integrantes do Comando Geral dos Trabalhadores e da  confusão em    que se transformaram a economia e a administração?  Foram esses acontecimentos, mostrados nas folhas, nas telinhas e nos microfones que contribuíram para o golpe militar. Sem eles, Jango teria concluído seu mandato.

Fernando Collor, tantos anos depois, teria sido  deposto e obrigado à renúncia por ação  da mídia? Ou tudo não  começou pela denúncia de seu irmão Pedro, a respeito das  lambanças do PC Farias e da arrogância da República das Alagoas em ignorar o Congresso e os partidos políticos?

José Sarney torna-se  a bola da vez, mas teria a imprensa criado os atos secretos do Senado, inventado as nomeações fisiológicas de seus  funcionários,  tirado do nada o nepotismo, o mau uso das passagens aéreas ou os desvios de verbas públicas para atividades privadas da família Sarney? Quem transformou a coisa  pública em  patrimônio privado? Os  repórteres, os colunistas, os editoriais e as notícias divulgadas a partir de gravações, denúncias e evidências óbvias de corrupção?

Sendo assim, conclua-se: o presidente do Senado tem todo o direito de defender seu cargo, de resistir e de   lutar contra adversários que o querem ver pelas costas por razões políticas e partidárias. Mas não poderia, de jeito nenhum, responsabilizar os meios de comunicação  pela crise. Não raro a  imprensa  exagera. Em muitos casos haverá razões ocultas e obscuras para o  exercício de sua atuação, mas acusá-la de criar fatos,  não dá para aceitar. Muito  menos admitir iniciativas para censurá-la, até com a conivência do Judiciário.

O PT sumiu

Coisa estranha foi a ausência da bancada do PT da sessão do Senado onde se discutiu a situação do presidente José Sarney. Apenas Eduardo Suplicy deu o ar de sua graça, mesmo assim por quinze minutos. Os demais escafederam-se. Sumiram para não ter que concordar com Pedro Simon, de um lado, ou com Renan Calheiros e Fernando Collor, de outro. Que José Sarney tivesse se retirado da direção dos trabalhos, ainda se admite. Caso permanecesse teria de ouvir diatribes e acusações de corpo presente, obrigando-se a reagir e incendiando ainda mais os debates, ou ficar calado e passar por fraco.

Mas o PT não comparecer foi mais do que esperteza. Foi omissão. Covardia. Ou seus senadores apóiam a permanência do presidente do senado no cargo, ou reafirmam o conteúdo da nota onde opinaram pelo seu afastamento. Fugir da definição foi um vexame.

Comemoração polêmica

O Congresso realizou sessão solene, terça-feira de manhã, em comemoração aos dez anos da criação do ministério da Defesa. Foram discursos sem conta em homenagem às Forças Armadas e até elogios ao ministro Nelson Jobim e aos três  comandantes.

Parecia uma festa, não apenas no céu, mas na terra e no mar.  O diabo é que ninguém teve coragem de denunciar haver sido  a criação do ministério da Defesa um ato de revanchismo contra os militares. Foi a forma encontrada pelo então presidente Fernando Henrique para fazer média com os radicais de esquerda, retirando Exército, Marinha e Aeronáutica da mesa de debates  do governo. Nossa tradição histórica foi abalada em nome de um ajuste de contas atrasado e defasado. Porque será sempre bom notar que mesmo obrigados ao espírito de corpo, os oficiais  generais de 1995, como os de hoje, eram tenentes e aspirantes em 1964. Nenhuma responsabilidade tiveram pelos  atos de maus chefes que durante 21 anos ocuparam o poder. Nem com seus acertos. Mas foram punidos a posteriori, mesmo depois que as Forças Armadas adotaram postura exemplar, afastando-se das questões políticas e  engolindo sapos em posição de sentido.

A criação do ministério da Defesa em nada contribuiu para o desenvolvimento e a  melhoria do estamento castrense.   Para integrar as três forças já existia o Estado-Maior  das Forças Armadas. Pelo contrário, o ministério da Defesa submeteu os militares  à liderança de civis desinformados de seus problemas e de suas concepções, muitos nomeados por razões políticas.

Construindo uma catedral

É milenar a história do rei que perguntou a três pedreiros o que estavam fazendo, já que realizavam o mesmo trabalho.   O primeiro respondeu que ganhava o seu dia de salário.  O outro,   que lapidava pedras. O terceiro  afirmou estar construindo uma catedral. Assim poderiam responder deputados e senadores se alguém lhes perguntasse sobre suas atividades. Uns ganham os vencimentos e não raro as mordomias. Outros cumprem seu dever de representar o eleitorado.  Mas sempre haverá os que dirão estar construindo a nação.  São esses os que poderão salvar a desgastada imagem do Congresso, caso venham a dedicar-se a reformar as instituições, começando pela deles. O problema é que exprimem, no máximo,  um terço do conjunto. Quem sabe com as  eleições do ano que vem a proporção possa ser alterada.

O desemprego aumenta nos EUA e no resto do mundo, as bolsas não sinalizam recuperação ou melhora

Comecemos pelo dólar, que hoje foi responsável (?) pelo espetáculo pirotécnico particular e pela queima de fogos (dinheiro do cidadão) publicamente. O Banco Central passou o dia inteiro comprando e atendendo a uma multidão de vendedores.

Por que isso? Primeiro que o BC pagava bem e comprava sem parar. E como a convicção unânime é de que o dólar vai continuar caindo, enfrentavam o BC e saíram vencedores.

Ficaram com o dinheiro do contribuinte, e como o dólar continuou caindo, podem recomprar como bem entenderem.

O fechamento da moeda foi em 1,81 alto, queda de 0,34%, bastante, levando em consideração a fúria compradora do BC. A abertura foi em 1,83 alto, mais 0,80%.

A Bovespa trabalhou (Ha! Ha! Ha!) até depois de três e meia em alta. Só aí passaram a vender. Desde o inicio as ações chegaram a provocar alta de 1 por cento cravado. Aí passaram a vender, fechou rigorosamente estável, em 56 mil pontos. O volume é o mesmo insignificante, de pouquinho mais de 4 bilhões.

Enquanto os jogadores das bolsas falam em recuperação, o que interessa e é o termômetro verdadeiro, o desemprego cresce em todos os países. Agora é a Espanha que anuncia 3 milhões e meio de desempregados, uma barbaridade para uma população pequena.

Golpistas querem Zelaya no Brasil

Vergonhoso, indecente, antidemocrático e até mesmo revoltante esse “convite” para que o desprezível ex-presidente de Honduras venha ao Brasil. Parece que é para não deixar sozinho o homicida do Irã, aquele que tem cara de “flanelinha” (nenhuma ofensa a estes).

Se confirmarem as duas visitas (verdadeira provocação à opinião pública) então precisam completar a lista dos “indesejáveis”, colocando o nome de Chavez, o coronel provinciano da Venezuela. Provinciano e com a angústia e o desespero de não deixar o Poder. (Exclusiva)

Baixaria histórica e sem precedentes

Augusto Magalhães Coimbra:
“Estou escrevendo decepecionado e até frustrado, sem sequer pedir desculpas, pois seu admirador, nunca vi o senhor se omitir como agora. Ontem à noite acessei logo seu blog para ver o que o senhor iria dizer sobre a sessão do Senado. Hoje o senhor certamente terá uma explicação.”

Comentário de Helio Fernandes:
Você justamente não pede desculpas, eu peço, completando que tenho explicação ou explicações, mas nenhuma delas conclusiva ou aceitável: NÃO CONSEGUI ESCREVER. De 5 às 7 fiquei vendo e ouvindo pela TV-Senado, aquela barbaridade, fiquei tão assombrado que não havia o que dizer. Como gosta de repetir o brilhante professor Helio Jaguaribe, eu precisava condenar o CONTINENTE e o CONTEÚDO, mas com que palavras?

Só poderia usar o tom e a grosseria utilizada por representantes dos dois lados. Foi uma B-A-I-X-A-R-I-A, esta a palavra, num espetáculo parlamentar que jamais presenciei em minha vida jornalística.

Frequentei a Câmara e o Senado diariamente durante 14 anos, de 1946 (a primeira e verdadeira Constituição) até 1960 (a tragédia da mudança da capital), que permitiu ou provocou a B-A-I-X-A-R-I-A de ontem.

E o Congresso, no Rio, viveu espetáculos memoráveis, dilacerantes, hostis e contraditórios, sem sequer se aproximar do que os senadores protagonizaram ontem.

Em 1950, a tentativa de não posse a Vargas, ditador por 15 anos, mais aí eleito pela primeira vez. Em 1955, o GOLPE para não dar posse a Juscelino, eleito com 36 por cento dos votos, mas eleito. Em 1957, a tentativa desse mesmo Juscelino de cassar o mandato de Lacerda, depois de PROIBI-LO de falar na televisão, já tendo determinado a mesma PROIBIÇÃO para este repórter e para o jornalista Millor Fernandes.

E é impossível deixar de registrar a CPI da “Última Hora”, o discurso de Afonso Arinos nas vésperas do suicídio (politicamente genial) de Vargas, numa noite da Câmara (Afonso Arinos ainda não era senador) completamente lotada, no plenário e fora dela.

Foi o mais importante e destruidor discurso que ouvi em toda minha vida. (O próprio Afonso Arinos considerou assim, tanto que se reconciliando com a família Vargas, fez desaparecer o brilhante discurso não só de suas memórias, mas até mesmo dos anais do Congresso).

Poderia contar episódios que dividiram o Congresso no Rio (Distrito federal)que tinham hostilidade e desavença geral, mas não chegaram à B-A-I-X-A-R-I-A de ontem.

Você vê, Augusto, espero que compreenda, a razão de não ter escrito nada sobre o tumulto PLANEJADO de ontem. Por que digo PLANEJADO? Sarney presidiu a primeira parte, quando começou a Ordem do Dia e normalmente assume, foi embora, pois na presença dele, como iriam brigar como moleques de rua? Acabado o tumulto, reassumiu, risonho e satisfeito, como se o personagem que provocava toda aquela B-A-I-X-A-R-I-A não fosse ele.

Para terminar, quero chamar a atenção: estou usando nesta resposta pela quinta vez a palavra B-A-I-X-A-R-I-A. Tenho certeza que os senadores se encontrarão, se reconhecerão e se satisfarão nela e com ela.

A jogatina das bolsas do mundo, pra cima ou pra baixo, nada com a recuperação econômica

Na Ásia e na Europa, altas. Como fecharam antes, e como os jogadores são ecléticos, onomatopaicos e até iconoclastas, se aproveitam aqui e nos EUA. Não muita alta, mas alta, de 10 até às 13, quando posto esta primeira informação-observação.

De 55.970 na abertura, até 56.600 (neste momento) nenhuma movimentação para baixo.

A primeira alta, de 0,52%, a última, (faltando ainda 4 horas de jogo), mais 1% cravado. O movimento faz os jogadores chorarem os lucros baixos: 1 bilhão e pouquinho, me diziam: “Proporcionalmente vai subir”.

O dólar continua no 1,83 de ontem, só que subiu migalhas e não mostra expectativa de melhora.

Ministro Passarinho: voando sobre a Justiça, a Bíblia e a opinião pública

“SETE anos de pastor, Jacob serviu Labão, pai de Rachel, serena e bela. Mas não servia ao pai, servia a ela”. Inspirado no texto bíblico, o Ministro Aldir Passarinho Junior, (do Superior Tribunal de Justiça), se comportou em relação ao processo 2002/0068479/1.

Designado relator em 2002, ficou até agora estudando profundamente o processo.

No dia 15 de abril de 2009, saciado e satisfeito na sua ânsia de bem aplicar Justiça, se DECLAROU IMPEDIDO. Mas as razões desse IMPEDIMENTO não foram comunicadas à opinião pública. (Exclusiva)

História esportiva, mas também política: 76 anos do Grande Prêmio da Gávea

Em 1933, começava a história do Prêmio Brasil. Anteontem, comemoração dos 76 anos. O primeiro vencedor foi um cavalo brasileiro, Mossoró, inesquecível até hoje. A Gávea foi inaugurada em 1932, naquele terreno doado por Pedro Ernesto, o primeiro prefeito eleito do Distrito Federal. (Prefeito histórico).

Getúlio Vargas compareceu, era então “Chefe do governo provisório”. Foi até 1939, quando levou vaia espetacular, nunca mais apareceu, isso em plena ditadura do Estado Novo. Os ditadores fardados não gostavam do Jóquei, nem mesmo Figueiredo que era da cavalaria.

Anteontem foi disputado o Grande Prêmio Athina Onassis, na Hípica, cujo terreno também foi doado por Pedro Ernesto. Idem, idem para o Flamengo, onde diretores irresponsáveis queriam construir um supermercado. Mas aí já é outra história. (Exclusiva)

Erro inexplicável

Valmor Stédile:
“Neste texto foi cometido um pequeno engano, onde dá a entender que a mulher de Leonel Brizola teria falecido à época em que o irmão Jango exercia a Presidência da República: “Como a mulher de Brizola, (irmã do presidente João Goulart) já morrera, não havia mais parentesco”. Dona Neusa faleceu em 1993, portanto 30 anos depois da polêmica que originou o slogan ‘Cunhado não é parente, Brizola pra presidente’.”

Alexandre de Oliveira Brito:
“Caro Helio Fernandes! Dona Neusa Goulart Brizola faleceu muitos anos depois. Quando seu marido já era governador do Rio de Janeiro.”

Roberto Abranches:
Não sei como você pode se enganar. Em 1993, estive com você no velório de Dona Neuza. Acontece…”.


Comentário de Helio Fernandes:

Todos (e outros que telefonam ou se comunicam de diversas maneiras) certíssimos. É dessas coisas inexplicáveis. Como lembrou o Roberto Abranches, eu estive no velório. Foi no Palácio Guanabara, pois Brizola era governador. Obrigado a todos, como tenho dito, escrevam sempre, contestem.

De qualquer maneira, Brizola não discutia “o fim do parentesco”, e sim a “inexistência” do parentesco. E não foi isso que o impediu de ser presidente e sim o golpe de 1964.

Já escrevi na Tribuna de papel: “Gostaria de ver Lacerda e Brizola chegarem a presidente. Poderiam não cumprir o que eu esperava, mas tinham todo o direito de pretender esse cargo. E sem a DITADURA e sem a REEELEIÇÃO teriam chegado”.