Reavaliação do TCU sobre Pasadena é mais uma ameaça a Dilma

Carlos Newton

Enquanto a presidente Dilma Rousseff passeia pela América do Norte, em visita oficial mas que terá resultado zero em termos de comércio internacional, sua situação fica cada vez mais difícil do lado de baixo do Equador, porque os auditores do Tribunal de Contas da União (TCU) receberam ordem do ministrorelator Vital do Rego para reavaliar a responsabilidade dela e dos demais ex-integrantes do Conselho de Administração da Petrobras em prejuízos na compra da Refinaria de Pasadena, nos EUA.

Se a análise fosse feita pelo plenário do TCU, formado por ex-parlamentares, ainda daria para controlar, mas acontece que os especialistas do Tribunal são outro tipo de gente, que estuda, se forma e faz concurso para vencer na vida. Aliás, foram esses auditores do TCU que já emitiram parecer denunciando a prática de crimes de responsabilidade pela presidente Dilma Rousseff, no caso das pedaladas que o governo tem dado para maquiar as contas públicas. E crime de responsabilidade, como todos sabem, é motivo de cassação.

DESTRUIR AS GRAVAÇÕES

Num lance de desespero, o Planalto mandou que o presidente da Petrobras, Aldemir Brendine, sumisse com as gravações das reuniões do Conselho de Administração nos tempos de Dilma, e ele rapidamente o fez, com base numa regra estabelecida na década de 60, quando as gravações eram feitas em fitas de rolo importadas, que eram apagadas para reutilização, porque nem sempre estavam disponíveis no mercado. Agora, quando as gravações são feitas diretamente em computador, não há a menor justificativa para apagar estes registros, e o que foi feito significa apenas destruição de provas, falemos francamente.

NEGOCIATA SÓRDIDA

Se as gravações ainda existissem, os ministros do TCU iriam se estarrecer com as justificativas para a compra da refinaria, que os engenheiros da Petrobras apelidaram de “Ruivinha”, devido à ferrugem que atinge seus tanques e instalações. O principal argumento era inteiramente falacioso e até mesmo ridículo, pois o relatório técnico dizia que a Petrobras precisava de uma unidade nos Estados Unidos para refinar a produção de óleo pesado da Bacia de Campos e vendê-la no mercado americano.

Acontece que a refinaria de Pasadena não processa óleo pesado e a sua adaptação levaria anos e anos, custaria tão caro quanto construir uma nova unidade, e isso representaria outro escândalo.

ÓLEO PESADO E LEVE

Como se sabe, o Brasil tem onze refinarias e nenhuma delas opera com óleo pesado. Ou seja, a Petrobras tem de importar gigantescas quantidades de óleo leve para misturar ao pesado e conseguir refinar. Este ir e ver do óleo leve e pesado é o maior escândalo da estatal, rendendo anualmente comissões bilionárias, mas nem a força-tarefa da Lava Jato nem a CPI demonstram a menor suspeita a esse respeito, confirmando que a ignorância é a mãe de todos os males.

A justificativa da compra de Pasadena é delirante, porque o petróleo pesado de Campos teria de viajar milhares de quilômetros até o Golfo do México, a logística disso é uma piada, pois a margem de lucro seria insignificante.

O que a Petrobras deveria ter feito, desde a década de 70, era construir refinarias específicas para óleo pesado, como ocorreu no Canadá e na Venezuela, que dominam a melhor tecnologia de refino do mundo e processam óleo superpesado, que nem existe no Brasil. Mas quem se interessa por algo tão óbvio?

As provas das gravações foram destruídas, mas na verdade o TCU nem precisa delas para comprovar os crimes cometidos na Petrobras durante a gestão do presidente Sérgio Gabrielli, quando Dilma Rousseff comandava com mão de ferro o Conselho de Administração, com seu estilo educado e criterioso que todos conhecem. Essas justificativas falaciosas mencionadas aqui constam das atas que resumiram as reuniões e não podem ser apagadas.

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PS
Numa ironia do destino, o ministro-relator Vital do Rego é o mais novo membro do TCU e seu nome foi aprovado com apoio do Planalto, pelos relevantes serviços que ele prestara embarreirando duas CPIs da Petrobras no Congresso. Tomou posse como ministro do TCU em 22 de dezembro do ano passado. Cabe perguntar: Mudou o TCU, mudou Vital do Rego ou o Brasil estaria mudando? (C.N.)

2 thoughts on “Reavaliação do TCU sobre Pasadena é mais uma ameaça a Dilma

  1. Mudou nada não; aliás, tudo mudou. Valem a pena dois episódios: um, o filme Tomas Becket, o favorito do rei, com um elenco memorável, doze indicações para o Oscar. Becket, santo da igreja católica, era o companheiro de farra do rei Henrique II. O rei caiu na bobeira de nomear o cortesão como cardeal da Inglaterra. Não deu outra! O cardeal deu-se conta que passara a ser O CARDEAL, e não apenas o amigo do rei, que, a rigor, dentro dele, sempre o fora, um cara super-super-correto. Meteu no do rei foi sem pena! O filme vale! O outro, com Virgílio Távora, coronéu da capitania do ceará, a mulher dele escolheu um assessor para governador nomeado. Pois bem, o novo governador deu-se conta que era O GOVERNADOR e não apenas o pau-mandado. Botou nesse coroné como a vaca botou em mestre Alfredo! Agora, o ministro dando-se conta de que é O MINISTRO. Vai lá, comadre Dilma! Vai lá. Quem viver, verá. Estou esperando o Fachin dar-se conta que não é apenas o xeleléu dos petistas, mas O MINISTRO!.

  2. Carlos Newton,

    gostei muito de teu lúcido e esclarecedor artigo, especialmente, no aspecto referente ao exame sobre o ponto investimento, quando administras certeira “tamancada”:

    “Se a análise fosse feita pelo plenário do TCU, formado por ex-parlamentares, ainda daria para controlar, mas acontece que os especialistas do Tribunal são outro tipo de gente, que estuda, se forma e faz concurso para vencer na vida.”

    Razão total e absoluta verdade.

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