Reação da França à carta de militares contra emigrantes é um bom exemplo para Brasil

França e parceiros com

Florence Parly, ministra da Defesa, mandou punir os oficiais

Deu em O Globo

A independência da Argélia deixou sequelas profundas na França. Uma ala militar sempre considerou o general Charles de Gaulle traidor da pátria por ter cedido a soberania aos argelinos. Tal ala, que combatera os separatistas na Guerra da Argélia nos anos 1950, encetou o fracassado “putsch de Argel” contra De Gaulle em 1961.

Dez anos depois, ajudou a fundar a Frente Nacional, o partido de extrema direita criado por Jean-Marie Le Pen aglutinando descontentes com o gaullismo, hoje transformado na Reunião Nacional de sua filha, Marine.

MÉTODOS DE TORTURA – Foram militares franceses egressos da Guerra da Argélia que, ao longo dos anos 1960 e 1970, ensinaram métodos de tortura desenvolvidos e aplicados nos argelinos a seus colegas dos países latino-americanos onde os golpes deram certo e resultaram em ditaduras, entre eles o Brasil.

Seis décadas depois, fantasmas daquele período continuam a assombrar a caserna francesa.

No aniversário de 60 anos do “putsch de Argel”, no último dia 21 de abril, 20 generais franceses da reserva, apoiados por militares da ativa, publicaram na revista de extrema direita “Valeurs Actuelles” uma carta aberta contra o que chamam de “desintegração” do país.

IMIGRANTES DO ISLÃ – “Desintegração que, com o islamismo e as hordas da periferia, acarreta a separação de múltiplas parcelas da população para transformá-las em territórios submetidos a dogmas contrários à nossa Constituição”, diz a carta.

Os signatários conclamam os políticos “que dirigem o país” a “erradicar esses perigos” para combater a violência. “Não é mais hora de tergiversar, senão amanhã a guerra civil porá fim a esse caos crescente, e os mortos, cuja responsabilidade recairá sobre os senhores, se contarão aos milhares.”

É tentador traçar um paralelo entre a manifestação dos militares franceses e o papel crescente que seus colegas brasileiros têm assumido na política.

AS DIFERENÇAS – Lá, há uma mobilização por ocupar um espaço político maior. Aqui, o espaço já foi ocupado. Lá, o caminho para o poder passa pela extrema direita de Marine Le Pen, que aplaudiu o teor da carta da caserna. Aqui, pela de Bolsonaro.

Porém, por mais que a repercussão da carta lembre a de certos tuítes de generais brasileiros, as diferenças são mais significativas que as semelhanças. A ministra da Defesa francesa, Florence Parly, uma civil, imediatamente condenou a manifestação e prometeu punir o que lhe pareceu uma tentativa de sedição.

“Solicitei ao chefe de Estado-Maior que aplique as regras previstas no estatuto dos militares, ou seja, sanções”, afirmou. O primeiro-ministro Jean Castex a secundou, qualificando a iniciativa de “contrária a todos os nossos princípios republicanos, à honra, ao dever do Exército”.

“MEU EXÉRCITO” – Aqui, o presidente da República fala em “meu Exército” e trocou o ministro da Defesa, um militar da reserva, por outro mais suscetível a suas sugestões de usar as Forças Armadas em benefício de seu projeto político.

Toda a cúpula militar foi demitida por resistir às extravagâncias de Jair Bolsonaro. Exemplo de como as coisas funcionam numa democracia madura — e de como ainda não funcionam no Brasil.

7 thoughts on “Reação da França à carta de militares contra emigrantes é um bom exemplo para Brasil

  1. Outrora, sempre que surgia uma ameaça ao mundo, tal como a Covid-19, os olhos da humanidade se voltavam para a França; “dali poderia vir uma solução”. E, especialmente, se o problema viesse em forma de enfermidade, então, “era só tacar o Instituto Pasteur nele!”
    A França já foi um orgulho em tudo: medicina, artes, tecnologia, literatura, humanismo, democracia…… Depois que países como a Rússia, sem tradição na indústria farmacêutica, apresentou suas duas vacinas contra a Covid-19, foi que a França começou produzir a sua timidamente.
    A esquerda de lá vem sendo acusada de converter a nação num imenso e perigoso favelamento: guetos e redutos de negros mulçumanos, arribados de África, alguns de ex-colônias francesas no continente.
    Naqueles novos aglomerados já surgiu uma nova nomenclatura do terror: ISLAMOTERRORISMO. E tem-se transformado em um ponto de acerto de contas entre islâmicos e judeus; como a comunidade judaica vive em menor número, resta-lhe duas opções: sacar fora ou esperar que tombe o último bastião!
    O papel do Donald Trump francês, exercido por Jean Marie Le Pen, agora está sob o comando de Marine Le Pen. Só que, a estas alturas, fazer uma faxina migratória parece tarde demais.

  2. Como sempre o Pinda prova que os maiores conspiradores são os conspiracionistas.
    Conspiradores querem novidades acreditar que sao portadores de alguma espécie de “conhecimento” pois assim fica fácil enganar os impressionáveis.
    Acham que tem o conhecimento numerologico para trazer para a futura seita conspiracionista os esotéricos numerologico.
    É assim vai…

  3. Costumo dizer sempre que quem cria cobra dentro de casa corre o risco de ser mordido por ela. Os generais de pijama franceses só estão relatando o que se passa na França de hoje. Este tipo de conflito deve ser realidade nos demais países da UE , que hipocritamente fazem de conta que não tem.

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