
Boa parte dos perfis recrutados são de fofoca
Adriana Fernandes
Lucas Marchesini
Folha
Pelo menos 46 perfis em redes sociais fazem um bombardeio digital com ataques simultâneos contra o Banco Central e investigadores no caso Master. A prática já vinha sendo observada durante o processo de análise pelo órgão regulador da venda do banco para o BRB (Banco de Brasília), mas cresceu nos últimos dias em meio à guerra jurídica no STF (Supremo Tribunal Federal) e no TCU (Tribunal de Contas da União) travada entre os investigadores e os advogados do Master.
Os influenciadores vêm publicando posts com informações enviesadas sobre os acontecimentos em torno da liquidação do Master, com críticas à atuação do BC e à liquidação do Master. Procurados por meio de sua assessoria, o Banco Master e Vorcaro não se manifestaram.
FOFOCA – Chama a atenção o fato de que boa parte dos perfis de influenciadores recrutados serem de fofoca, sem ligação com assuntos econômicos. O ex-diretor de Organização do Sistema Financeiro e de Resolução do BC, Renato Gomes, é um dos principais alvos. Foi a área dele que recomendou o veto à compra do BRB pelo Master e subsidiou os achados posteriormente relatados ao Ministério Público Federal.
A ofensiva digital também mira o presidente do BC, Gabriel Galípolo, seus familiares, o diretor de Fiscalização, Aílton de Aquino Santos, além de banqueiros e associações do setor financeiro que organizaram uma contra-ofensiva em defesa da autoridade monetária por meio de uma série de notas de apoio à decisão técnica de liquidar o Master em novembro.
INSTABILIDADE – Numa postagem de quatro dias atrás no Instagram, em 2 de janeiro, o perfil @divasdohumor relata que a gestão de Renato Gomes no BC deixou um cenário de instabilidade no mercado financeiro. “Mudanças regulatórias frequentes, interpretações voláteis das normas e ausência de sinalização clara ampliaram a insegurança jurídica”, diz a postagem. Gomes deixou a diretoria do BC em 31 de dezembro.
“O papel do Banco Central é reduzir incertezas. Quando decisões são mal explicadas, o efeito se espalha por todo o sistema, atingindo grandes instituições e também o crédito na ponta”, acrescenta a postagem. A publicação anterior do perfil trata de uma conversa entre Nicole Bahls e Gil do Vigor, e a seguinte, do papel das tias na educação de crianças. Procurado, Gomes não quis comentar. A interlocutores, o ex-diretor tem dito que não tem como “dignificar as besteiras” que têm sido publicadas.
FOTO EXPOSTA – Antes da rejeição da compra do Master pelo BRB, uma foto do diretor foi exposta em outdoors espalhados pela cidade de Brasília como uma forma de pressão. A estratégia acabou ampliando o espírito de corpo no colegiado do BC, que, por unanimidade, acatou o parecer de Gomes e vetou o negócio em setembro.
O presidente da Febraban (Federação Brasileira de Bancos), Isaac Sidney, também ficou na mira. A entidade fez um mapeamento sobre os ataques sofridos por ela e afirmou, em nota, que identificou volume atípico de postagens em dezembro que a mencionam. Disse, ainda, que está analisando se o caso poderia ser caracterizado como um ataque coordenado.
Outro perfil que participa da ofensiva contra o BC é o @Festadafirma. Em 31 de dezembro, ele postou um conteúdo sobre o caso na sua página do Instagram sobre os depoimentos prestados naquele dia por Vorcaro e pelo presidente do BRB à PF (Policia Federal). A página é administrada pela Banca Digital, agência de marketing na internet.
POST ORGÂNICO – A Banca Digital informou que foi procurada para divulgar conteúdo sobre o Banco Master, mas que declinou o convite na hora. A empresa afirmou que a postagem do perfil @Festadafirma “foi um post orgânico sobre um tema pertinente aos tratados na página. Não houve nenhum tipo de negociação ou remuneração para que esse conteúdo fosse publicado”.
“O @festadafirma também, no último 18 de novembro, repercutiu reportagem sobre a liquidação do mesmo banco, publicada pelo ‘Valor Econômico'”, acrescentou. O perfil @Festadafirma, prosseguiu, tem um contrato de representação prioritária com a Banca Digital, na qual ela representa comercialmente o perfil, “que também pode fechar parcerias e trabalhos por conta própria”.
A publicação reproduz um texto do site Notjournal, que mimetiza um site jornalístico, dizendo que na acareação entre os dois, ocorrida após os depoimentos, não houve bala de prata. Ele usa o ocorrido para criticar a atuação do Banco Central, afirmando que se houvesse uma fraude escandalosa ela teria sido exposta na acareação.
IMPACTO – A postagem é semelhante à outra feita no mesmo dia pela página Futrikei, que tem mais de 25 milhões de seguidores. “A tão aguardada acareação no caso do Banco Master terminou sem o impacto que muitos esperavam. O confronto entre o banqueiro Daniel Vorcaro e testemunhas durou cerca de 40 minutos e não apresentou provas contundentes nem revelou novos fatos decisivos”, diz o texto.
A página é agenciada por uma outra empresa semelhante à Banca Digital, o Grupo Farol. Outro portal do grupo, o Alfinetada, postou conteúdo contra o ex-diretor do BC Renato Gomes em 30 de dezembro, dizendo existirem especulações de que ele poderia ir para o BTG.
Outra agência com páginas participando da ofensiva é a Deubuzz. A reportagem encontrou quatro perfis de fofoca administrados pela empresa que postaram conteúdo contra Gomes no mesmo dia 2 de janeiro. Procuradas, Deubuzz, Grupo Farol não responderam aos questionamentos da reportagem até o momento.
VENDA DE ESPAÇO – Empresas como as três administram diversos perfis em redes sociais, alguns próprios, outros de terceiros. Eles vendem espaços nesses perfis para postagens coordenadas, criando campanhas massivas na internet.
O jornal O Globo revelou que influenciadores tinham sido procurados para postar conteúdo a favor do Banco Master e rejeitaram a proposta. Nos dois casos apontados pelo jornal, o conteúdo a ser postado faria parte de um projeto chamado DV, as iniciais do dono do banco Master, Daniel Vorcaro.
A reportagem cita o vereador de Erechim (RS) Rony Gabriel (PL), que disse ter sido procurado em 20 de dezembro com uma proposta para participar da campanha. “Estamos fazendo um trabalho de gerenciamento de crise para um executivo grande. E temos contratado perfis que se posicionam para nos ajudar nessa disputa política que estamos travando contra o sistema”, dizia a mensagem enviada para o vereador. O trabalho teria remuneração milionária.
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https://www1.folha.uol.com.br/mercado/2026/01/maes-relatam-colicas-e-vomitos-em-bebes-apos-uso-de-formulas-da-nestle-decepcao.shtml
Adendos, em:
https://youtu.be/drev0RuozOk?si=n7UGyyjc7tvQafna
É surpreendente a reação de órgãos de controle à intervenção no Banco Master, diz Marcos Lisboa
Caso Master: procurador defende inspeção do TCU no BC antes de decisão colegiada
Economista vê problemas para solvência e regulação do sistema bancário com a reação do TCU e do STF sobre o caso
O economista Marcos Lisboa diz ser surpreendente a reação “descontrolada” de órgãos de controle, como a do Tribunal de Contas da União (TCU), à decisão do Banco Central (BC) de promover a liquidação do Banco Master.
“O Brasil enfrentou casos de descontrole em bancos privados com sucesso nos últimos 30 anos, e eu nunca assisti a uma reação como essa”, afirma Lisboa, sócio-diretor da Gibraltar Consulting.
Nas últimas semanas, o ministro Dias Toffoli, do Supremo Tribunal Federal (STF), decretou sigilo sobre as investigações, e o ministro Jonathan de Jesus, do TCU, ordenou uma inspeção na autarquia para averiguar o processo de análise do Master.
(…)
Fonte: O Estado de S. Paulo, Economia, 07/01/2026 | 12h00 Por Luiz Guilherme Gerbelli
https://www.estadao.com.br/economia/e-surpreendente-a-reacao-de-orgaos-de-controle-a-intervencao-no-banco-master-diz-marcos-lisboa/?cb_rec=djRfMQ&recomendacao=chartbeat&pos=4
Após quebrar o Master, Vorcaro tenta agora tirar o dele da reta, e o resto que se dane
Pela Lei, Vorcaro teria que responder com seus bens pessoais para cobrir o rombo da fraude
A Lei brasileira prevê que, nos casos de atos ilícitos graves como fraude e gestão temerária, os responsáveis diretos (donos e administradores) respondam com seus bens pessoais para cobrir os prejuízos causados à instituição financeira.
Mas, o que Vorcaro tenta, no entanto, não é livrar o Banco, seus clientes e investidores dos prejuízos com a quebra da instituição, mas sim ficar com o seu patrimônio pessoal (bens e dinheiro) livre e intacto.
Segundo Merval Pereira, na CBN
Mas, o que Vorcaro tenta, no entanto, não é livrar o Banco, seus clientes e investidores dos prejuízos com a quebra da instituição, mas sim ficar com o seu patrimônio pessoal (bens e dinheiro) livre e ileso.
Ácido sabor da podridão política diante do escândalo do Master
É preocupante constatar que já não se acredita que instituições de Estado estejam agindo como tais.
Mas, sim, como ferramentas para exercer pressão política contra decisões que afetam interesses de grupos privados. É generalizado o descrédito em relação às explicações dadas por STF e TCU para justificar as respectivas atuações no caso Master
Está claro o suficiente para se afirmar que estamos numa crise institucional de consequências imprevisíveis, pois ela sugere que não há lideranças abrangentes com capacidade de “reverter” essa tendência.
Predominam variadas organizações setoriais – algumas são meras QUADRILHAS sob siglas políticas – agindo por conta própria e com sem-vergonhice inédita até para um País que achava ter visto tudo em matéria de corrupção.
Elas demonstram crescente capacidade de manipular alavancas de poder EM DESCARADO BENEFÍCIO PRÓPRIO.
Como um pedaço do TCU aqui, um pedaço do STF ali, fato em si indicativo de desagregação interna de instituições. No seu conjunto, isso leva à sensação real de dissolução do funcionamento delas, com rápida perda de confiança.
Fonte: O Estado de S. Paulo, Opinião, 07/01/2026 | 20h46 Por William Waack