Ramos transmite recado do Planalto e diz que Bolsonaro é o comandante das Forças Armadas

De moderadores, militares passaram a ser tutelados por Bolsonaro

Pedro do Coutto

Numa entrevista estudada aos repórteres Thiago Bronzatto e Daniel Gullino, O Globo deste domingo, onde mediu cada frase e cada palavra, o general Luis Eduardo Ramos, chefe da Casa Civil, afirmou que é preciso ficar bem claro que Bolsonaro é o comandante supremo das Forças Armadas, daí porque justifica-se a decisão de o Exército não punir o general Eduardo Pazuello por sua participação na caravana das motocicletas no Rio de Janeiro recentemente.

A entrevista está marcada pelos espaços destinados tanto às perguntas quanto às respostas. Nesse contexto, Eduardo Ramos sustentou que o passado do militar pesou na decisão do comandante, uma vez que são analisadas tanto a transgressão quanto o transgressor.  

PESOS DIFERENTES – Atribuindo um pensamento ao comandante do Exército, general Paulo Sérgio Nogueira, o chefe da Casa Civil disse que não se pode usar pesos iguais com pessoas que têm comportamentos diferentes. “Se o militar nunca fez nada de errado e comete um deslize, deve ser punido com prisão ? Isso não existe, cada caso é um caso. A decisão de não punir Pazuello é exclusiva do comandante do Exército”, destacou.

Nesse ponto, Ramos deixa no ar uma sombra que engloba tanto o ato de Paulo Sérgio quanto o fato de o comandante supremo ser o presidente da República. Se, como afirma Eduardo Ramos, a decisão de não punir é exclusiva do comandante do Exército, por que sustentou que o presidente Jair Bolsonaro é o comandante supremo das Forças Armadas? E ainda acrescentou que “isso tem que ficar bem claro”. Afinal, se a decisão cabia ao comandante do Exército, qual o motivo capaz de levar a uma interferência do presidente da República?

Nada disso, o chefe da Casa Civil está na realidade traduzindo um pensamento do governo que, com essa colocação, estende o seu foco de luz e ressalta que há decisões do Supremo Tribunal Federal que causam desconforto. O contexto parece cristalino.

RUPTURA – Mesmo através da lente de cristal, o general Luiz Eduardo Ramos assinala que não existe risco de ruptura institucional. Muito pelo contrário, acrescenta ele, “tem coisa que é da autoridade do presidente, como nomear o diretor da Polícia Federal, mas que o STF não autorizou”. Colocando a figura presidencial num plano oblíquo de linguagem, Eduardo Ramos coloca a seguinte frase: “se ele (Bolsonaro) fosse uma pessoa que não cumprisse as normas poderíamos ter alguma crise institucional”.

Ramos disse à reportagem que em regimes totalitários como Cuba e Coreia do Norte, os dois países não conseguem sequer ouvir a oposição. A ameaça direta foi colocada assim no plano das decisões políticas, tanto das atuais quanto do futuro próximo. No futuro próximo entendem-se as eleições de 2022 quando a reeleição estará em jogo nas urnas.

Os repórteres Daniel Carvalho e Ricardo Della Coletta, Folha de São Paulo, destacam que no governo Bolsonaro os militares no início assumiram a posição de moderadores, mas que agora passaram a ser comandados pelo presidente da República. Os dois repórteres adotaram até uma classificação mais forte do que esta. Disseram que militares passaram a ser tutelados pelo chefe do Executivo.

LULA NA DISPUTA –  A modificação de comportamento, agora digo eu, resulta no fundo de uma decisão do Supremo que tornou Lula da Silva elegível para as urnas do próximo ano. Certamente as forças que apoiam o governo achavam que na campanha Bolsonaro sucederia a si mesmo, não encontrando adversários de porte capazes de batê-lo.

As pesquisas do Datafolha indicam isso, mas indicam também uma queda de 42% para 30% para aprovação do seu governo. Entretanto, confiando nessa fração e não encontrando num segundo turno provável adversário capaz de derrotar o presidente, sua corrente estava tranquila. Mas a tranquilidade acabou quando o Datafolha publicou uma pesquisa sobre intenção de voto para Presidência na qual o ex-presidente Lula da Silva apareceu com 41 pontos contra 23 de Bolsonaro. Na simulação de um segundo turno previsível, o ex-presidente derrotaria o atual por 53% a 33%.

A diferença bastante ampla eliminaria qualquer possibilidade de fraude, tornando a possibilidade inconsistente tão quanto foi o posicionamento de Donald Trump quando derrotado por Joe Biden. O esquema de Bolsonaro passou a defender mais enfaticamente o retorno do voto impresso. Mas sabe que não existe hipótese, dentro da constitucionalidade normal de o TSE determinar um retrocesso do voto na cédula substituída há 25 anos pelas urnas eletrônicas.

SITUAÇÃO CRÍTICA – Porém, o Planalto necessita de um entrechoque capaz de com sua intensidade deslocar o desfecho de 2022 fora do roteiro balizado pela resposta das urnas. A situação assim, a meu ver, tornou-se crítica, sobretudo para o país, incluindo o Congresso e até o STF, tendo em vista as manifestações que reivindicam o retorno à ditadura militar e ao Ato Institucional nº 5.

Os deputados e senadores têm muito o que se preocupar. A rota do destino democrático pode ser interrompida. Nessa interrupção, a democracia passa a ser algo secundário, como aconteceu depois do AI-5, tornando-se apenas um modelo de fachada e nada mais.

5 thoughts on “Ramos transmite recado do Planalto e diz que Bolsonaro é o comandante das Forças Armadas

  1. Esse Ramos faz parte do ramo dos idosos não realizados? Ai, meu Deus do céu, agora vamos ter que escutar diariamente direita volver? Desse jeito, sob a tutela de idosos desocupados – ex fardados, o país vai dar meia volta volver!

  2. Ramos: “filho amado, você é mesmo irrecuperável”. Choroso, Bolsonaro responde, “socorro, papai, já matei mais de 470 mil brasileiros.”

  3. “Comandante Supremo”

    Lembro de algo na História bem similar… Füher

    É bem simbólico isso partir de um alto oficial e representa uma sinalização de que o Bolsonaro seja uma espécie de líder.

    Então, realmente. Há um processo encaminhando para o Golpe dentro do outro Golpe (de 2016)

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